Produção Independente

28 28. Pai do meu pai - Por Letícia


Enfrentei o luto por personagens literários e chorei rios de lágrimas com livros escondendo o meu rosto ou atrás da tela de um equipamento eletrônico, sabendo que minha emoção manifestada era um claro indício de que eu era uma leitora ávida, do tipo que consegue viver dentro de uma história e perder a noção do tempo.

Aquela perda, porém, não era uma mentirinha, não era como numa novela em que o personagem morre, mas o ator continua vivo.

Eu havia perdido alguém de verdade.

Perdido no sentido profundo da palavra.

Meu vô Pepe. Meu grande amigo. O pai do meu pai. Aquele que me colocou nos braços quando eu era um bebe roliço, cheiroso e dorminhoco, quem costumava tornar as festas de Natal mais animadas vestindo sua fantasia de Papai Noel mesmo que bem no fundo soubesse que os pequenos já não acreditavam mais porque a pureza das crianças renovava a sua fé na humanidade. Eu herdei dele o gosto por poesia. Valentino escrevia lindos sonetos e guardava-os com muito cuidado numa pasta com capa de couro. Minha avó Rita foi o seu primeiro e único amor. Eles eram aquele casal de velhinhos que viviam o tal do amor pra vida toda, o tipo de amor que eu queria também.

Meu avô nunca mais faria aniversário, nunca mais seria o Papai Noel nem aquele a convencer meus pais a me deixarem criar um cachorrinho que sempre estaria de pé no portão à minha espera todos os dias quando eu voltasse da escola.

Vovô havia partido e a partir daquele dia seria mencionado no pretérito foi aquele que com insistência me tirou de casa no último verão, justo quando eu estava tão deprimida, proporcionando-me um pouco de sossego e diversão para encarar o difícil ano de 2015. Porque está sendo. Não só pelo fato de ter ficado separada da Cuca por causa da licença-maternidade e a Marinete ser uma purgante reacionária e conivente com as atitudes horríveis das minhas bullies, mas por conta de outros fatores.

As mudanças me marcam por dentro.

Eu amava de verdade o Vô Pepe que vai continuar vivo nas fotografias, nos vídeos caseiros, nos comentários em que emitia sua opinião lúcida e assertiva, nos ditados antigos repetidos por aí até que grudassem na mente, frases atemporais por serem breves, sábias e infalíveis. Ele existe dentro de cada história que contou, de cada coração em que entrou.

Tantas pessoas hoje maltratam os mais velhos como se eles não valessem nada, dão a entender que esqueceram a educação em algum lugar ou nunca sequer praticaram os mais elementares gestos essenciais para se viver bem em sociedade. Tratam os mais velhos sem consideração, debocham dos idosos e suas limitações, sua sabedoria.

Como são iludidas e tolas, ingratas. Como sabem tão pouco da vida. Tão pobres de valores, pensam que são o que são porque são geniais, tão certas de si próprias a ponto de nunca admitirem seus erros, sempre encontrando culpados, troçando autoridades, intolerantes a opiniões diferentes, presunção aliada a essa arrogância preconceituosa de quem vai aprender com dor tudo o que a vida poderia ensinar com a doçura de uma professora primária.

Elas pensam que o relógio biológico delas ficará sempre a marcar as horas da juventude.

Vovô foi um amigo que eu demorei um pouco a reconhecer. Alguém que não me julgou nem condenou, mas me estendeu sua mão e me disse “conte comigo”. Não disse mais nada. Valeu por mil parágrafos.

Ele se foi simplesmente assim? Sem nem me preparar?

Todo mundo vai morrer, uns antes do que deveriam, uns voltando a viver para continuarem a sua missão, outros partindo quando supostamente cumpriram o propósito maior por aqui. Sei na minha inocência em estado de partida que a vida nunca acaba quando vivemos no peito de alguém. Somos um sonho que perdura pela eternidade no manuscrito do Amor. Tenho em algum lugar um grande amigo que verei em breve.

Mas ainda assim nunca me conformaria.

A saudade bate os pés e incomoda, é uma ferida que arde irremediavelmente para lembrar-me de quem não voltará. Arde porque é insistente e precisa da minha atenção. Porque nem que eu fosse à criatura mais forte do mundo que não choraria. Um jorro de dor me provoca palpitação e aquele nó na garganta que me faz parecer uma criança desesperada na porta da escola sem reconhecer ninguém.

Eu não queria receber cumprimentos de pessoas que apesar de tentarem, nunca adivinhariam como eu estava por dentro, bem dentro da minha conchinha, bem onde eu me escondida; e ser subestimada por ser adolescente como se eu não pudesse ser capaz de formular minhas próprias conclusões ou por ora não pronunciar nada, não ser obrigada a isso.

Eu sabia a que horas seria o sepultamento que condenaria o meu amado avô Pepe a ser apenas uma lápide cujo retrato em preto e branco no meio daquela multidão vazia de memórias interrompidas, lembrada, talvez, com certo oportunismo no Dia de Finados. Um vaso de flores, uma oração mecânica e nada mais. Viver 70, 80 ou 90 anos para simplesmente ser esquecido no vácuo de um mundo inverso e insensível, logo quem amava tanto respirar e queria poder viver 70 anos a mais para aprender tudo o que pudesse. Ainda assim, não queria vê-lo preso a um caixão, queria guardar a última lembrança vívida de seu espírito aventureiro, questionador, incisivo. Só o corpo estava ali. Não ele. Não do jeito que em mim vive. Pra sempre.

Estava sendo difícil digerir. Não dispunha desse grau de maturidade, de aceitar sem questionar, seguir em frente como se nada houvesse. Isso não é conformismo, é frieza. Não estamos falando de um aparelho eletrônico que pifou e não tem conserto e sim de uma vida, de alguém que boa parte da sociedade depois de certa idade tende a descartar, bem do jeito que fazem com os produtos estragados.

Dez horas da manhã. Eu já estava fora de casa havia um dia e meio, mais precisamente desde que mamãe por telefone me avisou que vovô estava morto. Não pretendia voltar. Por muitos outros motivos. Porque não queria mais ser encontrada por ninguém. Não queria mais ser a aberração da turma e sofrer bullying na internet. Não queria mais ser o obstáculo na vida dos outros.

Os efeitos da greve de fome manifestavam-se em meu organismo, a cefaleia me entontecia, meu estômago roncava e qualquer um que me visse não deixaria de comentar acerca da palidez da pele.

Ninguém me viu de longe, felizmente. Eu assisti a todo o cortejo fazendo de conta que as rajadas de vento não acentuavam a desproteção. Era da minha vontade não me aproximar. Esperaria sem pressa alguma até que o fluxo de pessoas se reduzisse para me despedir sozinha do vovô. Sem recriminações e palavras entrecortadas.

Eu não iria chorar.

Por nada no mundo.

Eu não iria desabar e derreter, pelo menos não diante daquele que nunca se curvou às adversidades enquanto vivo foi.

― Sabe vô, eu nunca fui muito boa em escrever cartas de despedida. ― Minha voz estava embargada, por mais que eu limpasse a garganta e quisesse demonstrar que podia superar. ― E eu também nunca gostei de despedidas… ― Meus olhos ardiam. ― E acho que nunca vou gostar.

Eu não passava de uma criança cujo queixo tentava não tremer, mas a torrente de emoções vinha numa velocidade mais ágil e vencia a minha promessa de não chorar.

― Eu vou sentir muito a sua falta, vô. Eu não devia chorar, mas não consigo.

Caí de joelhos no gramado e fechei os olhos nublados.

― Agora eu estou completamente sozinha no mundo. Só a saudade não é o bastante pra te trazer de volta!

Não queria que minha mãe precisasse sentir vergonha da filha que tinha, nem magoá-la por ser do jeito que era: aquela de quem ninguém gostava de verdade.

Deitada no gramado, de modo que pudesse dormir no peito do meu avô mesmo com aquele tanto de terra nos separando continuei chorando, falando baixinho, sentindo que minhas narinas estavam trancadas. Eu conhecia como ninguém o que era chorar de tristeza. Diferentemente de um livro em que as próximas páginas podiam (ou não) trazer algum alívio, naquele momento não havia modo de fechar o livro e fazer de conta que era apenas uma história triste. Fazia parte daquele capítulo de nossas vidas, latejando com força para quem ficava. Quem ia nem se lembrava de sentir dor.

O gramado estava bem molhado, o dia também não era dos mais belos, pelo menos não para quem aprecia a luz do sol, não para quem acabou de enterrar um ente querido. Mesmo que não pudesse me alojar ali por toda a vida, queria não ser interrompida em minha dor, na minha conchinha fechada. Interessava-me ficar quieta.

Alguém fez carinhos em minhas costas. Eu não me movi. Insisti, decidida que se fosse a minha mãe, eu não iria com ela.

― Você deve estar morrendo de frio.

Era a voz da única pessoa no mundo todo que eu queria abraçar, depois do vovô, é claro!

― Posso ficar?

Eu não respondi e ela deve ter entendido que sim.

― Tem certeza de que não está com frio, meu anjo? ― perguntou ela com uma voz adocicada e preocupada, prestativa.

Eu devo ter dormido, mas não sabia que horas eram e nem para onde iria depois que tivesse forças para me levantar. Sei que ainda era dia, o céu estava claro, não tão claro quanto o meu futuro.

Cuca me ajeitou em seu colo para me abraçar e vestiu seu cardigã cinza cheiroso por cima de meus ombros trêmulos.

― Olha só! Está passando mal de tanto frio!

Ela não me forçou a falar nada.

― Sei que mentir agora não ajuda em nada, pois quando o meu pai se foi eu também fiquei em profundo estado de choque. Com o tempo a dor vai diminuir, mas agora vai ser bom se você chorar.

― Eu acho que essa dor eu não vou superar nunca, Cuca. ― Confessei com a voz chorosa. ― Ele não podia ir embora sem se despedir de mim. Ele era uma das poucas pessoas no mundo que gostavam de mim.

― Eu entendo você, Letícia. Pode parecer que não, mas eu entendo. ― Cuca sempre ficava entristecida quando rememorava o dia em que perdeu o pai. ― Meu pai também era uma das únicas pessoas que gostavam de mim no mundo. Por mais que hoje eu consiga falar disso sem morrer de tristeza, sempre dói.

― Essas coisas doem pra sempre, eu acho.

― Doem, mas nos fazem sempre lembrar que a vida é feita de todos os momentos juntos, das tristezas que temperam as alegrias, das perdas que justificam a saudade, das pessoas que vêm e vão.

― Agora eu estou sozinha. ― Eu dizia mais a mim mesma do que para ela. Inconscientemente eu a magoava falando isso porque dava a impressão de que eu não valorizava seu esforço para manter a amizade.

― Claro que não!

― Ninguém nem sequer gosta de mim. Eu sou uma desajeitada, uma tola, alguém que faz tudo errado. Eu só incomodo as pessoas, só crio problemas, encrencas...

― Claro que não!

― Claro que sim!

― Você é só uma menina que está crescendo. Não tem nada de errado com você.

― Por favor, Cuca, não me leva pra casa! Não me leva pra casa! Eu nunca mais quero voltar!

Cuca me abraçou e acabou chorando porque no rádio de algum carro estacionado estava tocando Back on the chain gang – The Pretenders.

Ela tentava aquecer minhas mãos cujas pontas dos dedos estavam roxas e percebeu que em um dos pulsos estava desenhada uma borboleta que se encontrava um pouco desbotada, mas ainda visível o bastante para tranquilizá-la.

― É a Letícia? ― identifiquei como sendo a voz de Lia.

― Sim! ― Cuca confirmou tomando conta de mim.

Fábio e Lia ajudaram a professora a me colocar de pé e Fábio, por sua vez, com força o bastante me colocou em seus braços e me acomodou no banco traseiro do carro, onde Cuca ficou para me vigiar, pois eu estava muito mal de saúde, muito mal mesmo. Enfraquecida, abalada, rendida.

― Vamos levá-la pra onde? ― perguntou Fábio. ― Para algum hospital? Ela não me parece nada bem, Cuca. Ela está muito pálida e fraca, deve estar com hipotermia, isso não é nada bom...

Fábio abriu a porta do passageiro e auxiliou Cuca a me remover dali com cuidado, mas eu desmaiei nos braços dela.

Fui instalada na cama de casal no quarto da Lia, onde Cuca, Nathália, Samira e eu dormíamos nas férias, naqueles dias breves e felizes em que brincávamos o dia inteiro e a tristeza não tinha vez, quando nem sequer me passava pela cabeça que as gêmeas voltariam a me infernizar e o bullying me encontraria até onde eu me refugiava dele.

Nathália me ensinou a fazer pulseirinhas e chaveirinhos de miçanga, Cuca me apresentou a uma receita de cupcakes, me deixou até pegar livros emprestados em sua biblioteca particular, quando podia nos levava até um parquinho e tomava conta de nós dizendo que apesar de a tecnologia criar jogos muito interessantes, deveríamos de vez em quando nos permitirmos brincar ao ar livre e nunca substituirmos o contato humano por máquinas.

― Não precisa se levantar! ― Cuca avisou sentada ao lado da cama. Eu devia estar com febre porque a primeira coisa que pedi a ela foi que trouxesse um copo de água bem gelada. Fui atendida. Fábio precisou atender a um caso de emergência, mas prometeu que vinha me ver mais tarde para me examinar mais uma vez.

Márcia e Ricardo tão logo que foram informados sobre a minha estadia na casa de Cuca, lá estavam ao lado da cama, falando comigo, passando a mão na minha cabeça, repetindo que me amavam mais do que a tudo no mundo, agradecendo a Lia e Ivan pela hospitalidade, a Fábio pela prestatividade, dizendo que a gratidão que tinham por Cuca perduraria por toda a vida.

Ajeitei os travesseiros para me sentar. E sei que devia estar ardendo de febre porque tinha vontade de fechar os olhos e dormir a maior quantidade de tempo que pudesse.

Tinha um pacote de balas de coco em cima da minha cama, mas o meu quarto não parecia o mesmo, era outro, até as cores da parede eram diferentes. Vovô me mandou uma carta que de repente sumiu, por mais que eu virasse a casa toda, não a encontrei. Quando consegui, abri a folha de papel e estava tudo embaçado. Chamei por ele e fiquei rouca, não tive resposta.

Na outra sequência eu era pequenina de novo e não conseguia localizar a minha sala de aula na antiga escola que também estava bem diferente. Subi até o segundo andar porque estava morrendo de medo de reprovar o ano, mas parecia que para chegar lá eu tinha que percorrer muitos lances de escadas que estreitavam o caminho e não davam para lugar nenhum. Fui parar num cubículo encurralada pelas gêmeas que ficavam rindo de mim e me ofendendo junto de outras meninas e meninos em coro. Tentando me esconder daquela gente perversa que estava tentando roubar a minha mochila, eu acordei gritando muito alto e abri os olhos tão depressa que sentia o meu coração bater muito forte.

Era um pesadelo.

― Foi só um sonho ruim, já passou. ― Mamãe me tomou em seus braços e eu chorava com medo. ― Já passou.

― Minha mochila… Minha mochila… Eu não posso reprovar, minha mãe vai ficar muito braba…

Os adultos estavam a minha volta. Fábio, Ivan, Lia, Cuca e os meus pais também.

― Está tudo bem, meu anjo. Está tudo bem! ― Mamãe sussurrava para que eu me acalmasse e Cuca lhe trazia uma compressa para colocar na minha testa: ― A febre já vai passar.

Fábio explicou aos demais presentes.

― A menina Letícia está em estado de choque, portanto nesse momento não vai ser muito bom que ela tenha emoções muito fortes. Devemos poupá-la. Ela precisa repousar até que a febre ceda. Nesse momento devemos deixá-la tranquila para que aceite a perda do avô, mas do jeito dela, sem pressão.

Mamãe abraçou papai e ele a consolou, ainda que estivesse tão consternado quanto eu ou ela, afinal de contas, Valentino Ventura era seu pai.