Produção Independente

14 14. O primo do meu amigo - Por Letícia


A festa de aniversário do primo do Teodoro foi amplamente divulgada pelo meu amigo por dias e seria na minha última noite no balneário porque por mais que as férias estivessem melhores do que eu imaginei que seriam, era hora de encarar os fatos: minha vida era na capital e naquele momento eu não podia fugir dela, mesmo morrendo de vontade.

Eu fui a algumas festinhas, mas já fazia muito tempo, quando eu ainda era amiga de Cauã e ele sempre tinha algum evento legal para nos convidar. Depois, não mais.

Meus avós, é claro, eram um pouco desconfiados, ainda não se sentiam preparados para me liberar para sair à noite, nem mesmo se soubessem que eu iria dormir na casa da Sarah. Fez-se necessário que a mãe dela conversasse pessoalmente com a minha avó, o que levou um tempão até eu receber um belo sim como resposta.

Quanto às vestimentas, nem me preocupei muito. Sarah me emprestou um vestido jeans, eu usei meu allstar de cano alto, me maquiei um pouco e estava pronta para me divertir.

Sarah me apresentou a alguns amigos e ao dono da festa, o Bruno, primo do Teodoro. Tocaram músicas legais, enquanto outras não tanto. A seleção era uma playlist automática feita pelo computador, levando em consideração o gosto da maioria que com certeza era pelo som comercial executado largamente nas rádios, independentemente da qualidade.

No andar de cima do sobrado onde ficava a pista, tinha a mesa com o bolo, os doces e salgados, bebidas sem álcool, cada um se servia nos pratinhos, copos e talheres de plástico, sem muita cerimônia. Tinha gente se “pegando” na pista, dançando, no sofá tirando selfies, jogando, postando nas redes sociais.

Sarah e eu ficamos dançando com outras meninas também leitoras. Elas eram blogueiras e apesar de não gostarem tanto assim do verão, se animavam com as amizades que faziam, então sei que aquelas férias se encerrariam com muitas parcerias, recomendações de livros e grandes ideias para escrever.

Uma amiga da Sarah deu um sorriso e se aproximou de mim.

― E aí, gatinha? Tá gostando da festa? ― Ela passou seus braços por cima dos meus ombros.

― Tô sim. ― Respondi bebendo mais refrigerante de framboesa.

― Sabe o meu amigo ali? ― Tati apontou para ninguém menos que o dono da festa. ― Então... Ele me perguntou se você ficaria com ele!

Sarah começou a rir:

― O Bruninho quer ficar com a Lelê?

― E quer mesmo. ― A menina voltou-se para mim: ― Ele me pediu pra dar uma resposta.

A Prof.ª Cuca me disse que o primeiro beijo não podia ser um ato cometido por pressão. E se o bacana era escolher e não exatamente ser escolhida, isso quer dizer que eu tinha a prerrogativa de escolher “se” e “quando” iria dar o meu primeiro beijo.

― A Lelê ainda não beijou. ― Sarah avisou, mesmo que não houvesse necessidade.

― Isso não é problema. Pra tudo tem uma primeira vez! ― disse a garota.

― Você não precisa fazer algo que não quiser Lelê — garantiu Sarah. ― Perdi o meu BV por pressão e foi uma porcaria. Você só vai ficar com ele se quiser...

Bruninho estava conversando com outros amigos. Ele não era de nada feio.

― Sim, eu quero. ― Abri um sorriso triunfante.

Sarah me olhou sem acreditar, tirando de dentro da clutch com print de oncinha um trident de hortelã.

― Fica bem relaxada, beijar na boca não é nenhum bicho de sete cabeças. Fecha os olhos só quando seus rostos estiverem bem próximos. Se ele virar para o lado direito, você vira para o lado esquerdo. É instinto, Lelê. Parece confuso falando, mas na hora você vai saber o que fazer. Quando você sentir mais confiança, pode abrir um pouco mais a boca. Deixe que ele te conduza, assim você fica mais à vontade, tá bom?

Ela me deu um abraço:

― Boa sorte, amiga.

― Obrigada. ― falei descendo as escadas e sentindo o meu coração acelerar. Não que eu estivesse caindo de amores por aquele menino, mas por finalmente ter sido escolhida.

Aquele menino queria ficar comigo.

Já havia anoitecido. Uma típica noite de verão. Fez sol pela manhã, choveu no final da tarde e na parte da noite as nuvens iam se dissipando para que as estrelas reinassem. Às vezes chovia de madrugada, às vezes não.

Eu já estava cogitando a ideia de morar na praia, todavia era apenas para não pensar nas minhas responsabilidades, não chorar mais. Se o começo de 2014 foi um tanto insosso, 2015 tinha uma atmosfera totalmente diferente, se eu tivesse planejado nada teria saído de acordo.

Tinha muita gente chegando à festa. Mesmo estando do lado de fora do sobrado, dava para ouvir o som alto e as luzes coloridas do estrobo se encontrando no teto, os carros estacionados sobre o gramado. Os pais do aniversariante estavam no chalé aos fundos para deixarem os jovens mais à vontade, vigiando-os, é claro, sem se intrometerem formalmente. Era aquele negócio de muitas pessoas beberem cerveja sem dar muita pinta.

Bruninho era bem enturmado, como disseram por aí, o Teodoro nem tanto, mas eles são superamigos, criados desde pequenos, amigos de verdade, quase irmãos ou irmãos assinalados com outro parentesco.

Essa festa também teve o seu lado triste por simbolizar o fim das férias. Para todos nós. Todo mundo tinha de voltar para a sua vida fora da pista.

Ele estava me esperando em frente ao poste que ficava ao lado da casa dele.

― Oi. ― cumprimentou ele.

― Oi. ― Acenei ainda incerta do que fazer, de como me comportar, de quem iria tomar a iniciativa.

― A Tati falou com você?

― Falou, sim. ― confirmei assertiva.

― Então é sim? ― ele perguntou, digamos assim, para ter certeza.

― Acho que sim. ― assenti com a cabeça. Ele me sorriu e plim, rolou o beijo. Não teve toda aquela fantasia das novelas, de as câmeras focalizarem a cena em vários ângulos, mas foi bem gostoso. Por se tratar de um primeiro beijo não foi perfeito nem teve gente aplaudindo. Quer dizer, teve sim. Os nossos amigos, é claro.

Eu estava um bocado ansiosa, no entanto para uma iniciante sei que segui meu instinto e tirei todo aquele medo que tinha, todos aqueles mitos que rondavam a minha mente já acostumada a transformar um pingo de chuva em dilúvio numa tampinha de refrigerante.

Nós nos beijamos mais algumas vezes, o que me ajudou a relaxar. E ficou por isso mesmo. Eu não me apaixonei e nem morri por não ter sido pedida em namoro.

Bruno era um garoto legal, me tratou super bem e por incrível que pareça, o fato de termos ficado não impediu que firmássemos uma amizade.

Eu voltaria para iniciar mais um ano letivo convicta de que minha melhor amiga retornaria para o segundo semestre. Estava ansiosa para contar-lhe sobre o meu primeiro beijo, no entanto, quando voltei para a capital e a ter conexão com o mundo exterior, descobri que Cuca Magalhães estava hospitalizada. Meus pais me tranquilizaram garantindo que não era nada grave, apenas precaução médica porque se tratava de uma gestação de risco.

Apesar de meus avós terem botado pilha dizendo que nunca houve garota mais comportada no mundo, Márcia e Ricardo não concordaram com a mudança de turno e eu não nego que fiquei um pouco chateada. Tive insônia na véspera, mas tudo se desenrolou muito melhor do que eu pensava, porque em primeiro lugar, muita gente reprovou, ou seja, caí numa turma com pessoas do turno da tarde, novos alunos.

Não gostei nada da Profª Marinete (a substituta da Cuca). Ela tinha um ar antipático e afirmava prezar pela praticidade, de modo que aqueles que já não gostavam da matéria dela passaram a gostar ainda menos, e quem apreciava, como eu, tinha de aprender a estudar por conta própria, as aulas dela deixavam a desejar porque era nítido que aquela mulher não gostava da profissão, muito menos tinha qualquer paciência ou cinismo para lidar com adolescentes e seus hormônios.

Marinete Montes deixava atividades na lousa e passava o resto da aula com o rosto grudado na tela do smartphone, deixando a turma à deriva copiando tudo o que via no livro por alguns décimos na média, enquanto quem realmente queria ter explicações (como eu) e tentava se aproximar da carteira dela nem sempre era bem recebido.

Tão diferente da Cuca.

A aula da Cuca Magalhães tinha vida, até os menos chegados à matéria reconheciam que ela era rara, sem entender por que uma mulher com um currículo impecável continuava lecionando na rede pública de ensino sendo apenas um vagalume onde poucos enxergavam sua luz e desses poucos alguns se inspiravam nesse feixe cintilante e encantador para nunca desistirem de aprender.

Cuca Magalhães sempre primou pela organização dos trabalhos, pela disciplina profissional e acima de tudo pelo bem estar dos alunos, por quem ela muitas vezes perdia noites de sono para que tivéssemos aulas dignas.

Passadas as férias de verão, o ano finalmente mostraria a que veio. E eu viveria para saber se ele faria justiça àqueles dias divertidos ao lado dos meus novos amigos ou se aquela alegria era apenas um disfarce para as dificuldades que cobrariam de mim toda a resistência que vinha procrastinando.

Eu teria de viver para saber.

Notas finais
No próximo capítulo a filha da Cuca vai nascer ❤