Priscila
5 Verde e Descascando
Cheguei a sua casa cerca de uma hora depois da ligação e aparentemente ainda era cedo demais. Liguei para ela assim que cheguei lá, com uma voz cansada e claramente doente ela me disse que estava muito perto, chegaria lá em cerca de 10 minutos. Eu fiquei ali, sentada na rua, no meio fio, na frente do bar, esperando que ela chegasse com os meus fones altos e desligada do mundo. Para mim aquilo tudo parece uma eternidade, mas ela finamente chegou.
Pela sua voz no telefone esperava que ela chegasse a algum estado deplorável, mas na verdade estava bem. Não vomitava ou parecia ter vomitado a pouco tempo, mas estava pálida, cobria seu corpo em um abraço próprio e olhava para o chão com os olhos bem irritados. Ela estava muito soada e cheirava mal, muito mal.
Emma apenas apontou na rua e eu fui correndo em sua direção, a abraçando quando cheguei a seu encontro. Com os dentes sujos ela sorriu e nós entramos no bar, que ainda estava aberto. Fomos para trás do balcão, ela e o dono do mesmo brincaram sobre o estoque de bebidas, ali atrás havia uma porta por onde entramos em uma extensa cozinha, da qual era longa, mas estreita. Ao final da mesma havia uma longa escada alta, apertada, sem corrimão com degraus altos, uma daquelas que você espera nunca ter que subir na vida. No topo estava uma porta com cerca de quatro ou cinco fechaduras, das quais ela agilmente abriu, como se a sequencia das chaves já estivesse memorizada em sua cabeça, mesmo que todas elas fossem iguais.
Sua casa era pequena, apertada, velha e extremamente feia. Eu nunca vou me esquecer sobre como aquela cor verde e descascada nunca deveria ter parecido bonita em nenhuma hipótese, ou como tudo aquilo já parecia uma moderna e nova casa quando as coisas acabaram. Entrava-se diretamente em sua pequena cozinha, a pintura desgastada dava um ar de 20 anos para aqueles armários que eu podia jurar serem mofados por dentro, uma coisa que me incomodou a direita. Não muito longe da entrada estava a mesa de metal de quatro lugares que com certeza havia saído do bar, com suas cadeiras de metal com um forro rosa e furado. Porém tudo aquilo era quebrado por uma enorme, alta, prata, inox, geladeira que eu jurava ter uns 700 litros, com congelador no chão nova, agua na porta ela era tudo que eu não esperava achar naquele lugar abandonado. Fiquei me perguntando como exatamente tudo aquilo tinha acontecido.
–Eu estou reformando, ok? Quando eu comprei aqui paguei três mil reais, você tem ideia do estado que isso estava quando eu entrei aqui pela primeira vez? Arrumei meu quarto e ajudei as meninas a arrumarem os delas, foi quando eu ganhei a geladeira de presente. Começamos a mexer no banheiro, que sinceramente era um nojo, mas gastávamos muito com lavar as roupas fora, foi quando resolvemos comprar uma maquina de lavar e uma secadora. Você sabia que nós nem temos uma pia na cozinha? Não conseguimos trocar nada, mas o encanamento é novo, porque o Carlos, o dono do bar, teve que trocar o encanamento de todo o prédio uns dois meses antes de eu me mudar. Acho que por isso queria tanto vender logo o apartamento. O plano é trocar todo o piso do apartamento mês que vem, e só daí a gente vai poder mexer no banheiro, privada, banheira, box e pia, depois a gente muda para a cozinha, vamos arrumar a área para gastar menos com a maquina e com a lavadora, vamos arrumar todas as goteiras arrumando o teto com o Carlos e só aí vamos montar a sala num quarto sobrado que a gente tem que dá muito medo. Isso aqui vai virar um lar para se ter filhos. E sim, eu ganho muito dinheiro. – Priscila pegou uma garrafa de agua dentro da geladeira e começou a me contar a saga de reformar a casa como se lesse a sua lista de compras.
–Três mil? – me sentei ao seu lado naquela mesa, ainda temendo pegar tétano de alguma daquelas cadeiras.
–Sim, eu poderia ter dado o meu iPhone por esse apartamento. Mas sinceramente eu amo esse moquifo. Eu sofri quase três meses com ratos e baratas, sem cama, sem janelas e com mofo tendo que usar o banheiro do bar. Acho que peguei pneumonia e intoxicação de produtos químicos de tanto esfregar esse chão.
–Eu não consigo nem ao menos imaginar o quão isso é horrível. – suspirei, porque na realidade, ela nunca tinha me contado todas aquelas coisas antes.
No final da cozinha haviam três portas. Uma bem na frente da entrada e uma em cada lado, esquerdo e direito. Priscila abriu aquela que dava de cara com a porta e então nós entramos para um corredor com quatro portas, posicionadas uma na frente da outra, duas de cada lado. O corredor tinha um chão de madeira, com cara de gasto, mas claramente era novo e suas paredes eram pintadas de branco, haviam várias fotos espalhadas por todos os lados e uma janela, bem grande, da qual dava pra ver toda a cidade, inclusive, o meu prédio e o da escola.
Entramos à esquerda, na primeira porta. Ela andava como você só anda quando está em sua casa e eu tomava cuidado para pisar no que deveria ser pisado.
Seu quarto não era grande, a entrar se via o final da cama e uma grande janela. A direita tinha um guarda-roupa e a esquerda uma bancada usada como escrivaninha. Havia uma televisão enorme, computador, vários livros, cadernos e lápis, aquilo com certeza remetia à quanto ela estudava, o que parecia ser muito mais do que eu conhecia. A sua cama era baixa, daquelas de estilo chamado de japonês não sei exatamente o porque, que tem uma pequena plataforma embaixo e o colchão é apenas jogado e você acaba colocando seu celular para carregar naquela pequena fresta que há entre o colchão e o chão e mancha a madeira. Seu guarda-roupa tinha portas de correr e espelhos. Atrás da escrivaninha havia um painel de madeira. As cores eram frias, a cadeira claramente confortável e mil fotos e pôsteres estavam nas paredes.
Sentei-me em sua cama e ela abriu seu guarda-roupa, procurando o que vestir, e ela tinha muito mais roupas do que eu, que tinha um closet. Ela pegou uma calça preta e uma blusa branca, saindo para a cozinha.
Fiquei naquele ambiente estranho mexendo em meu celular, quieta e imóvel, tentando não parecer hostil ao que claramente era hostil para mim. Eu não queria que nada acontecesse, eu só queria que ela saísse logo do banho para que pudesse fechar a porta e ficar confortável, mas não foi bem isso que me aconteceu.
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