Priscila

2 Filmes, pipoca e minha casa


Já havia algumas que a conhecia. Priscila era incrível. Acordava todas as manhãs muito bem disposta, sempre me animando. Seu sorriso me encantava e me arrancava um sincero sorriso descuidado, daqueles que me lembro ter dado apenas para a minha última namorada.

Almoçávamos juntas e depois ela ia trabalhar, todos os dias, sem se importar em pagar dois reais em minha comida, e eu sem me importar em comer pouco para que ela não pagasse muito mais do que dois reais. Ela não julgava minha pouca comida, ela não me julgava, ela apenas olhava para meu prato.

Assim como eu, ela gostava de ver tantos filmes e series quanto podia. Priscila geralmente me indicava algum filme ruim para ver a tarde, o que com o tempo passaria a ser um habito. Sempre assistia a aquele filme horrível com pipoca, assim que chegava em casa com fome e criava algo psicológico ou profundo para dizer sobre o mesmo. Caso 39 foi um desses, onde eu disse que Lilith era só uma alucinação, por isso grande parte das pessoas não acreditava em Emilye, sabendo de todas as suas inseguranças e as conseguia fazer virar uma espécie de realidade. Muitas vezes, discutíamos sobre a minha teoria e todas as falhas que eu propositalmente colocava, apenas para que tivemos algum assunto para falar naquele dia, ela sempre tinha as suas teorias, e ficávamos horas naquele mesmo assunto.

Os bilhetes também continuaram, em duas aulas as professoras já sabiam que se tivesse algum papel no chão, era nosso bilhete. Eram cheios de desenhos e piadas de humor negro.

Nas tardes, ela trabalhava, mas passava grande parte do tempo lendo meus contos e poemas e me mandando mensagens sobre os mesmos. E eu acho que ninguém nunca mais me reconheceu como aquela garota.

Priscila preencheu todos os meus dias vazios, minhas ações inúteis, colocando significado em todas elas. Era estranho depois de tanto tempo ter um amigo, ainda mais um que precisasse e contasse tanto comigo. Eu era parte de algo e ela era parte de mim, mesmo que aquilo não tivesse sido um acontecimento gradual.

Na sexta-feira à noite minha família resolveu pedir comida italiana, o que sinceramente era bizarro já que éramos uma família italiana. Eu provavelmente fiz alguma piada a respeito daquilo em meu Twitter. Meu pequeno irmão comia calado como sempre fazia quando meu pai estava em casa.

A grande verdade sobre a nossa casa era que meu pai batia muito em nós dois, então fazíamos de tudo para não o incomodar, o que consequentemente o irritava bastante. Ele era um psicólogo e nós éramos uma família rica, o que fazia com que toda a história não se encaixasse direito nos padrões da sociedade. Meu pai sempre quis ter aquela ligação especial com a família, mas tudo que conseguiu com as agressões foi que afastássemos dele. Tanto, que até hoje eu sei que se não fosse pelo meu irmão, nunca teria contado ao meu pai sobre mim.

A história é a seguinte: Minha mãe já sabia de tudo, primeiro porque é a minha mãe, e mães sempre sabem, mas também porque ela havia sempre sido boa comigo e eu tinha um carinho especial por ela. Sua aceitação foi muito boa. Porém, um dia meu irmão estava com um amigo em casa, e, naquela época, ele devia ter uns quatro ou cinco anos. Naquela idade, eu sei muito bem que crianças não sabem exatamente o que é um beijo, não havia nenhum tipo de conotação sexual, não sabiam de nada, são inocentes. E então um dia eles viam algum filme ou algo do tipo e se beijaram, exatamente quando meu pai estava assistindo. Eu lembro dos gritos do meu irmão, do seu amigo ter corrido para a sala e do barulho das batidas. Minha mãe gritava muito e eu entrei no meio da briga. Meu pai dizia algo sobre não querer gays na família e eu entrei na frente de seu cinto, segurando meu irmão e o respondi rispidamente dizendo que teria que me aceitar como a homossexual da família. Até hoje eu me lembro da sua face de perplexidade, de soltar o cinto no chão, e dele se sentar no chão e dizer:

–Sabe o que Freud diria?

E, soltando meu irmão, sem respirar, grossa o respondi.

–Que você é um pai de merda.

Lembro de como eu dei banho em meu irmão, cuidando dos seus machucados e de dormir com ele por muito, muito tempo. E eu acho que minha mãe nunca fez muita coisa pelo medo de perde-lo, porque, ainda que nessas situações, não se pode perder um filho, mas um marido sim e o amor dos dois sempre foi algo maravilhoso.

Ainda estávamos jantando quando meu telefone tocou, meu pai começou um dos seus olhares mortais para o aparelho e eu sorridente, o atendi, na mesa.

–Clementine Tangerine. – Priscila bradou do outro lado da linha.

–Emma. – tentei soar educada.

–Eu tenho uma proposta que não envolve jogar seu bumbum no Mc Brinquedo e rebolar.

–Já estou interessada.

–Filmes, pipoca e minha casa.

–Sair de casa não é algo possível, mas você poderia vir me ensinar esses passos de funk na minha casa? Eu tenho sorvete. – olhei diretamente para meu pai, o encarando, em uma disputa silenciosa que nunca acabaria.

–Porque não pode sair? – sua voz pareceu interessada.

–Minha casa pode ser um território hostil com animais a solta e eu preciso proteger os mais frágeis.

Priscila riu, me pediu 10 minutos e desligou o telefone. Eu sabia que ela viria, e a sua grossa voz me fez arrepiar.

–Quem vem? – minha mãe começou a retirar os pratos sabendo o que iria acontecer ali.

–Amiga, escola. – entreguei meu prato a ela e me levantei, buscando ajudar.

–Então você fez amigos? – meu pai foi a cozinha.

–Eu não sou uma psicopata bizarra que não tem ninguém. Eu tenho Priscila, eu tenho ela. – peguei os pratos empilhados na mesa.

–E eu. – meu irmão me seguiu, rapidamente, ficando sempre em minha perna direita.

–Sim, e você, que aliás vai comer sorvete se me trazer a prova de que fez todos os deveres.

Minha mãe agradeceu, meu pai me repreendeu, e eu baguncei o cabelo de meu irmão que foi correndo para o quarto. Minha mãe nunca ligou que eu cuidasse assim dele, ela gostava, encorajava, dizia que eu iria ser uma mãe no futuro, o que realmente acabou acontecendo. Já meu pai insistia que aquilo era confuso e doentio, como a maioria das coisas que existiam no mundo.

Clamei que lavaria tudo o que eu sujasse depois que meu pai terminasse de lavar tudo, e fiquei ali, ajudando, como se fosse uma criança boa. A campainha não demorou para tocar, menos de 5 minutos eu supus.

Priscila usava largas calças, um top e uma camiseta larga e aberta, um casaco preto e seus all star velhos de sempre. Calorosamente, ela me abraçou durante algum tempo.

–Você não me vê a 20 anos e ainda tem essa cara? – a soltei.

–25, você já está velha e não se lembra bem das coisas. – ela brincou, sorrindo – eu não me troquei do trabalho, mas eu acho essas roupas aceitáveis porque você, senhorita, está de pijama.

E foi quando notei que eu poderia não estar usando calças, já que normalmente dormia sem. E olhei para baixo para conferir e eu vi os olhos de Priscila acompanhando meu medo. Estava com aqueles shorts de academia que servem para se mostrar, já que basicamente parecem cuecas femininas e não cobrem nada e uma camisa branca, bem transparente. E aí veio outra preocupação: eu estaria usando sutiã? E por minha sorte, eu estava usando sutiã.

–Você não sabia se estava nua? – Priscila riu.

–Eu poderia, é bem possível. – ri com ela.

–Isso significa muitas coisas, Clementine. – sua risada era tão linda.

–Meus pais estão ali. – apontei para a minha mãe espiando em nossa conversa de porta aberta, enquanto fingia que limpava a mesa.

A porta da nossa casa era a real e grande divisória da sala entre a cozinha. Ao entrar, a sala ficava do lado direito, uma grande televisão e um grande sofá com um tapete felpudo e cheio de brinquedos embaixo, já ao lado esquerdo tinha a nossa enorme mesa. A frente da mesa, atrás de onde se podia de ver da porta, estava a real cozinha com os eletrodomésticos e uma bancada. Lá tudo era branco, o que fazia parecer aqueles dois cômodos enormes, todos eles tinham um painel preto e os moveis eram em cinza e a presença de vidro era assustadora para quem tem uma criança de seis anos em casa. A nossa entrada era fria.

Minha mãe sorriu e veio em direção a Priscila a abraçando, sorridente e educada Emma se apresentou, enquanto meu pai fez o esforço de entrar em seu quarto e fechar a porta. Meu irmão logo chegou correndo com vários cadernos abertos em páginas especificas e empilhados com uma agenda no topo. Depois de entregar tudo, observou Priscila como se ela fosse um animal em um zoológico.

–Ela é sua namorada? – segurou minha perna direita.

–Eu sou a amiga da Fê. – Priscila se agachou e parou na altura exata de meu irmão. – Eu teria que ter a sua autorização para namorar com ela, certo? – segurando sua mão, ela ergueu uma das sobrancelhas.

Meu irmão abriu um gigante sorriso de orelha a orelha que mostrava a sua falta de dentes.

–Já que sabe disso, você já tem permissão. – ele a abraçou.

–Ele fala como você, Tagerine, temos um problema, ele vai ser horrível com as mulheres. – Priscila me olhou enquanto o abraçava, brincando.

Aquela fora a cena mais fofa que eu já havia presenciado em toda a minha vida.

Conferi os deveres do meu irmão e o servi de sorvete, pedi a Priscila que conversasse com ele enquanto preparava a sua cama e levava todos os seus cadernos para dentro. Sem dizer muita coisa ele colocou a vasilha na pia e foi deitar, e assim eu peguei o sorvete, duas colheres e levei ao meu quarto, onde as luzes estavam baixas e a porta fechada.

Emma ficou parada por um tempo me observando, então olhou para baixo e eu sabia que aquilo não podia significar algo bom.

–Aconteceu alguma coisa? – segurei sua mão.

–Porque a sua casa é um ambiente hostil e blá blá blá? – ela se voltou para mim, com as sobrancelhas erguidas.

–Meu pai... Ele fica bem agressivo as vezes. Ele batia muito na gente, principalmente no meu irmão. Quando eu estou aqui, meu pai não machuca ele.

Priscila não disse nada, mas me abraçou. Ficou ali por um tempo e disse algo sobre o filme que trouxe quando me soltou. Ela estava falando mil coisas sobre o mesmo e eu só pensava em como aquele ato era insanamente incrível.

Aquele abraço mudou muitas coisas para mim, na forma como eu a via. O sentimento de conforto, o carinho, aquilo não era amizade, amizades não aqueciam o coração daquela maneira. Aos poucos eu estava me apaixonando por ela e não sabia controlar isso.

Priscila parou e me observou, foi quando eu notei que estava boquiaberta a fitando. Meus lábios secaram e eu os umedeci, fechando a boca. Com um pouco de vergonha abaixei a cabeça, foi quando sua mão quente tocou a minha, subiu delicadamente meu braço e tocou meu queixo. O ato de levantar meu rosto foi tão delicado, tão calmo, tão seguro. Seus grandes olhos azuis me encaravam.

Em um impulso, a beijei. O beijo fora longo, quente, carente e reciproco em todas as formas possíveis. Sua cheia boca era macia e não hesitou em me corresponder. O calmo beijo não bastou para mim ou para ela, comecei a ofegar rapidamente, a beija-la mais intensamente. Ela me parou, segurou meu corpo, mantendo um pouco de distância.

Priscila fez que falaria alguma coisa, mas não falou, apenas ficou me olhando durante algum tempo estranho e eu sabia o que deveria fazer.

–Me desculpe, eu... Não sei. Eu só queria. – abaixei a minha cabeça.

Novamente ela levantou meu rosto e seu beijo me enlouqueceu em segundos sem fazer nada demais. Quando ela estava sobre controle, tudo era diferente. Priscila não precisou me tocar para que eu quisesse tirar a roupa, e quando me tocou, eu já não conseguia mais me controlar.