Prisioneiros do banheiro

3 Salvação e Desespero


Notas iniciais
24/11/2020 - Atualizei vários capítulos e várias fics, aproveitei para concluir uma fic e continuar outras. Se alguém ainda lê isso, parabéns, você é incrível.

Salvação e Desespero

Mudar de uma casa para outra era sempre trabalhoso, tirando por Ricardo, todos da casa estavam exaustos pela arrumação. Três dias sem parar, desencaixotando coisas e as arrumando nos devidos lugares. Isso estava acabando com Angel que havia decidido banhar e descansar. Era merecido afinal.

(...)

Ela estava relaxada em sua cama vendo o sol brilhando no céu pela janela e suspirou, imaginando se ela deveria ou não ir atrás de seu amigo. Se o que ele havia contado fosse verdade, como conseguiam internet? Como se alimentava e como vivia? Tantas perguntas rondavam a mente da adolescente, que demorou a perceber onde estava. As badaladas soaram fortes, anunciando o horário, o sol havia sumido.

— Seis da tarde? Mas já? — Se ia fazer isso, tinha de ser logo, não teria coragem se fosse de outro jeito e assim, caminhou até a passagem semi — secreta, engolindo a ansiedade goela abaixo.

Aquele lugar que apesar de ter aparência aconchegante, conseguia lhe dar arrepios, parecendo haver uma aura de desespero em volta do portal que ligava para a sala da casa de classe média alta. Reunindo sua coragem, engoliu em seco enquanto atravessava para a tão dita “outra dimensão”. Olhou para trás e para ter certeza de que poderia voltar, foi ao banheiro para se sentir menos amedrontada. Constatando que conseguia pois não havia nenhuma diferença ainda, seguiu para a sala novamente e olhou a sua volta, não vendo ninguém alí. A falta de alguém a deixava mais nervosa, pois tinha medo de que a garota de quem ele havia falado poderia brotar de algum lugar e a agarrar. Era um risco que tinha de tomar.

Seguindo adiante, atravessou a sala com maior determinação e seguiu ao corredor que ligava a diversos outros quartos, dando certeza a Angel que aquilo definitivamente não fazia parte da estrutura original da casa que havia comprado.
”O que é isso? Estou mesmo em outra dimensão? Do lado de fora da minha casa eu não vi ser tão larga. Não é possível haver tantos cômodos.”

Nesse momento, a menina viu uma porta aberta e ao chão, conseguia ver uma... Mão? Dando mais um passo, pode ver que a mão fazia parte de um corpo delicado de uma menina que parecia estar desmaiada no chão. Ela aparentava ter pouco mais de 10 anos e os trajes denunciavam ser muito antigos, como se fizesse parte da idade média da França. Mas como podia aquela pequena de cabelos encaracolados arrumar uma roupa tão estranha?

Preocupada por ela estar desacordada, quase a tomou no colo, mas foi quando viu mais adentro do quarto um rapaz na cama e um homem de idade sentado ao chão, pareciam ter sido drenados de vitalidade. Teriam eles câncer talvez? Aquele que estava na cama aparentava estar tão abatido, foi quando viu que as características físicas dele batiam com as da descrição que havia lido no MSN e sussurrou pondo as duas mãos na boca, quase chorando:

— Matheus? Mas como pode?

A voz chorosa da adolescente fez o outro abrir os olhos com uma expressão sofrida e surpreso, mas sem forças para se erguer normalmente, tentou sentar se segurando na cama.

— Quem é você? Você... me conhece? — Fraco como estava, parecia que ia cair novamente na cama, mas ainda se segurando, dessa vez na escrivaninha ao lado, manteve o olhar na invasora desconhecida.

— S..Sou eu, Angel. Nos falamos ontem e você me pediu ajuda para tirar você daqui. Você é o Matheus... Não é?

— Angel? Sim, sou eu mas... Eu não falo com ninguém a anos. Espera... A não... Foi ela, aquele monstro enganou você e me usou pra isso. Você tem de sair daqui, é muito perigoso. Antes que seja tarde. Por favor, fuja.

Assustada, mas não o bastante para sair correndo, tentou ligar os pontos, mas um passo errado quase a fez tropeçar na garota que estava no chão. Aquilo tudo era tão estranho... O que ela poderia fazer nunca situação como aquela?

Lembrando das instruções principais, se abaixou para carregar a garotinha desacordada consigo, por ela não pesar muito, quase não teve dificuldade mas foi impedida pelo homem que murmurou abatido enquanto se levantava devagar.

— Deixe que eu faço isso, ela eu consigo... Não tenho força o suficiente pra ajudar ele, mas você tem.

Devagar e com cuidado, o homem que aparentava ter por volta dos quarenta e poucos anos, a carregou pelo corredor e chegando na entrada do portal, a deixou alí, esperando por nós dois.

Voltei o olhar pro suposto amigo, e finalmente o ajudava a levantar. Ele era alto e apesar de estar muito fraco, era possível ver que originalmente ele era forte para a idade.

— Pesado...

O rapaz estava com medo de que aquela que os prendeu alí acordasse de seu sono, mas tinha mais medo ainda de que aquela pequena fagulha de esperança que havia brotado se apagasse e assim, seguiu tentando caminhar mesmo que aquela fosse uma missão quase impossível.

O esforço que ele fazia para caminhar era enorme e era visível que cada passo o exauria ainda mais, como se deixasse para trás de cada passada, uma parte de sua vida.

Finalmente haviam chegado ao portal e estavam todos no ponto de sair, quando Matheus tocou o braço de Angel e a olhando com angustia, pediu que ela fosse primeiro.

Uma badalada, despertou todos com suplício e o ambiente pareceu ficar mais difícil de respirar, ela havia acordado.

— Rápido, por favor, rápido! Ela acordou!

Angel tremia sem conseguir imaginar que tipo de monstro poderia causar tamanho terror nos olhos daqueles dois e fazer com que a garotinha mesmo desacordada, tremesse em terror. Ela passou pelo portal rapidamente, ajudando a menina a passar para dentro do banheiro e nesse momento, ela entendeu porque eram necessárias duas forças para passar uma. Sua energia pareceu ser puxada para fora de si, como se fosse uma troca e se sentiu gelada ao ver ao longe, a porta do fim do corredor se abrir, mostrando uma sombra distorcida a princípio.

Os olhos se acostumaram aos poucos com a visão sobrenatural e pode distinguir aquilo como sendo... Humano? Era mesmo uma garota? Seus cabelos negros escorridos na frente do rosto dava agonia, sem conseguir enxergar nada de sua face com clareza.

(NDA: igual a Samara do chamado, com roupas limpas)

— Passe o Matheus, rápido!

O homem empurrou o adolescente fraco para que ele pudesse passar e acordei do transe, o puxando para dentro do banheiro com dificuldade por ele precisar de mais energia do que a menininha.

Ver aquilo fez com que aquela que os prendeu urrasse em ódio, mas o urro era agudo e amedrontador, a escuridão veio dela como as vozes da morte.

(NDA: como um Nazgul, de Senhor dos Anéis)

Desse ponto em diante, tudo passou em câmera lenta, Matheus havia passado para dentro do banheiro e Angel estava fraca por ter perdido tanta energia vital, mas tinha de ajudar aquele homem ou não se perdoaria. Estendeu a mão a ele e o dito monstro correu para evitar que isso acontecesse. Angel o puxou tentando ser rápida, mas a garota os alcançou, puxando ele de volta com uma força maior, quase o levando de volta. Foi quando Matheus tirou seu sapato de couro do pé e o arremessou contra ela, a fazendo soltar por alguns segundos por conta do impacto surpresa. Foi o tempo que eles precisaram, o fazendo enfim ser resgatado, deixando Angel completamente exausta pelo gasto de energia que havia tido.

Aquele grito assombroso voltou para aterrorizar a todos, vendo o monstro socar o portal, que a repelia como uma barreira e a cada murro de raiva, nós podíamos ver ela ficar cada vez mais fraca, parando enfim de lutar contra o ódio, mergulhando o olhar trevoso para todos que haviam passado para o outro lado.

O alívio veio em um suspiro pesado para a adolescente, que não havia percebido desde quando tinha começado a tremer. Ver que aquilo não conseguia passar para os pegar deixava todos mais calmos e o pavor que sentiam deu margem a lágrimas, enquanto todos se abraçavam sem acreditar que haviam finalmente escapado daquela prisão.

Angel viu tudo com um sorriso relaxado, quando então, enxergou tudo ficar escuro e cair ao chão sem forças.

— Angel? Angel!

As únicas palavras que ouviu antes de apagar haviam sido seu nome de forma atrapalhada e nervosa, a fazendo rir satisfeita.

(...)