Prison Magic

24 Capítulo 24


Autora: Toynako

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Prison Magic

Capitulo 23 (ou 24, se for no Nyah!)

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Uma aura maligna deslizava por entre a floresta, desta vez estava realmente mal humorado com o que vira. Era impossível mais alguém ousar tocar em algo que era seu daquela maneira.

Não conseguia mais controlar sua fúria, a diversão estava acabada, o plano se iniciaria. Shisue sorriu, um daqueles seus sorrisos afiados, cínicos por natureza, que fazem qualquer um ter noção de que aquele Puro Sangue não liga para nada nem ninguém.

Só para seus objetivos.

E era para realizar esses que fazia tudo. Vectorius? Não, nunca este fora o objetivo central. Como todos sabiam, nada que não lhe é útil merece sua atenção. E aquele vampiro de cabelos prateados, com olhos esmeraldas era peculiar demais.

Sua cria era parte de um plano maior.

Talvez no começo não fosse, nos anos que ficou sem ingerir uma única gota de sangue, nos anos que viu-o crescer. Mas aquela mudança de coloração na pupila e nos cabelos fez perceber que aquele vampirinho teria muito mais utilidades do que pensou ao início.

Por isso o queria.

Bem, talvez não só por isso.

Parou de se mover, quando avistou o seu novo servo, a terminar de se arrumar. Aproximou-se, furtivamente por trás, sorrindo predador ao ver que este não o notara. Seus dedos tocaram de leve aquela trança, mas logo se afastou.

“— Ainda a fazer isso, minha criança?” – Indagou-lhe, notando o susto que este teve ao só agora o notar ali. “— Que foi? Um gato comeu sua língua?”

“— Eu... Err...” – Ficou mudo, aquele olhar parecia raivoso mas ao mesmo tempo tão provocativo.

“— Ou devo mudar a pergunta, um gato te comeu?” – Sorriu traiçoeiro, olhando-o com um olhar felino, talvez seu sobrenome fizesse jus a sua pessoa.

“— Eu estava distraído...” – Sorriu-lhe doce. “— Pensei que estivesse junto com Vectorius agora.”

“— Não te devo explicações...” – Estreitou o olhar. “— Fique entre os elfos, logo chamarei teu nome, só terá que fazer o que eu mandar.”

“— Sim, Mestre.” – Curvou-se polidamente, com um sorriso travesso, terminando de arrumar-se e saindo dali.

“ Será divertido brincar com os dois... ” – Pensou, vendo aquela trança ricochetear enquanto o menor se afastava.

Sorriu, colocando a máscara de volta, saindo dali. Faltava só mais uma peça, uma pequena diversão extra, algo como bônus. Voltou para a parte agitada da festa, parando ao escutar uma musica tão conhecida.

Olhou para o palco, por um momento confundindo-se, a semelhança era demais. Lá estava seu filho, tocando a música que a mãe deste tinha feito exclusivamente para sua pessoa.

As notas eram tristes, inconsoladas, entretanto tinha um que de rebeldia, de uma raiva não contida. Perfeito. Nada como terminar tudo, com a música que iniciara seus planos.

A mais de oitocentos anos, queria algo.

A mais de oitocentos anos, tramava.

Esta era uma das coisas boas da imortalidade, poder apreciar tudo lentamente. Saboreando cada pedaço. Olhou bem para aquele loiro, este era o único a tocar naquele grande palco.

Tirou sua máscara, olhando bem para aquela branquidão. Irônico não? Um ser tão negro quanto a si, usando aquela roupa tão pura e que para alguns representava alegria. Apertou esta em suas mãos vendo-a trincar para instantes depois rachar, caindo no chão.

Bastou um pequeno movimento seu, para um círculo de fogo rodear o chão que estava, expandindo-se mais e mais, queimando aquela grama tão verde e bonita.

A música parou. Gritos foram ouvidos.

Mas logo a melodia continuou, acompanhada de gritos e pedidos por socorro. Aquele loiro não estava realmente se importando com o que acontecia aquela vila. Continuava a tocar sua melodia, em um tom mais raivoso, mais ansioso. Seus olhos não desgrudavam de seus dedos, que bailavam nas finas cordas.

O cheiro de cadáveres em combustão se espalhou por todo o lugar. Aquela festa havia se tornado um inferno. O número de vítimas não era mais calculado, muitos não entendiam, bastavam triscar no fogo para queimarem até a morte.

Shisue ficava ao centro, vendo a paisagem se modificar, rindo ironicamente ao som daquela música, da indiferença daquele caçador. Olhou de relance para este, rindo mais ao ver um sorriso irônico como o seu naquela face.

Tudo estava só começando.

—-X--

Veck olhou assustado para Yami. Sabia que presença era aquela, era seu Mestre não tinha dúvida alguma. Pensara ter sido apenas uma impressão sua há algum tempo atrás quando sentira a presença deste.

Grande engano aquele.

“— Yami, é o meu Mestre.”

“— Notei, é impossível não notar com tantos gritos... E aquele fogo ali...” – Ironizou, apontando.

“— A Vila!” – Desesperou-se, arrumando-se melhor para ir lá.

“— Onde pensa que vai!?” – Segurou-o firme pelo braço.

“— Ajudá-los.”

“— Só vai conseguir cair nas garras daquele sádico, como daquela vez... Esqueceu que ficaste imóvel com ele a te beijar?”

“— ...” – Congelou, na verdade tinha esquecido, fora parte da amnésia que tivera a pouco tempo. “— Não me importo!”

“— Nós nos importamos!” – Esbravejou. “— Fique aqui!”

“— Irei junto!”

“— Fique!”

“— Irei junto!” – Segurou o braço do demônio, puxando-o mais para si. “— Pare de reclamar e vamos fazer algo.”

“— ...” – Revirou os olhos, deixando por isso mesmo.

Ambos correram na direção onde viram um clarão, um fogo indomado. O que viram, quando chegaram, era uma visão por demais medonha. O campo tão verde todo queimado, junto com a vila e as árvores em volta.

No chão, seres hediondos comiam as carnes dos elfos, destroçando-lhes os músculos e comendo-os vivos ainda. Outros corriam desesperados enquanto pegavam fogo, até darem seus últimos suspiros.

Um cheiro putrefato se espalhava pelo local. Em meio a tudo isso, para parecer mais doentio ainda, uma música mórbida era tocada, olharam para o palco, misteriosamente intacto, estranhando o loirinho estar a ser dono de melodia tão caótica.

Engoliram em seco quase ao mesmo tempo os dois, o calor ali era infernal assim como a visão de tudo. Só haviam mortos, sangue e fogo naquele lugar.

Aos poucos o fogo fora abaixando e puderam ver o real estado daquilo, era mil vezes pior do que estava antes. Mas puderam ver ao centro, no meio daquele pandemônio o Puro Sangue que matou seus pais na primeira chance que teve. Aquele ser assombroso de olhar tão extremamente negro.

Shisue Abyssinian.

“— Bravo, bravo...” – O ex-pierrô batia palmas com deboche, ainda rindo como louco. “— O espetáculo fora bravíssimo, pena chegarem tarde...” – Olhou para os dois que chegaram há pouco.

“— Mes-Mestre...” – Veck estremeceu, recuando um passo.

“— Viste, minha bela criança? Isto tudo aconteceu por sua causa apenas...” – Lambeu os lábios. “— Se fosse menos rebelde e não escutasse o que os outros falavam, nada disto estaria acontecendo...”

“— Shisue seu ser miserável, como ousa aparecer aqui!?” – Esbravejou Yami, segurando com força sua espada.

“— Simples...” – Fez uma pausa dramática. “— Ousando.” – Concluiu com sarcasmo na voz.

“— Vampiro dos infernos...”

“— Ora, ora...” – Mal se importava com os comentários daquele amaldiçoado. “— Não faço nada por maldade. Faço pelo puro e doentio prazer... Bem, talvez por maldade também.” – Comentou, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

“— Seu-” – Iria partir para cima, se não tivesse sentido a mão do outro em seu braço. “— Pare Veck!” – Tentou se soltar.

“— Não! Eu conheço aquele sorriso ele irá te matar.”

“— Ele irá nos matar se não fizermos nada.” – Tentou se soltar, mas incrivelmente o outro parecia mais forte.

“— Não.”

“— Quanto sentimentalismo barato... Coisas como amizade e amor são os maiores logros deste mundo...” – Murmurou Shisue, olhando frio para estes, ainda meio distantes de si. “— Oroi, apareça.” – Chamou-o.

Lentamente o menor andou até seu Mestre, desviando dos corpos apodrecidos no chão, sentindo-se mal por tudo aquilo. Mas o que poderia fazer contra uma vontade de seu dono?

“— Chamaste meu Mestre?” – Curvou-se ao seu lado, ajoelhando-se no chão queimado.

“— Sim... Ainda tem tempo da última valsa.” – Sorriu, de forma que seus dentes pontudos ficaram bem a mostra.

“— Claro meu mestre, se é desejo seu que eu dance cont-” – Fora cortado.

“—Não dançaras comigo e sim com ela...” – Apontou.

Só agora todos ali observaram, algo que chocou até mesmo Yami que não conhecia aquela pessoa. Um daqueles que comiam os outros elfos, se levantou. Trajava um vestido vermelho de alças com uma cauda enorme, alem de um véu de noiva da mesma cor meio transparente cobrindo sua face.

Entretanto esta estava completamente suja pelo sangue dos corpos que andara se alimentando, suas delicadas mãos jogaram de lado uma tripa que arrancara da barriga de uma elfa a instantes, levado seus dedos a boca, lambendo-os.

Era Lucy, a doce e gentil garota loira, aquela que não faria mal a ninguém. Agora estava nada mais que um zumbi, matando junto com aqueles outros, comendo carne viva, ainda sangrenta e pulsante, tingindo seus finos lábios daquela cor.

Contudo sua beleza era a mesma, aquele mesmo sorriso doce agora, em quanto pisava pelos corpos no chão, ao se aproximar mais do Puro Sangue que a revivera. Não tinha mais consciência apenas o instinto primitivo que precisava matar, esquartejar e destruir tudo ao mando daquele vampiro.

Parou ao lado deste, aguardando qualquer ordem.

Oroi olhava aquela garota com um espanto enorme, nunca pensou que seu Mestre fosse fazer isso com alguém que era tão bondosa, que preferia sofrer a ver sofrimento no rosto dos outros. Agora nada mais era que um monstro usando aquela doce aparência.

Olhou para seu Mestre, como se pedisse alguma explicação, algo que fizesse ter certeza que aquela era realmente a Lucy, sua única amiga, naquele meio todo. Este apenas olhou frio para si, voltando sua atenção para Vectorius.

Se o trançado estava surpreso imagine a reação de Veck. Este mal respirava, olhava aquilo com uma dor tão enorme no peito, que se fosse vivo pensaria que estaria tento um ataque do coração.

Segurava-se a Yami, tendo esse como único apoio. Ali estava a pessoa que mais amava naquela morte sua, bem mais a frente, parada ao lado de seu tirano Mestre. Aquela com quem cansou de sonhar tendo o calor dos lábios de volta.

Não conseguiu resistir ao ver aquela cena tão horrenda, lágrimas verteram de seus olhos, suas pernas fraquejaram tanto ao ponto de tombar ajoelhado ao chão, nem o apoio que tentava ter bastou para impedir isso.

Se não tivesse feito uma promessa há tempos atrás para aquela mesma garota, findaria sua vida naquela mesma hora.

O demônio olhou para o vampiro ao seu lado, o completo estado de pânico que ele se encontrava, tudo por causa daquele zumbi em formato de garota que Shisue mostrara. Sua cabeça logo formou a resposta para aquilo, só podia ser a Lucy que Cain ouvira de Luna a tempos atrás, falando que Veck só amava aquela humana.

“— Gostou do seu primeiro alimento, Lucy?” – Indagou-lhe Shisue, jogando para trás o véu vermelho, tocando nos lábios ensanguentado desta.

“— Sim, senhor Shisue.” – Respondeu-lhe com uma doçura ímpar, como se fosse à verdadeira ali.

Desta vez, quem chorou fora Oroi, não acreditava no que acontecera com a loira. Queria a ajudar, desesperadamente queria ajudá-la. Mas não podia. Seu amor vinha primeiro, o medo de perder seu Mestre vinha primeiro.

Apenas fechou os punhos ao lado do corpo, ficando tenso.

“— Que bom que apreciou... Sabia que iria se acostumar rápido ao sabor de carne viva.” – Levou sua unha a bochecha desta, fazendo um corte profundo ali, maculando aquele tão delicado rosto.

“— Ahhwnnm...!” – Gemeu sem pudores esta, estremecendo por completo.

Veck retesou-se todo ao escutar aquele gemido, sua mente ficou zonza, sentia náuseas. Aquilo era absurdo demais, Lucy nunca gemeria daquela forma, tão exibicionalmente. Não aguentou, acabou por vomitar mesmo.

“— Veck?” – Yami olhou-o preocupado, tentando de alguma forma amparar o amigo do hospedeiro, não poderia se afastar deste no estado em que estava.

“— Que foi, minha bela criança? ” – Iniciou o mais velho, parando de tocar aquela garota. “— Sua utopia está aqui. Vamos Lucy, fale algo para seu amado... Digas o que quer deste.”

“— Vectorius...” – Começou esta, olhando com ternura para o ser ajoelhado, que a fitava perplexo. “— Eu te amo.”

“— Eu também...” – Este abaixou a cabeça, não querendo ver aquela por quem iniciara tudo, daquele jeito.

“— Eu quero que volte para mim... Eu preciso tanto de você... De seus abraços... Da sua ternura... Daquele jeito infantil com que você sorria todas as manhãs quando vinha a minha casa ver como eu estava... Vectorius, não quero me perder mais de você, não quero ser deixada no esquecimento.” – Falou a garota, chorando copiosamente.

Lágrimas vermelhas, que se misturavam ao sangue que estava em seu rosto, sangue este que fora adquirido por meio de canibalismo.

“— Errado...” – O trançado sussurrou, sabendo que nada daquilo era o que a verdadeira garota queria. “— Mestre, está errado...” – Murmurou mais baixo ainda, mas notou que este escutou pelo olhar medonho que lhe lançou, mandando-lhe calar a boca.

“— Está na hora de uma ultima dança... Uma valsa não eterna.” – Mandou o de olhos negros, sorrindo malevolamente.

“— ...” – A garota caminhou o percurso até o Oroi, pisando por um ou outro corpo ali. “— Vamos dançar Oroi?” – Sorriu-lhe doce. “— Me ensinara tão bem.” – Estendeu a mão.

“— Senhorita Lucy, eu...” – Questionou-se, se fazer aquilo era o correto.

Veck olhou para aquela cena, Seus olhos estavam compenetrados, quase não piscava. Sua respiração estava lenta, mas descompassada, mal lembrava-se de respirar. Escutara com perfeição, cada frase dita por esta.

Seu mundo resumiu-se a apenas observá-la, e não gostou ao vê-la segurando a mão daquele outro que nem conhecia. Mas pela cor dos olhos, sabia ser uma cria ou servo de seu Mestre.

“— Pavão, toque uma musica mais apropriada para uma valsa...” – Ordenou mais alto, vendo o coelho e a garota de vermelho indo para mais ao centro, ficando em posição para a música.

“— Não vejo motivos para te obedecer seu monstro asqueroso.” – Reclamou Guille, levantando-se, segurando firme a lira que tocava.

“— Não, é?” – Olhou para este, sorrindo diabolicamente. “— Filhos tem que obedecer aos pais, não?” – Riu. “— Não é Guille Abyssinian?”

O loirinho engoliu em seco, sentando-se pasmado na cadeira que estava. Seu olhar dourado recaiu sobre tudo aquilo. Se aquele ser sabia quem era, seu plano já estaria por água abaixo neste instante.

Não iria chorar, apenas sorriu com igual tirania, levando seus dedos a aquele instrumento, acariciando as cordas antes de começar uma melodia de valsa, levemente ritmada.

“— Claro que sim, papai...” – Ironizou, focando sua visão em tudo ali, talvez, se tivesse uma brecha, poderia tentar fazer seu plano ali também.

“— O loiro dos infernos é filho do Shisue!?” – Yami arregalou os olhos, aquela revelação era por demais intrigante, explicava muitos pontos.

“— Meu Mestre... Guille...” – Veck tentava colocar os pensamentos em ordem, mas era tudo tão de repente, tão rápido que não tinha como assimilar tudo.

Novamente sentiu aquela ânsia de vomito, ao ver valsando aqueles dois ali. Davam voltas e mais voltas, pisando sobre os corpos carbonizados, o vestido da garota balançava belamente aos passos que davam, assim como a trança do garoto movimentava-se junto com seu corpo.

“— Chega... Eu não aguento mais isso Mestre... Essa não é a Lucy, a minha Lucy.” – Desabou a chorar novamente.

“— Não?” – Este riu. “— Oroi, faça um corte no braço dela.” – Mandou.

“— Mestre!?” – Olhou da garota para o mais velho. “— A senhorita Lucy ela...”

“— Mandei cortar. Devo ir ai e retalhar a garota. Ou você mesmo fará logo?” – Murmurou raivoso, estralando os dedos e jogando a adaga prateada que usara para prendê-lo a algumas horas, bem ao lado onde estes dançavam. “— Mostre para meu belo de olhos verdes que esta é a Lucy de verdade, mostre-lhe o sangue dela.”

“— Me corte Oroi...” – Se aproximou deste, parando de valsar. “— Irei adorar ser machucada por você...” – Sorri-lhe gentil.

“— Na-não...” – Abaixou a vista, vendo aquela adaga.

“— Vamos Oroi, tem que obedecer ao senhor Shisue... Se não este nunca lhe amará.”

Aquilo atingiu em cheio o coração do jovem vampirinho. Tinha que obedecer.

“— Desculpe, senhorita Lucy...” – Pediu, com os olhos cheios de lágrimas, mas não deixando estas derramarem. “— Eu pensei que isso não aconteceria desta forma... Que em seu reencontro pudesse dizer o que quisesse...”

“— Mas eu disse tudo que quis.” – Falou-lhe, estranhamente com lágrimas carmesins escorrendo novamente por sua face.

“— Lucy!” – Tentou gritar para ver se a garota voltava a ser o que era.

“— Cale a boca Oroi, faça o que eu lhe mandei, não me contrarie. Sua utilidade nessa festa é só esta.” – Esbravejou o Puro Sangue, não tolerando mais aquela demora.

“— Sim... Meu Mestre...” – Acatou triste, abaixando-se e pegando a adaga.

Forçou lentamente a faca de encontro ao braço desta, sentindo asco daquele sangue, que escorria, sentindo nojo da cara de prazer que aquela garota lhe deu ao sentir tal dor. Fez um corte profundo, vendo o sangue escorrer dali em abundância.

Recuou alguns passos, observando Vectorius, o que teria de mais no sangue daquela garota que poderia fazer o vampiro ali querer ela?

“— Lucy...” – O olhar esmeralda fixou-se naquela cor.

Seu corpo inteiro pareceu gritar, vibrando simplesmente por ver o sangue daquela garota. Parecia que em seu interior, alguma fera selvagem queria roubar todo aquele sangue para si.

Não conseguira tomar todo o plasma daquela humana na primeira vez que mordeu. Lucy fora seu primeiro alimento. Nenhum primeiro alimento de um vampiro iniciante sobrevivia para contar a história.

Todos morriam, entretanto naquela fatídica noite em que tentou fazer isso, mesmo contra sua vontade. Seu Mestre a havia puxado de seus braços com vida ainda, não permitindo-o ter tudo daquela garota para si.

“— Compreende agora? Você não a ama. Só quer seu sangue.” – Alfinetou o vilão, rindo daquela cara de medo que apoderou-se de sua cria.

“— Vectorius, te darei tudo o que quiser de mim... Só venha viver ao meu lado...” – Pediu a garota.

“— Lucy...” – Este levantou-se.

Era atraído. Só que agora não sabia mais se era pelo amor que nutria por aquela garota ou se era pelo fato novo nunca pensado antes, que seu Mestre havia lhe dito. Era assustador pensar aquilo, mas agora não saia mais da sua mente.

E se tudo que passou com Lucy, todos aqueles sentimentos que teve não passassem de uma fantasia mirabolante de sua cabeça por não ter matado esta na primeira vez que mordeu alguém?

Olhou triste para esta, não sabia, não conseguia saber qual das versões era a verdadeira. A sua ou a de seu Mestre. Apenas andou lentamente em direção a esta.

“— Veck!” – Gritou Yami, mas quando fora se mover, não conseguiu, só então notando que correntes prendiam-no ao chão. “— Espere, não vá!” – Esbravejou, tentando se livrar daquela magia, não sabendo quando o outro a lançou.

“— Estou tão feliz... Vou poder ficar contigo, meu amor...” – Ela levou uma mão sua ao braço sangrado, sujando sua palma e estendendo-a para o outro. “— Venha, segure minha mão, vamos embora juntos.”

“— Vectorius, você não pode ir!” – Gritou outra pessoa, aparecendo no local.

Era Luna, que correra de volta, na verdade já estava a ir embora, mas ao ver um fogo alto voltou correndo. Esta alarmou-se primeiramente com a situação em que todos se encontravam.

O príncipe ou o demônio, acorrentado pelos pés.

Shisue a rir cinicamente de tudo.

Lucy ensanguentada, mostrando ser claramente uma armadilha.

E seu Vectorius, o vampiro que amava, indo em direção esta.

Ficou muda, com os olhos azuis bem arregalados, tinha que fazer algo. Demorou a assimilar tudo, só depois entendendo bem a situação. Iria correr e arrastar Vectorius dali o quanto antes, mas quando tentou fazer isso, não conseguiu. Fora então que olhou para baixo, para seus pés.

Praguejou mentalmente não ter notado que todo aquele campo queimado já era uma grande magia daquele louco. Estava tão presa quanto o amigo de Vectorius.

“— Vectorius, olhe para mim!” – Gritou a ruiva, fazendo todos olharem para si. “— Não vá, eu te amo!”

“— Mas eu não te amo.” – Falou frio Veck, voltando a dar passos em direção a loira.

“— Como você pode escolher a uma morta do que a alguém vivo! Que te dará o carinho que tanto precisa!?”

“— Não sou um brinquedo seu...” – Parou, olhando para a elfa. “— Mas agradeço do fundo do coração pelos anos que me aturou... E por ter me ajudado a fugir aquela vez...” – Sorriu-lhe, voltando sua atenção para Lucy.

“— Nada o fará parar...” – Lamentou-se a ruiva, ajoelhando-se ali para chorar. “— Ele só pensa nela. Toda sua vida só pensou nela.”

“— Pare seu vampiro idiota!” – Esbravejou Yami, tentando a todo custo se livrar daquelas correntes. “— Esse é o plano dele!”

“— Yami...” – Parou, olhando para o demônio agora. “— Terá que achar outro para te ajudar... Peça desculpas a Cain por mim depois...” – Pediu, voltando seu percurso.

Faltavam poucos passos até a garota com a mão ensanguentada estendida.

“— VECK!”

Dessa vez, este estremecera, virando-se novamente para o demônio, mas vendo o olhar choroso de Cain agora. Parecia que o moreninho havia voltado. Recuou um passo, indo em direção a esse, querendo parar aquelas lágrimas que desciam dos olhos arroxeados.

Todos ficaram mudos, ninguém ali pensou que aquele vampiro fosse desviar de seu caminho, que faltava tão poucos passos, para rumar para aquele príncipe de cabelos negros, que chorava tristemente agora.

“— Cain, não chore, por favor.”

“— Não vá... Não me deixe... Nós precisamos de você...” – Falou entre soluços, levando suas mãos ao rosto, tentando impedir de mais lágrimas rolarem.

“— Desculpe eu...” – Voltou a se virar, retomando seu curso.

“— Eu preciso de você!” – Gritou.

“— C-Cain...” – Engoliu em seco, ainda a olhar a face daquela garota, entretanto seus ouvidos estavam atentos ao que o moreno falava.

“— Não ouse nos deixar... Eu... Eu te...” – Calou-se, ao ver o olhar negro de Shisue tão fixo em si.

“— Desculpe Cain, desculpe Yami...” – Mordeu de leve os lábios. “— Vocês serão, ambos, meus amigos... Os únicos que já tive...” – Faltava um passo para chegar à garota.

“— Queremos mais que isso! Queremos você!” – Gritou, só que desta vez parecia uma mescla de Cain e Yami, a voz em uma perfeita harmonia de ambos.

Veck arregalou os olhos, iria parar, iria voltar-se para aqueles dois em um só corpo. Só não contava com o avanço rápido daquela garota que era idêntica ou se não seria a verdadeira, Lucy.

Esta segurou sua mão firme, puxando-o para si, tomando um beijo urgente de seus lábios. Quando pensou em negar, sua mente ficou turva. Perdera para aquele jogo. Seu Mestre ganhara.

“— Que cena patética...” – Reclamou Shisue, vendo aqueles dois ainda a se beijarem. “— Apreciando o que, minha bela criança? O gosto da boca dela ou do sangue dos corpos que a mesma se alimentou?” – Ironizou, rindo alto.

“— Veck...” – Cain fechou os olhos, incomodado com a cena que via.

Shisue então se aproximou de sua cria, puxando a garota deste igual como fizera há muitos anos atrás, arrastando-a pelo cabelo, jogando-a encima de Oroi, que estava mais que mudo há essa hora já.

“— Cuide dela.” – Murmurou para o menor, voltando a chegar perto de sua cria.

Primeiramente tocou aquela face alva, percebendo os verdes tão belos se fecharem. Curvou-se, beijando sua testa e afagando aquele cabelo, causando um ciúme excessivo de duas pessoas ali. Ou seria mais certo dizer três.

“— Vamos voltar. Eu te darei a garota quando estiver em minha morada.” – Não deu tempo para este responder, puxou-o pelos cabelos, arrastando para perto de Oroi, jogando este encima do menor também.

Quase riu ao ver os três caindo ao chão. Desviando seu olhar para o príncipe com raiva ali.

“— Se quer o seu ‘amigo’, por que não vem buscá-lo?” – Provocou-o.

“— Seu desgraçado! Devolva o Veck!” – Tentava a todo custo se livrar das correntes. Algo que notava mais e mais ser impossível.

“— Venha a minha morada pegá-lo de volta. Se o deseja tanto...” – Revirou os olhos.

“— Veck! Eu irei atrás de você! Nós iremos te salvar!” – Gritou Cain, ou poderia ser Yami também. Não tinha mais como saber.

“— Não venha...” – Sussurrou tão baixo, que implorava que este pudesse pelo menos ler seus lábios. Estava ficando sem força, por algum motivo misterioso.

“— Bem, se nos permitem...” – Fez uma leve reverência, típica de um pierrô. “— Este pierrô irá levar consigo o coelho, o lobo, e a morta de vermelho... ” – Sorriu displicente. “— O corvo irá ficar mais um pouco, ele cuidará de fazer mais mortes na vila...”

“— Vectorius...” – Luna se lamentou, ela não conseguira fazer nem metade do que aquele príncipe havia feito.

“— Ah! Filhinho...” – Olhou para o Guille. “— Papai vai o aguardar em seu castelo.” – Ironizou tanto, que não conseguiu evitar de gargalhar no final.

“— Não se preocupe, ‘papai’, levarei uma turma toda de caçadores atrás de você...”

“— Como se meu primo fosse me caçar tanto assim...” – Comentou como quem não quer nada, olhando a cara de incredulidade do outro. “— Nunca perguntou qual seria o sobrenome do caçador líder da associação? Aquele preguiçoso é outro Abyssinian caso não saiba.” – Adorava jogar verdades na cara de todo mundo.

“— Ele... Nós... Parentes...?” – Ficou mudo.

“— Agora vou-me de vez. Até o momento do reencontro... Ou até nunca mais.”

Com um estralo de dedos do mais velho, todos os que havia mencionado ali desapareceram.

Cain ficou a olhar abismado aquilo, havia falhado. Acabou por cair ajoelhado no chão, olhando fixamente para onde estava o amigo antes.

O loirinho levou a mão ao rosto, furioso consigo mesmo por não ter achado nenhuma brecha para poder matar aquele vampiro de sangue puro. Segurou com firmeza a lira em mãos, levantando-se.

Ainda sentia cheiro de queimado, ainda via fogo na direção da vila, tinha que dar um jeito no Vitor, antes que este matasse tudo ali. Não se importava, nem com o louro nem com a vila, mas ainda podia-se se fazer de inocente um pouco mais. E para isso tinha que impedir o outro.

Deixou a sua lira no lugar onde estava sentado, depois a pegaria, logo saiu do palco já indo em direção daquele outro comparsa seu. Mas antes olhou bem para Cain. Respirou fundo olhando uma elfa ruiva que não conhecia ao lado deste.

Revirou os olhos, ignorando o choro daquela ruiva, mas sorrindo ao notar que o moreninho não derramava uma lágrima sequer. Não queria machucar aquele que teve tanto carinho para consigo.

Mas em seu plano sabia que iria causar uma dor excessiva.

Se tivesse conseguido realizar tal ato, não somente Shisue estaria morto. Como também todos que interagiram com esse, iria matar lentamente suas crias e servos antes de por fim findar a vida daquele Puro Sangue.

Soltou um muxoxo em um claro desdém, notando que seu plano dera completamente errado, só bastaria jogar esse fora e iniciar um novo. Coisa fácil, pois era extremamente prazeroso tramar contra alguém, e sabia ter herdado esse gosto de seu pai.

Deu as costas para aquilo, rumando logo até Vitor. Como não tinha mais nada além de corpos carbonizados e zumbis a sua volta, pode correr livremente em uma velocidade que um humano nunca alcançaria. Queria domar logo o outro e acabar com isso.

Quem sabe, descontar sua raiva nesse.

Pulou para cima das casas de madeira, lá pelo menos não teriam os zumbis e monstros repugnantes, continuou a correr, pulando distâncias enormes entre uma e outra morada, para logo avistar o corvo.

Lá estava esse, com um sorriso cínico nos lábios, cortando pessoas com uma espada fina de uma mão, cujo era usada para causar mais dor nas elfas que fugiam. Ficou a olhar aquilo do alto.

Dor, destruição, sangue, agonia, horror. Para si aquilo tudo parecia tão normal, apesar das crises de consciência pesada que tinha as vezes. Antes de pular ali, arrumou as penas da cauda de pavão, elas haviam se bagunçado todas com a velocidade que correra e saltou.

“— Seu descaso para com esse povo é tão grande, que prefere arrumar-se em vez de tentar me impedir.” – Comentou Vitor, parando de matar, puxando sua espada ensanguentada do peito de uma elfa.

“— São garotas...” – Murmurou, ajeitando-se ainda.

“— Então, se não está aqui para me impedir, irei continuar a seguir ordens de meu Mestre.” – Deu de ombros, voltado ao que fazia.

O loirinho acabou por sentar-se na beirada do telhado da casa, visualizando a tudo. Até que estava bom ver o morcego matando aquelas elfas que tiveram tanto descaso consigo.

Talvez fosse vingador demais.

Ficou um bom tempo assim, sorrindo de orelha a orelha ao vê-las morrer, sendo cortadas, perfuradas e também mordidas por monstros. Iria continuar ignorando-as se não tivesse visto o morcego morder uma delas.

Franziu o cenho,pulando de onde estava, passando rapidamente pelos corpos e puxando o outro daquela elfa, não perdendo tempo e dando um soco bem dado na face deste.

“— Que!?” – Ficou abismado, mas logo lembrou-se que o loirinho odiava ver alguém mordendo.

“— Idiota!”

Guille não perdeu tempo, fechou sua mão no pescoço do outro, no momento de distração, sufocando-o e drenando-o com seu poder de caçador. Agarrou-o tão forte por ali, que só notou que quase o ia matar quando este desmaiou.

“— Morcegos são tão fracos...” – Respirou fundo, soltando-o, vendo este cair no chão. “— Eu ainda tenho que conversar com você...” – Negou com a cabeça.

Abaixou-se, segurando-o pelos cabelos, arrastando-o dali. Era fácil fazer isso com um vampiro, diferente se tentasse carregar algo pesado em mãos. Sua força só funcionava quando tinha algum vampiro assim, tocando-o.

Continuou a puxá-lo deste mesmo modo. O ruim era que não tinha lugar para conversar com esse. A floresta estava queimando, as casas destruídas com exceção de algumas, o barulho de gente gritando misturado com grunhidos dos monstros era ensurdecedor.

Pelo menos sem o Vitor para comandar aquela horda, esses seriam facilmente destruídos, isso se não matassem uns aos outros. Sorriu vendo uma das casas que usou o telhado para saltar ainda em boas condições.

Olhou em volta, todos pareciam correr para algum abrigo subterrâneo, e alguns elfos guerreiros iam em direção aos monstros.

Ninguém entraria naquela morada. Aproximou-se desta, notando que estava trancada, bastou um chute seu que a porta quebrou-se toda. Olhou como era dentro desta, era bem parecida com a que estava morando temporariamente com Cain e o morcego.

Arrastou o louro até um dos banheiros, queria tirar aquele sangue dele o mais rápido o possível, pois já estava ficando com náuseas disto. Sorriu vendo uma banheira grande ali.

Ela poderia ser útil para diversas coisas, só não sabia se tinha tempo. Jogou o Vitor ali no chão, ainda bem inconsciente, e andou para ligar a torneira vendo a água logo começar a encher aquilo.

Respirou fundo, tentando controlar a ânsia que sentia.

“— Maldito cheiro... Está por toda a parte agora...”

Sentou-se no abdômen do outro, levando suas nãos a roupa deste, tirando aquela fantasia de corvo. Realmente tinha ficado perfeito no morcego, concentrou-se a festa toda para não arrancar isto dele e puxá-lo para alguma árvore.

Fez bico, notando que se tivesse feito isso, pelo menos a festa não seria tão miserável quanto fora, pois seu plano inicial havia se quebrado em pedaços. Mas logo sorriu ao ver aquele peito nu.

Queria ver mais.

Virou-se, ainda sentado neste, para agora retirar a calça preta e apertada, não conseguindo evitar em lamber os lábios ao no vê-lo todo despido.

Realmente Vitor era bem melhor que aqueles elfos com quem andava dormindo ultimamente. Ele podia ser um pouco tapado, e inconsistente muitas vezes, mas de certa forma se dava bem com esse.

Virou-se novamente, voltando a ver o rosto maduro deste. Ainda preferia quando ele possuía cachos dourados, mas até que o visual que o Puro Sangue dera para este não era tão mal.

“— Porque você me ajudou quando eu chorei na festa...?” – Indagou baixinho, tocando os lábios vermelhos por causa do sangue.

Olhou com nojo o sangue em seus dedos, acabando por limpá-los no chão. Levantou-se, indo logo para a banheira e fechando a torneira. Perfeito, aquilo deveria acordar, se não desse certo iria ter que adotar medias drásticas. Pegou-o pelo braço, jogando este na água, se molhando um pouco ao fazer isso.

Nada do morcego acordar.

“— Droga! Eu tenho que falar contigo morcego, acorda logo!” – Reclamou, afundando e puxando a cabeça deste na água.

Gelou por um instante, talvez tivesse tirado mais energia do outro do que pensara. A raiva da situação não o fez medir sua força. Só havia um jeito de acordá-lo, dando sangue.

Respirou fundo, ajeitando-o para que fizesse sentado na água e saiu daquele banheiro.

—-X--

“— Onde... Estou?” – murmurou Vitor, com sofreguidão, estranhando o lugar que estava.

Levou lentamente suas mãos ao pescoço, sentindo uma dor absurda ali, conseguindo lembrar-se do que tinha acontecido. Tentou se levantar, mas estava sem forças. Não fazia a mínima ideia de como iria sair dali, já que nem força para se levantar possuía.

“— Acordou?”

Olhou para a porta do lugar, vendo o caçador com um copo em mãos. Sua vista estava meio turva, então fechou os olhos. Queria só voltar a dormir por mais um tempo.

“— Hei Vitor, não volta a dormir!” – Reclamou, colocando com cuidado o copo em cima da pia.

Lentamente tirou suas roupas, jogando onde estava a do outro, quando já não possuía mais nada voltou a pegar o copo indo para a banheira. Arrepiou-se com a água tão gelada, mas sentou-se no colo do outro.

“— Trouxe algo para você beber... Não se acostume com isso...” – Murmurou baixinho.

“— O... O que?” – Forçou-se a abrir os olhos.

“— ...Sangue.” – Demorou um pouco a responder.

Com uma mão forçou o louro a abrir a boca, virando-a para cima, despejando aos poucos em seguida o sangue que tinha trazido no copo. Para si era nojenta aquela cena, mas se não desse logo algo para ele comer, esse seria inútil.

E se por acaso o louro tentasse o morder, iria morrer na hora. Então melhor prevenir do que remediar.

“— Pierre vai me matar se descobrir que fiz isso a um morcego...” – Murmurou, vendo as ultimas gotas serem derramadas e tomadas.

“— Quem é Pierre?” – Indagou Vitor, respirando fundo, mas não controlando a curiosidade típica de sua raça.

“— Um amigo meu...” – Parou um instante para pensar. “— Ou parente... Sei lá.”

“— O que eu estou fazendo aqui...? Como conseguiu esse sangue?”

“— Uma pergunta de cada vez...”

“— O que está acontecendo?”

“— Bem... Eu devo ter drenado demais tuas energias, mas como eu precisava conversar contigo, te trouxe a essa casa... E o sangue é de uma elfa qualquer que achei andando por perto.”

“— Como matou?”

“— ...” – Revirou os olhos. “— Faca de cozinha... É só ir por trás e cortar o pescoço... Agora pare de me lembrar isso...” – Resmungou, colocando o copo no chão.

“— Caçador... Mas e porque estamos juntos nessa banheira?” – Notou só agora isso.

“— Para poupar tempo depois da conversa.” – Sorriu-lhe travesso.

“— ...”

“— Não vai tentar me atacar?”

“— Você não queria conversar?” – Revirou os olhos.

“— ...” – Respirou fundo. “— Mudei de ideia.”

“— Você me trouxe até aqui, até me alimentou, só para depois vir com essa que prefere que eu te coma em vez de pensarmos em algum plano?”

Respirou fundo massageando as têmporas com uma mão, enquanto a outra empurrava o loirinho de si. Já estava ficando de paciência esgotada em ter que servir de capacho para os dois lados.

“— Desculpe caçador, mas se não tem nada útil a ser dito, irei voltar para meu Mes-” – Calou-se, sentindo um tapa no rosto.

“— Você vai ficar!”

“— Sabes muito bem que não sou sádico e muito menos masoquista. Se for tentar algo pela força, te lembra que não vai conseguir o que quer de mim...” – Murmurou mal humorado.

“— ...” – Acalmou-se um pouco. “— Eu já sei qual será o próximo plano...”

“— Então...?”

“— Irei fazer uma visitinha em Even.”

“— Vai atacar meu Mestre na morada dele? Isso é definitivamente uma loucura se for sozinho.”

“— Não estarei sozinho.”

“— Nenhum caçador é louco o suficiente para te acompanhar a ir matar Shisue Abyssinian...”

“— Mas um príncipe que perdeu o amigo, é.”

“— Um humano? Como um humano vai te ajudar nisso.”

“— Exatamente por ser um humano, ele pode remover inscrições e magias contra os de minha raça... Além do que Cainzinho é fofo e o morcego velho deve estar querendo o Yaminho para torturar.”

“— Quanto diminutivo...” – Ponderou um pouco a ideia. “— Não dará certo, ele irá descobrir... E precisarão de alguém que saiba entrar naquele castelo a pé...” – Levou uma mão aos seus cabelos, jogando-os para trás. “— Eu não faço a mínima ideia de como entrar normalmente lá.”

“— É nesse momento que entra o Oroizinho.”

“— O trançado!?”

“— Eu vi o modo como ele olhou para o Shisue... Meu plano não dará errado, não desta vez.” – Sorriu maquiavélico.

“— ...”

Sem avisar nada Vitor puxa o menor pela cintura, colando os corpos para tomar um beijo lascivo daqueles lábios.

—-x—X—x--

Cain acordara exausto no outro dia. Sentando-se e olhando para os lados. Estava em um grande, porque não dizer enorme abrigo subterrâneo, junto com vários dos elfos sobreviventes.

A vila, lá encima estava um desestre, mas parecia que ao menos o louro que estava destruindo a tudo já havia ido embora. Assim os monstros foram facilmente aniquilados. Levantou-se, olhando os feridos ali, os outros elfos dormindo no chão, como estava a fazer há pouco tempo.

Queria sair daquele lugar, precisava de um canto isolado para pensar. Se bem que sabia exatamente o que fazer. Iria atrás de Shisue, iria resgatar o amigo que este tinha tirado de si.

“— Você tem que ir falar com aquele loiro desgraçado, ele sabe bem mais do que aparentou.” – Resmungou Yami, enquanto Cain andava devagar por ali.

“— Fale baixo, melhor, fique quieto.” – Reclamou sem paciência.

Saiu daquele abrigo, olhando o real estado que aquela vila se encontrava. Se aquele louco podia fazer isso com quem era inocente, imagine o que poderia fazer ao Veck. Aquilo estava lhe deixando raivoso.

Muitos vivos ainda eram socorridos e levados para o abrigo para serem tratados, fora quando avistou Guille, ainda vestido de pavão, ajudando alguns elfos. Correu até este, segurando-o pelo braço.

“— Ai! ” – Reclamou, só depois vendo que tinha o puxado. “— Cainzinho?” – Sorriu.

Não demorou em pular no pescoço deste, dando um abraço apertado, enquanto chorava baixinho de em seu ombro.

“— Que bom que você está bem!” – Comentou contente. “— Fiquei tão preocupado!” – Afastou-se um pouco, ficando a beijar a bochecha deste.

“— Nos larga criatura!” – O moreno empurrou-o de si.

“— Yaminho?” – Olhou-o ainda com lágrimas nos olhos, mas com um sorriso. “— Que bom que você está bem também.” –

“— Não tente nos enrolar!” – Bufou de raiva. “— Você é filho do Shisue!”

“— Eu... Eu...” – Seu sorriso desapareceu, dando lugar a uma real cara de choro. “—Eu não sabia... Eu sempre fui um escravo a vida toda, como saberia quem era meu pai?” – Ajoelhou-se, chorando mais.

O coração de Cain doeu ao ouvir aquilo, tratou de repreender o demônio por ter tocado em algo que obviamente o loirinho queria esquecer. Ajoelhou-se junto, olhando bem para aqueles olhos dourados em prantos.

“— Desculpe Guille...” – Tentou acalmá-lo. “— Mas você o chamou de ‘papai’...”

“— Eu estava apenas chocado com tudo... Eu nunca poderia imaginar que meu pai seria alguém tão baixo quanto esse tal de Shisue...”

“— Mas... Você sabia ser um caçador...”

“— Sim. Sei.”

“— Porque não nos contou...?”

“— Tive medo que sentissem mais nojo e mim do que já tem...” – Voltou a chorar. “— Eu já era um escravo, usado de todas as formas por meus donos, imagine ainda ter um sangue sujo como este...”

“— Guille...”

Arrependeu-se de ter duvidado do loirinho ao ver aquelas lágrimas descendo mais pelo seu rosto. Ele era inocente afinal. De que iria adiantar ser um caçador se estava preso desde que nasceu.

Não tinha mais lógica querer satisfações deste, todo mundo tinha seu passado, e sabia que uns mais que outros queriam por demais olvidar estes. Puxou o loirinho para si, abraçando-o com força, para quem sabe assim confortá-lo um pouco.

“— Desculpa Cainzinho...” – Abraçou-o mais, chorando neste em demasia ainda. “— Mas você é o único que me aceita deste jeito... Tive medo de perdê-lo...”

“— Tudo bem, tudo bem...” – Dava leves tapinhas nas costas deste. “— Não se preocupe quanto a isso...”

“— Sério?” – Se afastou um pouco, olhando-o sorridente.

“— Verdade... Agora pare de chorar, que temos muitas coisas a serem feitas.”

“— Obrigado Cainzinho! E a você também Yaminho!”

“— Se ousar me chamar assim, arranco tua língua fora coisa dos infernos!” – Reclamou com raiva, e a voz levemente rouca.

“— Eu sei que você também gosta de mim!” – Voltou a abraçar.

“— Lamento atrapalhar o amigável encontro...” – Luna se pronunciou, parada ao lado deles. “— Príncipe, irá atrás do meu Vectorius?”

“— Irei sim...” – Afastou-se do loirinho, levantando-se e ajudando este. “— Só não sei onde ir.”

“— Terão que ir em Even, só chegarão lá de barco.” – Cruzou os braços. “— Como eu também irei, levarei-os lá.”

“— A senhorita vai com agente?”

“— Sim. Eu acho que ainda me lembro como entrar no castelo do Mestre do Vectorius.”

“— Co-como assim?” – Fora o loirinho que se surpreendeu. “— Quem é você?”

“— Luna, e você, criatura loira?”

“— Credo, não precisava falar assim... Chamo-me Guille...”

“— Guille Abyssinian, eu presumo...” – A ruiva estreitou o olhar, focando-se no loirinho.

“— Eu não sabia que ele era meu... Meu...” – Voltou a chorar, abraçando o Cain. “— Que ele era meu pai... Eu sempre fui um escravo...”

“— Senhorita Luna, sei que está alterada por tudo que aconteceu, mas não desconte no Guille... Ele não tem culpa de nada.” – Abrandou a situação, sorrindo doce para ambos.

“— Isso realmente não me importa agora. Só quero saber se vais mesmo onde Shisue está.”

“— Irei.” – Confirmou o moreno, afastando o outro de si “— Quando puderes ir, estarei pronto.” – Sorriu-lhe. “— Mas... Como você sabe o caminho até o Mestre do Veck?”

“— Eu o tirei de lá uma vez... Mas eu tive ajuda...” – Respirou fundo. “— Naquela vez um vampiro chamado Richard me ajudou...”

“— Richard?”

O loirinho ficou tentando saber quem era esse morcego, não se lembrava de tal nome existir na lista de vampiros existentes. Estranho, realmente muito estranho. Mas tratou de ficar quieto, seu plano de passar por desentendido havia funcionado.

As vezes a inocência do Cain era tão conveniente.

“— Que foi? Conhece ele?” – Ela quis saber.

“— Não, só achei o nome bonito...” – Sorriu sem graça. “— Eu irei junto.”

“— Irá?” – A elfa e o humano perguntaram juntos.

“— Sim... Eu... Eu sou um caçador, não?” – Abaixou a cabeça, como se fosse chorar novamente. “— Quem saiba eu possa ajudar...”

“— Verdade... Você tem utilidade para algo...” – A garota olhou-o de cima a baixo. “— E minha tripulação irá te adorar...” – Comentou sarcástica.

“— Com certeza, muito mais que a você.” – Rebateu no mesmo nível.

“— Por favor...” – Ficou entre os dois, quando viu que iriam brigar ali. “— Agora não é hora para isso, temos que ajudar os feridos, e depois organizar a viagem.”

“— Você tem razão... Desculpe-me príncipe...” – Olhou em volta. “— Irei agora ajudar meu povo. Mais tarde conversaremos...” – A garota curvou-se polidamente, apenas para o Cain e saiu.

“— Que mal educada...” – Reclamou o loirinho.

“— Entenda-a... Ela perdeu o namorado.” – Falou com uma espécie de pesar.

“— Namorado? O morcego namorava uma garota?” – Arregalou os olhos.

“— Sim, normal, não?” – Olhou-o sem entender.

“— Nada não Cainzinho, maluquice minha...” – Sorriu-o. “— Então, quer me ajudar a tratar dos feridos?”

“— Claro.”

.

.

.

CONTINUA...

16/07/10

Nota da autora:

Atualizei rápido até. XDD

E... O que acharam da Lucy? Alguém imaginou que iria acontecer algo do tipo? (huhuhuh)

Uma grande confusão... E o lado dos vilões venceu (Se bem que o Gui também pode ser considerado vilão... Ou não, nem sei.)

Para quem mais torciam? Shisue ou Guille?

Bem, é isso, planos por água abaixo, planos novos, planos dando certo e...

Logo aviso, Dark Lemon no outro CAP (Acho que não preciso dizer quem com quem...)

Comentário da beta:

KYAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHH

O tão esperado(por mim, claro) dark-lemon SxVxO(ou SxOxV *apanha*)

Claaaaaro que eu estava torcendo para o Shisue, é óbvio, eu amo ver o Veck sofrer nas mãos do Shisue, minha curiosidade foi atiçada pelo fato do Richard ter ajudado a Luna... Mas vocês não vão entender nada agora(que nem eu).

Enfim, eu quero comentários para minha mestra *0* Até a próxima!

P.S.: Para mim o Guille que é o vilão. u.u