Problem
1 Aquela maldita bicicleta!
Notas iniciais
Problema número um:
Aquela maldita bicicleta!
Cansado. Sim, eu estou cansado. Um garoto de apenas dezesseis anos trabalha, estuda e mora sozinho. Não, não é esse o meu problema. Talvez eu precise deixar de pensar nessas coisas e... ah! Impossível! A cada respiração, um novo problema surge do além. Os problemas me perseguem. Sempre, sempre. Os olhos cansados fazem parte da minha aparência, não sei o que aquelas garotas vêem em mim para estarem sempre na minha cola. Caralho! Eu não tenho tempo para isso. Já disse, repeti e elas continuam se declarando, como idiotas. Se atraem por quem as ignora? Talvez.
Hoje é Domingo e eu saí de casa para respirar um ar, tudo que entrou no meu pulmão foi poluição e mosquito. Minha casa é melhor, minha casa é mais confortável. Eu tenho que fazer uns trabalhos pra escola, mas resolvi ''tomar um ar''. Eu sou retardado? Sabia que aconteceria alguma coisa! Afinal, sou eu de quem estamos falando. O poço de problemas.
Agora, eu não sei como, eu não entendo o porquê, mas, do nada, surgiu uma pessoa na frente da minha bicicleta. Eu devo sem querer ter atropelado ela. Larguei aquele negócio (sim, com ''negócio'' me refiro a maldita bicicleta.) e fui ver se a tal pessoa estava bem, contra minha própria vontade. Não deve ter sido grave. Tomara que não tenha sido grave.
— Me larga, seu merda! — O garoto ergueu a cabeça e empurrou minha mão. Eu pude vê-lo. Seus cabelos são bem pretos, nunca vi fios tão negros assim... a maioria, pelo menos dessa cidade, tem o cabelo castanho claro ou loiro, como o meu. Ele estava caído no chão. Seus olhos cor de mel, quase verdes, brilharam por causa do sol quando ele olhou para mim, finalmente. Transmitiam medo e insegurança, como os de uma criança prestes a pular de uma montanha, o que era estranho. Estranho porque seu olhar não coincidia com suas palavras.
— Você está bem? — Tentei ser educado, mas não tenho paciência para isso. Ele me chamou de ''merda'' e sujou minha bicicleta. Eu estou na faixa e ele estava mexendo na merda do celular quando atropelou minha bicicleta. Sim, ele atropelou minha bicicleta, não o contrário. Sério! Por que sempre a culpa cai em quem ''atropela''? Ah, isso é meio óbvio... foda-se.
— Eu pareço bem?! — Apontou para seu o joelho ralado. — Quando você começar a prestar atenção as coisas ao seu redor, eu vou ficar bem, sim.
Quem ele pensa que é? Eu quem deveria falar isso!
— Eu estou na faixa. — Apontei, tentando não mandá-lo se foder. Que vontade enorme. Faz tempo que não mando ninguém se foder. Quer dizer... ''faz tempo'' uns quarenta minutos. — Você estava mexendo nesse merda de iphone, o qual provavelmente seu pai te deu assim que exigiu. Não tenho tempo para garotos mimados, então, sai da minha frente, tenho várias coisas a fazer... como trabalhar. Algo que você desconhece.
O joelho dele imediatamente sarou e ele se levantou. Ele estava exalando ódio. É como se fosse contrariado pela primeira vez. Levantou, mas dá para ver que ele é bem baixo para alguém aparentemente da minha idade. Que engraçado.
— Escuta aqui. — Agarrou a gola da minha camisa. Eu dei risada. — Você não é mais velho que eu, então, não se ache tão superior! E não ria de mim, idiota!
— Idiota? Ah, por favor... — Tirei a mão dele e baguncei seus cabelos. Um, para provocar ele. Dois, queria saber se seus fios eram tão macios quanto aparentavam ser. Realmente, é... bem mais do que eu pensei que seria.
— Eu vou te... — Escondeu o rosto para não demonstrar o vermelho, não funcionou. E antes que pudesse terminar sua frase, caiu no chão novamente e gritou de dor. Tentou disfarçar em seguida, mas ainda segurava seu joelho com força, quer dizer, não que ele tivesse tanta. Uma criancinha, de verdade.
Me agachei e tirei suas mãos do joelho, contra sua vontade, mas facilmente. Olhei para aquele ferimento... não estava só ralado. Sangrava. Garoto teimoso, não? Se levantar e me enfrentar quando está sentindo dor? Ah, lembra quando eu disse sobre os meus problemas? É disso que estou falando. Eles me perseguem, por todos os lugares. Eu sou realmente atraente, não? O que essas coisas vêem em mim, francamente?!
— Vamos, vou te levar a algum médico. — Levantei ele.
— Não me levante como uma criança. — Empurrou minhas mãos. — E quero que me leve para sua casa!
— Hã?! — Ele não está falando sério. Ele não pode estar falando sério. — Você acha que está em posição de exigir algo, garoto?
— Como você disse, sou mimado. — Sorriu pela primeira vez, mas não um sorriso verdadeiro. Um sorriso meia boca, sádico, como se quisesse me provocar com aquilo. Conseguiu. — E, sabe, minha mãe é advogada. Você me atropelou e não quis prestar socorro... eu posso te denunciar.
— Estou me segurando para não cometer um crime ainda maior aqui. — Sussurrei, mais para mim. Ele parece ter ouvido.
— Ah, é?
— Não! Vamos, minha casa fica para lá. — Forcei um sorriso gentil. Deve ter soado assustador. Enfim, segui em frente e só depois de alguns segundos andando eu olhei para trás. Ele estava lá, parado. — Ah... você não consegue se mexer, não é? Precisa que alguém faça isso por você?!
Voltei três passos, puxei ele e apoiei seus braços no meu ombro. Difícil, porquê, como eu já disse, ele é baixinho e parece uma criança. Sorte que é leve. Eu estou levando um estranho para casa... ah, já não sei o que estou fazendo com minha vida, de qualquer jeito.
Chegamos ao meu apartamento e ele ficou me olhando de um jeito estranho, até se soltar e perguntar, nervoso.
— Como você sabe onde é minha casa nova? É um sequestrador ou algo assim? Estava planejado, o atropelamento?! — Se afastou, parecendo um gatinho medroso.
— Eu moro aqui. Do que está falando?! — Olhei para ele, depois para o apartamento ao lado, que estava sem morador a algum tempo. — ''Casa nova''? Ah, não... tudo menos isso...
Como eu disse, mais de uma vez, eu sou como um doce e os problemas são formigas.
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