Produção Independente
18 18. A carta - Por Letícia
“Não tem sentimento pior que a vontade de abraçar alguém e não poder.”
Meu filtro dos sonhos estava preso e suspenso perto da minha cama. Todas as noites, antes de me deitar, eu meditava olhando para ele, pensando naquele livro de poemas que Cuca me presenteou no final de 2014, meditando nas palavras dela, uma lembrança concreta da adolescência de uma época que eu conhecia sem ter de fato vivido.
Os bons momentos passaram-se sem alardear. Dentre os altos e baixos, as grandes lições separando-os. Algumas memórias concretas, calcadas em objetos, outras, mais subjetivas, mais restritas e nem por isso menos impactantes.
Era inevitável não sentir saudade da Prof.ª Cuca. Eu tinha contato com várias pessoas, mas nenhuma delas era minha amiga de verdade. Tem diferença entre amiga e colega.
O vazio que se expande no coração quando estamos longe de alguém que amamos é irreparável, um buraco imenso a latejar versos incompreensíveis, versos expulsos através das lágrimas.
Minha querida amiga,
Começo pedindo perdão por não ter te visitado na maternidade para saudar a pequena Samira pessoalmente. Todos os meus gestos ainda assim não conseguem expressar toda a gratidão que tenho por ter ganhado de presente a sua amizade. Perdoe-me. Eu realmente queria estar ao seu lado, mas não tive modos de estar, não me permitiram e quando tentei, fui castigada.
Você esteve ao meu lado quando ninguém mais queria estar. Você nunca se prevaleceu do seu conhecimento para me oprimir e me desmerecer. Você acreditou em mim, dividiu seu precioso tempo comigo e eu nunca vou conseguir te agradecer por ter feito do ano passado muito menos triste. Foi, sim, muito difícil perder meus antigos amigos para boatos, mas os horizontes se expandiram depois que eu enxuguei as lágrimas. A minha frente tinha uma amiga. Diferente das outras. Uma amiga no sentido literal da palavra. Uma amiga que morará para sempre no meu coração.
Estou com saudades e é impossível não sentir os meus olhos ardendo, a vontade de chorar chegando e eu precisando mentir que estou bem. Porque não estou. Venho tentando ser forte, ficar contente o dia inteiro, oferecer um sorriso a quem está triste, mas não posso mais disfarçar que não sinto a sua falta.
Quando a minha vida mudou de repente, eu não gostei do que vi, fiquei assustada, desesperada, sem saber onde me esconder. Queria a todo custo voltar no tempo, ser aquilo que eu era, que aqueles que me abandonaram voltassem a serem aqueles que eu conheci, no entanto agora, enquanto reflito gosto mais da Letícia que eu sou agora, a que os meses foram me mostrando, as dificuldades que sopravam e hoje parecem distantes, mas já foram os motivos que me deixavam acordada até mais tarde.
Queria te contar que já escolhi a minha profissão: pretendo ser professora!
Sim, sim. Igual a você. Por causa de você. Porque por mais que você brinque declamando um trecho de “Dom Quixote”, nenhuma causa estará perdida enquanto crermos nela com toda a nossa força.
Eu serei professora!
Sei que até lá vou ter que perder um pouco da timidez e enfrentar muitas críticas, frases de desencorajamento, mas nem me importo. A maioria dos adolescentes têm ídolos que em sua maioria não acrescentam nada, enquanto eu tive o privilégio de ser uma fã que além de conhecer a sua ídola pessoalmente, conviver com ela, também teve uma boa influência.
Eu te admiro muito, professora Cuca. Muito mesmo.
Sei que essa não é a única carta que você recebeu nesses tempos, mas espero que a guarde com carinho. Não tenho o mesmo talento em colocar as palavras com maestria como você, se a tentativa falar mais alto, me saí bem.
Obrigada por tudo, minha amiga. Não podendo abraçá-la pessoalmente como gostaria, fica aqui todo o meu carinho nessa carta.
De sua amiga,
Letícia.
P.S. – Segue também um par de brincos que comprei para Samira.
P.S. 2 – Adorei o nome. Sabia que você escolheria um nome muito bonito para a sua menina dos olhos.
P.S. 3 – Passei as férias na casa de veraneio dos meus avós e conheci um garoto, mas quero contar tudinho pessoalmente, até porque preciso de uns conselhos a respeito dessas coisas de primeiro beijo, coisas que uma mulher da sua idade entende mais que uma garota.
Sarah mora naquele balneário onde passei as últimas férias de verão, não podia entregar a carta escrita a punho, mas sabia que se eu lhe encarregasse disso não teria preocupações. Ninguém da minha turma tinha amizade com a Cuca nem faria esse favor por mim.
A única pessoa em que pensei foi a Profª Marinete, apesar de não me entender com ela.
― Pois não, Letícia. ― A Profª Marinete não fez um único contato visual comigo enquanto eu lhe dirigia a palavra: ― Algum problema?
― Podemos conversar?
Marinete não disse nem que sim e nem que não:
― Eu... Eu queria te pedir um pequeno favor.
― Nem pense que eu vou arredondar nota de prova, Letícia ― admoestou Marinete na defensiva. ― Se eu abrir esse precedente, terei de fazer o mesmo com todos.
― É sobre outra coisa... ― insisti mesmo não gostando dela, porque sabia que teria de ser gentil com ela para conseguir me comunicar com a minha melhor amiga antes de o castigo prescrever. ― E a senhora é a única pessoa que pode me ajudar.
― Pois não? ― vociferou ela.
Coloquei o envelope em cima da carteira dela onde estavam empilhados os cadernos de chamada das turmas em que ela leciona.
― Sei que a senhora e a Prof.ª Cuca são amigas e como provavelmente à senhora irá visitá-la por causa da Samira, queria...
― Ah, sim... ― Ela abriu um sorriso falso. ― E você quer que eu a entregue?
― Sim... Pois eu estou de castigo e não poderei sair de casa por mais alguns dias...
― Eu posso entregar sim ― Marinete avisou cautelosa e até um tanto ríspida. A entonação entregou a contrariedade. ― Não sei se a Cuca está em condições de responder a carta, mas...
― Eu acho que a mim ela responderia.
― Não vou te garantir nada, mas em todo o caso...
― Eu sou grata pela gentileza... ― inclinei meu tronco em forma de reverência para agradecer-lhe. ― Me desculpe por tirar o seu tempo, apenas recorri à senhora por imaginar que poderia me ajudar... ― Minha voz estava embargada, mas eu não iria demonstrar fraqueza. ― Cuca é minha melhor amiga e eu estou com saudades dela...
Marinete guardou a cartinha dentro da bolsa dela dizendo que na próxima visita à casa de Cuca iria entregá-la. Tive, no entanto, um mau pressentimento. Pensei por minha vez que isso se devesse ao fato de não conseguir me afeiçoar à professora substituta, mesmo me esforçando para entender que o fato de ela e Cuca serem o oposto não significava dizer que havia uma razão concreta.
A expectativa por uma resposta me deixou sem sono. A desconfiança podia ser preconceito, mas eu seguia inquieta, supondo que Marinete não entregaria a carta para Cuca. Eu tinha de dar o mínimo de crédito a ela por ter me escutado e aceitado essa responsabilidade, todavia meu coração estava apertado, eu não me sentia tranquila e assistir às aulas daquela mulher depois disso tornou-se um fardo insustentável.
Até Cuca voltar seria assim.
Para o final do trigésimo dia de castigo, uma eternidade assombrosa. Nesse compasso de espera, estava eu. Ao meio de toda aquela ansiedade, de tarefas cumpridas, lágrimas suprimidas e qualquer avanço, qualquer que fosse ele, invisível.
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