Produção Independente
2 2. A queridinha da professora - Por Letícia
Notas iniciais
No final de 2013 formei-me no 9º ano do Ensino Fundamental, como qualquer outra garota da idade que tinha um grupo de amigos, sem grandes problemas. Costumava dedicar a eles carinho singular, intocável. Confrontava-me com recordações aparentemente insignificantes, meu ar se esvaía, tantas lágrimas derrubadas pelo irremediável. Não havia consolo. Ver o que não poderia mudar aceitando que nada mais seria igual a antes.
Meu estado mental era a consequência daquele sonho ruim de anteontem, pesadelo que começou a se desenrolar no verão, prenunciado alguns meses antes, com o exato ápice no Carnaval. Uma mentira que teve repercussão estrondosa apagou o meu nome dos corações de muitos, até a primeira impressão. Iniciava-se aí o motivo para desgostar de fevereiro, ressaltando, a título de curiosidade, que o Carnaval do ano de 2014 foi em março.
Não teria como ser um mês bom.
Ninguém dava a menor atenção para as Irmãs Anna: Flora e Flávia, por ordem de nascimento. As falsas nerds eram as chatas puritanas que se isolavam de meio mundo julgando por vocação. Elas eram bizarras, as piadas. Ninguém que prezasse pela própria reputação queria ser visto ao lado delas. Cauã, Diogo, Marcela e Talita tinham razão quando as achincalhavam, aquelas otárias mal-amadas que deduravam os casais paqueradores e abominavam maquiagem.
Era um trabalho em grupo, não em dupla. Convidei-as porque notei que ninguém mais o fez. Elas cochicharam e decidiram aceitar, então nós nos reunimos em nossas carteiras unidas e discutimos ideias até chegarmos a um consenso e também a divisão de tarefas porque não tem nada mais deselegante que apenas um integrante trabalhar duro e os outros colocarem o nome na capa e ganharem a mesma nota.
Eu não sabia que minha atitude teria um efeito contrário ao desejado. Era o início do fim. Do meu fim naquele grupo.
Elas eram as novidades daquele início de ano letivo, o primeiro do Ensino Médio. Voltaram mais magras do verão, ajustaram o uniforme largando mãos das bombachas para usarem calça skinny de cós baixo, platinaram os cabelos e abandonaram os óculos de grau, preferindo as discretas lentes de contato e muita, mas muita maquiagem, ao ponto de estarem prontas para uma balada no início da manhã.
Talita e Marcela fingiram não ter me visto, estavam conversando em códigos com Flora e Flávia, e Diogo se dizia completamente apaixonado pela Flora, enquanto Cauã estava caidinho pela Flávia.
❣
Passei a onda de calor inteira em casa, tomando alguns banhos gelados por dia, bebendo muito líquido para não me desidratar e fazendo maratonas de livros, séries e desenhos animados, além de bem de vez em quando sair com os meus pais.
Sou filha única e escuto muito “não”. Sou nova para um bocado de coisas, mas já não mais tão criança para brincar de boneca, então me entretive com joguinhos de celular, interagindo horas e horas com uma tela, porque aqueles amigos que eu tanto estimava pareceram ter se esquecido da minha humilde existência, o que não foi mania de perseguição, ficou comprovado.
❣
Os garotos estavam babando pelas ex-nerds. Todos, todos. Eu não passava da baixinha, pálida e magricela que até os tontos achincalhavam, a Wandinha Addams, como chamavam os admiradores das gêmeas, pois tenho olhos e cabelos escuros, prendendo-os em marias-chiquinhas com tranças. E estávamos todos quites, eu também nunca gostei dos sem noção. Para tanto mau gosto só me restava lamentar.
A Prof.ª Cuca disse que os meus olhos são duas jabuticabas desenhadas por um artista majestoso, que meus traços combinam comigo do princípio ao fim, a serem uma orquestra divinamente orientada pela beleza doce e singela que os meninos da minha idade ainda não se deram conta. Talvez nunca deem, acrescentei com pesar.
Para eles, só existiam Flora e Flávia. "F" de fofoqueiras e fanfarronas, os tipos que sugam todo o dinheiro dos pais para pousarem de divas populares em suas contas no Instagram, embora o único talento nato delas seja fomentar a discórdia. O fato é que elas eram as celebridades da nossa escola, pelo menos do 1º ano. E agiam como duas escandalosas para não enfrentar a enorme fila para o lanche, sempre havia alguém disposto a fazer esse esforço por elas.
Fotos dos pais não procurem, não irão encontrar. Elas fazem o perfil de quem tem vergonha daqueles que fazem tudo para manterem a boa vida das estrelas sem brilho. Os amigos vêm em primeiro lugar, mas os “velhos” servem para comprarem os vestidos de balada, os ingressos de shows e bancar as idas ao salão de beleza para tirarem selfies com os cabeleireiros e pousarem de ricas. Vestiam as carapuças de nerds puritanas enquanto convinha.
❣
Até a primeira metade do Ensino Fundamental eu ainda tinha paciência para ser vista com aquelas duas criaturas patéticas e odiosas, depois me afastei delas em prol da minha reputação. Puni-me por isso, tinha de aprender a respeitar as diferenças que tinha com elas, embora devesse ter em mente que os julgamentos não faziam de mim uma pecadora com o passaporte carimbado para aquele inferno fantasioso e bem narrado pelos sensacionalistas, apenas mostrava o caráter delas, que nunca foi bom, nem digno de aplausos.
Tenho nojo de gente hipócrita! E tenho mais desprezo ainda por quem dá mais crédito a uma fofoca do que para uma amizade de anos.
Assim eles escolheram, nada mais posso acrescentar.
Todos os dias eu prometia a mim mesma que a verdade haveria de aparecer e que, na melhor das hipóteses, quando eles estivessem arrependidos e desfeitos do encanto com primer e muitas camadas de pó e base que encobriam as imperfeições da pele ― só não as deficiências sérias de caráter —, eu é que não estaria com vontade de procurá-los.
❣
Eles combinaram a viagem de Carnaval e não tiveram a decência de me convidar, mesmo que eu não pudesse ir. Soube até do que não queria ver graças ao (nada) discreto feed de notícias. E se pudesse, entraria sem pensar duas vezes naquela antiga comunidade do Orkut: Eu já chorei em frente ao PC.
Naquela noite, meu jantar foi um cálice de lágrimas. Amanheci com os olhos inchados e o coração apertado, escutando as risadas alheias, os códigos intermináveis (toda vez que eu me aproximava percebia que não era bem-vinda), todos aqueles gritinhos de tietes desesperadas por atenção e um pouco mais.
― É uma pena que você não foi com a gente. ― comentou Flora, a personificação do cinismo no seu estado bruto. ― Nossa! Essa viagem foi tudo de bom... Você tinha que ter ido com a gente.
― Vocês não me convidaram. ― Rebati.
― Mas é claro que a gente te convidou, guria! Para de paranoia! ― Retrucou Marcela, defendendo sua nova amiguinha.
― Não me convidaram não. ― Protestei colocando minha mochila na carteira ao lado daquela que Marcela escolheu no primeiro dia de aula.
― A Letícia parece que bebe. ― Debochou Flávia, sem me olhar nos olhos. ― A gente comentou que você podia vir se quisesse, mas você não respondeu, então não sabe o que perdeu.
― Quando? Quando vocês me convidaram?
Nenhum deles respondeu.
― Eu fiz alguma coisa para vocês?
― Além de tudo, é paranoica. ― Reclamou Flora. ― Fica aí achando coisa, criando problema. Longe de mim me estressar com gente que entende tudo como indireta...
― Eu só queria saber por que vocês estão me evitando...
― Você é que está mudada ― ilustrou Cauã, meu antigo melhor amigo. Hoje, um idiota.
Busquei os porquês e ouvi palavras amargas, difíceis de tragar. Ainda que eu fizesse questão, não tinha mais espaço para mim ali.
Eles tinham razão: eu havia mudado!
E eles, o dobro. Irreconhecíveis ficaram a ponto de serem estranhos.
❣
O placar do 7x1 que tirou o sonho do Brasil de um hexacampeonato na copa do mundo não me aterrorizou tanto quanto a noite de domingo em que a Alemanha celebrava o título no Maracanã. A triste constatação de que as férias haviam chegado ao derradeiro fim furtavam o sono e a tranquilidade também. Não haveria meio de escapar da tortura, mas, por outro lado, eu teria a honra de matar a saudade da Cuca, minha professora de português, uma das pessoas mais legais e lúcidas que trabalham naquele colégio.
Cuca Magalhães é a minha melhor amiga.
Pode não ser tão comum que uma menina de catorze e uma mulher de trinta e seis sejam melhores amigas, mas a amizade nunca estipulou nenhuma regra, então confio que tenho uma amiga que vale ouro. Tenho certeza de que eu não teria aguentado aquele ano na escola se não a tivesse por perto.
Quando Cuca Magalhães apresentou-se no primeiro dia do ano letivo de 2014, pensei que seria mais uma daquelas professoras bonitinhas que ficam sentadas na carteira resolvendo caça-palavras ou mexendo no smartphone enquanto os alunos fingem que fazem o dever proposto. Sinto-me envergonhada por tê-la julgado pela aparência, cometi um grande erro.
A linda docente impôs-se para a classe com muita postura e disse que faria tudo o que fosse possível para guardar os nossos nomes, procurando através da sua experiência e didática tornar a Língua Portuguesa mais palatável para nós adolescentes, sugerindo que gostaria que juntos vivêssemos grandes experiências enriquecedoras para ambas as partes, com certeza mais da metade da turma nem sequer se importou.
Ela me ganhou quando começou a explicar a gramática de um jeito didático, prático e ao mesmo tempo complexo, contextual e reflexivo, conquistando mais ainda o meu respeito quando teve tanta atenção comigo em um simples exercício, ainda que o último sinal já tivesse soado e só nós duas estivéssemos na sala.
Justamente depois do Carnaval, a Cuca me viu chorando na sala de aula depois daquele fatídico intervalo em que os meus “amigos” me humilharam, e me levou para fora a fim de conversarmos, sem nem se importar se nossa conversa atrapalharia o cronograma proposto o qual imprimiu e entregou a todos nós logo na aula de apresentação. Eu mal conseguia articular as palavras, soluçava, tremia, estava desolada, desesperada. Ela segurou na minha mão, olhou nos meus olhos mesmo que eu estivesse envergonhada demais para corresponder e nós voltamos para a classe quando eu estava mais calma, embora tenha chorado por muitos dias sem ninguém ver.
Depois daquele dia, ela sempre perguntava se “estava tudo bem”. Apesar de assentir que sim presumia que não, como também estava consciente de que as gêmeas estavam incitando a turma a me perseguir, então ter a companhia de Cuca me blindou de viver momentos horríveis de maus tratos e perseguição. Ninguém mexeria comigo na presença de uma adulta.
― Você quer ser minha amiga? ― Perguntei-a alguns intervalos depois, quando ela me chamou para lanchar debaixo da araucária centenária.
― Se você não sabe, já somos amigas. ― Esclareceu ela.
Fiquei rotulada como a “queridinha da professora”.
Fale com o autor