Produção Independente
22 22. Amassada no fundo da bolsa - Por Letícia
Notas iniciais
― O que a Marcela queria com você ontem, filha? ― inquiriu mamãe, intrigada.
― Assuntos nossos. ― respondi sem hesitação, mas sem fornecer muitos detalhes na entonação.
Márcia e eu estávamos guardando a louça nos armários depois do almoço.
― Escute aqui, Letícia, eu não quero ser obrigada a estender o período do castigo, não quero vê-la andando com essa menina. ― Mamãe advertiu-me.
― Nós não somos mais amigas, mãe.
― Mas então o que ela queria com você?
― A Marcela está precisando de mim, por isso me procurou. Eu prometi ajudá-la e não posso voltar atrás com a minha palavra. Ela está com sérios problemas e confiou em mim.
― Compreendo que queira ajudar sua amiguinha, mas tome cuidado para que não seja uma cilada.
― Compreendo sim, mãe. ― Eu assenti com a cabeça, certa de que minha mãe é mais cautelosa e tem muito mais experiência que eu ao lidar com falsas amigas, mas se é falsa, não é amiga.
― Não adianta ajudar a quem não quer ser ajudado. ― Márcia reforçou sua tese. ― Tem gente que só ouve o que quer ouvir, não importa o quanto você aconselhe. Sei que você tem a cabeça no lugar, mas essa fase em que os amigos parecem influenciar mais, quem pode dizer?
― Eu sei me divertir do meu jeito, não preciso da Marcela e das gêmeas para isso. O que é divertido para elas não serve para mim.
― Nunca mais ouvi você falar sobre a Cuca, Lelê. Como é que ela e o bebê estão, afinal de contas?
― Eu fui castigada por querer ir à maternidade, mãe. A senhora não se lembra?
― Sim, sim ― Ela fez um gesto com a cabeça ―, mas pensei que estivessem conversando.
― E de que maneira? ― guardei os pratos e fechei o armário, finalmente, colocando o pano de prato no gancho ao lado das luvas de cozinha, o que significa dizer que cumpri o meu trabalho, por vez. ― Estou sem celular, sem internet, sem sair de casa...
― Já pensou em mandar uma carta para ela?
― Bem, eu pensei, sim. Quer dizer, eu escrevi a carta, mas até agora não tive resposta.
― Pode ser que ela não tenha recebido.
― Eu pedi à Profª Marinete para que entregasse e até agora ela não deu nenhuma resposta.
― Talvez ela ainda não tenha tido tempo para entregar a carta à Cuca. ― Minha mãe detesta julgamentos precipitados, até porque normalmente eles são de natureza equívoca, no entanto Marinete me deixou com sérias suspeitas de ter sido enganada.
― É o que eu espero.
Profª Marinete fugia de mim porque estava ciente do quanto eu esperava por aquela resposta. Quando soava o sinal, ela já estava a postos para sair da sala, evitando até mesmo responder às perguntas sobre o conteúdo ministrado.
Para o início de Abril a nossa escola decidiu promover entre as turmas um show de talentos. As gêmeas e a Talita iriam dançar algum hit da falsa poderosa, bandas de garagem se apresentariam, solos instrumentais, teatrinhos de fantoches, stand-up comedy e declamações poéticas. Eu não iria participar, até pensar que poderia ler uma produção própria.
Marinete desdenhou.
― Poesia não atrai os jovens, Letícia. Por que não se esforça um pouco e entra em algum grupo de dança?
― Eu gostaria de ler um poema sobre grandes amizades.
Submeti meu rascunho a uma crítica de Marinete, procurando enxergar algum aspecto positivo naquela professora, mas à medida que convivia com ela só desenvolvia mais aversão.
― Se você me disser o que está errado, eu poderei melhorar ― argumentei.
― A Cuca é sonhadora demais e a realidade não gosta de pessoas assim. Ser diferente de propósito não é bom. Nosso mundo ainda não está pronto para isso.
Ela pigarreou para não falar da colega.
― E o que tem de errado com o texto que eu escolhi?
― Pessoalmente eu considero muito fraco, muito superficial, inconsistente, infantil, frívolo. Eu falo como uma professora, alguém que tem autoridade para te dizer que é melhor que tente outra coisa, pois você não tem dom para a escrita.
― Então me mostra onde eu estou errando para que eu possa melhorar ― protestei, chateada demais com as palavras da Marinete.
― Escrever não dá dinheiro, Letícia.
― Não penso no dinheiro.
― Mas tem que pensar. Nosso mundo é regido por ele.
― Não quero desrespeitá-la, professora, mas quer dizer que se a minha geração inteira chegar a um alto de um prédio e se jogar, eu também devo fazer isso?
Marinete olhou-me furtivamente:
― Não foi isso que eu quis dizer.
― Eu só gostaria de dizer que já tomei a minha decisão e que vou ler a crônica sobre as amizades. Eu iria pedir a sua ajuda para corrigir, mas em vez disso recebi uma lição de moral.
― Você tem que aprender a receber críticas ou vai sofrer na vida.
― Mas sua crítica não foi construtiva.
― Porque você só ouve o que quer. ― rezingou ela pensando que suas frases grosseiras e sem embasamento eram a minha “salvação”.
― Eu iria apenas pedir ajuda para corrigir o texto, mas tenho a minha mãe para isso. Não quero tirar o seu precioso tempo. ― Meus olhos estavam cheios de lágrimas, mas eu não iria desabar na frente dela. ― Em tempos os quais as pessoas parecem acomodadas com as relações de fachada, uma amizade verdadeira é um bilhete premiado. As outras meninas podem gostar disso.
― Meninas querem falar sobre maquiagem, garotos...
― Eu posso falar de política, maquiagem, garotos e poesia. Eu posso falar do que eu quiser.
― Deu para ver que a Cuca te manipulou mesmo, não?
― Cuca não me manipulou, só me mostrou o meu potencial escondido.
― Cuca não muda... Continua querendo ser a Profª Helena.
Marinete deu um riso debochado, colocando na bolsa transversal o seu material de trabalho. Então, lá no fundo da bolsa eu vi a minha carta amassada. Ela tentou tampar para que eu não visse e já era tarde.
― Você não entregou a carta? ― Meu rosto àquelas alturas devia estar vermelho de tanta raiva. ― Não posso acreditar!
― E com que direito você se intromete na minha vida, garota? Eu não te devo satisfações de nada.
― Eu havia te pedido.
― Mas eu não te prometi nada. ― debochou ela com um sorriso asqueroso.
― Então por que se prontificou de guardar a minha carta se a amassou, se não te interessava entregar? A carta era para a Cuca, não para você.
― Eu estou para te ensinar, não para enviar os seus recadinhos...
― Sim, professora, você está me ensinando muita coisa. A não ser mentirosa como você.
― Mais respeito comigo, Letícia. Ou...
― Ou o quê? Se você não gosta da Cuca, é um problema seu com ela, eu não tenho nada a ver com isso. Eu só te pedi para enviar a carta porque nesse momento não posso vê-la.
― Eu não tenho vocação para ser Profª Helena de Carrossel e não estou nem aí para o que você pensa ou deixa de pensar.
― Pois fique sabendo que eu só te suporto porque infelizmente preciso, mas conto nos dedos os dias pra Cuca voltar.
― A Cuca não está nem aí para você, Letícia. Nunca esteve. Ela só falou coisinhas bonitinhas para você porque quis ser gentil.
― Isso não é verdade. ― balancei a cabeça negativamente. ― Isso é mentira!
― As pessoas falam muitas coisas que não sentem. É questão de ser gentil, de sobreviver, de proferir algumas mentirinhas bobas, como dizer a uma amiga gorda que ela está mais magra ou dizer a uma menina feia que ela tem uma beleza exótica. Tem verdades as quais as pessoas ainda não estão preparadas pra ouvir, então quando escutam ficam assim que nem você, chorando pelos cantos. Acha mesmo que professor é amigo de aluno?
― A Cuca é... ― respondi chorando.
― A Cuca é uma cínica. Ela odeia todos vocês. Ela te acha uma coitadinha idiota, só está aqui pelo dinheiro. Nem pra arrumar um homem de verdade ela prestou, com essa idade não tem ninguém e agora uma filha a tiracolo. É isso que você chama de “ídola”?
― Eu não vou admitir que você ofenda a minha amiga. ― estrilei.
Eu posso ter errado em levantar a voz para uma pessoa mais velha, mas a Marinete estava me magoando gratuitamente. Tudo bem nós discordarmos de várias coisas, porém ela parecia querer provar ao mundo que era melhor que a Cuca, que a verdade dela era a absoluta, que tudo tinha que ser feito do jeito dela.
― Por que você não fala todas essas verdades olhando nos olhos dela? Teria você coragem para isso?
― Eu não vou admitir que você fale comigo nesse tom, garotinha petulante. ― Ela bufou de raiva. ― Quem você pensa que é?
― Amiga da Cuca. E uma amiga nunca deixa a outra ser desmoralizada.
Marinete riu:
― Ainda por cima estou perdendo o meu tempo com você. ― E me intimou: ― É melhor você parar de perseguir a Cuca ou vão começar a achar que você é... ― Ela me lançou um olhar maldoso: ― Você sabe...
― Você é que não sabe nada sobre amizades.
― Você é que não sabe. ― Marinete atirou aquelas palavras para partir de vez o meu coração. ― A Cuca não quis ler a sua carta. Ela não quer mais saber de você, vivia te debochando na sala dos professores. Sabe como é que ela te chamava? De mala sem alça, aquela chorona chata que a perseguia, isso sim.
― Isso é mentira. ― Eu tentei tampar os ouvidos, mas era inútil porque eu já havia escutado aquele absurdo.
― É uma pena que cada um só queira acreditar naquilo que lhe convenha. ― Finalizou ela, sentindo prazer na minha dor, dando de ombros. Tirei a folha de caderno com a crônica adaptada e saí chorando da sala.
Marinete estaria falando a verdade? Cuca teria mentido para mim durante tantos meses? Será que mais uma vez eu fui amiga de alguém sem ser correspondida?
Eu queria crer que não!
Cuca nunca maltratou nenhum aluno que pensasse diferente dela. Muito pelo contrário, ela sempre nos encorajava a pensar e expor as ideias para conhecer os dois lados, tanto é que nos recomendou adotar isso para o resto da vida, nunca desmerecer o outro lado, um novo jeito de ver e fazer as coisas.
O filtro dos sonhos balançava de um lado a outro, a imagem da cartinha amassada não saía da memória. Como aquilo doía. A incerteza de não ter um modo de ouvir da própria Cuca que ela não tinha mais interesse na minha amizade. Eu queria ter aquela certeza de que nossos laços foram cortados pelo destino, e não tinha, primeiramente porque se a julgasse precipitadamente correria sério risco de cometer uma injustiça e o mais curioso disso é que eu não sentia raiva da minha (antiga) professora, não conseguia alimentar qualquer sentimento de indignação ou desgosto.
Meus soluços cediam e depois voltavam. Eu não queria receber ninguém, mesmo sabendo que mais do que nunca precisava estar forte para oferecer ajuda à Marcela, independente de ela ser grata ou não no futuro. Ao contrário da Marinete, eu cumpriria com a minha palavra.
Meus pais entraram em contato com os da Marcela que por sua vez pediram explicações aos das gêmeas e isso causou um alvoroço danado porque o rapaz tentou negar tudo o que fez, dizendo que jamais expôs a intimidade da ex-namorada, que o vídeo era de um amigo dele, apagando o mesmo por temer um merecido processo judicial. As futriqueiras traidoras ficavam em cima do muro enquanto era conveniente para depois conseguirem limpar a barra do irmãozinho misógino para fazer parecer que a vítima era o demônio.
Resumindo, mamãe disse que a vida da Marcela não era da minha conta. Pensando bem, ela tinha razão.
Marcela não teve dó de me abandonar e me achincalhar. Podia, sim, ter mostrado uma postura mais adequada e madura, sabendo conciliar as amizades, afinal de contas, cada amigo é de um jeito e nenhum substitui o outro, é questão de aprender a lidar com isso e não querer que uma pessoa seja o que esperamos dela, mas permitir que diante de mim ela seja como é, sem medo. Quando isso acontece, a amizade pode passar por mil perrengues e sobreviver.
Marcela não dependeu de mim para fazer as suas escolhas. Indiretamente, fiz as minhas também. Uma não faz mais sentido no mundo da outra.
Com a Cuca seria a mesma coisa?
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