Priscila

12 O Inicio


Mariana me ligou no dia seguinte, me contou sobre como Priscila não havia voltado para casa e a verdade é que aquilo não me machucou. Contei para ela sobre como a minha mãe havia fugido e ela veio correndo até mim.

Foi um longo abraço que me arrancou lagrimas. Eu acho que nunca desabafei tanto com uma pessoa quanto naquele momento. Mariana me ouviu calada e segurando a minha mão, sem dizer nada ela me abraçou novamente e sem pensar duas vezes disse que o lugar de meu irmão era em minha casa, comigo, com ela.

–O quarto de Marina está livre e a Priscila não está aqui para defender seu ponto. Todas nós moramos juntas e como tudo nós devemos fazer juntas, eu quero que ele vá para lá, porque se não for você vai ter que ir embora, e esse não é o momento para isso.

Não havia como discordar. Meu irmão não tinha para onde ir e eu não iria abandona-lo de maneira nenhuma.

Esperei que ele entrasse em cirurgia para que fosse até a minha antiga casa e buscasse todas as coisas dele, suas roupas, seus brinquedos e seus moveis, colocamos tudo no carro de Mariana e, com a ajuda de Carlos, colocamos tudo em nossa casa.

Priscila ainda não estava ali e aquilo não doía mais, era como se eu só tivesse um objetivo na vida e nada mais me importaria. Então eu voltei para o hospital e fiquei com ele, como deveria.

Ele estava assustado e não entendia as coisas, e eu não sabia se ele realmente deveria entender todas as coisas, mas dormiu rapidamente.

Na manhã seguinte eu o levei para casa e expliquei que ali era onde iriamos morar a partir daquele dia e que a mamãe muito provavelmente não voltaria. Ele ficou maravilhado com a sala, gostou da cor azul do seu quarto e ficou feliz em poder trocar os moveis de lugar e comprar várias coisas novas já que não tinha ninguém para controlar seus gastos além de mim. Passamos várias horas guardando tudo e colocando as coisas no lugar.

Fiz um enorme jantar para nós e Priscila ainda não havia chegado.

Não tinha ideia de como Mariana era boa com ele, mas acho que nem ela sabia dessa sua vocação para cuidar de crianças. Eu acho que ele ficou brincando com seu cabelo durante horas, amava tanto aqueles cachos crespos como eu. Foi incrível poder me deitar com ambos e assistir um filme naquela sala gigante e aconchegante. Dormimos todos ali, e era tão confortável e quente.

Cerca de duas horas da manha ouvimos muitos barulhos na entrada da casa. Uma das grandes verdades de se morar em cima de um bar era todos os bêbados que constantemente tentavam invadir a nossa casa, imaginando que esse seria o caso eu saí dali e peguei a nossa “arma”, um taco de baseball que foi comprado com a única finalidade de bater em bêbados que ficava no final do corredor.

Andei sorrateiramente até a porta da cozinha, da qual foi aberta na minha cara. Eu estava lá, com o taco erguido, no escuro e Priscila abriu a porta completamente bêbada e fedendo. Ela foi imediatamente para trás, quase caindo e eu me enfureci como nunca antes em toda a minha vida.

A empurrei para dentro da cozinha e liguei a luz, fechando a porta. Priscila teve de se segurar na bancada para não cair, ainda bem atordoada por toda aquela situação.

–O que eu fiz? – ela gaguejou com sua voz embolada e rouca – Eu já disse que você fica maravilhosa quando está com raiva? – ela chegou perto de mim e o cheiro que saia de sua boca me fez querer vomitar.

Foi então eu algo que eu nunca havia feito em minha vida me ocorreu. Eu não sabia de onde tinha surgido ou como aconteceu, mas eu juntei toda a minha força e a bati no rosto. Emma teve de se sentar na cadeira e eu vi que naquele momento, ela ficou sóbria.

–Eu não deveria ter feito isso, me desculpa. – tive um momento de culpa, mas então tudo voltou em minha cabeça e eu não tinha certeza se o que eu fiz era justificável – Você precisa me ouvir. Priscila você viu o que aconteceu, o que aconteceu comigo e não com você. Eu estou um lixo e você não se bastou de passar um misero segundo ao meu lado, você sabe como isso dói? Porque eu não tive a chance de te contar ainda. Eu tive de trazer meu irmão para cá, porque a minha mãe foi embora e você não estava aqui! Você não está aqui ainda! Sabe a quanto tempo eu sei que esse relacionamento morreu? A quanto tempo eu sei que você não me ama mais? Eu assisti todo o sentimento que você sentia por mim ir embora, enquanto eu fiquei aqui, te amando e te buscando pateticamente para você jogar qualquer senso de respeito que já teve por mim embora. Eu estou aqui me perguntando onde está a sua dignidade, porque eu sinceramente não estou a vendo. Se você for ficar aqui, for ficar comigo vai ter que tomar um jeito, eu não sou mais a sua namorada, eu sou responsável por uma vida e nem se você me jogar na rua meu irmão vai ver e admirar alguém no seu estado. – fiquei ali, em pé, com lagrimas escorrendo do meu rosto, mas sem saber que chorava, estava tão irritada, tão vermelha, eu queria dormir e acordar para um relacionamento perfeito como na noite em que eu me mudei, mas tudo que eu tinha era aquela mulher que me abandonou.

Priscila ficou com a cabeça baixa, sem dizer nada e eu não esperei muito tempo para que ela criasse uma resposta, eu resolvi a deixar ali. Peguei meu irmão no sofá e o coloquei em seu novo quarto, imaginando que ela tentaria me procurar. Sabia que os gritos haviam o acordado, que ele havia ouvido, mas sem comentar nada ele dormiu e eu dormi do seu lado, com medo de encarar até mesmo Mariana.

Acordei e queria tomar um banho, queria lavar aquela noite de mim, e por incrível que pareça, eu ainda tinha esperanças, mas o nosso fim foi o que eu vi quando entrei pela porta do meu quarto.

Colocando todas as suas roupas dentro de uma grande mala, Priscila estava.

–O que você está fazendo? – eu sabia o que aquilo significava, mas eu realmente não queria acreditar.

–Eu? – ela se virou e me olhou durante algum tempo – Sabe em quantos lugares nesse quarto eu estive com outras pessoas? Mesmo que a gente já estivesse namorando, você tem a menor ideia? Eu fiz coisas horríveis, coisas que eu te neguei, coisas que eu jurei que nunca faria. Eu te traí com um homem. Eu não larguei as drogas, sabia? Eu estou mantendo um relacionamento muito serio com a Thais, na verdade, eu vendi um monte das suas coisas, eu fiquei gravida. Eu nem sei por onde começar a me explicar ou a contar as coisas para você. Porque isso não tem a menor explicação, não tem o menor sentido. Sabe qual é a pior parte? Eu realmente te amo. Eu não conseguiria te largar nem se eu realmente quisesse e eu deveria ter feito isso nos meus primeiros erros, mas não conseguia sair de você como se eu estivesse presa dento de um labirinto infinito e olha onde eu cheguei, olha o que aconteceu com a sua família. O melhor para você é que eu simplesmente vá embora, e eu vou, e você não tem a menor ideia do quanto isso me machuca.

A medida que Priscila falava, seus olhos se encheram d’agua até que ela desabou, caindo no chão em prantos, completamente desesperada. Eu realmente não sabia o que fazer, então me sentei ao seu lado e a abracei até que ela se acalmasse, o que não foi muito rápido.

Não foi a primeira vez que eu tive meu coração despedaçado por ela. Então ali, eu não quebrei. A ajudei a colocar as suas coisas no carro de Thais, que foi dar as devidas explicações para Mariana e subi para a minha casa. Mariana estava parada na porta do seu quarto, sentada no chão, mas eu me tranquei em meu quarto, eu não podia ajuda-la, eu não podia me ajudar.

Me joguei no chão, sentada, chorando, em uma pequena bola indefesa. O quarto ainda cheirava a ela. Em algum momento eu me levantei, rasguei todos os seus pôsteres, quebrei algumas das coisas que eram dela e que ela havia me dado, me cortei. Fui ao banheiro, lavei o rosto e tinha acabado, simplesmente tinha acabado e eu tinha que fazer comida para o meu irmão.

Eu queria queimar tudo, jogar a casa no chão, mas não poderia. Eu fui para a vida, dando a minha cara a tapa. Queria levantar a minha vida e acreditem: eu fiz muito mais rápido do que se pode imaginar, mas depois de alimentar meu irmão, arrumar uma boa colônia de férias para ele, ter de ver a cara de Priscila pelo resto da semana no trabalho, chorar incontáveis vezes e impedir Mariana de se machucar seriamente. Inclusive, no final de semana eu fui ao bar, porque eu realmente precisava ir e eu a vi, bebendo inconsolada, então eu fui ao lado de fora do bar e reencontrei Charlie, o que foi o inicio de uma outra parte da minha vida.

Depois de alguns meses eu descobri a ordem cronológica das loucuras de Priscila e se vocês estão se perguntando, aqui vai: Ela não conseguiu largar as drogas, e ela vendeu algumas – várias – das minhas roupas para comprar, já que estávamos reformando a casa e qualquer falha na nossa conta eu notaria. Então ela se vendeu para pagar as drogas, ela se vendeu dentro da nossa casa. Foi quando ela começou a manter um “relacionamento” com um homem, que tinha tipo uns 40 anos, ela ficou gravida e resolveu fazer um aborto e não se importar mais em arrombar todo o dinheiro que tínhamos para nos manter. Tentando manter tudo junto comigo ela se consolou com Thais e uma outra garota da qual eu não tenho a menor ideia de quem seja. Ela pediu essa aleatória em noivado, durante o nosso namoro e manteve esse noivado depois de ir embora. Eu juro que Mariana me pediu mil vezes para avisar a garota, mas foi ela quem acabou indo lá avisar e depois disso Priscila voltou do inferno para a minha vida, passando cerca de meses atrás de mim, mas isso é parte de uma outra historia. A minha real historia de amor, a na qual eu passei por um romance com Charlie e descobri que a garota da minha vida estava comigo durante essa jornada inteira, me segurando.

Desapegar de Emma foi a coisa mais difícil que eu já fiz na vida e depois de escrever isso eu não quero nunca mais ter que me lembrar daqueles perfeitos olhos azuis que me mostravam um mar inteiro de mentiras.

Notas finais
Gostaram? Para quem quer saber o que acontece depois dessa historia eu vou avisar no meu twitter, então se você ainda não me segue corre lá no @SobPoesia e me dá uma mention que quando sair a fic nova eu te aviso por DM.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!