Priscila
11 Charlie
Trabalhar e estudar era algo que eu que aguentaria, que após cerca de dois meses eu estaria aguentando como sempre aguentei a minha vida, tendo tempo de sobra para fazer tudo o que queria e poderia, que estria confortável com a minha nova vida, mas a verdade era completamente e devastadoramente diferente.
Para estudar, eu não dormia, cheguei a passar noites em claro tentando colocar matérias difíceis dentro do meu cérebro e fazer com que elas funcionassem o suficiente para realizar algumas provas. Já para dormir, eu não me relacionava da forma como deveria com Priscila, não nos víamos da forma correta, não fazíamos coisas de namoradas e com certeza não transavamos. O trabalho tomava grande parte do meu tempo e eu precisava de mais, eu precisava de uma hora extra no dia para que eu pudesse ir de encontro aos braços daquela mulher perfeita que estava ao meu lado, mas eu não tinha, eu tinha apenas aquelas 24 horas inúteis que não me serviam como deviam.
Enquanto eu fazia os deveres acabava por dormir ou chorar e um desses dias no qual eu estava chorando inconsolavelmente Priscila me parou, preocupada.
–Você precisa de ajuda?
Mas eu não queria precisar de ajuda. Sabe quando você quer tanto algo que não aguenta a ideia de não conseguir realizar sozinha e fica frustrada por precisar dos outros? Essa era eu com as minhas 8 horas de escola, 6 de trabalho e umas 2 de sono. Eu queria não ser aquela garota mimada que veio do mundo onde sempre teve tudo na mão e conseguir e superar tudo aquilo, queria dar orgulho a minha namorada que veio do nada e se ergueu. Eu queria me erguer, porque eu não tive as mesmas dificuldades que ela, mas começava a achar que eu não era suficientemente boa para isso. Eu queria ser suficiente, ser mais forte do que aquilo e acabei desabando.
–Eu posso não querer precisar?
Priscila realmente queria ajudar, mas não havia muito o que fazer e eu comecei a temer voltar para a minha antiga casa e recomeçar o ciclo de falta de amor. Emma achava que eu só precisava relaxar e eu achava que precisava de muito mais energia e vontade, mas eu consegui pensar em um horário, que incluía desde as horas de estudo, as minhas idas ao banheiro e horas deitada com ela.
Eu levantei, um pouco, mas minhas costas doíam e ela ainda não achava que eu estava forte o suficiente para ficar acordada junto a ela. Então ela me levou a um lugar no qual eu pudesse escolher o que eu iria usar para o meu “relaxamento”~.
–Eu nunca fui a um Sex Shop. – me segurei antes de sair de casa, com pavor.
Não era uma dessas virgens da vida puritana das quais não sabem de nada, mas eu sempre achei que nunca iria precisar, que daria conta de tudo sozinha. Priscila que eu conhecesse o mundo magico de deitar e esperar uma maquina realizar tudo que era trabalho dela, enquanto ela estava na sala lendo algum livro de filosofia antiga porque achava que aquilo era um hobby que a fazia soar inteligente. Eu não queria um vibrador, eu queria descansar, estudar, dormir, mas eu acho que quando se tem a oportunidade de ganhar uma dessas coisas completamente de graça e ainda desculpa para usar, não se deve correr para a outra direção e foi o que eu fiz, segui o curso.
–Relaxa, ok? É a loja de uma amiga dela, Charlie.– Priscila beijou minhas mãos e me guiou através da escada da qual não consumia mais nenhuma das minhas energias.
Queria que aquilo nos fortificasse, mas temia que iria nos separar ainda mais, como a maioria das coisas que fazíamos para solucionar o nosso relacionamento.
Nessa onda insana de pensamentos seguimos para uma loja no centro, perto do bar que Priscila costumava ir aos sábados a noite, quando eu realmente queria dormir. Havia um aglomerado de lojas e uma bem escura no meio, em verde escuro, com uma daquelas portas de madeira envelhecida e no vidro escuro uma plaquinha dizendo Miss’ C House Of Pleasure.
Priscila entrou ali naturalmente, mas eu estava assustada demais para isso. Na nossa esquerda havia um balcão, da mesma madeira escura da porta e duas garotas pagando algo. Eu não quis olhar para o meu redor e notar todas as mercadorias expostas. Fiquei olhando para Priscila que sorria satisfeita com onde estava e o que estava fazendo.
As duas garotas saíram da loja e Emma foi atrás do balcão dar um abraço em Charlie, que era essa garota alta, magra, com um cabelo cortado em uma franja negra em seu rosto, um daqueles chapéus que fazem com que você pareça francês, olhos azuis extremamente claros e uma boca fina. Ela era linda, com traços femininos, longe de lembrar os grossos traços de Priscila. Fiquei boquiaberta com ela, era uma das primeiras garotas que eu conhecia que conseguiam ser tão femininas mesmo com o cabelo cortado e todas aquelas roupas masculinas.
Depois do longo abraço, Priscila foi para o canto do balcão e ficou ali, parada, esperando que a magia acontecesse.
–Prazer, Charlie. – ela estendeu a mão para me cumprimentar.
–Fernanda. – a cumprimentei chegando mais perto do balcão.
Os olhos de Emma me acompanhavam de uma forma calma e perturbadora.
–Então, o que veio procurar na minha humilde, mas hostil loja? – Charlie abriu um sorriso maravilhoso, tinha uma voz fina e eu me derreti, tentando me conter.
–Priscila acha que eu preciso de algo para relaxar. – me sentei em um banco que ficava na bancada, tentando segurar minhas pernas que tremiam.
–E o que você quer? – ela se apoiou na bancada, chegando seu rosto bem perto do meu.
Um calor subiu em minha espinha. Seu hálito cheirava a menta e seus olhos penetraram nos meus. Era possivelmente a primeira vez desde Priscila que eu olhava para uma garota daquela maneira, que eu havia me sentido tão atraída por alguém e eu queria me firmar, queria que aquilo não me arrepiasse e que Emma não notasse.
–Como assim? – ergui uma das sobrancelhas, buscando entender o que ela queria dizer com aquilo.
–Não fique nervosa. – ela segurou minha mão, gentilmente – Você não sabe o tipo de pessoas que eu recebo nessa loja ou o quanto eu estou feliz de achar um ser humano decente que só quer algum tipo de coisa sexual e vai seguir com a sua vida como se nunca nem tivesse um consolo gigante dentro do seu armário. Eu tenho tudo que você conseguir imaginar, eu te juro, essa é a maior loja do estado. Se você quer algo pare relaxar, eu tenho, se você que algo para derrubar, eu tenho, se você quer algo para te animar, eu tenho. Então pense, no fundo da sua alma e da sua cabeça qualquer tipo de nojeira sexual que deseja e eu vou arrumar para você, sem te julgar, sem te perguntar nada. A única pessoa que vai te julgar é a Priscila, porque eu ainda vou te achar mais normal do que o cara que acabou de comprar um filme de bondage e um dildo gigante de 45 cm além de um anel anal. Você não é bizarra e nada do que você quiser é bizarro, me peça, eu te dou e você vai embora, ok? – sua mão continuou segurando a minha, ela continuou me olhando no fundo dos olhos e quando eu comecei a soar e não aguentar mais ela me soltou, e ficou de longe com um sorriso agradável no rosto.
Emma continuou me observando de longe, encarando com o cenho fechado e uma sobrancelha erguida, com um ar de quem sabia de tudo e não queria incomodar, mas estava claramente perturbada.
Fui para trás com as costas, deixando de me apoiar na bancada e pensei no que queria. Naquele momento eu me dei conta de que você sempre sabe o que quer, só nunca te perguntam exatamente o que você sabe responder. Abri um sorriso.
–Então o que vai ser?
–Eu quero algo que eu não tenha que fazer trabalho nenhum para usar, mas que seja potente o suficiente para me derrubar. Eu quero usar e dormir, perder as forças até pra guardar na caixa de volta. – voltei a me apoiar na bancada, Charlie chegou ao meu ouvido e eu sussurrei para ela.
Ela ergueu as duas sobrancelhas e fechou o cenho em um sorriso malicioso. Disse “minha garota” e foi para baixo do balcão. Colocou sobre ele duas caixas, uma dessas que parece de perfume porque são pequenas e uma maior, como a de um cereal, todas cobertas por um papel marrom, daqueles de envelope.
–É um segredo, mas são duas peças, você vai usar as duas juntas, com um ou dois cliques você aprende a firmar elas, vem com um carregador, pra você carregar na tomada mesmo e na caixa te ensina a tirar a parte elétrica para lavar, o que também é a coisa mais simples do mundo, você pode lavar inclusive naquelas maquinas de lavar pratos. E pelo amor de Deus, não use debaixo d’agua, você não sabe o quanto as minhas clientes se fodem por isso, então eu vou avisar. Vá se divertir. – Charlie me empurrou as duas caixas sorrindo, ainda com seu malicioso sorriso.
Fiquei arrepiada, eu queria coisas que acho que nunca quis com ninguém. Era como se aquele lugar tivesse despertado o pior em mim, era como se ela tivesse despertado o pior em mim.
Priscila pagou, se despediu e saímos com as minhas caixas, enfiadas dentro de uma dessas sacolas grandes. Emma me abraçou por cima do ombro, atravessamos a rua e ela cumprimentou uma morena garota que estava parada na esquina. Quando chegamos no ponto de ônibus ela se virou para mim sorrindo.
–Aquela é a Raquel, é a traficante mais poderosa dessa área, minha mãe quer pega-la tem anos, mas não pode porque ela é menor de idade. Ela bebe comigo toda semana, o bar aonde eu vou é onde ela comanda as coisas.
–Mesmo?
–Sim! Ela faz 18 anos esse ano, e aí é quando a caçada vai virar algo violento. – fiquei em silêncio, as coisas estavam acontecendo na minha frente e eu não tinha a menor ideia delas – Ei, eu vi o que aconteceu lá dentro.
–O que aconteceu?
–Eu conheço você muito bem e conheço Charlie. Sei muito bem quando ela está flertando e quando as coisas te atingem. Eu quero que você saiba que eu tenho ciúmes, mas sou segura, você não vai me trair ou algo do tipo e também não é cega. Entenda que dentro dos seus limites, tudo está bem. E eu também acho ela maravilhosa.
Priscila disse como se estivesse orgulhosa de mim por me sentir atraída por uma pessoa que não fosse ela e me beijou e aquilo foi estranho, realmente muito estranho. Eu tinha aquele ódio interior quando ela olhava para uma pessoa por mais de 5 segundos, quando abraçava as garotas que eu julgava bonita e estava sendo dita que é bom flertar com garotas maravilhosas que trabalham em Sex Shops, mas quando ela me beijou, eu senti aquele calor que sempre sentia com ela e fiquei satisfeita, ela era tudo que eu queria.
Imaginar como essa historia acaba e o que Charlie se tornou me faz olhar bem fundo nesse dia e pensar que foi o inicio de mais uma das estórias de amor da minha vida. Acho que se Priscila soubesse as coisas que acabei fazendo na sua antiga casa, na sua antiga cama, porque sim, eu fiquei com a casa, e depois do que aconteceu comigo vocês concordariam que eu transasse sobre as roupas de Emma com várias outras meninas, não que seja o que aconteceu. Charlie me aconteceu, a garota estranha que me vendeu vibradores. Lembra de como eu disse que a vida começa fora da sua área de conforto? Lembra de eu dizer que você não pode esperar o amor chegar e bater na sua porta e todas aquelas coisas? A minha curta e intensa historia de amor com Charlie foi uma dessas e talvez eu conte pra vocês, porque ela não era o amor da minha vida. Me sinto muito como How I Met Your Mother em um constante: não galera, ela não é sua mãe. Galera, a sua mãe é incrível e ela sempre, sempre esteve comigo.
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