Produção Independente
27 27. Turista - Por Cuca
Notas iniciais
― Boa noite! ― Uma voz feminina me saudou do outro lado da linha.
― Boa noite!
― Nós não conhecemos pessoalmente, mas temos algo em comum.
Ana Paula Tramontina era a misteriosa pessoa que queria tratar comigo um assunto de suma importância: Fábio Duarte Aragão.
― Gostaria de pedir desculpas por ter provocado esse atrito entre vocês, querida Cuca. ― vociferou a arquiteta.
― Desculpe-me também por não saber do que se tratava. Se eu soubesse, juro que não teria sido tão indelicada...
Lia, sentada na cama, observava-me indo de um lado a outro do quarto da pousada onde alugamos naquele balneário para passarmos três dias longe da rotina.
― Não há problema algum da minha parte, querida. ― sorri sentindo um pouquinho de vontade de chorar também. ― Garanto a você que estará em boas mãos e disso você sabe melhor do que eu. Digo-te também que ter um filho vale muito a pena.
Fábio Aragão era profissional acima de qualquer coisa, honrando até o último suspiro o juramento de Hipócrates.
Antes de dormir, olhando para a tela do smartphone, entrava e saía do whatsapp, olhava para as conversas com Fábio, digitava um monte de coisas que gostaria de dizer, mas em vez de enviar e abrir mão do orgulho tolo apagava tudo. Então, como quem fez de propósito, enviei um vídeo com a música da Patrícia Marx (Quando chove) e ele retribuiu quase que instantaneamente com uma frase do Ursinho Pooh: Se você viver cem anos, quero viver sem anos menos um dia, assim nunca terei de viver sem você.
Fábio: Que vontade de te abraçar como se você fosse um bichinho de pelúcia.
Cuca: Na falta de você, fico com o travesseiro mesmo.
Fábio: Tem um espacinho pra mim aí?
Cuca: Eu não estou em Curitiba.
Fábio: Sei disso, bobinha. Está muito frio aqui fora, vem me abraçar!
Cuca: Espera... Onde é que você está?
Fábio: Querendo te amar.
Nas pontas dos pés fui caminhando até a sacada do quarto onde estava pousando com Lia, encontrando Fábio Aragão me esperando lá embaixo. Não tive nem tempo de me agachar para que ele não me visse usando um roupão lilás de plush e uma pantufa da gatinha Marie.
― Vem, gracinha! ― acenou Fábio, nada tímido.
Fiz sinal com as mãos para que ele aguardasse uns minutos, mas diante dos corações desenhados no ar frio de julho, foi impossível de resistir. Desci aquele lance de escadas com o coração acelerando como se fosse à menina Letícia prestes a dar o primeiro beijo no Bruninho.
Fábio abriu os braços e me acolheu ali como se aquele mal entendido tão bobo não tivesse acontecido. Ele me convidou para dormir no apartamento dele, exatamente ao lado do meu. Não fizemos amor, mas aproveitamos para ficarmos abraçadinhos conversando, rindo, fazendo gracinhas um com o outro.
Fábio acordou antes de mim e meus olhos dorminhocos abriram-se vagarosamente, encontrando-o sentado aos pés da cama.
― Bom dia, minha linda. Dormiu bem? ― perguntou.
Assenti com a cabeça.
― E você, meu querido? Dormiu bem?
― Sem querer me gabar, mas foi uma das melhores noites da minha vida. ― explicou ele afagando minha cabeça para beijá-la. Devo ter perdido totalmente a noção do tempo naquela noite na qual reviveria inteirinha sem apagar nem um único trecho.
O telefone dele interrompeu nossa conversa, mas combinamos que iríamos nos encontrar ao final do dia se não houvesse nenhum imprevisto.
― Bom dia, dorminhoca. – pronunciou Lia sem disfarçar um sorriso de satisfação. ― Queira me fazer crer que o carro do Dr. Bonitão ali está estacionado é mera coincidência.
― Bom dia, irmã. ― abracei Lia. ― Como passou a noite?
― Eu, particularmente, passei uma noite ótima, mas essa menina sapeca aqui esperneou a noite inteira. – anunciou Lia, solene e sarcástica, sempre muito prestativa, devolvendo-me a minha filha, a quem eu beijava incessantemente sentindo-me um tiquinho culpada por ter passado horas tão agradáveis ao lado de Fábio.
― Ah é, Samira? ― ergui minha filha para olhar bem dentro de seus olhinhos. ― Quer dizer que você não deixou a tia Lia dormir, é? ― Samira balbuciou. ― Tia Lia perdoa, viu?
Lia riu:
― Brincadeira. ― Lia beijou a cabecinha de Samira. ― Essa menina dormiu a noite inteira, parecia um anjinho. Quem ficou a noite inteira sem pregar os olhos fui eu. Espero que esteja faminta, pois soube que uma cafeteria aqui perto vende uma torta holandesa que é de fazer até defunto levantar para comer.
― Torta que faz até defunto comer? ― exultei.
― Pelo menos é o que garantiu a dona do hotel... ― Lia contornou, olhando para o smartphone à espera de uma resposta de Ivan.
Sem demora acomodei Samira no bebê conforto e seguimos até a cafeteria. Não sou dada a comer grandes porções de comida de manhã, mas não resisti e devorei dois pedaços de torta holandesa.
― Tem certeza de que você dormiu direito, Lia? Ou isso é...?
Lia apenas me olhou diretamente.
― Serei tia de novo?
Ela balançou a cabeça.
― É menino ou menina?
Nossa telepatia continuava firme e forte.
― Não dá para saber se vai ser menino ou menina... E Ivan nem sequer tem ideia de que meu mal estar matinal tem a ver com... Você sabe, Cuca... Não faz tanto tempo assim que passou por isso, faz? ― Lia mexeu o conteúdo da sua xícara quentíssima com cappuccino.
― Foi por isso que você me convidou para viajar?
― Sim e não, irmã. ― Lia desabafou. ― Vivemos tanto tempo de uma parte a outra sem dar um tempo ao nosso coração, por que não parar um pouco?
― Não sei o que te dizer, Lia, mas de qualquer maneira, meus parabéns!
Lia e eu apertamos nossas mãos e Samira em seu carrinho de bebê balbuciou alguma coisa.
― Olha a Samira dando alô à nova priminha. ― Peguei com cuidado na mãozinha macia de Samira e levantei o bracinho dela para que Lia sorrisse um pouquinho, nem que fosse de mentirinha. Tudo para quebrar aquele clima de revelação.
― Ou priminho... ― Lia deu de ombros. ― Quem é que vai saber, afinal?
― Ou priminhos. ― aticei.
― De qualquer maneira entramos o ano de 2016 com mais um membro na família.
― Já é um bom incentivo para aguentar esse ano um tanto estranho de 2015, sabendo que no começo de 2016 terei mais um sobrinho ou sobrinha. Ou dois.
Lia deu tapinhas no meu braço.
― Ivan tem que saber disso hoje mesmo. ― acrescentei, incentivando-a a abrir o jogo com Ivan de uma vez por todas.
― De uma coisa estou certa: não foi planejado! Nós não estávamos planejando ter um quarto filho. O próprio Jacques veio de repente...
― Todos nós, não?
Lia assentiu um pouco mais calma.
― Afinal de contas, os melhores imprevistos são aqueles que nos tiram o fôlego.
Lia e eu, como turistas, aproveitamos nossa escapadinha conhecendo pontos turísticos, fazendo compras e registrando o que julgávamos importante. Eu voltaria a lecionar em uma semana e estava ansiosa para voltar com tudo, uma vez que consertar as mancadas da Marinete me custaria bastante empenho e paciência.
O telefone tocou dentro do meu bolso e o número por mim não era conhecido, mas decidi atender:
― D. Márcia? O que houve? Por que chora desse jeito?
Sentei-me num banco de madeira da principal praça da cidade e tentei na medida do possível acalmar aquela progenitora desesperada que recorria a mim para saber alguma notícia da única filha.
― Pode ter certeza, D. Márcia, eu não deixaria Letícia sozinha num momento desses. No que eu puder vou ajudar.
― Letícia é minha única filha... E você é a única amiga dela... Se souber de algo não hesite em me contar, por favor. Neste momento qualquer pista vai ser de imensa serventia para todos nós.
― Letícia não tem conversado comigo nos últimos dias, D. Márcia.
― Ela não está com você?
― Não.
― Ela não deu nenhum sinal de que fugiria de casa?
― Pelo menos para mim, não.
Letícia Ventura fugiu de casa e o paradeiro continuava sendo um enigma para todos. O encontro romântico com Fábio na praia seria adiado para outra ocasião, pois o tempo corria contra aqueles que esperavam encontrar a pequena Letícia de preferência com vida.
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