Problem
2 Vizinho e colega de classe!
Problema dois:
Vizinho e colega de classe!
O garotinho cujo nome eu ainda não sei era semelhante a um gato preto. Preto, pois seus cabelos negros certamente se destacam em sua pele pálida, o que torna dele sua principal característica. Gato, porque é arrogante e se acha superior, quando, na verdade, não passa de um ser medroso que se assusta por qualquer besteira. É exatamente como ele está agora, assustado. Não posso negar, eu também estou. Ele falou que sua mãe era advogada, mais cedo. O melhor que eu posso fazer é ignorar sua presença, caso contrário, daqui a uns dias eu vou comer na cadeia. Bem, será que a comida da cadeia é melhor que macarrão instantâneo?
— Se fosse para sequestrar alguém, eu com certeza escolheria melhor minha vítima. — Sorri. — Eu moro aqui, no 12. Sua família no 13, não é?
— F-família? — De primeira, suspirou aliviado. Mas ainda está com medo de seja lá o que for. — Se você é meu vizinho, posso cobrar de você depois. Licença, vou entrar.
Ele tirou a chave do bolso com as mãos trêmulas e abriu a porta da sua casa.
— Oh, você sabe pedir licença. — Me ignorou e continuou na tentativa de abrir a porta. — Espera. Por que tem tanto medo? Não pretendo fazer nada com você. Meu nome é Leonardo, sou só um garoto normal que mora sozinho e come macarrão instantâneo todo o dia. E você?
Estou tentando ser gentil com ele para não morar na cadeia. Mas, confesso... ele é interessante. Eu normalmente não ligo para nada ao meu redor, mas... ele me chamou atenção, de algum jeito.
— Daniel. — Respondeu, entrou e bateu à porta.
Olha, vou ensinar. Sempre que você quiser muito xingar alguém, bater ou arrancar o cabelo dessa pessoa, não o faça. Para descontar sua raiva, segure seu punho com força, como se estivesse esmagando a cabeça do indivíduo e sorria. Fim do tutorial.
Abri a porta de casa, entrei, tirei minha jaqueta e joguei ela em qualquer lugar. Me joguei no sofá e dormi. Eu tenho um talento. Dormir em questão de segundos, apesar do stress. E amanhã tem aula... o que é uma merda.
(...)
O barulho do despertador... cara, eu sou um idiota. Por que coloquei minha música preferida como alarme?! Eu estou começando a odiá-la! Levantei e me sentei. Olhei para o nada por longos minutos, para depois ter coragem o suficiente de levantar e ir tomar um banho. Foi o que eu fiz. Já tinha separado o uniforme antes — uma camisa branca e jeans —, só me troquei, escovei os dentes, baguncei meus cabelos e saí de casa.
— Bom dia, brô! — Puta que pariu. — Acabei de chegar. Vamos entrar, tô com fome.
— Como você consegue aparecer na porta da minha casa toda manhã, cara?! Eu não acordaria tão cedo assim. — Ele já ia entrando. Puxei ele para fora.
— Ah, mas eu tô com fome... — Fez um bico enorme.
—Podia ter comido em casa. Vamos. — Puxei ele pelos cabelos.
Ah, esse é o Vinicius, meu amigo de infância. Ele tem 16 anos, também. É da minha altura e sua pele é bronzeada. Cabelos bem curtinhos, tatuagem no peito, a qual ele fez escondido da mãe. Ela descobriu semanas depois e foi assim, também, que ganhou uma cicatriz nas costas. Sem mais detalhes. Já dá pra perceber que ele é sem noção, certo?
Ele estuda comigo, então vem todo o santo dia me buscar aqui em casa. Se ele tivesse carro eu não reclamaria, mas ele só vem fazer companhia enquanto vamos a pé, mesmo.
— Espera! — Ouvi um grito. Nós dois olhamos para trás, e... — Ah, é você. Esquece.
É o garoto de antes. Daniel, certo? Meu novo probl... quer dizer, vizinho irritante.
— O que houve, garoto? — Vinícius perguntou. — Não sabe onde fica o primário... ou algo assim? Tudo bem! O super Vinícius está aqui para isso!
— Vai se foder. — Ignorou o outro e voltou seu olhar para mim. — Você, idiota, está me devendo uma, lembra? Vou usar agora. Sabe onde fica essa escola aqui? — Estendeu sua mão e me entregou um papel. O Vinicius tomou da minha mão.
— Olha, Léo, ele vai estudar com a gente! Isso significa que tem nossa idade. — Sorriu. — Mas com essa altura...
— Eu devo ser 3 centímetros menor que você. Cala a boca. Vão me mostrar onde é?! — Bateu os pés.
— Seu joelho melhorou? — Ignorei tudo que ele disse e me abaixei. Toquei o lugar onde se machucou antes, ele gemeu de dor. — Por que tá vindo estudar com o joelho machucado, hein? Garoto teimoso.
— Para de me chamar de garoto. — Me empurrou. — Eu ainda posso andar, vê? Agora para de falar e me mostra onde vou estudar.
Agora, parece que o problema vai estudar comigo. Já tá dando tudo errado, então, eu não tô nem aí mais.
—Vamos. — Eu levantei e os dois me seguiram. O Vini tá cantarolando e o Daniel tá com a cara emburrada de sempre. O caminho todo foi assim. O Vinicius fazia alguma piada, o Daniel respondia com sarcasmo. Eu os repreendia. Eu estou cuidando de duas crianças? — Chegamos.
— Caralho, uma gostosa! — Ele não aprende. — Te vejo na sala, brow!
E só ficamos nós dois. Eu e o problema.
— Já te mostrei onde fica. Por que contínua me encarando? — Perguntei, ele revirou os olhos.
— Eu não sei onde fica minha sala. — Confessou. — Me mostre.
— Peça ''por favor''. — Finalmente retribui seu olhar. Ele desviou. — Ah, você fala coisas grosseiras e não pode sequer trocar olhares com alguém por um tempo? Quantas fraquezas você tem, Daniel.
— C-cala a boca. — Gaguejou. — Eu não vou pedir ''por favor'' para você.
— Se vira, então. — Dei as costas.
— Não! — Segurou meu braço. Me virei para ele de novo. Suas bochechas estavam mais vermelhas que uma pimenta e ele não olhava para mim. Engoliu seu orgulho por um momento. — Por favor, me mostre.
Aquele seria o momento da minha vingança. Eu estava planejando dizer ''não'' e sair andando. Deixar ele com a expressão mais engraçada possível e me vingar por antes, mas... que pedido foi esse que eu não consigo rejeitar?! O que esse moleque fez? Só... bem, eu não consigo dizer não. Maldito.
— Qual a sua sala?
— 2B. — Respondeu, depois de ler um papel.
— Não é possível... ah, é minha sala. — Como posso ter tanta sorte no azar? — Hoje, na primeira aula, nós temos educação física. A quadra é ali. Se quiser ir direto para lá, pode ir. Eu vou esperar o sinal tocar.
— Certo. — Saiu correndo dali. Talvez tenha ficado muito constrangido... que gracinha.
Sentei em um banco ao lado de umas garotas, que sussurravam sobre o ''menino novo''.
''Ah, ele é uma gracinha.''
''É verdade. Que vontade de morder!''
''Vou ensinar para ele umas coisinhas... haha.''
Quanto fogo. É porque não o conhecem pessoalmente.
O sinal tocou, alguns minutos depois. Andei até a quadra tentando achar o Daniel, sem sucesso. Ele provavelmente caiu no canto de alguma sereia e morreu, de novo.
— Hoje será vôlei. — O professor avisou, sem mais delongas. — Temos que treinar para o campeonato.
O baixinho estava do outro lado da quadra. Parece que alguém já escolheu ele. Uma garota, provavelmente. Aqui é tudo misturado.
— Leo, vem pra cá! Você é do nosso time! — O Vinicius gritou. Pelo jeito, fiquei contra ele.
Depois dos minutos de enrolação e escolha de time, todos se posicionaram na quadra menor. Mas, espera... como o Daniel vai jogar vôlei com o joelho machucado? Puta merda, eu só lembrei disso agora! O professor está longe e o outro time está prestes a sacar. Olhando para ele, de longe, parece bem. Mas ele sabe fingir.
— Pega, Dani! — Uma garota deu o toque para ele. Ele pulou e jogou a bola. Eu fiquei tão concentrado em seus joelhos que esqueci do jogo. Tudo bem, dessa vez, ele não caiu. Está tudo bem. Por que estou preocupado com essa pessoa?! Não foi culpa minha.
O jogo continuou. Novamente, a bola foi em sua direção. Novamente, ele pulou e conseguiu dar o toque. Só que... dessa vez, ele não ficou em pé. O jogo continuou e ele fez de tudo para se levantar de novo e disfarçar, mas não conseguiu. Sentia dor e, pela sua expressão, estava quase que insuportável. Não gritou, por isso, ninguém se ligou. Merda, eu vou ter que ir até lá.
— Onde está indo, Leonardo? — O professor gritou.
— O Daniel se machucou! — Problemático. Corri até onde ele estava e apoiei suas duas mãos em meu ombro, contra sua vontade. — Se segura em mim. Agora.
Ele se segurou. Agora eu estava carregando ele nas minhas costas e todos estavam olhando, com expressões preocupadas. Ele é tão leve. Tão frágil. Como pode se fingir de forte com esse corpo?!
— Professor, vou levá-lo até a enfermaria.
— Sim, pode ir. — Permitiu. — Vocês, voltem a jogar. Ele vai ficar bem.
Corri com ele nas costas. Seus gritos não ajudavam, só me faziam me preocupar ainda mais.
— Eu estou bem. — Disse, com dificuldade.
— O caralho. — Respondi. — Não precisa mentir para mim, eu não sou idiota.
— Certo...
''Certo''? Ele não me contrariou?
— Idiota.
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