Prisma

1 O Nascimento de uma Nova Era


Notas iniciais
Olá, pessoas! Aqui estou eu tentando participar de mais um desafio. Não estou tão segura porque realmente para mim vai ser um desafio, já que não tenho muito contato ou tive alguma tentativa de sucesso de escrever sci-fi. Acho que a ideia está bacanuda hein? asuhaushauh
Mas vamos que vamos! Boa leitura! :3

Maio de 2020

O dia começava cedo para os trabalhadores das fábricas. Levantavam antes do sol, vestiam agasalhos quentes para suportar o frio da madrugada, jogando-os por cima das roupas leves, necessárias devido ao clima inconstante – deveriam estar sempre preparados para tudo, apesar de já ser outono as estações estavam cada vez mais iguais. Nunca se sabia como o dia iria terminar, que tipo de clima faria quando saíssem no começo da noite para voltarem às residências, uma vez que dentro do espaço da fábrica não tinha como se ter nenhuma noção do que acontecia do lado de fora, estando isolados do restante do mundo entre as paredes de concreto.

Se o primeiro desafio de cada despertar era tentar prever o que enfrentariam durante o dia, o resto da rotina era enfadonha de se lidar. A monotonia era a constante dos empregados que se juntavam no caminho à medida que seguiam em direção à sua fonte de sobrevivência, como em uma procissão. Tomavam o ônibus, no qual a cada ponto subiam mais trabalhadores, e andavam a pé o resto do caminho após saltarem do veículo, as botas extraindo ruídos ao bater contra o asfalto, o qual sempre se encontrava ainda úmido do orvalho. A respiração dos homens e mulheres se fazia visível, o ar quente entrando em contato com o frio em um ofego, fazendo com que saísse fumaça dos lábios. O fim de madrugada coloria de azul o cenário às parcas luzes dos postes de iluminação pública, quando estes não falhavam.

O som do cartão sendo batido no ponto era uma melodia uniforme e maçante; quase irritante não fosse o costume de dia pós dia ouvi-la, tornando-se em pouco tempo facilmente ignorável. Aprender a bloquear os sons era um instinto de sobrevivência para não terminar caindo em loucura com os estímulos repetitivos.

Ofereciam o melhor lugar para se trabalhar àqueles que não possuíam especialização. A fábrica era grande, bem iluminada, espaçosa, com tudo de mais recente que se conhecia em tecnologia. Contudo, o que os empregados adquiriam era o tédio e falta de vontade de levantar, já pensando em enfrentar o serviço de cada dia. A linha de produção não oferecia nada além da padronização. Cada qual em sua função, sem conversas ou perspectivas de crescimento.

Todos possuíam o mesmo rosto cansado, embora cada um tivesse sua história. Eram só mais um forçados a viverem dentro do sistema.

João entrou em busca de dar boas condições de vida à família, o salário – junto ao da mulher – era suficiente para dar conta das despesas e ainda mandar os filhos para uma escola que os daria mais chances de crescer, mais chances do que ele tivera quando mais novo; apesar de não ter acesso ao que tanto produziam na fábrica. Se outrora seus olhos brilhavam de animação, pensando no dinheiro entrando a cada mês, agora era tomado pela fadiga e simplesmente ligava o piloto automático para dar conta de sua tarefa. Era só mais uma parte do grande organismo vivo que era o processo, se um falhasse, atrapalharia todo o funcionamento – e seu destino era certo caso acontecesse: a demissão. O mal temido por todos os trabalhadores a cada nova jornada de trabalho.

Sua função era operar as garras que colocariam as placas nos dispositivos eletrônicos que vinham pela grande esteira de um caminho desconhecido. A mente sempre esvaziava-se naquele momento, o movimento de controle já havia há muito sido decorado, então executava sem esforço sua tarefa. Contudo, naquele dia em específico, um barulho distinto veio dos mecanismos da máquina, que travou sem motivo aparente.

Não era comum de acontecer, por isso João ainda tentou movimentar as alavancas, e nada. Forçou-se a se levantar para dar uma olhada nas peças, pensando que não haveria de ser nada demais já que a produção continuava, então o sistema central estava funcionando perfeitamente. Por mais que duvidasse (afinal, executava sua função com perfeição!), levantou a hipótese de um movimento mal executado que causou um leve deslocamento do braço mecânico, o que seria simples e rápido de resolver. Esperava que fosse, pois estava perdendo tempo. Tempo era produção. Produção era dinheiro. Não podia se dar ao luxo de perdê-lo.

Com uma olhada superficial, decidiu mover manualmente uma das garras, assim deixando-a em um ângulo mais favorável. Dando-se por satisfeito, percebendo também como suas pernas agradeceram pelo alívio de levantar um pouco, deu as costas ao equipamento, pronto para voltar ao seu posto antes que começasse a chuva de reclamações.

Um ruído mecânico alcançou seus ouvidos, diferente do que estava acostumado, porém a reação de seu corpo letárgico foi lenta demais. Olhando por cima do ombro, sua visão periférica só teve tempo de captar o braço que costumava controlar avançando para cima de si, segurando-o pelo ombro com uma precisão absurda que só uma máquina poderia ter.

Ao ser erguido no ar, um grito escapou de sua garganta, cortando o ar frio da fábrica e atraindo a atenção de outros trabalhadores que despertaram do transe um pouco lentamente demais. João sentiu seu ombro deslocar, sendo girado no ar e arremessado contra a esteira que costumava correr o equipamento. Um pedido de socorro antecedeu os passos apressados que se aproximavam, mas a ajuda chegou tarde.

Sem conseguir se livrar do aperto da garra robótica, o ar escapava de seus pulmões enquanto o braço era violentamente puxado. Os ligamentos se romperam com um grito agudo de dor e foi com horror que todos se afastaram quando o sangue invadiu a esteira mecânica.

Em um estalo súbito, sem esperar por uma reação da massa trabalhadora, todos os equipamentos começaram a se mover sozinhos. Assustados, temendo pela própria vida, o desespero foi generalizado. Sem se importar com o tempo, com a produção, com o salário, a corrida em direção aos portões da liberdade se iniciou, os gritos humanos se sobrepondo ao som do maquinário agindo.

Foi assim que teve início a Revolução das Máquinas. Sem que ninguém soubesse explicar o porquê, o fenômeno começou a se alastrar pelo país e a ganhar destaque mundial, espalhando mundo afora uma onda de medo generalizada. A tecnologia, outrora aliada, tornou-se temida por todos.

Uma nova era assim teve se início, os Joãos amedrontados apenas se escondem, esperando apáticos o recomeço do mundo, regido pelas máquinas.

Notas finais
Aceitando reviews como combustvel pra escrita! ♥
Beijos!