Prisão de Gelo

3 Capítulo 3


Foram exatamente dois dias de viagem até chegar a capital de Ghropol. Paramos duas vezes, para descansar e porque os animais estavam cansados, muitas vezes a neve atrapalhava nossa jornada. Roz e eu só trocamos palavras quando muito necessário, ninguém tocava no assunto da primeira noite e de certa forma ele me tratava de maneira mais fria que antes.

A cidade real de Ghropol era magnífica, embora coberta de branco, trazia um ar misterioso que coincidia bem com o céu cinzento. Conseguia ver as pessoas em seus trajes de inverno, havia pouco movimento nas ruas. Espiava da janela da carruagem embora tenha tapado um pouco a visão com a cortina, sei que era já esperado que a princesa de Tripólis chegasse, porém optava por ser discreta e acho que ainda não estava pronta pra entender tudo isso.

A carruagem foi conduzida para o centro, por onde passava chamava atenção dos moradores que a olhavam confusos. Era dourada o total oposto daquele lugar cinzento, apresentava o brasão de Tripólis em suas portas, uma flor circundada por espadas. Beleza cautelosa.

O frio aqui era pior, minhas mãos mesmo nas luvas já estavam congeladas e eu conseguia bem ver minha respiração. Mesmo estando aqui dentro era frio me perguntava se Roz estava bem.

Adentramos a estrada que levava diretamente ao palácio, via-se diversos guardas a postos em trajes propícios ao inverno. Paramos na frente da escadaria principal, encontrava já alguns criados pra cuidar das malas e levar os cavalos para os estábulos. Desci com a ajuda de Roz.

— seja bem vinda, princesa Anastácia das terras verdejantes de Tripólis – falou à mulher com uma reverencia a que estava a posto mais ao fundo. Usava um vestido azul com pelagem em suas mangas e um gorro da mesma tonalidade. Seu rosto era puro mármore – sou Jahen assistente pessoal de sua alteza, príncipe Sawuell. Ele manda suas singelas desculpas, pois está em reunião e a pede que se sinta em casa, em sua nova morada.

Não imaginava Sawuell sendo respectivo com as palavras. Não imaginava mesmo.

— por favor, acompanhe-me – disse fazendo meia volta e entrando no castelo.

O castelo de Ghropol passava um ar deprimente, se localizava na ponta mais alta da cidade, longe de tudo, frio, privado e isolado. Pontuava ao redor algumas casas, possivelmente de nobres da corte. Tão diferente de Tripólis, com os jardins floridos, o sol e toda a coloração resplancedente. Ali era um lugar deprimente, realmente o lugar perfeito pra Sawuell.

Subimos um lance de escadarias onde seu corredor era repleto de quadros e não havia muita iluminação. Algumas armaduras estavam dispostas pelas paredes. Arrepiei.

— aqui é onde estará seu quarto. Terceiro lance de escadas anterior ao do próprio príncipe. Como costume os preparativos serão consumados logo pela manhã, então peço que descanse – terminou parando em uma das portas a esquerda.

O quarto era grande, havia um espelho muito belo tendo em sua volta vários cristais e onde conseguia me ver por completo. Estava pálida o único resquício era o vermelho em minhas bochechas e nariz. De resto era um mero quarto de hóspedes.

— obrigada, pode se retirar – ordenei. Vi o olhar da tal Jahen para mim, ela não me passava confiança. Com certeza era uma cadelinha de Sawuell.

Me atirei na cama, não queria estar ali, não queria me casar, não queria sequer olhar para a cara de Sawuell. As palavras dele ainda martelavam na minha cabeça, além do comentário final do meu irmão. Ele estava aprontando algo e agora eu longe não ia conseguir descobrir. Uma batida na porta desperta de meus pensamentos.

— olá minha futura esposa – Sawuell estava posto em minha frente, suas feições não demonstravam nada. Como sempre. Em questão de minutos suas mão enlaçaram minha cintura. Seus dedos pareciam gelar minha pele mesmo com todos tecidos. – tenho que te por a par de todos os detalhes, não quero que se sinta desinformada. Seus dias de princesa dourada acabaram. Você não é nada mais que um titulo ou a barganha pra não explosão de um guerra, como preferir – sua mão levantava meu queixo, sentia o gelo pela minha pele. – não esqueça do que lhe disse aquela vez...

Seus olhos não apresentavam nenhuma afeição, ele me olhava de maneira fria como todo o resto que me cercava. Seu aperto era forte, quem passasse poderia pensar que era uma cena linda de um casal apaixonado, longe disso, ele queria me acuar, me por no que seria meu lugar. Ele seria tolo se acha que eu ia aceitar essa situação numa boa. O aperto afrouxou e um arrepio se seguiu. Sawuell olhou mais uma vez pra mim, tentando notar o efeito das palavras e então se virou e saiu.

Depois de um tempo algumas criadas vieram arrumar minhas malas, eu não as dispensei. Via elas indo e vindo com meus vestidos, separando, passando e os guardando enquanto se atarefavam olhei pela janela. Obviamente não tinha uma bela paisagem.

— ei, vocês... – todas olhavam para mim apreensivas, deviam achar que era alguma repreensão. Já dava pra perceber como era o tratamento por aqui. -... tem, a-alguma saída deste castelo? Não sendo a principal.

— têm a saída dos funcionários que fica na cozinha... – respondeu a que aparentava ser a mais velha. Desconfiança era notável em seu olhar -... se me permite perguntar vossa alteza, por qual motivo seu interesse?

— me preocupo com minha própria segurança. Devo saber de todas entradas e saídas deste castelo. – respondi me impondo. Sawuell e ninguém iria me controlar.

Após a saída de todas, uma delas estava escorada na parede. Seu cabelo loiro era curto com uma franja comprida, olhava para mim de esguia cuidando as outras se já estavam longe.

— a saída da cozinha é vigiada... – resmungou ela, como se tivesse pensado se devia falar -... principalmente com a sua chegada.

— por que está me falando isso? – perguntei virando-me.

— percebo sua resistência por baixo dessa cortina. Vi você na escadaria principal, eu era uma das criadas. – ela assoprou um fio de sua franja – e também o castelo está cheio de regras pra quando chegasse. Achei ridículo, mas agora percebi...

— o que?

— que não vai ser mais uma marionete nas mãos do príncipe. – seus olhos azuis se destacavam embaixo da franja. – a maior parte das criadas são seus olhos, além de prestarem certos “favores” – ela pronunciou como se fosse algo repugnante – a que te respondeu, Loreis ela é uma destas. A mais leal, se eu fosse você teria cuidado com o que pergunta ou fala. “as paredes tem ouvidos”

— e por qual motivo eu deveria confiar em você?

Ela riu antes de responder. Uma risada sem graça.

— por que é o que você tem. Com sua licença.

Ela se retirou. Pelo visto eu não sou um mero “brinquedinho”, para uma criação de regras e olhos por onde eu for, alguém quer se precaver que eu não faça nada fora do lugar. Que eu siga o roteiro. E pelo jeito eu posso arrumar alianças nesta prisão de gelo.