Priscila
9 Registro Escrito do Segundo Maior Erro da Minha Vida
Estar com Priscila era um sonho que havia se tornado realidade, mas a nossa relação em sua essência havia acabado e mudado para algo totalmente diferente. Toda a historia da nossa amizade consistia na minha sutil e até a atualidade despercebida paixão por Priscila e a minha desesperada necessidade de tê-la ao meu lado, mas agora a ideia era outra completamente diferente. Com toda a traição que havia ocorrido, Priscila sabia que não me tinha e estava determinada a fazer de tudo para me reconquistar, isso envolvia me tratar como princesa, me encher de presentes e ir atrás de mim em todas as situações possíveis, eu era uma espécie de deusa inalcançável. Até que as coisas mudaram radicalmente de uma hora para outra.
Vi-me sozinha, dormindo longas tardes, sem conversar com ela, sem que ela me mandasse uma mensagem, sem suas indicações de filmes, series ou livros, não criávamos mais nossas teorias e filosofias sobre qualquer coisa que tínhamos em comum. Porém, eu sabia que poderia perdê-la, então resolvi correr atrás do seu afeto. Foi quando a sua promessa de não rejeição cedeu.
Liguei para Priscila em todas as noites, sem que ela atendesse ou desligando rapidamente. Ela não via os filmes, não ria das piadas, as nossas noites perderam a conexão, até que eu não a tinha mais e ela não me possuía também.
Assim eu acabei me virando para uma incrível pessoa que segurou a minha mão ao ouvir uma briga na cozinha, daquelas que se jogam pratos e copos. Mariana era diferente de Priscila em todos os quesitos possíveis e eu não deveria ter a julgado vazia como sempre fiz. A vi chorar por uma musica qualquer na rádio. Eu passei a maior parte dos meus finais de semana na casa de Emma, mas dentro do quarto de Mariana. Ela podia ser uma pessoa horrível, falando mal de todas as pessoas em seu grupo de amigos, costumávamos passar horas em seu Facebook escolhendo algum alo aleatório e ela podia nomear todos os erros que essa pessoa fez na vida apenas olhando sua foto de perfil. Ela podia ser a garota maravilhosa que chorava em todas as comedias românticas que víamos e me fazia muita comida enquanto cantávamos alguma musica que gostávamos, enquanto falávamos sobre Deus, a efemeridade das coisas e quão toxicas seriam fezes de macaco.
Então, em meu aniversario de namoro com Priscila nós saímos para jantar. Nisso já haviam dois meses que não dormíamos juntas, não transavamos e não conversávamos, na realidade, aquela saída só era uma confirmação para nós mesmas de que ainda estávamos juntas. Emma passou todo o jantar calada, mas eu também não quis conversar, trocamos cerca de uma dúzia de palavras para decidir o que pedíamos e saber se eu iria dormir em sua casa depois daquilo. Ao final da noite fomos para o seu quarto e trancamos o mesmo, acho que ela tinha algum medo que Mariana chegasse com mais um problema com Thais e quisesse a minha ajuda, já que as duas agora eram um caso serio, mas sempre brigavam e nunca se viam.
Sem a menor cena ou intimidade, ela me segurou pela cintura e pela nuca e me beijou.
–Eu senti tanto a sua falta. – ela sussurrou em meu ouvido, segurando meu cabelo.
Tinha tanta à necessidade de ouvir aquilo que meu corpo tremeu, minhas pernas cambalearam. A beijei intensamente e ela me jogou na cama, assim que minha blusa saiu de meu corpo ela viu meus cortes, dos quais eu havia completamente esquecido que estavam ali. A minha cabeça foi para baixo.
Amava aquela garota, aquele sorriso que havia mudado a minha vida, além de ser o mais bonito do mundo. Porém, na nossa relação, ela já não estava mais presente. Assim tive que se voltar para mim mesma, me odiava de novo, me deprimi de novo e precisava mais dela do que nunca, foi quando eu não me aguentei mais. Os cortes eram a minha saída de escape e eu tinha os escondido dela, porque sabia que ela não aceitaria, mas ali, eu havia esquecido completamente deles.
Priscila saiu de cima de mim, e ficou parada em minha frente.
–Achava que você tinha parado.
–E eu achava que você nunca me rejeitaria, foi a nossa promessa. Eu achei que estaríamos juntas para sempre, mas eu acho que a gente terminou tem uns dois meses. – me cobri e me sentei na cama.
Foi quando eu me vesti e tentei sair, mas ela me segurou com força pelo braço esquerdo. Aquele foi um dos momentos dos quais todas as suas frustrações se acumulam e eu pude ver tudo repassando em seus olhos, com se passaram na minha cabeça e então nós duas explodimos, no mesmo momento.
Priscila colocou o dedo em meu rosto, me acusou de mentir, de não tentar entender a recuperação de seu vicio, que ela estaria tentando largar apenas por mim e eu não dava o devido valor para isso, enquanto eu a acusei de não estar ali para mim, principalmente com os abusos que sofríamos em minha casa, principalmente com meu irmão pagando pelo nosso relacionamento. A discussão durou horas, pareceu dias, chorávamos, levantávamos a voz, dissemos coisas horríveis que não se podem ser retiradas, jogamos travesseiros e livros uma na outra e desenterramos decepções. Até que em um daquelas perdidas cenas de How I Met Your Mother, estavam sentadas no chão, lado a lado, apoiadas na cama e ofegantes, eu suspirei:
–Você realmente quer isso?
–É a solução. – Priscila jogou sua cabeça para trás a recostando na cama.
–Mas e meu irmão? – segurei sua mão buscando conforto ou qualquer outra coisa e ela me deu um beijo na testa, como faria antigamente.
–Nós vamos dar um jeito, nós vamos dar um jeito em tudo. Ele vai ficar bem, mas você e eu temos que ficar bem primeiro.
E assim seria, eu me mudaria para a sua casa, para a casa verde e descascando de Priscila.
Em uma semana Emma havia arrumado tudo para a minha mudança, desde seu quarto abrindo espaço no guarda-roupa e comprando outra cadeira para o escritório, ao resto da casa, comprando pratos novos, trocando o piso do resto da casa e reformando o banheiro.
Marina resolveu ficar naquela bagunça que futuramente seria meu lar, garantindo que nenhum dos pedreiros roubasse algum bem super caro presente naquela casa como a enorme televisão de Priscila da qual ela comprou em uma venda de garagem. Mariana resolveu passar alguns dias na casa de Thais e Priscila vivenciou por quase uma semana o inferno que era a realidade da minha casa.
Nessa semana ela viu meu pai me chama de “vadia” cerca de 68 vezes, e alguns outros nomes cerca de 212 vezes diferentes. Além de me ver levar uma chinelada na perna e ter um prato jogado em minha cabeça uma hora antes. Já quanto ao meu irmão... Digamos que ele dormiu comigo todos os dias.
Na quarta-feira eu havia me sentado com minha mãe e dito que me mudaria, que sairia de casa e iria para a de Priscila. Por incrível que pareça ela me apoiou, sem colocar nenhum ponto ou vírgula na proposta. Ela sabia o que aquilo significava e me disse que se eu faltasse de aula apenas um dia que fosse ela me trazia de volta, mas antes de tudo, me ajudaria a sair dali sem que meu pai soubesse de algo.
Fiz minhas malas em um domingo de manhã e fui embora querendo ficar. Agradeci o apoio e minha mãe retirou meu pai e meu irmão da casa.
Antes de ir embora, eu tomei um sorvete no meu quarto vazio, com lagrimas em meus olhos, mas sem a capacidade de chorar. Sem me despedir do meu irmão nem de minha mãe eu enchi o carro de Mariana e fui embora, temendo que aquela seria a ultima vez que eu veria a minha casa e meu irmão.
Passei toda a minha noite chorando ao colo de Priscila, que sem me julgar me segurou mais forte do que nunca.
Para mim, aquela era a imagem perfeita de um relacionamento perfeito. Era tudo o que eu poderia querer, mas sem imaginar, nós tínhamos trazido o final para dentro da nossa cama.
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