Era estranho ir para a escola com Priscila depois do que havia acontecido e a ideia me aterrorizava. Será que ela iria querer alguma coisa? Fingir que nada aconteceu? Se afastar? Eu não sabia e eu não tinha como saber.

Entrei na escola e dei de cara com ela. Priscila riu e me abraçou ali na porta da escola, então caladas lado a lado fomos para a sala. Assim que entramos na sala eu notei uma garota nova se sentando no meio da mesma. Ela tinha ambos os braços tatuados, olhos negros, unhas grandes e um rosto asiático. Esta grota no viu, sorriu e eu notei como Priscila a desafiava com o olhar, mas resolvi não comentar.

Sentei-me em meu lugar usual e Emma se sentou em minha frente. A novata foi para o nosso lado. Incomodada eu tirei meu livro e meu caderno de dentro da mochila e coloquei em cima da minha mesa, mas estava inquieta e não conseguia escrever. Logo caiu um papel em minha mesa.

Abri e as letras horrorosas diziam: “Se você não parar de chutar a minha cadeira, teremos de resolver essa sua ansiedade. Quer me contar o que aconteceu?”. Queria a estrangular, mas apenas respondi um “não” em um papel mais arrumado. E assim os papeis começaram.

“Eu quero falar” – Priscila jogou o papel em meu colo.

“Obrigue-me” – respondi usando um lápis.

“Vou gritar” – ela me respondeu com uma caneta azul.

“Grite”.

A mão de Priscila foi ao alto e a professora apontou para ela, que rapidamente respondeu:

–Professora, eu posso bater a Fernanda? – seu sorriso era grande.

–Vocês duas querem sair da sala para se resolverem? – a professora ergueu a sobrancelha direita em uma careta estranha.

–Não. – respondi rapidamente.

–Lá fora eu posso bater nela? – Priscila se levantou.

–Caso ninguém te veja, sim. – a professora se sentou em sua mesa.

–Vamos Fernanda, eu vou te bater lá fora. – Priscila pegou meu tênis do chão e seguiu para a porta.

Fiquei ali parada pouco tempo, mas já que a sala inteira estava me observando então eu fui. Eu fechei a porta, ela me beijou e se sentou no chão.

–Você sabe que eu não vou te falar. – sentei-me em sua frente.

Achei toda aquela historia um esforço romântico perfeito, mas naquele dia ela conseguiu ser mais apaixonante do que nunca. E, ao mesmo tempo em que a odiava, eu queria que ela continuasse.

–A novata é a minha ex – ela suspirou – era uma daquelas coisas que não terminam, sabe? Eu simplesmente parei de falar com ela assim que nós ficamos.

–Sua historia acaba de se parecer mais ainda com a da Emma e isso é um lixo. Eu não sou a merda da Adele, ok? – entrei na sala.

Ficamos horas sem nos falar e aquilo era o suficiente. O fato das duas se conhecerem já não era o que me irritava mais, era claro que Priscila sabia que ela estaria ali e isso era uma mentira. Todo aquele momento havia me machucado mais do que me usar para se reafirmar com sua ex. Pela primeira vez desde o dia em que a conheci eu consegui me desligar do mundo. Então fiquei ali sentada, lendo meu livro. Não saí, não fui comer, não respondi, apenas li me livro.

Porém, quando eu saí, eu queria que ela fosse atrás de mim, mas já era de se esperar que ela não foi. Sabia muito bem que Priscila não era o tipo de garota que correria atrás de mim, atrás de qualquer uma, e isso me decepcionou muito. Eu não notei o que ela fez toda a aula. Fui embora para casa, sem a notar, sem perceber o que ela fazia. Queria pensar apenas em mim, no meu bem-estar, mas assim que cheguei em casa eu entrei em colapso.

Assim que eu cheguei em casa decidi não comer, entrei em meu quarto, retirei os sapatos, joguei a mochila no canto e fui dormir, mas minha cama ainda tinha o cheiro dela e seus olhos azuis ainda estavam em meus olhos.

Em minha mente ela fazia o usual, nada muito além de tocar os mus cabelos, os desarrumando, rir a gargalhadas, desenhar círculos em meus braços com suas mãos e respirar levemente sobre meu peito. Seus lábios brilhavam em beijos molhados e seus dentes iluminavam nossos sorrisos.

O telefone tocou em minha cabeça e eu pensei em ser parte do meu sonho, até que ele tocou novamente. Acordei um pouco assustada e atendi ao telefone.

–Você pode vir me buscar? – a voz de Priscila era abafada, doente e não podia significar nada bom.

–O que está acontecendo? – me assustei com sua voz.

–Fernanda, por favor, eu estou assustada e com frio, eu não estou em um melhor, eu preciso que você venha me buscar. – sua voz ficava cada vez mais baixa e aquilo me assustou muito.

–Priscila o que está acontecendo? – me irritei.

–Eu estou chapada e longe de casa. Não sei chegar lá.

–Você está o que? – me sentei na cama.

–Drogada, muito drogada mesmo. – ela tossiu.

–Eu não vou te buscar. Você não merece que eu te busque. O que raios acha que está fazendo? – respondi ríspida.

–Vá para a minha casa, por favor. – ela suspirou.

–Me mande uma mensagem com o endereço.

A verdade é que eu não queria ir para a sua casa, eu queria ficar deitada em minha cama a repreendendo por ser o que é e ter feito o que fez. Por algum motivo eu precisava estar sozinha, mas assim que soube que ela precisava de mim eu sabia o que tinha de fazer e não me importava em ir ajuda-la.

Tomei um banho rápido, coloquei qualquer calça e qualquer blusa, uma daquelas coisas que depois que se entra no ônibus você nota que tem decote demais ou que as suas meias não combinam. Na hora eu realmente não liguei, só me importava em pegar todo o meu material escolar, roupa para trocar e ir para a sua casa o mais rápido possível.