Produção Independente

20 20. A volta da amiga falsa - Por Letícia


Notas iniciais
Vocês querem a versão de 24 ou a de 32 capítulos?

Na hora da saída alguém me cutucou dentre aquele mar de gente que se enfiava naqueles portões pesados para dali sair e não voltar por três dias.

― Lelê...

A voz conhecida era de Marcela.

― Mar... Marcela? ― Meu choque não foi uma afronta, foi realmente a ausência de palavras que se apossou da minha imagem naquele instante. De alguém que estava tomada por uma surpresa indecifrável.

― Lelê? ― Ela abriu os braços e eu a correspondi a abraçando, mas sem entender por que depois de um ano me ignorando, decidiu de uma hora para a outra procurar-me como se nunca tivesse acontecido. ― Quanto tempo, minha amiga!

― Digo a mesma coisa, Marcela!

― Posso ir à sua casa? — inquiriu ela esperando ouvir de uma vez por todas um “sim”.

― Mas você não tem aula daqui a pouco? — estranhei. Nossos horários não coincidiam, portanto se ela fosse à minha casa estaria, pela lógica, cabulando aula.

― Não... Não tenho...

Procurei Talita e as gêmeas ao redor e não as encontrei.

― Acho que você é a única pessoa que pode me ajudar... ― afirmou ela, assombrada, com algumas espinhas no rosto, desorientada, olhando para todos os cantos como se estivesse sendo vigiada.

― O que eu puder fazer por você, eu farei.

Marcela e eu nos conhecemos no comecinho da sexta série. Fã declarada do Justin Bieber leu a saga Crepúsculo inteira pelo menos seis vezes, além de ter aberto uma exceção para ganhar os bonecos dos personagens principais, cujas caixas nunca foram abertas deixando-os na prateleira para admirar. Ela não era a aluna mais excepcional da escola, mas juntas tirávamos notas boas. Talita e Diogo uniram-se a nós depois das férias de inverno e no sétimo ano o Cauã era o calouro desastrado que fechou o quinteto.

Até meados da quinta série eu andava com as gêmeas mocorongas. Tinha dó porque todo mundo tirava sarro delas. Afastei-me porque muita gente deixava de conversar comigo por não gostar daqueles oito olhos (elas usavam óculos, está explicado) vendo maldade em pequenas coisas, era chato demais.

Marcela era a minha melhor amiga até a reta final da oitava série. Eu gostava de contar tudo para ela, mas nunca era correspondida. Necessitando, não poderia contar com o seu apoio.

Quando ela perdeu o BV nas férias de julho de 2012, eu só soube disso porque até uma colega com quem ela não tinha afinidade soube de antemão e eu, não. Eu ia acumulando essas pequenas rejeições para não magoá-la, mas doía. Deus sabe o quanto doía.

Cuca Magalhães me ensinou como age uma amiga de verdade. Marcela tinha muito a aprender nesse sentido.

Marcela chorou nos meus ombros, soluçou, jurando por céus e terra que nunca mais iria para a escola novamente. Estava abatida, bem diferente da menina que era quando eu fazia parte do grupo. Ela tinha um cabelo castanho claro tão lindo, ajeitado, bem tratado, decidiu clarear e o estragou, tendo que tosá-lo. Conhecida pelas madeixas longas sempre adornadas por uma trança embutida que fazia sem precisar de um espelho por perto, odiava o corte moderno e se arrependia do que fez. Tentei algumas vezes imitar o penteado dela, mas a minha trança sempre terminava o dia desajeitada.

― Eu não tenho moral pra pisar naquele colégio depois de tudo. — desabafou Marcela.

― Depois de tudo o quê? ― interroguei.

Marcela estava sentada ao meu lado na cama, com as mãos afundadas nos joelhos e eu me comportava com impaciência.

― Depois de muita coisa... — recomeçou ela, amuada.

― Por favor, fala o que é, senão eu não vou poder te ajudar.

― Eu perdi a virgindade com o Fernando, irmão mais velho das gêmeas.

― Soube que vocês estavam namorando. ― disse procurando dentro da minha nécessaire um lenço para oferecer à Marcela.

― Sim, estávamos... ― Marcela aceitou o meu lenço e assoou o nariz, limpando a garganta para continuar falando. ― Mas aí eu não quis mais namorar... Eu me cansei daquele grude todo... Ele queria satisfações de tudo que eu fazia, me mandou excluir amigos, começou a implicar com as minhas roupas, virou um chato... Aí eu me cansei e terminei mesmo! Ele ficou me perseguindo, me bombardeando com mensagens de baixo calão no celular, me colocou contra as meninas, depois foi lá em casa, disse que iria se despedir de mim porque iria se matar... Mas ele não se matou... ― Ela evitou me olhar nos olhos. ― Ele colocou o vídeo na rede. De vingança. Não tem outra explicação. Pior que isso... Ele divulgou o nosso vídeo no whatsapp, os amigos dele me xingam de tudo quanto é nome... O vídeo foi parar no grupo da nossa turma (da tarde) no facebook, todo mundo está me apedrejando, me chamando de coisas horríveis que nem vou repetir.

Assenti com a cabeça, pousando minha mão por cima das trêmulas e inconsoláveis mãos de Marcela, uma das minhas amigas mais ajuizadas que trilhou o mau caminho e começava a sentir fortemente as consequências de ter sido injusta comigo.

― Ele foi muito covarde.

― É! Eu sei disso! Mas a questão é que eu estou muito encrencada, Lelê... E de todas as minhas amigas você é a única que eu posso confiar nesse momento.

― Tudo bem, eu vou te ajudar.

― Mas como?

― Eu acho que você devia contar tudo aos seus pais e procurar a delegacia da mulher, isso é muito sério! Você tem de denunciá-lo, juntar todas as provas que tem contra ele, não deixá-lo ficar impune.

― E quem vai acreditar em mim?

― Quem realmente gosta de você. ― Eu me senti no papel da Cuca quando Marcela confiava em mim para desabafar. ― No ano passado a Prof.ª Cuca já tinha nos falado sobre isso numa aula, não se lembra?

― Ela já teve o filho?

― Sim, a Samira já nasceu.

― Vocês eram amigas? ― Marcela perguntou ostentando curiosidade.

― Nós somos amigas. ― Apertei os olhos para não chorar. Conversando com Marcela eu tive a certeza de que tudo que ocorre e nos testa não nos mata, somente nos fortalece. ― Não é só porque estamos distantes que deixamos de ser amigas.

― A Cuca falou sobre esses vídeos?

― Falou, sim. Mas duvido que alguém estivesse prestando o mínimo de atenção. Ela nos disse que esse ato atesta a covardia do homem, o machismo, à misoginia, a total falta de respeito com os direitos da outra parte. Nada justifica uma atitude dessas. Se alguma questão ficou pendente, que isso seja tratado pessoalmente é claro, com muita cautela. Expor a intimidade de uma pessoa desse jeito é crime e você não pode fingir que nada aconteceu ou deixar para lá. Tem coisas que não podem ser “deixadas para lá”.

― Meus pais não podem saber. — implorou Marcela.

― Eles vão ter que saber.

― Eu prefiro morrer a contar a ter que contar a verdade a eles.

― Se você desistir da sua vida, isso vai ser um prêmio para ele e para elas também. Seus pais vão sofrer muito. Por mais que eles não concordem, confie que eles não vão te abandonar.

― Falando parece tão fácil.

― Eu sei que não é fácil. Eu sei que não é, Marcela. Muitos amam se apossar de uma mulher, de exibi-la por aí como um troféu, como se ela não tivesse vontades e necessidades, fosse à bonequinha de luxo que eles ostentam até enjoar. Muitos confundem a possessão com o verdadeiro amor. Ouvir um não arranha os inflados egos dessas criaturas amargas. Não queira nem saber do que alguns homens são capazes por ódio ou despeito. Eles não engolem um não, principalmente se passaram a vida toda sendo mimados e acostumados a terem tudo de mão beijada. E o não de uma mulher, não importa a idade, é um não e fim de papo. Não tem essa de talvez, de fazer joguinho. Quem quer dizer sim e pronto e ninguém tem que ficar com alguém que não gosta por “pena”, por obrigação, não tem disso, não. Nós nunca devemos repassar esses vídeos e muito menos agredir a vítima, deveríamos ter mais solidariedade, pois os homens têm solidariedade uns com os outros, nós mulheres ainda não.

― Eu não vou encarar os meus pais. ― reclamou ela, chorosa. ― Não quero nem pensar no que eles podem fazer.

― Mas desistir da escola não é a solução...

― Ninguém lá me suporta. ― Marcela protestou.

― Então agora você pode imaginar como eu me senti no ano passado, Marcela? ― Era a pergunta de meio milhão de dólares que soava inoportuna, mas saiu ao acaso, vai ver é porque eu ainda tinha que expulsar aquele sapinho teimoso da minha garganta.

― Nem se compara. ― Marcela deu de ombros.

― Pensa bem, Marcela... Como não?

Marcela abaixou a cabeça.

― Quando você e o resto do grupo começaram a andar com as gêmeas e me deixaram de lado, eu fiquei muito triste, deprimida, me culpando por ter sido abandonada, pensando no que eu podia ter feito de errado. Eu sabia que não tinha feito nada, mas vocês estavam me tratando muito mal, me desprezando, tornando-se tudo aquilo que prometeram nunca ser. Sim, faz parte aceitar as mudanças, mudar de ideia, até porque faz parte de crescer, de descobrir por conta própria o que é bom para nós ou não. Eu nunca entendi por que vocês nunca me convidaram para viajar com vocês naquele Carnaval se nós éramos todos amigos. Hoje sei que eu fui amiga sozinha, que se vocês acreditaram em boatos e me deixaram de lado, é porque seria melhor pra mim.

― Isso já foi, Letícia. ― Marcela inspirou e soltou o ar pela boca, deitando-se de barriga para cima e olhando para o teto, para o filtro dos sonhos balançando bem levemente de uma direção à outra.

― Sim, já foi. Você está coberta de razão: já passou. Mas foi justamente com essa decepção que eu conheci a melhor amiga que eu já tive em toda a minha vida, que foi e ainda é a Cuca. Podemos ter uma diferença de idade um pouco grande, mas quando duas pessoas são amigas, nada disso importa. Eu aprendi isso com ela. Quando eu me sentia sozinha e desnorteada, me culpando por ser “careta” demais, ela me consolou, se divertiu ao meu lado, me ensinou um bocado de coisas, me mostrou que não tinha nada de errado nem anormal comigo. ― Eu enxuguei uma lágrima que dos meus olhos rolou sem recriminação.

― Hoje eu sei que aconteceu o que tinha que acontecer. Vou ser honesta com você, Marcela. Não é hora de te julgar, mas você quis assim, você me descartou porque eu não entrei na onda das gêmeas de sair pegando qualquer um sem critério, só para não ser tida como fracassada... Enfim, você virou as costas para mim e por muito tempo eu fiquei esperando que você, a Talita, Diogo e Cauã me procurassem, mas esse tempo foi passando e eu fui me cansando de esperar, porque essa espera era solitária e dolorosa, eu esperei por quem não estava esperando por mim, por quem aprendeu a viver sem mim, por quem não se importou em como meu coração ficou quando foi partido sem qualquer pretexto decente...

― Desculpe-me, Letícia. Eu peço desculpas se não fui uma boa amiga, mas nesse momento eu não pensei em mais ninguém que pudesse me ajudar além de você.

― Eu vou te ajudar porque minha consciência vai ficar pesada se eu te deixar sozinha logo agora, mas isso não quer dizer que somos as melhores amigas do mundo.

Notas finais
O próximo capítulo está imperdível! ♥