Produção Independente

16 16. De castigo por um mês - Por Letícia


Lia anunciou em sua conta no facebook que a filha da Cuca havia nascido e ambas estavam bem, embora não tivessem recebido alta da maternidade.

― Deve ser muito difícil criar sozinha o filho ― comentou a minha mãe parada atrás de mim em frente ao notebook dos meus pais que fica na mesa de jantar. Minha máquina estava no conserto por causa de um vírus. ― Mas mil vezes melhor assim do que usar a criança como pretexto pra salvar uma relação natimorta.

― O Herbert a magoou muito. Ela não diz, mas foi isso. Ele não gostava dela do mesmo jeito que ela gostava dele.

― Então ele não era a pessoa certa para ela, mesmo sendo o pai da criança, mas já dizia a minha mãe que não é só o que gera, é o que cria. Às vezes isso coincide, às vezes não.

― Então existe esperança para mim, né, mãe? A Cuca também me disse que achava que nunca seria mãe.

― Era a hora dela, minha filha. — sorriu Márcia. — E quanto a você, Letícia, deixe a vida acontecer, sim? Você ainda é muito nova para falar como se não tivesse nada a esperar. Eu fui ter você com trinta e cinco. As pessoas não são iguais, cada um com a sua história. Não se compare com ninguém, não é isso o que a Cuca diria?

Minha mãe leu junto comigo o texto que a Cuca escreveu ainda internada.

Querida Samira,

Você foi o doce imprevisto que remexeu nas minhas convicções mais profundas e me impôs aos trilhos da realidade, em outro vagão. Não sei ao certo se os planos que eu tinha far-me-iam feliz de verdade, se eu realmente sabia o que pedia, se não era apenas um hábito mecanicamente tecido pela rotina.

Todas as formas de agradecimento ainda são inócuas perto da vontade de te proteger desse mundo ainda em construção. Apesar de a tecnologia nos proporcionar sonhar com avanços que serão benéficos em larga escala, esse mesmo mundo ainda precisa olhar para dentro de si mesmo.

Pequena Samira, eu aguardei a memorável oportunidade de olhar dentro desses seus olhinhos puros e fulgentes para escolher um nome que fizesse justiça à espera que foi longa, mas recompensadora. Não houve um único dia em que eu não tenha te imaginado nos meus braços, que eu não tenha compartilhado contigo os pormenores dos meus dias e as músicas que embalam o meu coração. Você foi vida desde o primeiro instante.

Eu nunca pensei em desistir, não me perdoaria se o tivesse feito. Senti medo de não conseguir dar conta, de você não me esperar do mesmo jeito, mas toda vez que você aperta a minha mãozinha e balbucia, meu coração se enche de fé.

Nunca antes transcendeu por entre as linhas um amor tão puro, possível de ser desfrutado sem a dádiva da leitura. Está gravado em meus olhos, no pranto que hoje resguarda com modéstia a alegria que a vida tentou tirar de mim sob as mais diversas circunstâncias. Crente de que perder o otimismo não me enalteceria, prossegui, como se de um jeito ou outro pressentisse que um dia estaríamos próximas uma da outra. Tenho sob a minha inteira tutela um pequeno anjo.

Vou segurar em suas mãos porque os primeiros passos sempre dão bastante trabalho, você vai precisar de ajuda para conhecer o mundo em que viverá a partir de agora. Ele esconde grandes maravilhas, mas também muita maldade. Caberá a você encontrar no meio de tanta informação, o seu próprio ritmo para aprender e distinguir as coisas, descobrir quem é você.

De diversas maneiras o mundo vai tentar te convencer a mudar quem você é, te fazer acreditar que as outras meninas lhe representam uma ameaça, mas acredite na sua mãe, você não precisa travar competições com as outras para ser amada ou reforçar o seu valor.

Você já vale.

Comparações sempre farão com que alguém se desvalorize, é uma mesquinha disputa sem vencedores. Desejo que você cultive a beleza de dentro que piadas à parte é o reforço para a área exterior. Uma alma que convive em paz com suas virtudes e limitações saberá que nosso propósito aqui é muito maior que ter um título de 'Miss' ou matar a peculiar essência inerente a cada um de nós para ser um manequim sem vida a fazer propaganda de determinadas marcas e modismos sem receber qualquer reconhecimento por isso.

Vendo-te ainda embalada por esse cobertor quentinho traz-me uma sensação de paz que eu desdenhava por estar tão acostumada a ir de um lado para outro sem nunca, de fato, parar. Sua mãe usa a armadura de poderosa para não ser mais machucada pelo mundo, mas diante de você chora sem recriminações.

Você precisará obedecer a algumas regras para conviver em sociedade, no entanto quero que fique ciente que ninguém pode mandar no seu corpo, ele é seu e é você quem determina o que fazer com ele. Ninguém poderá te obrigar a fazer algo que não queira.

Não existe brinquedo “de menino” ou “de menina”, você vai brincar com o que quiser e se eu puder acompanhar-lhe, grata ficarei. Se por perto eu não estiver, você terá seus queridos primos dispostos a se aventurarem com você. Nathália, sua prima mais velha está muito ansiosa para brincar contigo, Benício e Jacques também.

Nunca se esqueça de que o brinquedo mais poderoso está dentro de você: a imaginação. Nunca a perca, nunca a subestime.

Seus avós Emir e Romilda partiram, todavia posso dizer com o coração aberto que eles estariam muito contentes com a sua chegada. E como estariam...

Vou contar muitas histórias sobre eles para que se lembre de quando eu por perto não puder estar que a memória dos bons nunca se apaga. Se você me perguntar algum dia, meu anjo, eu sinto saudades dos meus pais, esperando ser para você o que seus avós foram para mim. A melhor referência. Por isso me perco quando olho para o céu. Eles são agora as estrelas que não permitem que a noite seja mais escura do que deve.

Nem todas as famílias se configuram na mesma estrutura, mas os alicerces justos para que exista a harmonia consistem no equilíbrio entre respeito, companheirismo, lealdade, cooperação e amor.

Seja bem-vinda, minha menina.

Com amor de sua mamãe,

Cuca,

Márcia tirou os óculos para enxugar as lágrimas:

― Profundo ― suspirou Márcia com os olhos marejando, dizendo que Cuca tinha uma habilidade tão grande com as palavras que a fez relembrar de quando eu nasci, de que essa emoção tão verdadeira e genuína faz valer a pena a ansiedade da espera, a dor do parto, as noites em claro, a própria vida.

Implorei para que minha mãe me levasse para visitar a Cuca na maternidade e ela não permitiu por crer que nós não éramos parentes e que talvez minha professora não quisesse ver ninguém. Eu tentei argumentar e nem meu pai a convenceu.

— Quando Cuca estiver em casa, vamos pensar no caso. — decretou papai depois do jantar daquela noite.

— Eu faço tudo o que vocês querem. Não corto meus cabelos mesmo tendo vontade porque você não deixa, mãe. Não uso maquiagem forte, não fico na internet até tarde, nem sabendo que nos fins de semana todo mundo fica online até de madrugada. Nunca saio à noite, evito ao máximo tirar notas baixas, coopero com as tarefas de casa e quando faço um pedido, o mesmo é negado.

— Você pode ser amiga da Cuca, mas não é parente — ralhou mamãe.

Injusto era pouco.

Na escola, a Profª Marinete me fez desenvolver aversão às aulas de português, o que me obrigava a garimpar a internet para sanar as dúvidas.

As gêmeas periguetes e seus admiradores incondicionais transferiram-se para o turno da tarde. Soube disso porque escutei algumas pessoas comentando que minhas ex-amigas estavam irreconhecíveis e talvez até drogas já estivessem consumindo. Eu não iria julgá-las porque não cabia-me fazê-lo.

Aproveitando a deixa de que ninguém me conhecia, passei a interagir com algumas pessoas na minha turma, procurando me esforçar ao máximo para me sair bem nas provas, conversava com a Sarah praticamente todos os dias. Escrevíamos fanfics juntas e nos divertíamos zoando os clichês do site, aquelas tais “fics” que não sabemos por que tem tantos comentários se são mal escritos e não têm conteúdo verdadeiramente enriquecedor.

― Eu já sou veterana no site, então pode crer que tem muita porcaria por aqui ― avisou Sarah pelo facebook. ― Tem fanfic de tudo que você pode imaginar... Mas sei que você está triste e não é com o submundo das fanfictions, amiga. Desabafa...

Lelê: Tô com raiva da minha mãe.

Sarah: E por quê? Ela quer que você desligue?

Lelê: Ela não quer me deixar ver a Cuca e o bebê!

Sarah: A Cuca ainda tá na maternidade?

Lelê: Sim, o bebê nasceu ontem de madrugada.

Sarah: Você é amiga dela, pode aparecer lá no quarto de visitas.

Lelê: Mas minha mãe não quer me deixar.

Sarah me chamou pelo Skype:

― Ela tem que deixar ― Sarah insistiu. ― Vocês são amigas. Amizades verdadeiras estão ficando cada vez mais raras. Se eu estivesse aí do seu lado, te dava um abraço agora e amanhã mesmo te ajudava a visitar sua amiga. A Cuca deve estar esperando a sua visita, pode ter certeza que ela vai esperar.

― Eu também acho, embora saiba que ela está bem cansada...

― Mas a visita de um amigo sempre nos ajuda, não importa qual seja a situação.

― E é um jeito de eu poder agradecer por ela ter feito parte da minha vida no ano passado, por ela ter ficado ao meu lado quando ninguém mais queria estar. ― Eu estava chorando muito enquanto conversava com a minha nova amiga. ― Sinto-me uma péssima amiga estando aqui como se não me importasse.

― Apesar de ser uma comparação meio boba, as fanfics idiotas são como as gêmeas otárias, têm um monte de seguidores inúteis, enquanto você é como uma fanfic bem escrita, pode perder leitores por ser diferente, mas sempre haverá um que vai ficar contigo até o fim. A Cuca interpretou os versos que cantavam no seu coração, então tenho certeza de que a amizade dela vale por muitas.

― Eu também acho isso.

― E eu acho que você deve sim enfrentar a sua mãe e ir visitar a sua amiga sim. É um direito seu.

Quando eu era amiga de Cauã, nós dois matávamos as aulas de Educação Física para comprarmos doce na distribuidora que ficava a duas quadras da escola, trazendo dentro dos compartimentos das nossas mochilas guloseimas para o resto do grupo. Compensava mais que comprar na cantina, onde os preços são altos.

As gêmeas futriqueiras tentavam nos dedurar para a coordenação, mas a cumplicidade da Marcela naquela época era além de qualquer suspeita. Sempre que interrogada, ela desmentia categoricamente, livrando a mim e ao meu amigo de levar uma (talvez) merecida advertência.

Com exceção disso, nunca fui o tipo que cabula aula por prazer, contudo era questão de vida ou morte, eu queria visitar Cuca Magalhães ainda na maternidade, como faz uma amiga de verdade.

E tentei.

Esperei soar o sinal para o intervalo e escalei o pesado portão de metal até chegar mais ou menos a uma altura que meus braços alcançassem o toldo cinza empoeirado para fingir que eu era uma ginasta prestigiada apresentando-me, muito certamente, para uma plateia composta de cachorros de rua famintos a quem eu distribuiria pães inteirinhos pelo resto da década se não me dedurassem com seus latidos estridentes.

Meu salto, embora calculado, não contava com o susto de um flagra.

O pior de todos.

E eu nunca fui muito boa em reagir porque contava de verdade que esse plano seria fácil de ser cumprido, mas nunca é tarde para reconhecer que até as melhores estratégias podem ser impugnadas pelo acaso.

A coordenadora fez o maior escândalo quando me viu saltando do toldo do portão até a calçada, gritou como se eu tivesse sido atropelada por um carro que não parou quando o sinal ficou vermelho para os motoristas.

Ela gritou tanto que um monte de gente se aglomerou por entre os muros e fora deles para saber o que estava acontecendo. Apesar de ser um inócuo argumento para defender-me, não creio que fosse necessário. Bastava apenas um olhar severo para que eu captasse que estava encrencada.

A mulher fez um dramalhão, berrou, me acusou e só não puxou a minha orelha me encaminhando para dentro da escola porque poderia ser autuada por agressão a um menor de idade, porque se não fosse, acho que ela teria me batido também.

Foi terrível, vergonhoso.

Fui encaminhada às pressas até o gabinete da diretoria, sendo colocada à frente de qualquer briga ou mal estar, meus pais foram invitados pela coordenação a comparecer para conversarem com a diretora, eu levei uma advertência feia que pelos meus responsáveis deveria ser assinada e não assisti aos últimos dois horários.

De castigo e nem mais um pio. Sem internet nem celular por um mês. Em vista das coisas que ouvi, bofetadas teriam machucado menos, embora fosse estranho sugerir uma comparação desse tipo.

Posso ter cometido uma falta de moderada a grave matando aulas e talvez até colocando a minha vida em risco, mas houve um exagero na reação, a intenção pela qual lutei sem sucesso era nobre, o que a Cuca faria por mim se a situação fosse inversa.

As pessoas que dizem te amar são as mesmas que colocam a sua dignidade lá no chão, a serviço de quem quiser usar a fraqueza evidente para massacrar. Ora, as decepções doem porque vêm de quem nós imaginamos que nunca partirão o nosso coração.

Se não pude ver Cuca na maternidade, tampouco poderia falar com ela, Sarah ou os meninos. Por um longo mês. Por vários dias que se passariam tão devagar quanto os passos de uma tartaruga adoentada.

Era inócuo chorar, espernear, convencer. Meus pais estavam irredutíveis e faziam questão de rememorar meu delito sempre que tinham a oportunidade para isso. Eles não precisavam de muito empenho para deixar-me pior do que eu já me encontrava.

Sem escrever as fanfics, ler as atualizações dos meus amigos do site, sem as conversas animadas com a Sarah e a Cuca, sem ter notícias de ninguém, sem poder comprar minhas guloseimas na distribuidora de doces próxima ao colégio, sem meus viciantes joguinhos online.

Longe dos meus amigos eu me sentia perdida.