Prisão de Gelo
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Acordei-me, estava meio zonza e demorou pra mim conseguir focalizar onde eu estava, aos poucos a visão foi voltando e o entendimento de tudo que aconteceu. Olhei para meu ombros na hora, ambos enfaixados mais não havia dor ousei mexer meus dedos e consegui. Por um segundo pensei que aquilo era uma peça pregada pela minha mente.... mas eu sabia que não era. Eu sabia que Sawuell havia conjurado o poder de gelo e então golpeado ambos ombros, eu senti aquela dor e eu vi meu sangue espalhado. Aquilo tudo era verdade.
Tentei ver onde eu estava mais não fazia ideia, não era meu quarto era outro. Ouvi a porta bater e a pessoa que eu menos esperava estava em minha frente.
— espero que tenha conseguido recuperar as forças bem – comentou ao me ver acordada.
— você quase me matou!!
— quase... adoraria tê-lo feito... – ele resmunga algo -... o ritual era sobre seu sangue então eu precisava. E também uma boa aula de boas maneiras pra você.
— seu desgraçado – gritei querendo saltar nele, mas na hora senti dor.
— só pra te avisar. Os ferimentos não estão totalmente curados já que foi injetado o gelo daqueles espetos, então se você sair da linha – ele levanta a mãe e eu começo a sentir um frio por dentro se espalhar.
Cada vez que eu via ele parecia mais.... mau
E talvez menos humano porque o olhar frio que ele me lançava não era normal. Havia mais dois rituais, eu devia arranjar um jeito de acabar com isso.
— antes que eu me esqueça, está proibido as suas fugas vestida de camponesa correndo pela cidade – ele se aproxima de mim – eu tenho olhos por todas as partes. Deixei passar essa porque você não ia conseguir nada, mas saiba que se isso vier acontecer novamente seus amados amigos estarão mortos antes que você pronuncie meu nome.
Ele saiu e levou consigo o frio que se instalava no quarto. Então ele sabia da minha fuga e também não se preocupou com o que eu pudesse descobrir na igreja, havia muito mais coisas por trás.
Eu estava sem informações e decidida a mudar isso. Sai da cama, meus movimentos estavam bons então resolvi saber onde eu me encontrava.
Ao sair percebi que o corredor já era totalmente diferente do meu onde estivera. Era bem mais iluminado, nada sombrio como o último.
Desci as escadas e vi algumas criadas conversando, Loreis estava entre elas. Escondi-me.
—.... você entendeu? – perguntou Loreis com a voz autoritária pra uma das criadas.
— sim senhora, não vamos falhar! – respondeu a mais baixa com uma voz esganiçada.
— é bom mesmo! Precisamos da Anastácia desacordada para o próximo ritual, Khartyw sabe como ela não se submete fácil. O ultimo ritual mostrou isso. Vou contar com vocês.
Ambas assentiram. Voltei apressadamente para o meu quarto, não ia ser bom elas me verem ali escondida. Após fechar a porta pensei no que escutei. Então eu não tinha me submetido bem aquele ritual, o que é um ponto pra mim e hoje iriam me dopar pra fazer sei lá o que, mas o que mais me intrigava era Loreis ter usado o nome de Khartyw especificamente então ela sabia o que iria por vir. Será que todos sabiam? Será que a Garota de Franja sabia?
Não sai mais do quarto, esperei as criadas virem e dito e feito. Loreis e mais três chegaram, Loreis deixou uma bandeja com comida ao lado da minha cama. Será que tinha um ingrediente especial? Ela estava com um ar contente.
A garota de franja estava entre elas e seus olhos sempre me procuravam, puxei sua manga em certo momento e passei um papel.
O que você sabe do sacrifício a Khartyw?
Ela já tinha me falado sobre os deuses, me contava sobre os olhos que me vigiavam então era bem possível que ela pudesse saber sobre esse plano. Ela não leu de imediato, mas pronunciou com aqueles lábios rosados uma única palavra “comida”.
A comida, ela então confirmava o que eu suspeitava. A comida tinha algo a mais e por aquela informação eu sabia que a garota de franja estava por dentro de tudo ou quase. Antes de saírem, ela leu e logo em seguida olhou para mim. Pude ver a confirmação em seus olhos. Ela sabia de algo!
Demorou bastante para ela retornar, dessa vez sozinha.
— inventei a desculpa de ir à cidade. Eles não sabem que estou aqui – disse ao fechar a porta – acho que já está na hora de abrir o jogo contigo. Você não é como as outras, podemos mudar isso tudo.
— por favor, sente-se – disse apontando a cadeira em minha frente.
— é o seguinte.... essa história de casamento é uma furada. – ela estava afobada, pedi pra se acalmar – é uma farça, uma cortina para esconder os verdadeiros motivos. Você já se perguntou porque ninguém sequer nota a ausência do rei?
Realmente o pai de Sawuell nunca passou em minha cabeça era como se fosse um mero figurante disso tudo.
— ninguém nota! Porém eu comecei a notar após começar a trabalhar aqui, jamais perguntei as outras criadas já que são todas marionetes.
Tudo começou ainda na guerra que se travava com seu reino. Ghropol ia perder, era certo. O Rei então apavorado pediu ajuda aos deuses, ninguém respondeu seu apelo... ninguém exceto Khartyw. O preço era alto, a vida do rei de boa vontade em troca da vida de todos. Ele aceitou. Então a guerra acabou, só que ele não cumpriu o que prometera. Bom quando houve a aliança entre essas duas nações, quando Sawuell já sabia sobre sua prometida, você. Ele fez um ritual, sabia que Khartyw estava bravo e por isso desse inverno rigoroso, então fez um pacto uma tortura reconfortante de seu próprio pai e a vida de uma jovem moça. Em troca, ele teria um acesso ao poder do gelo e queria de volta sua amada.
Teve varias tentativas antes de você, todas se submeteram.... mas isso não trouxe a amada dele, uma pegadinha cruel de Khartyw. Tirou a vida dessas jovens moças. Não era aquilo que ele queria.
Porém Sawuell teve um pequeno acesso ao poder de gelo que você viu com seus olhos, todo esse poder foi banhado por sangue de inocentes. Todas elas passaram pelo mesmo teste que você!
Ao ver seus planos frustrados ele percebeu que precisava de uma jovem “difícil”, Khartyw queria uma alma “indomável”. Então você é encaixada nesse plano, a filha do até então do reino rival em troca de uma aliança. Dois coelhos em uma cajadada só.
— como você sabe disso tudo? – perguntei.
— a velha ama de Sawuell antes de morrer me contou.
— acho que tem um erro nisso, eu me submeti a todos os ritos até o momento.
— na verdade não. Seu corpo não aceitou totalmente o controle do gelo – comentou – ele expeliu uma grande quantidade pra fora.
— como?
— após o acontecido você foi levada a uma ala dos Curandeiros, eles fecharam as feridas.... só que um liquido claro saía delas e você estava toda suada, como se estivesse se esforçando. Seu corpo lutava contra aquilo, eu olhei de longe.
— então pelo que você diz, eu sou somente uma troca pra Khartyw? Em troca de outra mulher?
— sim, isso. Pelo menos até onde eu sei.
— você sabia que a comida estava com algo pra me dopar, né?
— sim, como o processo não deu certo vão tentar de novo. Só que com você fora do controle.
Deu-se alguns minutos de silencio.
— teria alguma maneira de evitar isso? Minha morte... a tortura do rei... esse inverno? Não quero mais sangue nessa história.
— eu não sei mas.... – ela dobrava o avental -... só se você pedisse ajuda a Visnasau, ela é a Deusa dos caminhos pode te guiar.
— como eu conseguiria isso?
— há um templo para ela, a uns 6 léguas daqui. Isolado, lá você poderia encontrar as respostas pra essas perguntas.
Só que acho prudente você ser levado pro rito novamente, podem achar que tem algo acontecendo.
— irei comer a comida sim.
— tem certeza que irá conseguir suportar não estando no controle?
— tenho que suportar não há meio termo – disse segurando suas mãos, eram frias como tudo ali – tenho que lhe agradecer por tudo que está fazendo por mim até agora. Mas me pergunto o porque de me ajudar?
— não precisa agradecer, eu só quero que você não tenha o mesmo destino que minha irmã. Sawuell a matou. – havia raiva na voz dela e uma dolorosa tristeza.
— nunca perguntei seu nome...
— Lany – respondeu – Anastácia espero que consiga suportar os testes que vêm a seguir e.... saiba que tem uma aliada.
Seu olhar era forte então ela saiu.
Virei-me para comida e resolvi comer um pedaço daqueles pães.
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Estava tudo escuro, sereno não havia nenhum som... parecia um vácuo, mas era tão reconfortante uma paz que eu não tinha com os olhos fechados.
Algumas imagens ali passavam, de criança, com minha mãe andando pelos corredores de Tripólis minha mãe sorridente....
Uma tristeza me envolveu com um manto.... uma saudade apertou meu peito, por aquela época que não viria mais.
“Você é minha aceite seu destino” dizia a voz sussurando.
Ele me envolvia com seus braços frios, sentia seu toque por todo meu corpo... o gelo penetrando em minha pele.
Ele me consumia, de pouco em pouco esquecia as imagens, esquecia tudo.... e só me encontrava com a escuridão. Ele iria tirar todo aquele sentimento, tristeza, dúvidas, incertezas...
Então eu finalmente seria livre.
“Aceite” disse novamente.
Não! Aquilo não era o destino que eu escolhera. Eu não seria manipulada, não seria uma marionete....
Nããããõ!!!!!
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