Priscila
3 Profundidade
No meio da noite ouvi baterem em minha porta e em segundos Priscila se vestiu, assim como eu. Apenas usando uma blusa abri a porta e la estava meu irmão com seu travesseiro e sua coberta sendo carregado pelos seus pequenos bracinhos. Seus olhos estavam caídos e tristes, então o coloquei para dentro. Ela foi para o canto da cama, e eu me deitei em sua frente fazendo com que nós três coubéssemos na cama. Meu irmão se acomodou em meus braços e dormiu imediatamente.
–Você acha que aconteceu alguma coisa? — Priscila sussurrou em meu ouvido.
–Eu apenas espero que não.
Com um suspiro ela encerrou a conversa ali, como se não quisesse que aquilo rendesse algumas horas de conversa seria. Não bastou muito para que dormíssemos também, mas eu ainda temia para o que poderia acontecer.
Acordei antes de todos, com algum barulho qualquer na cozinha, assustada levei meu irmão no colo para a cozinha, onde ele acordou e comeu o que eu fiz para ele. Fiz então café para Priscila, que ainda dormia, quieta. A acordei com um carinho no cabelo, ela se mexeu pouco até estar no inicio da cama, se sentando. Abriu um enorme sorriso ao notar onde e com quem estava e eu a entreguei uma tigela e um copo.
Estava muito constrangida para falar qualquer coisa, então eu fiquei ali, a esperando, observando, queria que ela dissesse algo para que eu não estragasse tudo com um "bom dia" mal dito. Foi quando ela acabou de comer e me entregou o prato. Seu deitou ao meu lado, puxou o celular do canto da cama e começou a responder mensagens.
Um frio subiu a minha espinha. Tudo que eu mais temia havia se concretizado, a nossa amizade havia acabado e não estávamos evoluindo para um relacionamento. Ela havia se transmutado na fria garota que não cairia em amores por mim, muito porque, ninguém cairia em amores por mim.
–Você está tremendo. — Priscila segurou minha mão firmemente.
–Me desculpe... — precisava pensar em alguma desculpa rápida, então me embolei na seguinte mentira — estou preocupada com o que pode ter acontecido com meu irmão ontem.
Priscila então se sentou virada para mim e olhou fundo em meus olhos. Eu sabia que ela tinha total conhecimento de que aquilo era uma mentira horrível, foi então que ela segurou meu rosto com as duas mãos e beijou a ponta do meu nariz.
–Eu não sei o que acontece nessa casa, principalmente porque eu não convivo com você todo esse tempo, mas eu te conheço e não é isso que te preocupa. Fê, você aprendeu a lidar com a sua casa, com a sua família, com os seus problemas, eu sei que sabe, que você se adaptou horrores a sobreviver aqui. Do que você realmente tem medo? — suas mãos gentilmente desceram do meu rosto, passaram pelo meu pescoço e se depositaram em meu ombro.
Depois de uma longa pausa pensando no que dizer meus ombros caíram. A boca de Priscila prendia a minha atenção e mesmo com tudo a perder eu juntei toda a minha coragem eu disse:
–Eu tenho medo de você. Do jeito estupido como conhece a minha essência, como precisa e cuida de mim. Eu tenho pavor de que você não vá me querer como eu te quero, de que não vá se apaixonar por mim, porque eu não sou apaixonante, mas eu me apaixonei por você. — minhas palavras se embolaram enquanto eu falava rápido e baixo, quase como se na realidade eu não quisesse que ela ouvisse.
Não sabia se todas as palavras que eu disse soariam da forma correta ou saíram direito, mas havia algo naquele momento que me fez contar a verdade.
Priscila não disse nada, ela apenas sorriu, sorriu com os olhos, com a boca e com o corpo, de uma forma tão sincera que chegou a ser reconfortante.
E mesmo com duvidas, toda a minha preocupação acabou, foi embora, e eu estava leve, como nunca antes.
A beijei lentamente e ela não se impôs, fiquei pensando o que a noite anterior havia e não havia significado, mas acabei por chegar a conclusão de que não muito. Ela se deitou ao meu lado olhando para o teto e eu fiz o mesmo.
–Você já pensou se existe algo mais? – ela teve uma pausa – Do tipo... Eu acho que acredito que tudo é uma reação em cadeia, sabe? Quando eu tinha sete anos eu escolhi uma Barbie que vinha com um cachorro grande e peludo e daí eu passei o resto da semana sofrendo porque eu achei que deveria ter escolhido um com um cavalo que mexia as pernas. A verdade é que eu escolhi o mais barato porque queria tomar um sorvete depois, e foi nessa sorveteria onde eu conheci essa menina, foi lá que eu tive a minha primeira paixão, a minha primeira namorada. Qualquer coisa pequena pode se tornar uma coisa grande, em uma reação em cadeia gigante. Atualmente tudo seria diferente se eu tivesse escolhido a Barbie com o cavalo, eu poderia ser hetero... E se eu tivesse escolhido um sabor diferente de sorvete eu talvez não te conhecesse. Imagina então se eu tivesse saído de casa uma hora mais cedo? – ela falou olhando para cima, como se toda aquela historia fosse extremamente irrelevante e trivial, como se falasse sobre a chuva e aquilo me prendeu de uma forma da qual eu não sei exatamente exemplificar o porquê.
–Eu entendo... Mas posso não concordar? Eu acredito que as coisas são feitas para acontecer e você pode ou não estar pronto para ela. Vamos colocar em... Pontos. Conhecer você era um fato que foi feito para acontecer, algo do destino que estava predestinado a ocorrer naquele momento exato que você entrou na sala de aula. Eu poderia estar bem aquele dia, ou mal, eu poderia estar super concentrada em um livro ou desenhando algo incrível, e se qualquer minúscula característica minha estivesse diferente, hoje eu poderia ter acordado com alguma garota nova que eu vi na padaria, mas resolvi ignorar porque eu tinha você. Por isso as vezes quando você está na rua nota uma pessoa mas não a conhece, é como um fator psicológico que controla a sua vida e você nem ao menos percebe. Você já deve ter notado que viu uma pessoa muitas vezes, mas nunca a conheceu, porque você nunca esteve pronto. – fiquei olhando para cima, aquilo realmente facilitava falar, mas eu ainda não conseguia soar como ela, por mais que eu quisesse.
Priscila ficou me observando enquanto eu falava.
–E quanto outra vida? – ela suspirou.
–Após a morte? — a observei durante algum tempo.
–Sim. – ela respondeu automaticamente e eu esperei um pouco, achando que ela se corrigiria, mas não o fez.
–Eu acho que só quem perdeu alguém fica pensando nessas coisas... Eu nunca perdi ninguém, sabe? Eu não penso nisso. Eu não penso em morrer, eu quero dormir e não ter que viver. Mas eu acho que acredito nessas historias de espirito e sei lá coisas de filme de terror. – a olhei firmemente durante algum tempo.
–Eu acredito que nossos espíritos estão presos a alguém ou algo aqui na terra e a gente fica voltando por essa coisa ou pessoa.
–Como almas gêmeas?
–Não, porque eu não acho que todo mundo tem almas gêmeas, nem todo mundo nasceu para isso. Algo como irmãos ou amigos. Como e você tivesse uma ligação com alguém e essa pessoa acaba sendo sua mãe, sua irmã, seu amigo, conhecido, namorado, mas sempre está junto.
–Então... Nem todos nasceram para ter almas gêmeas?
–Sim. Às vezes tem pessoas autossuficientes, existem pessoas que não precisam de outras. Meio como você, Fernanda. Você tem as suas palavras, uma cama e um gosto musical e de filmes, você não precisa de alguém.
–Eu não acho que seja simples assim.
–Eu acho. Você é carente, precisa de atenção e cuidados, mas apenas porque está quebrada, porque na verdade, não precisa de ninguém.
Não tinha uma resposta, então eu fiquei ali, a observando.
A finalidade de todas as nossas conversas era provas o nosso lado profundo e brincar sobre todas as coisas que lá no final eram bonitas, mas a verdade é que esse lado dela, eu nunca havia realmente visto. Era como se eu conhecesse toda a piscina dos olhos de Priscila, mas naquele momento eu havia notado que não coloquei os pés em toda ela. Seus sentimentos e percepções do mundo eram compatíveis com os meus em formas que talvez eu não conseguisse explicar. Ela me conhecia, ela sabia tudo sobre mim, sem nem ao menos se esforçar para isso e naquele momento eu sabia o que e quem era ela.
Fale com o autor