Priscila
6 Olhos
Não conhecia as colegas de casa de Priscila, mas sabiam que eram gêmeas, Marina e Mariana, por qualquer que fosse o problema de cabeça da mãe dessas duas. Enquanto ainda a aguardava comecei a ouvir vozes e gemidos. Uma voz que me soou estranhamente familiar, mas nada significativo.
Uma das portas se abriu, e então eu ouvi risadas e beijos durante grande parte da extensão do corredor. Foi quando esta alta mulher negra, com um cabelo em cachos altos, cheios e soltos passou pela porta. Seu voluptuoso corpo estava coberto por um robe de seda rosa e a sua beleza me parou durante algum tempo. Com pouco tempo ela voltou para a minha porta, como se tivesse notado que eu estava ali.
–Priscila está no banho? – ela se recostou na porta.
–Sim. – sorri, levantando a cabeça para vê-la melhor.
–Mariana. – ela entrou no quarto e me cumprimentou.
–Fernanda. – meus olhos foram atraídos para os seus negros olhos e eu fitei a sua boca cheia e volumosa.
Foi então que, naquele momento meio magico do qual eu me sentia observando uma obra de arte que algo realmente horrível aconteceu e a historia por trás daquele acontecimento era o seguinte:
Eu só havia me relacionado com uma garota antes de Priscila, fora meu primeiro namoro, meu único namoro. A garota era ruiva, baixa como eu e ela me usou, de todas as formas possíveis, me machucado e me deixando com um dano irreparável.
Meu mundo desabou quando ela foi embora, caminhando pela porta de meu quarto sem ao menos me dizer adeus, e ele desabou novamente quando eu a vi passar pela porta do quarto de Priscila. Thais me viu e voltou, ficando boquiaberta. Eu fiquei a encarando durante algum tempo, até que Mariana notou a estranheza da situação e perguntou:
–Vocês se conhecem?
Priscila chegou naquele momento e entendeu tudo com um olhar, como normalmente fazia. Thais saiu do quarto, Mariana a seguiu deixando a porta fechada. Ela se sentou ao meu lado, segurou minha mão e disse:
–Eu nunca te faria passar por isso se soubesse. – foi então que ela sorriu – Quer me contar?
–Ela foi a minha primeira e única. Eu sei que ela deu tudo de si no inicio, mas eu não sabia lidar, eu queria parecer forte ou algo do tipo e acabei a rejeitando. Porém, quando eu me dei conta já era muito mais do que tarde, ela saiu com todas as meninas que podia e algumas que não podia, me agrediu de todas as formas como conseguiu, fez de tudo que poderia fazer comigo e então ela me dispensou. Mas eu corri atrás, muito atrás, foi bem humilhante. – suspirei e ela assentiu.
–Você está comigo agora, não tem disso, não vai existir rejeição, muito menos humilhação. – ela se deitou em meu colo.
Insegura, sorri. Queria tanto que aquela fosse a verdade, que não fosse possível ela me rejeitar, que tudo seria um conto de fadas magico e perfeito do qual todos estavam cheios de chocolates, purpurina e filhotes de unicórnios com coroa de flores. Foi então que eu pensei que aquele todo relacionamento em si era uma completa bagunça cujo não estávamos em nada que pudesse ser denominado, já que não namorávamos, ela aparentemente era uma usuária de drogas, tínhamos de conviver com nossos ex diariamente e eu era uma completa virgem de relacionamentos intersociais. Estava apavorada, mas seus azuis olhos me acalmavam.
–Você já assistiu “E Se?” – ela pegou em meu cabelo, me observando debaixo.
–Sim, eu na verdade gosto muito do jeito que eles conversam.
–Invente 10 nomes para Chantilly. – Priscila começou a rir, antes mesmo que começássemos a brincar.
–Nuvem de bolo.
–Bolo de nuvem. – ela retrucou rápido.
–Nuvem enlatada.
–Anjos enlatados.
–Asas de anjos que no caso são feitas de nuvem enlatados para se colocar sobre o bolo. – me embolei ao dizer.
–Neve de nuvem.
–Coco angélico.
–Coloque isso no bolo e na boca. Quando tudo isso começou a ser sobre nuvem?
–Não sei... Quantos você acha que foram?
–Não 10, mas na verdade é um trabalho muito fácil e Chantilly é um nome horrível. – ela começou a gargalhar como nunca antes.
–Será que nós podemos fumar maconha, comer O Tolo De Ouro e inventar nomes para Chantilly em Taiwan? – minha postura se arrumou, falei de forma seria.
–Partiremos amanhã! – Priscila se levantou em um pulo.
–Se roubarmos malas podemos ir agora. – segurei suas mãos.
–E maconha. – ela sorriu, cessando as risadas.
A beijei, como se estivéssemos naquela relação a anos, e eu a beijasse sempre que ela abrisse aquele sorriso. Ela então se sentou na ponta da cama, me colocou em seu colo e eu a abracei com as pernas. Um beijo novo aconteceu, suas mãos quentes estavam em minhas costas e ela tocou a ponta do meu nariz.
–Você já está melhor? – perguntei a olhando de cima.
–Sim, eu vou parar com isso, eu na verdade tenho que parar com isso. – seus olhos de alguma forma me diziam o quão bonita ela achava que eu era e eu me senti envergonhada.
–Eu nem sabia que você fazia essas coisas.
–Não minta para mim, Clementine. Eu sei que você também usa drogas.
–Sim, mas... Do jeito que você estava hoje, você parece ter um problema serio, eu experimento e as uso quando não tenho absolutamente nada para fazer, eu não sinto necessidades, eu nem ao menos lembro delas ou que as tenho.
–Eu tenho um problema, sim. Desde que eu saí de casa eu uso e muito. Sabe, as coisas na minha casa nunca foram boas, e quando começaram a se apertar eu resolvi sair de lá.
–Você nunca me contou essa historia também.
Priscila esfregou os olhos e foi para trás, se apoiando nas mãos.
–Eu não conhecia a minha mãe, morei com meu pai sempre. Quando eu comecei a mudar, a crescer, começaram as brigas. Não é como na sua casa, que você sofre fisicamente. Meu pai costumava me chamar de vadia, realmente me tratar mal. Quando eu comecei a usar roupas masculinas, as coisas ficaram bem piores e ele começou a beber muito. Foi quando eu comecei a usar drogas para sair daquele mundo de problemas. Quando eu cortei meu cabelo ele jogou uma garrafa de uísque no meu rosto e foi quando eu saí de lá. Conheci a minha mãe e ela me deu um emprego que paga absurdamente bem, acho que, em suma, por ser sua filha. Essa é a historia. As vezes quando eu tenho problemas dos quais não sei lidar eu simplesmente vou usar algo. Como quando você me rejeitou hoje por toda essa historia da minha ex.
–Qual o nome dela?
–De quem?
–Da sua ex.
–Caroline. – ela sorriu de canto de boca.
Fiquei a observando durante algum tempo. Enquanto contava sobre sua historia de vida eu não vi um lance de sentimento em seus olhos. Quase como se ela recitasse algum poema escondido em sua cabeça, mas também notei que ela resolveu não olhar em meus olhos.
A abracei, e fiquei esperando que aquilo fosse concertar seu coração partido. Mas na verdade fez meu telefone tocar.
Meu irmão parecia ter feito algo muito incrível na escola e queria me contar, estava feliz. Avisei que dormiria fora e o ouvi dizer sobre todo o dia maravilhoso que estava tendo. Eu desejei tanto que meu pai não encostasse o dedo nele naquele dia, havia muito tempo que eu não o ouvia tão feliz.
Deitei-me ao lado de Priscila com as luzes apagadas, conversamos sobre como o nome dos filmes não faziam nenhum sentido a historia, nos encaramos e nos acariciamos pelo que passou a ser, até hoje o momento mais bonito de todo o nosso relacionamento. Eu poderia jurar que a qualquer segundo o sol nasceria e reluziria em seu corpo pálido e quente. Seus olhos eram os mais bonitos que eu já havia visto em toda a minha vida, não por serem azuis, mas por serem a sua alma refletida em uma piscina pronta para ser decifrada por mim a qualquer momento. Seus dedos desenhavam círculos em meu braço e em minhas bochechas e eu a observava fascinada quando ela disse:
–Clementine Tangerine
–Sim, Emma.
–Eu acho que te amo.
–Eu sei que te amo, Priscila.
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