Prisma

2 Percepção


Notas iniciais
Se o primeiro capítulo serviu como prólogo, agora começamos de fato a história em si! :3 Obrigada a quem leu, espero que gostem desse capítulo. Boa leitura!

Não... Não... Não... Como as coisas puderam chegar naquele ponto? Não tinha para onde correr. O barulho das explosões do lado de fora era alto, ensurdecedor, mas não o suficiente para abafar o som dos tiros sendo disparados em sua direção. Tudo que podia fazer era encolher o corpo contra a estrutura de metal distorcida que por pouco não afundara em um dos buracos abertos no chão. Estava sozinha e sua arma se encontrava sem carga. Iria ser pega. Iria morrer. Ser morta mais especificamente.

Sua vida era tão comum. Tão pacata. Tão... banal. Agora estava tudo de cabeça para baixo. Não imaginou que um simples desejo realizado seria sua ruína.

Íris vinha de uma família pequena, com condições de vida um pouco melhores que a média geral da população, visto que seus pais eram professores de uma escola da região, onde as crianças aprendiam o básico de leitura, escrita, matemática e a história reescrita pela inteligência artificial. A profissão de seus pais era bastante valorizada por ser o pilar básico de toda a sociedade, já que o mundo informatizado no qual viviam exigia conhecimento, mesmo que este fosse mínimo. Quem não tivesse interesse em aprender estava fadado ao descarte.

Ninguém sabia ao certo o que acontecia com os descartados, mas a simples menção da palavra fazia todos estremecerem. Os boatos diziam que tais pessoas perdiam o direito à vida e cediam seus corpos para uma forma de vida mais avançada e desenvolvida, os robôs; mas tudo eram palavras sussurradas na escuridão, pois qualquer informação sobre o assunto era confidencial.

Sua avó quem contava histórias sobre como o mundo mudou, pertencendo à primeira geração que cresceu nos moldes do governo atual e ouvindo os contos nostálgicos de sua mãe, bisavó que Íris não teve chance de conhecer. As máquinas criaram toda uma rede de controle, passando a governar o modo como os humanos viviam. Pessoas foram tomadas por uma onda de terror que impossibilitava a ação, qualquer um que tentasse lutar contra a Revolução Maquinária seria rapidamente achado e destruído. Utilizando todo o conhecimento adquirido e acumulado através da rede mundial de computadores, as máquinas que ganharam vontade própria passaram a investir na construção de corpos robóticos que armazenam sua inteligência, estudo que segue até os dias atuais, sempre em busca de descobertas mais recentes.

Se o controle coube aos robôs, aos humanos restaram tarefas simplórias, sobrando pouco a se fazer para auxiliar a sociedade. Com a gentil permissão dos superiores, grande parte dos homens se dedicava à produção de alimento para a população escassa, a qual foi diminuindo a cada geração. Se sua avó tinha dois irmãos, Íris era filha única, que foi concebida com bastante custo. Os corpos pareciam frágeis, como se fosse cair a qualquer momento. O riso parecia ser proibido, embora não existisse uma lei que falasse sobre. Mesmo as crianças, à medida que iam ganham discernimento, ficavam mais amuadas. As conversas eram sussurradas e os sorrisos parcos. Todos pareciam constantemente tristes e infelizes, apesar dos avanços tecnológicos proporcionado, a qualidade de vida decaía. O restante trabalhava em profissões que os robôs não queriam assumir, por perigo ou falta de essencialidade, sendo poucas as áreas que os humanos não podiam ser facilmente substituídos. Ensinar era uma delas.

Os pais de Íris eram considerados privilegiados. A própria garota cresceu com uma fagulha de alegria cada vez que chegava em casa, o ambiente no qual mais se sentia segura e protegida e que também lhe proporcionava muitos momentos de puro prazer. Sempre se divertiu lendo os livros que se acumulavam em pilhas espalhadas pela casa. Muitos tipos haviam sido proibidos pelo comando, aqueles que continham material acumulado ao longo dos séculos de Física, Robótica, Engenharia e similares, tendo sido destruídos e tirados de circulação por uma raça inferior não ter direito de acesso ao conteúdo. Os inofensivos foram ignorados. Desta seleção, os que Íris sempre gostou foram das histórias de ficção que pareciam descrever outro mundo, bem diferente do que conhecia. Um lugar cheio de brilho e cor, que descrevia o céu como “azul” e a grama como “verde”. Cores que desejava conhecer, mas que mal podia imaginar como pareciam. Todas as tonalidades que conhecia se resumiam a uma ampla e variada paleta de cinza, do branco ao preto, cada tom possuindo um nome próprio.

− Estranho... – Foi o que Íris sibilou certo fim de tarde, enquanto passava o tempo com outra de suas atividades favoritas além de ler: observar o céu. Já fazia uns dias que se sentia estranha, porém havia ignorado até então. Parecia ter algo de errado com seu corpo e, como a sensação não estava passando, começava a se preocupar.

No auge de sua tentativa de ser independente dos pais com meros dezesseis anos, não queria levar problemas para eles, porém decidiu que deveria contar o que acontecia consigo (por mais que não soubesse exatamente o que era). Poderia estar doente e tal pensamento não lhe agradava. Ainda se arrepiava ao lembrar-se dos últimos dias de sua querida avó, ainda vívido em sua mente o sofrimento que ela passara antes de se entregar ao alento final.

O som do portão se abrindo do lado de fora fez com que se adiantasse, caminhando até a sala. Todas as casas da vizinhança eram iguais e ninguém se preocupava muito com fechaduras por ser um lugar seguro, formando um padrão de cinza monocromático, enquanto as paredes do lado de dentro recebiam um tom mais claro de cinza, gainsboro, que iluminava o ambiente; os mais desatentos poderiam facilmente confundir sua morada, mas Íris sabia exatamente que era o portão de sua casa que foi aberto ao ouvir os sapatos arrastando-se no chão, nos passos característicos de sua mãe.

Íris sentia algo próximo de pena ao vê-la chegar. O corpo era franzino e curvado para frente como se toda sua vida pesasse sobre os ombros e ela já não era uma jovem. Amália trabalhava duro, mas sempre parecia tão cansada que Íris se sentia mal quando precisava incomodá-la com algo e justamente por isso evitava ao máximo.

− Oi, filha. – Ela sempre arriscava sorrir ao ver a cria, no que Íris normalmente se aproximava para beijar seu rosto, mas não naquele dia.

− Mãe, eu... eu acho que preciso de um médico – murmurou enquanto remexia os pés nervosamente, recebendo de imediato um olhar preocupado de sua progenitora. – Acho que não é nada demais! Mas minha visão anda estranha... Tá diferente do normal, as cores estão meio distorcidas... Talvez eu precise de óculos igual ao pai.

Amélia já era pálida e pareceu desbotar mais ao ouvir as palavras da filha. Os livros pesados que carregava nos braços foram de encontro ao chão, o que fez Íris arregalar os olhos de susto: sua mãe sempre tomava muito cuidado com suas coisas, especialmente caso se tratasse de livros. Não importava qual, Amélia acreditava que seu valor era inestimável. Nunca a viu andar tão rápido quanto fez no momento em que avançou e agarrou-lhe de súbito pelos braços, com uma firmeza desconhecida para Íris, que chegava a sentir a pele arder.

− Como? Desde quando tem sentido isso? Fala com a mamãe, filha... me conta direito essa história. – A voz denotava desespero.

− Não sei... talvez uma semana?

Estava assustada, sua mãe sempre foi super preocupada com seu bem-estar, diria que até mesmo em excesso. Seu pai, pelas costas da esposa, sempre pedia paciência à garota por também entender o sentimento, explicando a origem de toda aquela preocupação. O casal chegou a ter outros bebês antes, mas eles nunca vingavam, o que fragilizou Amélia que sempre se culpava por seu útero não conseguir gerar bebês saudáveis. Íris foi a primeira e única, crescendo em um ambiente super-protetor.

Devido à reação exagerada da mãe, Íris fez com que ela se sentasse em uma cadeira antes de continuar a contar. Os móveis eram escassos, mas tomou o cuidado de guiá-la e acomodá-la por não querer correr o risco de que ela caísse desamparada. Só então contou como o mundo parecia estar com uma cor diferente, embora ainda bastante opaca.

Amélia começou a chorar. Um choro alto e intenso. E era essa justamente a reação que Íris temia. Sua mãe estava sempre chorando pelos cantos, mas a garota odiava ser a causa dele – especialmente quando não eram lágrimas silenciosas, mas desesperadas e entrecortadas por soluços. Assemelhava-se a uma criança, mas uma criança que não tinha os braços dos pais para onde correr.

– Íris... – chamou com a voz embargada, levantando-se e tropeçando até a garota que continuava de pé. Ela segurou suas mãos com força, tanto que chegava a machucar, prendendo a circulação do sangue. – Por favor... Promete uma coisa pra mamãe. Por favor.

− O que é...? – indagou com a voz hesitante, os ombros encolhidos e retraídos. Estava assustada. Internamente desesperada. “Qualquer coisa,” pensava, “desde que pare de chorar!”

− Promete... promete que não vai falar disso para mais ninguém. Você não pode deixar os outros perceberem!

A voz de Amélia subiu ligeiramente de tom, algo raro de acontecer. Estava séria e o olhar tão decidido que Íris nem questionou o motivo daquilo tudo, apenas assentiu com temor.

− Prometa!

Já não havia traços de carinho no imperativo.

− Prometo – falou baixo, mas foi o suficiente para sua mãe suspirar e abraçá-la com força, a ponto de ficar difícil respirar nos braços dela. – Mãe...!

Afagou as costas dela, mas Amélia não queria soltá-la. Íris começava a ficar realmente preocupada – pelo visto, o que tinha era realmente sério. Nunca tinha visto a mãe tão alterada. Tão desesperada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.