Priscila

10 Narcotrafico


A manhã seguinte era uma segunda-feira, um dos dias que mais me incomodava – como a todos -, mas aquele ali era o pior. Eu confiei nela, cegamente. Estava acostumada a sair de carro e ir para a escola em um horário, como qualquer uma das meninas da minha idade, porque afinal, eu não tinha muitas preocupações, mas ali, tudo era intensamente diferente. Acordei quase uma hora antes do meu acostumado, o que pesou durante o resto do meu dia, não pude tomar banho de manha, minha mochila nos atrasou, já deveria estar arrumada. O ônibus estava cheio e eu tive de ficar em pé, não tinha dinheiro separado, não tinha preocupações, o que acarretou em Priscila, que, gloriosamente, já estava precavida.

Estava cansada, destruída emocionalmente, queria dormir, comer, chorar, fazer qualquer outra coisa menos estar naquele ambiente desagradável que era a escola. Eu não era acostumada com aquele ritmo, eu queria me acostumar, eu tinha que, mas algo me dizia que eu conseguiria.

Priscila me pagou algo para comer quando eu quase morria no recreio, ajudou também no almoço e eu fiz a minha missão de pagar tudo no final do mês, enquanto a recompensa-la com carinho e afeto. Foi então que eu fui ao meu novo local de trabalho, ao local de trabalho de Emma, a um estranho lugar novo.

A minha vida havia mudado radicalmente. E eu me julgava aquele tipo de garota que não seria facilmente corrompida pela boa vida de pais ricos me vi perdida diante de minha nova realidade. Onde estariam os meus confortos? Onde estaria a minha cama quente a minha espera a tarde? A comida pronta? A casa arrumada? A não preocupação com contas e reformas e... O dia mal havia começado e eu já queria desistir dele.

Precisava aceitar a minha nova vida, não apenas por Priscila, que merecia o esforço para ficarmos juntas, mas por mim. Eu tinha de crescer, de olhar para as dificuldades e me sobressair, mesmo que me sentisse presa como ali.

Foi então que aquilo me atingiu como um enorme tsunami não esperado atinge qualquer costa da China ou sei lá. Emma nunca havia me dito o que fazia, onde fazia ou onde estaria me colocando.

Não me levem a mal, eu realmente confiava nela, e eu a segui, sabia que a minha namorada não me colocaria em algum tipo de esquema louco envolvendo trafico de mulheres. Ela só me envolveu em um outro tipo de trafico.

Pegamos um ônibus para o centro da cidade, um ônibus cheio, no qual um homem ficou atrás de mim durante todo o trajeto. Descemos e começamos a andar, andamos alguns quatro quarteirões quando ela sorriu e entrou na delegacia e eu, chocada, a segui. Priscila me levou ao fundo da mesma, passando por vários tipos de loucuras que você só encontra em uma delegacia. Lá era uma espécie de vestiário, no qual eu inclusive ganhei meu próprio armário.

Fui instruída a não ligar para o guarda-roupa, já que eu não lidaria com pessoas, mas passaria muito tempo sentada digitando, então tinha que usar algo bem confortável e que não fosse me incomodar a nenhum momento.

Emma colocou calças de academia, seu top e sua larga blusa, como se estivesse em casa, e eu enfiei uma calça jeans e uma blusa soltinha. Voltamos então para a recepção e depois entramos em uma dessas portas que você acha que é apenas uma sala, mas na verdade é um portal para Narnia.

Narnia era uma grande sala com mil cabines, em cada uma dessas mil cabines havia alguém atendendo alguma ligação e digitando algo em frenesi. Bem no fundo dessas mil cabines havia um grande quadrado com uma sala no meio e várias saletinhas aos lados.

Nessa grande sala principal havia, na porta, escrito: Chefe do Departamento de Narcóticos, Claudia Neves. Quando Priscila entrou naquela sala eu fiquei paralisada. Foi então que ela me buscou e disse:

–Eu trabalho para a minha mãe, não comece fazendo feio.

E eu estagnei.

Entrei na sala, branca, boquiaberta. Havia uma divisória entre a real sala da mãe de Priscila e a “sala de espera”. Trabalhávamos fora da sala dela, tínhamos duas escrivaninhas, cada uma com um puta computador, cadeiras ultra confortáveis e uma pilha enorme de papel ao nosso lado e muitas cadeiras a nossa frente. A maioria das cadeiras estava cheia com um policial em cima, quase todos cumprimentaram Emma com o olhar ou a mão.

Fui apresentada a minha escrivaninha, ao meu login e minha senha, a como eu passaria as minhas tardes passando tudo que alguma vez já foi escrito por Claudia ou por um dos seus subordinados para o falho sistema do governo, o que levou cerca de 20 minutos, porque, sinceramente, aquilo era ridículo. Eu queria entender como Emma ganhava quase dez mil por mês fazendo aquilo.

Digitar formulários.

Durante todo aquele tempo a única coisa que dominava a minha cabeça era o fato de que Priscila era usuária, uma viciada que estava em um processo insano de reabilitação, às vezes as suas recaídas me assustavam. Ela trabalhava exatamente ali. Era amedrontador.

Em pouco tempo, dois policiais saíram de dentro da sala e Priscila segurou a porta, dizendo qualquer coisa para sua mãe, enquanto eu gelei na minha confortável cadeira. Ela me chamou e eu fui mecanicamente. Então entramos na sala.

A mãe de Priscila era baixa, um pouco mais que ela. Era pálida, tinha grandes olhos azuis, com uma fina boca e nariz. Usava a calça e as botas da farda, mas uma blusa colada no corpo, que mostrava o quão enormes eram seus seios – eu na verdade fiquei me perguntando por que Emma não tinha nascido com tanta sorte. Abraçou sua filha e me abraçou, muito calorosamente e com uma força extrema para alguém tão frágil assim. Se apresentou formalmente com sua grossa e imponente voz, disse que se chamava Claudia, que as únicas pessoas que precisavam ter medo dela eram os policiais, mas que eu não devia me amedrontar pelo que veria constantemente, e Emma concordou, disse que estava feliz para me conhecer e me ter ali, trabalhando com ela, já que eu era de muita importância para Priscila. E eu notei que ela não podia ter mais de 30 anos.

Aquela era uma estranha ideia para mim, e eu fiquei incomodada, temendo pelo bem de Emma, que parecia ter feito uma serie de escolhas ruins consecutivas, já que até onde eu sabia o relacionamento dela com sua família era horrível, ela era uma usuária e ganhava dinheiro demais. Então eu passei todo o caminho de volta a importunando com a ideia de que ela corria risco.

Então, assim que entramos no nosso quarto ela se jogou na cama e gritou:

–Ela é uma policial corrupta.

E eu me calei, então ela me puxou para seu lado, e eu fiquei deitada enquanto ela estava apoiada em seu cotovelo me olhando nos olhos, claramente irritada comigo.

–Minha mãe me teve extremamente jovem, ela tinha tipo, uns 12 anos. Ela vai fazer 30 anos, sabe? Eu tenho 18! Ela me deixou para ser criada com meu pai, que era absurdamente mais velho do que ela. Só que meu pai nunca foi bom no trabalho de ser pai, a verdade é que ele é um bêbado, do qual eu tenho certeza que é pedofilo. Quando eu saí do armário ele passou a me bater muito, então eu cortei o cabelo e ele me colocou para fora de casa. Eu comecei a usar muito e a ter que fazer coisas horríveis para me manter, mas eu não queria que você me visse assim. Em uma das batidas a minha mãe me achou largada em uma casa, tendo overdose com uns dois caras em cima de mim. Ela me reconheceu na hora, sem nem nunca ter me visto. E eu devia muito, muito mesmo. Então ela fez um trato que definiu a carreira dela. Ela limpava todas as outras áreas, dava proteção para os traficantes que me vendiam, eles se espalhavam de uma forma organizada e eu saia livre. E essa é a historia. – ela se jogou na cama, cobrindo seu rosto.

Aquela historia me deu um frio na espinha e eu não sabia o que fazer. Eu não queria nem ao menos imaginar todas aquelas coisas horríveis pela qual ela teve de passar. Eu a tomei em meu colo, a apertei em um abraço e a beijei. Emma começou a c chorar, como uma criança e eu nunca havia a visto chorar antes. Eu tinha me metido em um buraco, mas ela estava ali e precisava de mim e eu não me importava em me doar completamente para ela, talvez esse fosse meu grande erro.