Prison Magic
15 Capítulo 15
Parte 15
Aquelas noites que se passaram foram sofridas.
Veck olhava sentado ali perto, de Yami para Cain, um deitado de costas para o outro. Sentia uma estranha fome, e toda vez que olhava para os lábios do demônio, parecia que algo corroia brutalmente seu ser. Diferente da fome que sentia ao olhar a face serena do hospedeiro deste, um calor cálido invadia sua alma.
Aquelas noites estavam realmente quentes.
Sentia-se tentado a tocá-los, agarrá-los firme pelos cabelos e lhes morder profundamente no pescoço, arrancando gemidos altos enquanto se alimentava.
Aquelas noites, definitivamente, estavam fazendo mal para o meio-vampiro.
Sorriu fraco, voltando sua atenção para aquele céu estrelado e sem lua. Estava parecendo um pervertido, pior que seu Mestre, se é que isto era realmente possível. Pelo menos não estava tendo mais nenhum pesadelo com ele.
Respirou lento, não tendo sono novamente naquela noite, como nas outras duas que se seguiram antes desta. Já estava se perguntando se voltar para a vila élfica era uma boa ideia, principalmente por um caminho mais longo.
Todavia, melhor um caminho mais longo do que o risco de alguma ‘planta’ aparecer... Seria algo até engraçado, o loiro correndo pelado em direção a elas, gritando algo como ‘me coma!’, ele tentando esconder Cain de alguma planta atrevida e Yami bufando de raiva, cortando todas que via.
Acabou por rir baixo de seu próprio pensamento...
...Aquelas noites, deixavam-lhe solitário.
—--X---
Finalmente, após algumas noites inquietantes, os quatro retornam a vila élfica. Era bom voltar a esta, já que primeiramente teriam que avisar para todas que Veck estava bem e também, tinha que analisar o fato de Yami estar em um corpo agora.
“— Vampiro...” – Yami o chamou parando o cavalo, assim como os demais. “— Teria mais algum motivo para voltar a este lugar?” – Indagou-o olhando-o em uma mistura de descrença e ironia.
“— Nenhum.” – Respondeu de imediato, olhando o portão enorme daquela muralha. “— Que desconfiança é essa?”
“— ...” – O demônio ficou mudo, apenas desceu do cavalo, ajudando Cain a fazer o mesmo.
“— Obrigado.” – Agradeceu alegre o moreninho, olhando agora para o portão que permanecia fechado.
Arqueou uma sombrancelha, estranhando algo de imediato, podia-se ouvir barulhos baixos de muitas pessoas por dentro dos portões. Todavia normalmente, aquela vila era sempre quieta.
“— Guille...” – Veck chamou este, fazendo todos olharem para si. “— Pelo que notei…” – Olha para o portão de relance, voltando sua atenção para o loiro, que estava sentado no mesmo cavalo que si. “— … Pode ir tirando essa cara de emburrado e esse bico... Tenho certeza que vai adorar o que está acontecendo na vila.”
Olharam novamente para Veck, não entendendo o que significava aquilo, e muito menos o que poderia ter acontecido aquela vila tão calma. Veck sorriu, vendo a atenção voltada para si, e logo desceu de seu cavalo, empurrando o loiro deste de qualquer jeito, vendo em seguida que o animal virara apenas uma pilha de ossos.
Logo, notando que todos já estavam de pé, dirigiu-se para mais perto do portão, sendo seguido pelos três.
“— Abram o portão, é Vectorius!” – Falou alto e imponente, anunciando sua presença.
Instantes depois, o enorme portão daquela muralha se abre. Cain e Yami ficaram tentando entender aquela mudança tão drástica que viam na vila, enquanto entravam nela. Já Guille estava literalmente de queixo caido, sorrindo abobalhadamente.
Elfos. Elfos em vez de só elfas. A vila estava lotada deles, em todo canto, em todo o lugar, conversando animadamente, com algumas delas. Ao olhar do Guille, cada um mais bonito que o outro, uns mais bem vestidos e enfeitados que as mulheres.
“— Morri e fui para o paraíso?!” – O loiro bradou, sorrindo abertamente, com seu olhar dourado vasculhando cada pedaço daquela ‘novidade’.
Os quatro entraram lentamente, virando logo o centro das atenções daquele lugar. No entanto, Jiyha a líder, aparecera no lugar completamente sorridente, e ordenou que os outros voltassem a fazer o que estavam fazendo.
“— Que alegria!” – Falou ela, abraçando a Veck com força, e logo se afastando. “— Vectorius...” – Acariciou de leve o rosto deste, de uma forma quase maternal, e em seguida olhou para Cain. “— Agradeço a ti, príncipe, por ter ajudado a Vectorius.”
“— Eu nunca deixaria um amigo naquele estado!” – Corou um pouco, se lembrando de algumas coisas, que estava decidido a esquecer. “— Ele é um amigo muito valioso...” – Falou baixinho.
“— Líder...” – Outra voz soou, baixa e meio rouca, fazendo só agora os garotos notarem um elfo alto atrás da Jiyha.
“— Fale meu filho.” – Sorriu terna para este, se afastando mais do meio-vampiro.
“— Este…” – Apontou meio trêmulo para Veck. “—… É Vectorius?” – Olhou com esperança para mãe.
“— Sim, é este, meu filho.”
O elfo sorriu contentíssimo, como se alegria maior não pudesse existir, e logo correu para abraçar Veck, que ficou completamente sem reações, não entendendo quem seria aquele elfo ruivo.
Após algum tempo o garoto se afasta, olhando-o animadamente. Veck então tentou reconhecer este, olhando-o fixamente, vendo que isto o fez corar levemente.
Cabelos vermelhos não tão longos, talvez um palmo abaixo dos ombros, um pouco mais alto que si, com uma franja que insistia em lhe cobrir a visão, talvez por esse motivo tivesse dois prendedores de cabelo azuis prendendo uma mecha para que não incomodasse.
Olhos tão azuis que chegavam quase a hipnotizá-lo. Tinha quase certeza de que conhecia alguém com aquele olhar, todavia só poderia estar enganado.
Suas roupas eram leves e elegantes, a camisa de uma seda vermelha meio transparente, descendo em um corte ‘V’ ate seu joelho, usando uma calça justa, e botas de couro. Tudo parecia dar mais destaques às curvas de seu corpo.
“— Não recorda-se de mim, Vectorius?” – Indagou o elfo, trazendo Veck de volta a realidade. “— Não?”
“— Lamento, mas não...”
“— Claro que ele não te reconheceria...” – Jiyha se intrometeu na conversa, meio curiosa pela cara de tristeza de seu filho. “— Você tinha apenas dez anos, meu filho.”
O meio-vampiro abriu os olhos, voltando sua atenção fixamente para ruivo novamente, fitando intensamente aqueles olhos azuis, sabendo que já os tinha visto.
“— Nyha?!” – Veck exclamou o nome, notando o garoto concordar com a cabeça, finalmente o havia reconhecido. “— Nunca iria te reconhecer... Você cresceu tanto!”
Desta vez fora Veck quem abraçou o ruivo, apertando-o bem forte, com uma repentina saudade do outro.
Cain e Yami ficaram olhando aquele reencontro entre os dois. Guille, nem ali estava, já havia corrido há tempos, atrás de um grupo de elfos que vira assim que chegara, para se ‘divertir’ enfim.
“— Estás com fome Vectorius?” – Indagou o ruivo afastando-se do abraço, acariciando com ternura o rosto do mais velho.
Veck emudeceu, estava sim com fome, foram quatro longas noites em claro, olhando de Yami para Cain, e não se lembrava da ultima vez que havia se alimentado. O pior era que nem poderia comer, pois como faria isto?
Yami não poderia se afastar muito de Cain, e este definitivamente não iria querer ser mordido, agora que não precisava mais exclusivamente dele. Acabou por soltar um suspiro, olhando melhor para Nyha.
No tempo em que esteve morando no lado da vila deste, o havia mordido apenas uma vez, e somente porque o menor insistia toda hora para este ato ser consumado. Alegando que queria conhecer a sensação.
“— Não...” – Custou a responder, parando de divagar, omitindo a clara verdade.
“— Bem...” – A líder deu um passo em direção aos dois. “— Melhor voltarem para o lugar em que estavam hospedados.” – Sorriu para todos. “— Lá poderão descansar um pouco da viagem.”
—--X---
De volta à bela casa que estavam antes, os morenos olhavam a tudo que Veck e o antigo amigo faziam, sentados em um sofá mais distante, um com simples curiosidade e outro com aborrecimento.
Nyha fazia questão de contar para todos como o ‘cunhado’ era antigamente.
“— Eu senti tanto sua falta Vectorius...” – Olhou para este, que estava sentado ao seu lado. “— Fiquei tão triste quando acompanhaste a loucura de minha irmã em ser uma capitã de navio...” – Comentava o ruivo.
“— Luna desejava muito sair desta vila... Ela tem um doce e indomável espírito aventureiro.”
“— Como vocês se conheceram?” – Indagou Cain, querendo saber mais sobre o amigo.
“— Conheci-o quando foi expulso deste lado da vila.”
“— Expulso?” – Cain olhou parta Veck, que avermelhou-se e desviou o olhar.
“— Minha irmã não aguentava mais ver as elfas com o Veck...” – Comentou o ruivo, com uma pitada de maliciosidade. “— Por isso expulsou ele para o lado dos homens.” – Explicou.
“— Isso que dá ser mulherengo...” – Alfinetou Yami.
“— Elas que grudavam em mim, não tenho culpa de ser lindo.” – Gabou-se.
“— Concordo...” – Respondeu o ruivo, fazendo todos olharem para este. “— Mas é verdade, não?” – Olhou de Cain para Yami, que ficaram mudos afinal.
“— ...” – Veck olhou para os três, estranhando a tudo aquilo, mas apenas deu de ombros.
“— Melhor deixarmos vocês mais a vontade...” – Fala Cain, levantando-se e olhando para Yami, que acabou por fazer o mesmo. “— Iremos procurar por Guille... Já irá escurecer.” – Comentou, sorrindo gentil, mas calou-se ao ver que o amigo estava prestando mais a atenção no elfo.
“— ...” – O demônio apenas deu uma olhada raivosa para o ruivo ao lado do outro. “— Vampiro.” – Chamou-o com a voz grave, tendo a atenção deste finalmente para si. “— Escutou o que meu hospedeiro disse?” – Bufou a pergunta, olhando-o com raiva.
“— Cain?” – Olhou para este. “— Lamento, disse algo?” – Perguntou, meio sem jeito. “— Eu estava distraído falando com Nyha...”
“— Tudo bem, eu sei. Só falei que vamos dar uma volta... Talvez acharemos o Guille.” – Falou meio desanimado.
Nyha ficou a ver os morenos saírem dali com um sorriso misterioso nos lábios finos, contente por finalmente estar a sós com o outro. Sentou mais perto deste, assim que viu a porta se fechar, colocando discretamente uma mão em sua coxa.
Veck não notou o singelo avanço do ruivo, que se aproximava mais e mais. Seus pensamentos, no momento, estavam voltados ao moreninho, pois sabia que deveria tê-lo magoado por nem ouvir o que este falara consigo.
“— Vectorius...” – Chamou-o baixo e rouco, nos ouvidos deste, tomando de imediato a atenção deste para si, porém Veck continuava parado naquela pose, apenas fechara os olhos. “— Senti tanto tua falta... Cheguei a amaldiçoar minha irmã, por ter te levado com ela. ”
“— Nyha, não culpe assim tua irmã, sabes mais que ninguém que pelo bem de todos, eu a segui também...” – Soltou um suspiro, cansado. “— Mas de todo modo isso foi inútil, pois de algum jeito meu Mestre achou este lugar...”
“— Escutei os boatos, quando cheguei... Mulheres são fofoqueiras...”
“— Desculpe pelo que fiz...”
“— Não!” – Exclamou, virando delicadamente o rosto de Veck para si, fazendo-o olhá-lo nos olhos. “— Todos desta vila, ficaram feliz em ver seu retorno.” – Acariciou-o a face, de leve. “— Mas vejo que algo te incomoda...”
“— O que seria?” – Quis saber, tirando a mão do outro de seu rosto.
“— Fome.”
“— Não tenho!”
“— Vectorius, já percebeu que...” – Aproximou-se do ouvido deste, cada palavra saia carregada de carinho e maliciosidade. “— Seus dentes estão levemente maiores. Como se desejassem sentir o calor de uma pele, rasgando-a, enterrando-se fundo e lentamente...” – Levou uma mão ao seu próprio cabelo, afastando uma mecha ruiva de seu pescoço, jogando-a para trás. “— Me morda...” – Pediu, quase num gemido.
Veck engoliu a seco, sentindo sua fome aumentar. Energias élficas eram tão boas quanto as malignas, todavia tinha um gosto pessoal pela última. Olhou para aquele pescoço claro, estremecendo ao sentir um aperto descarado em sua coxa.
Sua mente voltou a vagar por um instante, ultimamente estava fazendo muito isso, talvez fosse a fome. Lembrou-se de quando o elfo era apenas um garotinho de dez anos, de quando fora expulso por Luna, deste lado da vila.
Felizmente, achara uma boa companhia assim que botara os pés na outra vila. Estranhou de imediato, um garotinho que correu sorridente em sua direção e o abraçou, fora tão de imediato e repentino que até perdera o equilíbrio, indo ao chão com este ainda abraçado a si.
Só depois que o elfinho explicara seu parentesco. E desde aquele dia o menor insistia para que o mordesse, assim como sabia que fazia com a irmã. Resistira bravamente aqueles olhinhos azuis lhe olhando com tanta adoração por todo o tempo. Só sucumbira na noite a anterior de sua partida.
Somente naquela noite, naquela vez, atendera ao pedido do pequeno. Mordendo-o suavemente, na cama deste. Como um pequeno presente de despedida, saciado sua fome e a curiosidade infantil do ruivinho.
“— Vectorius...” – Chamou-o dengoso, notando que este não fazia nada. “— Preciso de você dentro de mim...” – Quase gemeu a frase.
Veck arregalou os olhos, não querendo acreditar no que tinha ouvido, afastou o ruivo de si imediatamente, levantando-se e olhando para este com repreensão.
“— ...O que disse?”
“— Que te quero dentro de mim...” – Repetiu, sorrindo em uma falsa ingenuidade. “— Por acaso não quer cravar suas presas em mim?”
O mais velho corou de pura vergonha das obscenidades que pensou sobre a frase do ruivo. Levou a mão à testa, massageando suas têmporas. Talvez a perversão de Guille fosse contagiosa...
“—Já está escurecendo, volte para tua casa, irei procurar por Cain e Yami.” – Soltou um suspiro, acalmando-se.
“— Eles parecem gêmeos, nunca tinha visto isso.” – Comentou, levantando-se.
“— Um é completamente diferente do outro, e é isso que me dá dor de cabeça.” – Outro suspiro. “— Tenho que arranjar um jeito de descobrir como ajudar ao Cain.”
“— E o outro? E Yami? Não quer ajudar este?”
“— Ajudando a Cain, eu ajudo a Yami...” – Parou um instante para refletir. “— Eu acho...” – Acrescentou, um pouco inseguro agora. “— Mas por enquanto, irei achá-los... Não é bom deixar Cain sozinho novamente.” – Explicou.
—--X---
Cain andava lentamente pela vila, sendo seguido de perto pelo demônio de muito mal humor. Já havia tentado diversas vezes iniciar uma conversa com este, todavia o outro moreno mantinha-se calado, apenas concordando ou discordando com a cabeça.
Olhou para aquele céu, que escurecia cada vez mais. Seus pensamentos estavam, misteriosamente, vagando pela cena da ultima mordida que Veck deu em si. A água o rodeando, os toques dele em seu corpo, aquela sensação estranha e boa que sentiu.
Queria voltar, mas não gostaria de atrapalhar o reencontro do seu amigo com Nyha…
“— Vamos voltar...” – Resmungou Yami, em quanto massageava as têmporas, como se sentisse incomodado com alguns ‘pensamentos’ do hospedeiro que em si viravam pura perversão. “— Agora!” – Falou mais alto, fazendo Cain virar-se para si, com uma cara quase surpresa.
“— Não achamos o Guille...” – Avisou sorrindo doce e voltando-se a virar para frente.
“— Para de mentir para si mesmo.” – Segurou-lhe pelo braço, tomando novamente a atenção deste para si. “— Já me cansei de tuas infantilidades! Por que deixastes o vampiro com aquele orelhudo?”
“— Por que eles não se veem há anos...” – Respondeu de imediato.
“— ...”
“— Porque quer tanto voltar?” – Olhou-o curioso, ainda sendo segurado pelo braço.
“— Por que ‘você’ quer!”– Exclamou com raiva. “— Eu sinto o que sentes, penso o que pensas. Entretanto, entendo muito mais da vida do que um bebê que fede a leite como tu!”
“— Como ousas falar assim comigo?!” – Olhou-o com raiva e orgulho ferido.
“— Se eu não falar, ninguém falará! Seu principezinho mimado, vê se cresce!”
“— E Você, o que sabes de si mesmo?” – Esperou um pouco a resposta que sabia que não viria. “—Nada. Não estou certo?!”
“— ...Vamos...” – Amenizou a voz, sabendo que por fim seu hospedeiro tinha razão. “— Vamos voltar, aquela coisa loira está bem... Simplesmente pare de mentir para si...”
“— Sim...” – Cain abaixou o rosto, vendo o quão infantil estava sendo.
“— ...” – Soltou-lhe o braço, levando uma mão ao rosto de seu hospedeiro. “— Nunca abaixe teu rosto, existe algo diferente entre ‘compreender o mundo’ e ‘aturar a tudo’...” – Comentou, com uma certa maturidade, acariciando de leve o rosto do outro.
“— Eu...”
Cain olhou atentamente para aquele rosto tão idêntico ao seu, tentando compreender aquelas palavras carregadas de sentido. Mas ao notar que este desviou o rosto e se afastou, logo começaram a voltar para a casa em que estavam naquela vila.
Tinha se acostumado rápido com o jeito do outro, sabia que este só falava quando fosse algo importante consigo, ou para reclamar. Voltando pelo percurso que tinha feito, todavia, logo para de andar novamente, quando sente que o outro volta a segurar-lhe pelo braço.
“— O que foi?” – Indagou, virando-se, estranhado o outro querer conversar tanto.
“— Por quê?” – Respondeu a pergunta com outra, mas ao notar cara de dúvidas do outro, logo reformula sua frase. “— Por que deixavas que um vampiro o mordesse?”
Surpreendeu-se com a pergunta escutada. Aquilo parece que lhe atingiu em cheio. Não era ‘um’ vampiro, e sim Veck seu amigo. Por esse motivo que o ajudava. Acabou por ficar mudo por um bom tempo, apenas pensando em tudo o que aconteceu.
Aquelas mordidas, sem dúvidas, o deixavam estranho. Todavia, atribuía isso ao fato de seu sangue estar sendo tirado de seu corpo, daquele jeito quase carnal.
Yami fechou os olhos, sorrindo discretamente com os pensamentos do seu hospedeiro. Não é que pudesse lê-los por completo, mas o que este pensava acabava passando por sua mente também.
Culpava-se por não ter aparecido em algumas destas mordidas em que o outro levara do vampiro. Teria sido algo tão, perverso... Aproveitar-se do Veck naquele estado em que estava...
Abriu novamente os olhos, vendo os olhos do outro ainda anuviados pelas recordações. Odiava isso. Queria que o vampiro apenas lhe mordesse, que necessitasse de sua energia maligna e não daquele patético humano a sua frente.
“— Não era um vampiro qualquer, era o Veck.” – Respondeu após refletir.
O demônio franziu o cenho, sabia que a resposta seria algo do tipo, a linha de raciocínio dos humanos era algo tão banal.
“— E se ele quisesse te morder novamente agora?” – Indagou, odiando a si mesmo por sentir ciúmes.
“— Não deixaria, ele já pode cuidar de si mesmo.”
“— ...”
Aquietou-se um pouco ao ouvir aquilo de seu hospedeiro, por mais que sentisse que no coração deste aquelas palavras eram desmentidas. Ansiava ter aquele vampiro só o mordendo.
Estava sendo possessivo com relação à Veck. Possessividade. Era isso que sentia, queria-o apenas para si.
Respirou fundo, tentando colocar sua mente em ordem, era claro que o que sentia não se passava de um reflexo do que seu hospedeiro sentia. Já havia passado por algo parecido com uma antiga hospedeira.
Entretanto, desta vez, remoia-se de ódio do pouco tempo em que deixara o outro com o pleno controle do corpo, para poder sentir aquele prazer que queria só para si. Não havia como negar que era um demônio e como tal era dominador em demasia.
Não aguentava mais sentir o olhar esfomeado de Veck toda a noite, indo de si para Cain e depois retornar. Nunca havia mencionado, mas não sentia sono, assim como fome, por isso ficava a noite toda esperando o outro dormir, para só assim parar de fingir que estava fazendo isto e poder observá-lo melhor.
Sabia que o vampiro ansiava morder-lhe, todavia não faria isto com o ‘doce’ Cain tão perto assim, qualquer um que visse como Veck estava podia notar isso, exceto, é claro, Cain.
“— Agora eu que estou sendo infantil...” – Confessou Yami, respirando cansado.
“— Como a-” – Calou-se vendo Veck se aproximar.
“— Que bom que achei vocês!” – Exclamou aliviado.
“— Que vermelhidão é essa, vampiro?” – Perguntou desconfiado o demônio, erguendo uma sobrancelha.
“— Deve ser algum engano teu.” – Sua voz soou séria, em quanto fitava com os olhos famintos na direção do demônio, que acabou por tremer levemente calando-se por completo.
“— Não achei Guille...” – Comentou Cain.
“— Ele está bem, deixe-o se divertir...” – Avisou Veck, sabendo que Cain nunca saberia que tipo de diversão seria.
—--X---
O sol já havia raiado a um bom tempo, logo já seria hora do almoço e o loirinho ainda não havia voltado. Yami e Veck pouco se importavam cm o sumiço do outro, até achavam bom, ao contrario de Cain que já estava a se preocupar.
Eis então que este surge na porta da casa, sendo ajudado a andar pelo ruivo que ria baixinho junto deste, como se estivessem conversando o tempo todo.
“— Guille!” – Cain correu até a porta, de encontro a este, assim que os viu entrar.
O loirinho parecia, literalmente, acabado. Seus cabelos estavam soltos, deixando que o dourado deste se espalhassem pelas costas, já as roupas, sempre tão ajeitadinhas estavam amassadas e até um pouco fora de lugar.
E pelo sorriso depravado no rosto, qualquer um entenderia que a noite foi boa. Bem, talvez nem todo mundo.
“— Eu soube na hora que ele era amigo de vocês e o ajudei a vir até aqui.” – Avisa Nyha. “— Me parecia precisar um pouco de ajuda. Não fiz nada.” – Explicou, ao ver os olhares indagadores de Veck.
“— Eu amo elfos! Eu vim parar no paraíso...” – Comentou o loiro, abraçando ao elfo e dando um beijo em sua bochecha, para logo se afastar. “— Obrigado por me ajudar, fofo.”
“— Sente-se bem?” – Cain quis saber, estava curioso pelo estado do outro.
“— Sim Cainzinho! Ótimo.” – Respondeu sorridente. “Só preciso de um bom banho...” – Pensou no final.
“— Que bom que apreciou nossa hospitalidade...” – O ruivo falou, sorrindo pervertido para Guille.
“— Muito grande a ‘hospitalidade’ de vocês...” – Maliciou, lambendo os lábios ao se lembrar de algumas coisas, mas logo sorriu doce para Cain. “— Cainzinho, eu irei tomar um banho, já farei algo bem gostoso para comermos.” – Avisou.
“— Não vai nem descansar um pouco?!” – Nyha abriu os olhos, em completo espanto, afinal, o normal era se ficar o dia todo cansado depois do que ouvira que o loiro tinha feito.
“— Descansar? Só daquilo?” – Fez um jogo de cintura, sorrindo luxurioso só para o elfo. “— Já tive melhores...” – Calou-se, achando melhor encerrar o assunto ali. “— Irei tomar meu banho, juízo aos quatro.” – Falou maroto, entrando mais na casa, indo para o banheiro.
“ Nossa... ” – Pensou o ruivo, notando que o loiro ainda realmente poderia aguentar muito mais.
“— E tu, o que andas a fazer aqui?” – pronunciou-se Yami, sentando no sofá, olhando com raiva para o elfo.
“— Vim ver Vectorius.”
“— Já não o viste?” – Alfinetou-o, sorrindo com descaso para este. “— Agora trate de ir embora orelhudo.”
“— Por que deveria?” – Sorriu do mesmo modo, andando até Veck e passando a mãos pelo ombro deste. “— Só por que tu queres...?” – Tocou de leve no rosto do outro.
“— Nyha! Não o provoque, e muito menos a mim!” – O meio vampiro tratou de separar aquela mão de si, afastando-se do ruivo. “— E você Yami, comporte-se.” – Olhou por fim para este.
“— Não sou um cachorro para me ‘comportar’...” – Vociferou.
“— Yami...” – Cain aproximou-se deste, ao ver que acabaria dando briga aquilo. “— Não foi deste modo que Veck falou...” – Tenta argumentar, com a voz suave e amena, sentando-se ao seu lado.
“— Aviso-lhe logo, meu caro hospedeiro...” – Tocou-lhe de leve no rosto, em uma carícia completamente atípica sua, como se tivesse medo de ferir aquele ser. “— Minha paciência, para com sua pessoa…” – Sua mão desceu, fixando-se levemente no pescoço deste, ameaçando apertar a qualquer instante. “— Se esvai a cada palavra dita neste tom suave.”
Um arrepio estranho passou pela espinha de Veck ao ver aquela cena, os dois tão juntos. Todavia logo despertou para a realidade, e notou o perigo ali, logo correu para tentar impedir o demônio de fazer alguma loucura.
Mas logo parou, a ver que Cain levantou uma mão, como se pedisse para não fazer nada.
“— É isto mesmo que quer?” – Indagou o moreno, em um tom sério para Yami, não aparentando medo deste. “— Acabar com tudo, sem mal começar?” – Sorria calmo, apesar da seriedade que possuía. “— Depois o infantil sou eu.”
Yami olhou com mais raiva ainda para seu hospedeiro, aquele humano realmente o estava dando nos nervos, acabou por apertar mais o pescoço deste com suas mãos. Mas logo soltou ao ver que este apenas sorria para si.
“— Maldição...” – Praguejou o demônio, cruzando os braços, calando-se depois disto.
Um clima pesado se instalou no lugar, e só foi quebrado quando Jiyha entrara na casa.
“— Que caras são essas?” – A mulher perguntou, olhando a todos, notando que seu filho estava ali também. “—Nyha? O que faz aqui, pensei que estava na casa de alguma elfa. ”
“— Eu estava a caminho...” – Respondeu o filho desta, com quase um contragosto. “— Mas achei o Gui no meio do caminho, e ele parecia cansado... Então eu o ajudei. ”
“‘Gui’...? ” – Pensou a elfa de imediato. “— Imagino a causa do cansaço dele... Algumas elfas reclamaram do sumiço de quinze elfos...”
“— Quinze?!” – Veck falou espantado. “Como ele deu conta de tudo isso e ainda vai fazer o almoço?!” – Refletiu, achando impossível um humano normal fazer isso.
“— A festa devia estar boa...” – Yami comentou, rindo da cara de quase espanto do outro.
“— Pelo menos o Guille estava se divertindo, em vez de ficar sem fazer nada...” – Comentou Cain.
Todos ficaram quietos, olhando fixamente para este.
“— Meu caro hospedeiro...” – O demônio teve que respirar fundo, para não tentar esganar novamente o pescoço do outro. “— Apenas fique quieto, e sorria como um bobo, como sempre faz.”
“— ...!” – Emburrou-se, mas ficou calado.
“— Agora notando... Meu filho por que ainda esta aqui?” – Jiyha quis saber, olhando fixamente para o garoto.
“— Por que prefere correr trás de vampiros dos outros, em vez das elfas.” – Debochou Yami, gargalhando no final.
“— Nyha!” – Olhou deste para Veck. “— Vectorius é da sua irmã, pare com isso de querer que ele o morda.” – Falou severa.
“— Morder!?” – Exclamaram Cain e Yami juntos, ambos também olhado para Veck.
“— Você morde ele...?” – Indagou o moreninho, baixo.
“— Seu vampiro desgraçado, quem te deu permissão para morder qualquer um!?” – O outro moreno também perguntou.
“— É um mal entendido!” – O meio vampiro levantou as mãos, em um sinal de paz. “— Eu não mordo o Nyha!”
“— Mas por pouco não me mordeu...” – Falou jubiloso o elfo.
“— Mas você me provocou!” – Olhou com raiva para este, tentando argumentar.
“— Sou inocente até que se prove o contrário.” – Sorriu pervertido. “— E você está faminto! Isso sim. Todo mundo já notou”
Veck ficou mudo, afinal, não tinha como negar, já que todos ali já haviam notado tal fato. Respirou fundo olhando com raiva para o ruivo, afinal, dentre todas as pessoas, sabia que uma destas não notaria.
“— Veck...” – O moreninho se aproximou, olhando-o fixamente com aquele olhar ametista. “— Não está a se alimentar direito...?” – Aquele olhar, demonstrava o quanto estava preocupado. “—Por que? ”
“— É... É apenas por causa da minha queda de nível...” – Achou rapidamente uma desculpa, evitando olhar naqueles olhos que o fitavam. “— Não se preocupe Cain, logo estarei bem.”
“— Veck... Se quiser...” – Calou-se, sentindo uma mão firme em seu braço, logo notando que era de Yami.
“— O que dizia Cain?” – Veck perguntou, olhando desconfiado para Yami.
“— Melhor vocês discutirem mais tarde...” – Jiyha se pronunciou. “— O motivo de minha visita é para avisar-lhes que um ancião chegará nesta vila em alguns dias, e analisará melhor as algemas e o corpo do demônio.”
“— Obrigada senhora Jiyha!” – Sorri agradecido para esta.
“— Por hora, gostaria de eu mesma analisar as inscrições de Yami, já que não saberemos se ficarão assim por muito tempo.”
“— Oras, queres que fique despido na tua frente?” – Debochou este, fazendo pose.
“— Tens medo do que, que eu te ataque ‘criança’?” – Riu da cara de raiva que o outro fez.
“— ...” – Por pouco não pulou no pescoço daquela fêmea, só não fez isso por que agora era Cain quem lhe segurava o braço.
“— Nós iremos sim, fico grato pelos seus cuidados.” – Agradeceu novamente à elfa, puxando levemente Yami para a porta. “— Não sabemos se iremos demorar...” – Avisa Cain, especificamente para Veck. “— Mande o Guille comer algo, possivelmente ele irá me esperar.”
“— Boazinha essa coisa loira...” – Comentou o demônio, com sua habitual ironia.
“— Não se preocupem...” – Disse Veck, vendo os três saindo daquela casa, e logo voltou a se sentar no sofá.
“— Enfim sós...” – Nyha comentou baixinho assim que não viu mais ninguém na sala, alem de Veck.
“— Você continua a ser persistente...” – Arqueou a sobrancelha, não gostando do comentário do outro. “— Por que quer tanto que eu te morda?”
“— Na primeira vez...” – Sentou-se ao lado deste. “— Fora só curiosidade infantil... Todavia depois de experimentar daquele prazer... Digo que senti uma inveja tão grande de minha irmã...”
“— Tolice tua...” – Sorriu meio com desgosto. “— Luna agora parece ter pavor que eu a morda, e não a culpo. Da ultima vez que eu a mordi, tomei fora sangue dela, e em uma enorme quantidade...” – Suspirou. “— Eu estava muito alterado no dia, por culpa de meu Mestre...”
“— Isso é normal Vectorius...” – Sentou-se mais perto, discretamente. “— Você mesmo disse que estava alterado.”
“— Os fins não justificam os meios.”
“— Para mim, justificam, agora se minha irmã não te entende, tenho duvidas deste amor que ela sente.” – Sorriu-lhe doce, tocando no rosto.
“— Nyha...” – Afastou-se deste. “— Continua ousado e persistente...” – Olhou-o com repreensão. “— O que queres afinal?”
“— Tudo.” – Respondeu de imediato, mas logo reformulou sua resposta. “— Digo, quero sentir novamente aquele prazer que senti quando me mordeu...”
“— ...”
“— Você sabe como eu fiquei depois disto... Querendo mais e não tendo. Você havia ido embora me deixando com aquela agonia...”
“— Nyha, você ainda é jovem, tem prazeres melhores que aquele. Procure uma elfa, vai ver que não estou a mentir.”
“— ...” – Olhou-o com desgosto. “— Deste prazer eu conheço, e muito bem ainda. Por isso digo que prefiro ter você em cima de mim a me morder...” – Afastou o seu cabelo, para que o outro tivesse uma visão melhor de seu pescoço.
“— Pare com isso...”
“— Irei dar para você…” – Fez uma pausa, lambendo os lábios. “— O que comer.” – Avisou, levantando-se.
Sorriu pervertido para meio-vampiro, ajeitando seus cabelos ruivos que insistiam em lhe cobrir a visão. Aproximou-se novamente do outro, não vendo resistência deste, sentou-se em seu colo, de frente, sobre o olhar curioso e confuso do mais velho.
Veck não fazia nada, talvez pelo fato da fome estar começando a dominar seu lado humano, ou pelo fato daquele elfinho ter crescido e se transformado em algo tão fogoso.
“— Você está com fome...” – Melodiou baixinho em seu ouvido. “— Me morda, simplesmente me morda...”
“— Não quero.” – Resistiu, afinal não era bom atacar o irmão de Luna.
“— Mentira. E pare de pensar em desculpas para resistir a isso...” – Rebateu. “— Mas se é assim... Quero comprovar algo contigo.”
Abraçou-o mais firme beijando de leve o pescoço do outro, saboreando pela primeira vez o gosto daquela pele clara. Nesta hora, Veck notou o jeito e modo em que estava e tentou afastar aquele ruivo de si, mas para, gemendo baixinho e estremecendo ao sentir uma mordida até forte em seu pescoço.
“— Realmente...” – Nyha falou baixinho, como se tivesse descoberto algo valioso. “—Bem que minha irmã disse que você ficava sensível quando estava com fome, e era verdade...” – Sorriu pervertido, repetindo o que tinha feito.
“— Por favor... Se quiserem fazer isso, vão para um quarto...” – Ouviu-se a voz doce, porém afiada como lâmina do loiro.
Nyha e Veck se olharam imediatamente para o Guille parado na porta da sala com uma cara de safado. Este escondia com as costas das mãos um sorrisinho de deboche ao ver o vampiro naquele estado.
“— E se o Cainzinho aparecer e ver essa pouca vergonha?!” – Alfinetou-os mais.
“— Não pense besteiras Guille.” – Veck vociferou.
“— E em que eu poderia pensar, meu caro morcego? ”
Veck estranhou aquela voz fria que saiu do loirinho, por um instante sentiu um medo desta. Soava-lhe de uma forma tão aterrorizantemente familiar a seu Mestre, que chegou a piscar os olhos, tentando saber se aquele ali era realmente o Guille.
“— Podem continuar se quiserem, eu irei fazer o almoço.” – Deu alguns passos, em direção a cozinha. “— Por que alguns, ainda comem algo normal...” – Falou audível o bastante para os dois ouvirem, logo entrando no cômodo.
“— Sou inocente até que se prove o contrário.” – Levantou as mãos, em sinal de paz.
“— Pare de falar isso. Você sempre é culpado!” – Reclamou Veck, esquecendo do que tinha pensado há instantes. “— E sai de cima de mim!” – Mandou, olhando com raiva para este. “— Pare de brincar comigo, antigamente você era apenas uma criança, mas agora se me perturbar usarei uma magia em você.” – Avisou-lhe, sério.
“— Caso não saiba, eu também quero ser um bruxo. Estudei minha vida toda magia elemental. Saberei me defender de suas magias... ”
“—Tua vida toda, não é nem metade da minha... Agora saia logo! ” – Voltou a mandar.
“— ...” – Obedeceu, levantando-se. “— Sensível e facilmente de mau-humor... ” – Lambeu os lábios. “Meu tipo.” – Pensou, adorando mais saber que poderia provocá-lo. “— Vou ajudar o Gui a fazer a comida...” – Avisou-lhe, saindo também da sala.
“— O que será que deu nele...?” – Indagou-se Veck.
—--X---
Cain e Yami entravam na casa de Jiyha e logo esta lhe pediu para que se sentassem nos confortáveis sofás da sala, e assim fizeram.
“— Filho, você irá me ajudar.” – Falou a anfitriã. “— Nyha?” – Estranhou este não ter lhe respondido, e o procurou com o olhar.
“— O desgraçado orelhudo ficou...” – Bufou Yami, olhando com raiva para Cain. “— Vamos buscá-lo!”
“— Não precisa...” – Falou ela, respirando fundo. “— Deixe-o lá.”
“— Não.” – Olhou com mais raiva ainda para esta.
“— Deixe o Nyha lá com o Veck, pelo menos não ficará sozinho.” – Comentou Cain.
“— Quanta nobreza...” – Debochou o demônio. “Ou será lerdeza.” – Pensou por fim.
“— Bem... Pode começar.” – Falou a elfa, sentando-se em uma poltrona de frente para o sofá da sala.
“— Então irei me retirar...” – Avisou Cain, levantando-se do sofá.
“— ...” – Levantou-se também, porém o que fez foi empurrar de volta o outro para o lugar que estava no sofá. “— Hospedeiro, não tem nada aqui que já não tenha visto...” – Deu uma pausa olhando um instante para este. “— Afinal, este corpo é idêntico ao teu.”
Yami sorriu pervertido, achando ali uma boa forma de se divertir. Levou a mão à camisa que usava, antes passando esta por todo peito, para só depois puxar a peça de roupa para cima, tirando-a de si e jogando no colo de Cain.
Este olhou tudo aquilo. Apesar de ser tão parecido, eram inconfundíveis pelos modos no quais se comportavam. Se tivessem pedido para que ele fizesse isso, provavelmente estaria morrendo de vergonha de tal ato.
O demônio sorriu pervertido, dando um olhar para seu hospedeiro, e outro para a mulher a sua frente. Levou em seguida suas mãos até a calça que usava retirando-a de forma lenta, mais provocante ainda. Voltando a jogar a peça, assim que a tirara, no outro moreno.
Sorriu malicioso, lambendo os lábios, fazendo seus dedos passarem pela roupa de baixo que usava, não tardando em tirar essa peça de roupa de si, desta vez jogando na cara no outro.
Cain apenas avermelhou-se, dobrando as roupas e colocando-as ao seu lado. Olhava espantado. Não tinha como aquele corpo ser igual ao seu. Alto, bem torneado, físico forte.
“— Já se olhou no espelho?” – Murmurou Yami, conseguindo entender o que o outro pensou.
“— Nossa, não é que o demônio é muito bem dotado?” – Comentou a Jiyha.
Yami apenas sorriu mais pervertido ainda, olhando de imediato para o outro, que ficara mais vermelho que tudo pelo comentário que a elfa fez. Logo esta nota o que tinha falado sem pensar, e cora um pouco.
“— Desculpe-me príncipe, não tive a intenção...”
“— Tu-Tudo bem...”
“— Vão ficar enrolado ou vai logo analisar esse lindo corpo que possuo?” – Indagou o demônio, vendo que os dois ficaram mais desconcertados.
“— Sim... Claro... Fique parado um instante.” – Falou a anfitriã, tentando apenas olhar para aquele corpo despido como se fosse um livro.
—--X---
“— A comida está pronta.” – Avisou Guille, arrumando a mesa e sendo ajudado pelo elfo. “— Onde está Cainzinho?” – Indagou para si, indo até a sala e repetindo a pergunta para Veck.
“— Foi ter um encontro com uma bela elfa.” – Avisou este, quase rindo da cara de puro espanto que viu no loirinho.
“— Impossível...” – Chegou a ficar pálido.
“— Por quê? É compreensível um garoto da idade dele ir atrás de uma garota, não?” – Provocou-o mais.
“— Então ele... Ele...” – Estava quase chorando.
“— Ele foi com minha mãe, pesquisar sobre aquelas escritas no corpo do Yami.” – Avisou Nyha, tocando gentilmente no ombro do loiro.
“— Verdade?” – Seu olhar demonstrava uma imensa alegria ao indagar isso ao ruivo.
“— Sim, Gui.”
“— E ela... É confiável...?” – Olhou-o curioso.
“— É minha mãe... É sim.”
“— Só para garantir.” – Sorriu doce para este, abraçando-o e dando um beijo na bochecha. “— Obrigado por ter contado, já estava me preocupando.” – Afastou-se.
“— Quanta preocupação. Qual o mal do Cain sair com uma mulher?” – Veck perguntou.
“— Toda! Essas mulheres nojentas vão acabar pervertendo a cabeça doce e inocente do Cainzinho.”
“— Não é porque você não gosta delas, que os outros também não gostam...” – Levantou-se.
“— Não era eu que estava a poucos gemendo com um homem no meu colo...” – Alfinetou-o, sorrindo pervertido.
“— ..!” – Preferiu ficar quieto por um tempo, não adiantava rebater aquilo. “— Fique ai, eu irei buscá-lo.” – Avisou.
“— Vá rápido, antes que a comida esfrie.”
“— ...” – Saiu do lugar sem falar nada.
“— Hei Gui, eles vão demorar, quer se divertir um pouco comigo?” – O ruivo falou, abraçando o loirinho por trás.
“— Não seria besta de negar isso...” – Virou-se, beijando-o de leve nos lábios. “— Vamos para o quarto...”
—--XXX---
Era apenas um ser fraco e sem força, odiava a tudo isso, odiava ser apenas um recém nascido.
“— Horrível este! Quero outro!” – Soou uma voz de mulher.
De tão novo que era, não conseguia lembrar-se do rosto de seus próprios pais, a única coisa que tinha recordação era a cor azul. Azul era a cor de seus olhos, de ambos. Azuis intensos, sombrios, macabros ao ver de um pequeno bebê.
“— Pensei que teria meus olhos!” – Soou um homem agora. Parecia estar discutindo com a mulher.
“— Me acusa de que? Traição?! Puros sangues são raros, e só por isso estou contigo!” – A voz feminina se fez soar novamente.
“— Não quero esta coisa!”
“— Também não o quero! Deixe neste berço até morrer de fome, faremos um filho melhor.”
Nada mais conseguia se lembrar. Talvez tenha ficado anos naquele quarto escuro, esperando a morte que misteriosamente não lhe aparecia. Ou simplesmente foram alguns dias, o tempo para uma criança daquele tamanho passava tão lento.
Até que um dia, viu uma luz entrar naquele lugar que estava.
“— Um bebê?” – Uma voz de criança apareceu no cômodo. “— Entendo, deve ser o primeiro filho deles...”
Não conseguia se lembrar do rosto daquela criança também, e novamente a única coisa que notava eram o brilho dos olhos. Verdes. Uma coloração diferente daqueles macabros azuis.
“— Não quero ser servo deles... Você pode os matar... Só você... Qual seu nome?” – O de olhos verdes perguntou.
“— ...”
“— Entendo, nunca deve ter comido, por isso não se desenvolveu...”
“— ...”
“— Não deve ter nome, não é? Eles esperavam um herdeiro com lindos olhos azuis, mas pelo que vejo devem ter odiado estes teus olhos negros...”
“— ...”
“— Não me olha com essa cara... Já sei! Seu nome será Shisue!” – Sorriu para o bebê. “— Shisue. E com o sobrenome de sua família... Shisue Abyssinian! Bonito não? ”
“— ...”
“— Eu sei que não pode falar... Mas entender, eu sei que entende.” – Falou animado. “— Te darei meu sangue... Virei te alimentar secretamente, até que possa se virar sozinho.”
Os anos depois foram melhores do que aquele inferno sombrio do começo. Até o dia em que finalmente conseguira sair daquele berço negro que estava. Olhou para aquele quarto escuro em que estava, indo em direção a porta, mas para quando alguém a abre antes de si.
“— Já pode andar?!”
Misteriosamente ainda não conseguia recordar o rosto daquela criança, que agora já era um homem adulto. O olhar verde parecia cansado.
“— Agora que o novo filho nasceu, um de olhos azuis, eles se lembrarão de você, e virão ver se ainda está vivo...”
“— Os matarei.” – Sua voz infantil saiu fria e sem emoção.
“— Que bom que já está falando comigo, Shisue... ”
“— ...”
“— Essa será a ultima vez...” – Cortou os próprios pulsos com uma adaga. “— Pensando bem, já tens força para me morder... Aproveite e me mate.”
“— ...”
E assim o fez, sem hesitar, tirou a vida daquele que o ajudou. Sorriu pecaminoso, adorando quando este caiu morto aos seus pés, e o sangue que o sujava. O resto, não fora muito difícil acabar com todos daquele castelo. Todos, não deixando uma única alma ali.
Havia sugado todos, deixando um rastro de corpos por onde passava.
“— Amargo... Só o sangue daquele olhos verdes era doce...” – Murmurou baixinho, jogando sua ultima vitima no chão.
—--X---
“— Mestre...?” – soou uma voz doce, fazendo o puro sangue despertar.
Este então abriu os olhos, olhando fixamente para aquele garoto a sua frente.Aqueles olhos verdes preocupados consigo. Ajeitou-se no trono qual estava sentado, cruzando as pernas e olhando com raiva para este, por ter sido acordado.
“— Tendo pesadelos meu Mestre?” – Oroi se aproximou, ajoelhando-se em frente ao trono deste, olhando com luxuria para aquele ser
“— Isto não é de teu interesse...” – Sorriu com superioridade para este. “— E já que estás deste modo...” – Descruzou as pernas, com seus olhos negros brilhando com uma súbita crueldade. “— Sabes perfeitamente o que deve fazer.”
O menor corou, mas lambeu os lábios ao saber o que lhe aguardaria. Não tardou em cumprir mais uma daquelas ordens de seu amado Mestre tirano. Já havia notado que para ser do agrado de seu Mestre, era preciso sempre mostrar-se obediente a todos seus caprichos.
“— Meu belo de olhos verdes...” – Falou Shisue, com uma voz aveludada e perversa, olhando para aquela criança que acatava a tudo que pedia.
CONTINUA...
05/02/10
Nota da autora:
Bem... Como preferiram que os CAP fossem longos, ai está ele. XD
Teve um pouco de tudo, não? Mas alerto logo aqui, o outro CAP será bem mais quente, então para os que sofrem de hemorragia nasal, aconselho já ter toalhinhas de papel do lado.
Mais um personagem para o Prison, quanta confusão... Já tem cabelo preto, loiro, preto-azulado, prata e agora um ruivo... Só me falta querer fazer algum personagem de cabelo castanho, não? *pensando no assunto*
Agora, eu devo atualizar a FIC do D.Gray-Man que tá atrasada... Já tem leitores me querendo morta por causa disto. XDDD
Obrigada a todos por lerem e comentário, sobre o Prison (e também por ler a baboseira que falo nos finais de CAPs)
Comentário da beta:
Oh céus….. Eu desisto de comentar isto. Preciso pegar um balde e alguns lenços, tenho uma ligeira ideia do que acontecerá. ^_ ^ E este Nyha….. Tsk Tsk. Ok, vamos entregar logo o capítulo nee? A internet aqui caiu então demorei um pouquinho mais para mandá-lo de volta. Mas está aí!
By: Toynako
Fale com o autor