Prisão de Gelo
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O barulho das rodas da carruagem acompanhava meus pensamentos durante a viagem. Estava sozinha a exceção do Cocheiro enrolado em seu manto, pois em certo momento a temperatura começou a cair. Conversei com Sawuell uma única vez na primeira visita de seu pai ao nosso reino. Estávamos todos a comemorar a jovem aliança de Tripólis e Ghropol, era um maravilhoso banquete com iguarias das duas nações em que estavam presentes a aristocracia de tais. Victor conversava animadamente com Sawuell, parecia que ambos se conheciam desde pequenos, entretanto não fazia nem 10 minutos. Eram muito parecidos, pela forma que se portavam. Ambos detestáveis! Após um tempo, Sawuell se dirige a mim estava um pouco embriagado bem aparente na forma que falou comigo.
— Anastácia de Tripólis saiba que será uma mera meretriz em minhas mãos...
Naquele dia eu não compreendi o significado daquelas palavras, senti-me ultrajada pelo insulto. Agora eu sei, já estava leiloada desde o começo da aliança.
Conseguia ver a neve já caindo pela janela, sem sombra de dúvidas adentrávamos ao país de Ghropol. Estava tremendo e não era pelo frio.
“O amor não é tão simples quanto pensa, muitas vezes vem carregado de dor. Mas está lá, uma chama que pulsa, que move.... a ignorância de um sábio e a inteligência de um tolo”
— mas Roob, é possível cultivar amor em um terreno seco? – perguntei enquanto o ajudava na organização das estantes.
— jovem Anastácia, se for verdadeiro o amor nascerá em qualquer lugar – respondeu parecendo olhar a minha alma.
O que Roob me dissera e as palavras de Sawuell dançavam em sincronia em minha mente. Ambas opostas que traziam sentimentos conflitantes em mim. Porém eu não tinha pra onde escapar, as correntes já estavam presentes antes mesmo de me dar por conta.
Chegamos ao que parecia uma cidade pequena, já estava escuro e não dava pra ver muitas pessoas na rua. Meu traseiro já estava dolorido da longa viagem. Paramos na frente de uma hospedaria. O cocheiro desceu e em pouco tempo retornou:
— Senhorita Anastácia, vamos dar uma parada já que está anoitecendo e os cavalos estão cansados. Consegui quartos nesta hospedaria.
— claro, tudo bem!
Desci e entrei na hospedaria a nossa frente, havia um bar na entrada e se encontrava alguns poucos clientes. Um jovem rapaz estava atrás do balcão.
— Senhora Minerva? – Minerva? Aah sim, um nome falso não seria certo a princesa de Tripólis vagar por hospedarias ao cair da noite. Concordei – seu marido reservou dois quartos conosco – o olhar que ele dirigiu foi de estranheza, ignorei – acompanhe-me por favor.
O quarto era simplório. Uma cama de solteiro com uma colcha rose, uma porta que levava ao lavabo e uma cadeira de madeira perto da porta.
— o jantar será servido em seus devidos quartos. Acomode-se – disse o rapaz assim se retirando.
Sentei-me na cama, estava realmente cansada e com frio. O quarto era pequeno e gelado e sabia bem que aquela fina colcha não proporcionaria calor nenhum. Pouco tempo depois o cocheiro chegou ao meu quarto, já não estava enrolado em vários mantos e assim pude ver melhor seu rosto, era belo.
— perdoe dizer que éramos casados, não queria levantar suspeitas – disse ele.
— sem problemas...
— Roz – respondeu – meu nome é Roz.
— Roz! – confirmei – onde é seu quarto?
— é o do lado direito, senhorita. Suas malas estão comigo se quiser que eu as traga.
— sim, por favor, preciso de um banho estou a congelar. Traga a mais grande.
Ele retornou com a mala, assim que me entregou nossas mãos se tocaram e eu percebi que não era só eu que estava congelando.
— você está congelando!
— digo o mesmo da senhorita! – ele retornou a falar diante do meu olhar – não se preocupe, logo após o jantar irei me aquecer. Com sua licença.
— é claro.
Após Roz sai do quarto, tranquei a porta. Havia uma outra que lhe dava a um pequeno banheiro que uma banheira ocupava quase todo seu espaço. Abri as torneiras e a deixei encher. No palácio centenas de criadas estavam prontas pra ir me banhar, mas sempre me senti uma boneca que não tinha capacidade de tomar um banho, calçar os próprios sapatos e vestir os vestidos. Então sempre as dispensava educadamente. Agora estava lá, eu finalmente sozinha. Despi o vestido, o corpete e todos os adjuntos que compunham o vestuário feminino. Arrepiei-me estava realmente muito frio. Desfiz minha trança e entrei na banheira.
A água esta bem quente. Afundei mais querendo que a água levasse pra longe meus problemas. Não sei quanto tempo fiquei assim, mas comecei a ouvir batidas na porta:
— seu jantar, Senhora Minerva! Deixarei aqui – gritou o que seria aquele rapaz.
— está bem! Muito obrigada.
Sai da banheira, pingando e molhando todo aquele pequeno espaço. Coloquei um vestido mais grosso e fui comer meu jantar.
A noite estava fria eu bem que suspeitei que aquela simples colcha não traria calor algum. Já fazia um tempo que eu havia me deitado e estava a tremer.
Tive uma ideia, sempre fui uma moça casta, porém era isso ou literalmente morrer congelada. Fui ao quarto a direita e bati. Demorou alguns poucos segundos pra Roz atender. Ele estava despenteado, usava roupas mais soltas e estava assustado/confuso de me ver ali.
— Senhorita Anastácia?... – sua voz estava rouca
— Roz não quero que entenda mal, mas estou a congelar com aquela colcha – dei um passo a frente – queria saber se poderia dormir com você.
Roz não sabia o que responder. Entrei mesmo assim, seu quarto era um pouco maior e vi minhas malas todas dispostas no canto da parede. Então pensei naquela situação toda, eu a princesa prometida de Tripólis em um quarto com um reles cocheiro e vestida só com uma chemise. Um rubor subiu até meu rosto.
Ele se deitou, estava tão envergonhado como eu. Não podia negar que exaltava uma certa atração, deitei-me ao seu lado aconchegando. Senti seus braços a me envolver, ele cheirava a sabão e foi com esse aroma que eu adormeci.
....................................
Um delicioso aroma me acordará. Um perfume forte e amadeirado, sem dúvidas Patchouli era uma das principais plantas que Roob cultivava em seu viveiro por seu aroma forte, dava muitos perfumes e óleos para o palácio. Então percebi de onde vinha, princesa Anastácia estava dormindo profundamente em meu peito. Seus cabelos negros faziam uma cortina em seu rosto, sua respiração estava leve. Então eu percebi a grande burrada que estava acontecendo, eu deitado junto a minha soberana que estava prometida a outro.
Fui mandado ao palácio de Tripólis com apenas 06 anos, logo após incendiarem a vila onde eu morava com meus pais, ambos mortos, pelos soldados de Ghropol. Então eu não estava nada feliz de ir pro país culpado pela morte das pessoas que mais amava. Mas era a minha obrigação, não podia recusar.
Deixei Anastácia ainda dormindo, evitei tocá-la desnecessariamente não queria me meter em confusões. Ainda vinha a minha mente ela batendo na porta, seu cabelo já despenteado, um tanto corada pelo pedido a seguir. Parecia uma simples moça e não a futura rainha de uma nação.
Vesti-me e fui levar as malas de volta a carruagem, o dia estava claro, mas o frio ainda residia. Prendi os cavalos, estava concentrado e nem via a aproximação dela.
— bom dia Roz – virei-me, lá estava ela deslumbrante em um vestido azul escuro, seu cabelo na típica trança frouxa. Seu olhar era focado
— bom dia senhorita Anastácia! Os cavalos estão prontos, podemos partir a qualquer momento
— então vamos partir – respondeu subindo. Não tinha nada da garota da noite.
Retomamos a estrada se dirigindo a saída daquela pequena cidade. O trajeto foi tranqüilo e os cavalos estavam em uma marcha ritimada. Realmente queria que chegássemos logo a Capital Real, pois a tendência era aquele frio aumentar mais. Olhei disfarçadamente pra trás, onde havia uma janela na parte da frente da carruagem. Anastácia estava encostada na janela, seus olhos se fixavam na neve que caía perdidos em pensamentos. Era sempre assim, quando não a víamos com a postura forte ela estava mergulhada em pensamentos. Quer dizer não que eu a ficasse vigiado sempre, longe disso. Mas trabalhava com Roob no cultivo do jardim do palácio e a via sempre sentada no mesmo banco com aquela mesma expressão ou quando ela vinha visitar Roob. Realmente queria saber o que tanto a preocupava, ela não era a princesa? Tinha tudo o que queria, iria se tornar a rainha de um próspero reino. Ela realmente não tinha o que reclamar.
Meu manto já estava branco pela neve. Afastei os flocos e conduzi os cavalos.
Fale com o autor