Priscila

8 Aqui segue o primeiro grande erro de toda a minha existencia


Fui para a aula na segunda-feira ainda sem noticias de como Priscila estava. Fiz de tudo para fingir que não estava ali, desde deveres à conversar com estranhos, querendo me desligar de sua possível existência na cadeira da frente, acredito que dormi durante quase todos os horários.

Chegando a casa eu digitei meus contos e poemas, recusei algumas de suas ligações. Eu sabia me virar, não sabia? Eu conseguiria me virar sem ela, não conseguiria?

Estava deitada, ouvindo todas as musicas que alguma vez eu já tive em meu telefone, sem conseguir dormir. Quando estava a ponto de entrar em colapso, ouvi batidas em minha porta e com cuidado a minha mãe entrou ali.

–Filha? – ela foi se colocando de fininho em meu quarto, quase como se estivesse entrando ali escondida.

–Oi. – me sentei em minha cama e ela se sentou em minha frente.

–Você quer me contar o que aconteceu na festa? Não com relação as drogas e tudo, você sabe que eu acredito e confio em você, mas com relação a...

–Priscila. – a interrompi, ela então assentiu e eu continue – Você se lembra da Thais?

–A ruiva?! – minha mãe se espantou, como se já soubesse o final da historia – Foi quando tivemos que te levar no medico porque você não comia nada. – seus olhos se arregalaram e ela segurou minha mão como se aquilo fosse me manter junta.

–Uma das colegas de quarto de Priscila, a Mariana, está com ela de uma forma aberta. – ela fez uma careta e eu sabia que ela não entendia o conceito, então resolvi explicar – Elas namoram, mas podem se relacionar com outras pessoas fora do namoro, sabe? Enfim, o que interessa é que Thais bebeu muito e a Priscila também, ou então ela simplesmente não se importa. O ponto é que as duas foram para o banheiro juntas, e a gente sabe o que acontece em banheiros de baladas. Porém as meninas estão dizendo que tudo isso é um grande mal entendido e que eu tenho que ouvir o lado da Priscila, mas eu realmente não quero, porque ela era a minha ex, e você mais do que ninguém sabe o quanto aquela garota me fez mal.

–Eu acho que tem dois pontos, Fernanda. Thais destruiu a sua vida, ok, mas você realmente vai a deixar destruir isso também ou vai lutar por uma garota que você claramente ama? Além de que ela merece uma chance. As pessoas cometem erros, as vezes, se você realmente as ama e se ama o suficiente para dar a sua cara a tapa, vale a pena perdoar o que é passível de ser perdoado. Todo mundo vai errar, todo mundo vai te machucar e te magoar, mas se você souber disso e souber distinguir as verdades, vai ver que nem sempre é o que essas pessoas desejam.

Os olhos de minha mãe pareciam conter toda a sinceridade do mundo, eles nunca mentiam e disso eu sabia muito bem. Era incrível o quão serio ela falava e o quão serena soava. Ela poderia convencer qualquer um de qualquer coisa.

Sentia saudade de estar próxima assim de alguém que não fosse Priscila, ainda mais se essa pessoa fosse a minha mãe. Era incrível poder conversar com ela sobre tudo e aquele foi um momento no qual eu pude matar um pouco dessa saudade e ainda levar uma lição gigante para sempre, ainda que eu não soubesse a grandeza e a dificuldade de aplica-la.

Em resposta eu apertei sua mão, assenti e sorri. Ela então me abraçou, forte, durante algum tempo, como sempre fazia quando me desejava sorte, quando eu fazia algo de errado ou quando eu realmente precisava de ajuda.

–Lá na sala chegou um livro para você. – ela disse ao me soltar

–Eu não comprei nenhum livro. – estranhei.

–Fernanda, tem um livro para você lá na sala, vá busca-lo. – ela soou seria – O jantar estará pronto em 20 minutos e você vai olhar os deveres do seu irmão e o arrumar para dormir. – ela me deu um beijo na testa, sorriu, seria, como sempre fazia quando me dava ordens e saiu do meu quarto tão delicadamente quanto entrou.

Fiquei ali por algum tempo pensando que ela poderia nunc nem ter entrado no meu quarto e atualmente se essa fosse à verdade, me salvaria de meses e meses das piores decisões que eu tomei em toda a minha vida.

Levantei-me ainda de pijamas, prendi meu cabelo desarrumado em um rabo de cavalo. Segui para a sala, caminhando cansada. Eu realmente não gostava de ficar horas deitada na minha cama sem fazer nada de produtivo, muito menos o meu corpo. Imaginei que teria uma caixa cheia de livros em cima do sofá como sempre, mas o que eu vi foi algo muito diferente disso.

Priscila estava sentada no felpudo tapete da sala junto com meu irmão brincando com ele em alguma daquelas cenas fofas que eu simplesmente odiava porque eram perfeitas demais para ser verdade. Eles usavam aqueles pequenos homens e brigavam, lutando, jogando uns contra os outros. Para piorar toda a situação meu pai estava brincando. E tudo que eu conseguia pensar é que Priscila havia juntado os dois da forma como eu sempre sonhei, mas nunca consegui.

–Você pagou meu pai para me reconquistar? – parei na frente dos três.

–Eu não posso gostar dela? – meu pai sorriu para mim destruindo o que claramente seria um prédio de lego com um avião e dizendo: BOOM.

Segurei a mão de Priscila e a levei para meu quarto. Ela carregava um exemplar de Salinger em sua mão e aquilo fez meu coração se despedaçar em mil pedaços. Minha mãe sorriu para mim maliciosamente, como se tivesse cumprido seu plano maléfico de me juntar com ela novamente e meu pai a deu um tapinha nas costas.

Fechei a porta do meu quarto e me sentei em minha cama, então Priscila se ajoelhou em minha frente.

–Você sabe que não precisa se ajoelhar, não é? Eu acho bem humilhante, na verdade.

–Você me disse que se humilhou por ela... Também e disse que seu livro favorito, orquídeas e Ferrero Rocher são coisas que a gente trás quando faz alguma merda muito grande e precisa compensar em milhões de jeitos possíveis. Eu não consegui trazer tudo, primeiro porque esse livro é absurdamente caro para ser uma biografia e porque eu gastei o resto do meu dinheiro com outra coisa absurdamente cara. E, aliás, como eu sei que você tem edições diferentes de O Apanhador No Campo De Centeios eu achei melhor trazer Salinger. – ela sorriu amarelamente.

Toda a confiança que havia me marcado em Priscila havia sumido.

–Às vezes a gente só trás mentiras. – suspirei, me sentando ao seu lado no chão.

–Eu trouxe Salinger. – ela ergueu uma das sobrancelhas.

–Você tem 30 segundos. – fingi olhar as horas em meu telefone.

–Eu realmente fiquei com Thais. Entrei no banheiro porque eu estava passando mal, como você já sabe eu também fui drogada. Eu inclusive vomitei antes de você. Daí eu fui me lavar para pegar você e ir embora daquela maldição de lugar, mas aquela louca entrou, jogou todas as roupas dela no chão, me agarrou e começou a... Bom, você não precisa dos detalhes. Eu juro que eu não quis, eu juro que eu tentei sair dali, que eu não cooperei por nenhum segundo e eu não estou mentindo porque eu não quero mentir pra você nunca. Eu odiei todos os minutos que eu estive com ela. Fernanda eu te amo, eu realmente te amo e eu não quero mais ninguém em toda a minha vida. Eu não quero mais nenhuma garota no mundo... Ok, talvez eu queira a Megan Fox ou a Sasha Grey. Mas eu não vou te largar por mais nenhum segundo. Você é a mulher da minha vida e por isso eu estou aqui, te pedindo em namoro. Uma coisa que eu inclusive pedi pro seu pai antes e eu achei que ele fosse me bater, mas ele fez algo muito mais medonho que foi me abraçar.

–Você realmente acha que eu vou aceitar? Depois desse tipo de traição, depois de você quebrar o meu coração em mil pedacinhos e pisotear eles?

–Eu comprei alianças e se você não aceitar eu pretendo fazer você engolir elas. – ela retirou do bolso um par de alianças.

Dois anéis finos, pretos com uma faixa prata estavam na mão dela.

–Foi caro? – suspirei.

–Foi tão caro que eu não comprei a caixinha. – ela me implorou com os olhos.

Eu peguei a aliança maior, que claramente seria dela e joguei em sua cara, então coloquei a outra m meu dedo.

Priscila sorriu e me beijou, durante muito tempo e eu quase chorei.

Como fui tola de achar que eu sobreviveria sem aquele beijo?