Priscila
1 A vida começa fora da sua zona de conforto
Dias vazios, cheios de ações inúteis.
Era um acordar, mas ainda parecer estar dormindo. Presa em um daqueles sonhos horríveis do qual eu não tinha como escapar. Ficar ali, parada, estagnada, esperando que algo incrível acontecesse e mudasse a minha vida.
Não, isso não é uma daquelas histórias sobre um amor que caí do céu em uma vida e muda tudo. Apesar de ser bem isso que realmente aconteceu. Eu não quero que se leia isso e pense: “Ei, eu posso não fazer nada que acabarei achando o amor da minha vida”. Não foi isso que aconteceu. Ela não era o amor da minha vida, porque eles são eternos. Nós fomos eternas, num grande período de tempo, mas então tudo se acabou, o que é bastante ligado ao fato de que eu não mudei. Eu nunca gostei de histórias de amor convencionais, principalmente as do tipo Crepúsculo, isso não acontece, e esta é uma dessas histórias que não tem final feliz, eu não tenho um final feliz, como a maioria de nós.
Naquela época eu ainda utilizava muito o Tumblr, e nele sempre aparecia a frase “a vida começa no final da sua zona de conforto” colada em alguma imagem de paisagem com letras bonitas. Isso me incomodava bastante e ficava se passando na minha cabeça como um daqueles mantras vazios que filhos de famílias indianas tem de repetir mesmo não acreditando no Deus que os indianos acreditam. O problema era que mesmo sendo um mantra vazio de indianos, eu acreditava naquilo, acreditava que eu tinha de sair da minha rotina, sair para fumar em um lugar diferente, trocar de favela para comprar as minhas drogas, ir em outras baladas, conversar com as pessoas para que algo incrível acontecesse comigo, enquanto ainda sim, esperava que algo caísse do céu e mudasse a minha vida. Eu não queria sair, correr, fugir para ser feliz. Mas naquela época, eu nem sabia se queria ser feliz.
Não tinha todas as respostas, e hoje, mesmo depois de escrever e reescrever isso, acho que não tenho. Estava vivendo dias onde eu não sabia a resposta para nada, nem mesmo o porquê de mesmo depois de tantas lavagens, meu travesseiro continuava se sujando com o azul da minha tinta de cabelo.
-Eu tenho de trocar essa tinta de cabelo. – levantava todas as manhas e dizia a mesma coisa.
A verdade é que eu tinha trocado, algumas vezes. Eu gostava de testar a mesma cor em marcas diferentes, para ver se eu realmente ficava com alguma. A verdade é que sempre que a cor acabava, em menos de um mês eu trocava. Em dois anos passei do roxo para verde, cinza, preto, vermelho, laranja, e enfim azul. E aquela estava sendo a minha cor de comprar várias marcas e testar. Talvez aquela seria a minha cor...
Dias vazios, cheios de ações inúteis.
Costumava odiar ir para a escola, um pouco antes desta época. Antigamente eu sofria bastante com os meus colegas. Eu nunca fui uma garota maravilhosa, sabe? Eu nunca fui feia, não era gorda, não tinha muitas espinhas e apesar de meus dentes não serem certos, não eram feios o suficiente para usar aparelhos. Eu usava óculos, tinha a pele morena de sol, um moreno bem claro, tinha mãos bonitas. Não sabia o porquê de tanta implicância, mas era a minha vida. Depois de algum tempo eu entrei no ensino médio e isso mudou. A verdade é que, desde que eu saí do armário as coisas mudaram. Eu esperava muita desaprovação, então, achando que eu mudaria de escola eu contei para uma menina na última semana de aula do nono ano, eu sabia que ela iria contar para a escola inteira. As pessoas não vieram fazer brincadeiras comigo, elas não vieram fazer nada. No ano seguinte, tudo estava diferente. Aquilo não era mais hostil para mim, só desagradável. Ninguém falava comigo, o que não me incomodava, ninguém se importava comigo, mas eu nunca ficava sozinha em trabalhos e sempre sobrava alguém para fazer dupla comigo. Talvez isso seja um exemplo de que sair da minha zona de conforto seja favorável... Sair do armário para mim é sair da zona de conforto.
Não me arrumava para ir para a escola, porque eu nunca achei que nada de interessante fosse acontecer por lá. Eu nunca esperei que a minha princesa encantada fosse saltar de uma garota da qual eu fiquei interessada na escola. Eu não usava maquiagem. Eu as vezes não penteava o cabelo. Minhas unhas nem sempre estavam feitas. E eu não me importava muito. Eu era uma menina cuidada, muito... Mas acho que eu preferia dormir mais meia hora ao me arrumar para a escola.
E naquele dia, não foi diferente. A aula começou normalmente. Se não me engano, a aula era de física. Nossa professora era bem velhinha, mas bem simpática. Eu não conversava com ela, mas ela sabia que eu escrevia bem e tirava ótimas notas em humanas, por isso não pegava no meu pé quando não ia consideravelmente bem em uma das suas provas e eu sempre admirei isso em um professor. Eu ficava sentada na última cadeira escrevendo, desenhando ou lendo alguma coisa. Naquele semana eu estava lendo As Vantagens de Ser Invisível, porque eu tinha visto o filme no final de semana, não que eu gostasse de livros “modinha”, mas havia algo em Charlie. Eu acho que a inocência dele era bonita, e eu me interessei.
Estava presa no livro, porque ele era bem fácil de ler. Eu quase não a vi entrando na sala, mas alguém do meu lado me cutuco, apontou para ela e disse: “lésbica”. E foi aí que num desses dias que não tem nada para ser especial tudo mudou. Era uma quarta-feira, uma terrivelmente rotineira quarta-feira, até Priscila.
Atrasada, com uma surrada mochila preta ela estava parada na frente da classe. Usava uma das bermudas masculinas, chinelos e uma das camisas femininas da escola, imaginei que ela também não se importasse muito com a escola assim como eu. Tinha um curto cabelo raspado dos lados, com um topete negro, que me fez ter vontade de acariciar sua cabeça, seus olhos eram profundos e azuis, que estavam bem realçados por uns óculos quadrados de alguma marca cara. Tinha um nariz gordinho, assim como as bochechas, e um piercing preto no septo. Seus lábios eram bem cheios e vermelhos. Ela tinha saído de algum sonho perdido meu.
A garota veio e sentou na minha frente, mesmo enquanto eu a seguia com os olhos meio boquiaberta. Todos da sala imediatamente passaram a encara-la. Isso a deixou terrivelmente incomodada e me fez rir. Tentei controlar a minha risada, mas quanto mais as pessoas olhavam, mais eu ria. Chegou ao ponto de ela se virar para trás muito irritada.
Seus olhos azuis me fuzilaram e eu parei de rir imediatamente, corando. Então ela abriu um enorme sorriso.
-Porque estava rindo?
-É ridículo. – sorri, ela ergueu uma das sobrancelhas e eu me irritei porque eu com certeza era a única pessoa da Terra que não conseguia fazer aquilo. – É porque você ficou desconfortável com todo mundo te olhando, mas meio que você provocou isso porque veio se sentar na frente da única lésbica da escola.
-Isso é bem ridículo mesmo. – ela riu, abafadamente durante no máximo dois milésimos de segundo, mas sua expressão me mostrou que não estava me zombando.
A aula correu, mesmo sem passar. Eu lembro de não conseguir esquecer aquele sorriso, ou a forma como ela me fuzilou e todas aquelas coisas ficavam ecoando em minha cabeça. Eu não conseguia ler meu livro, e fiquei parada bem no início dele onde o Charlie fala sobre masturbação. Escrever era mais impossível ainda, já que tudo que eu escrevia soava como um poema para ela.
Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Sempre que eu me interessava por alguém não ficava daquela maneira, mas em minutos ela tinha entrado em minha vida e a dominado e eu não sabia como reagir, apenas ficar lendo sobre como o Patrick havia transado com o Brad.
Assim que soou o alarme do intervalo ela segurou o meu braço com força e me disse:
-Não me deixe sozinha.
E eu não deixei. Nós fomos a cafeteria e compramos comida, foi então que eu a levei a meu canto escondido atrás do prédio da escola. Era um buraco em meio a duas pilastras e ficava bem na frente da cerca, estávamos olhando para rua, porém, um pouco mais de cima. Ela não teve medo, mas não sabia o que conversar comigo. Perguntou meu nome, quantos anos eu tinha e coisas ridículas sobre onde eu morava. Descobri que ela não morava com os pais, que tinha sofrido bastante por ser do jeito que era e acabou saindo de casa, trabalhou, morou na rua, mas conseguiu se mudar para um pequeno apartamento com duas amigas e que só agora tinha conseguido ficar financeiramente estável e pagar uma escola particular. E eu achei aquilo incrível, porque ela passou do nada para conseguir ganhar dinheiro suficiente para pagar uma escola cara. Priscila era incrível no pouco que tinha me contado antes que o sinal batesse e tivéssemos que sair daquele canto e voltarmos para a sala.
Sentada em minha frente, assistíamos a aula de química. Ela rasgou um pedacinho do papel, escreveu algo e colocou em cima da minha mesa. O papel era todo desregular e estava meio amassado. Em letras horrorosas dizia: “Você já assistiu Eternal Sunshine of a Spotless Mind? “. Guardei aquele pequeno papel no meu bolso, não sabia porque, cortei um papel melhor e entreguei a mensagem escrita: “Sim” a ela. Não bastou muito para que ela me respondesse: “Então Clementine Tangerine, qual o nome da sua tinta de cabelo? “.
Não tinha o cabelo tingido de laranja ou algo do tipo, mas eu amava Clementine. Ela parecia não ligar para as coisas, só queria se entregar a aquele amor, a aquela coisa estranha que ela sentiu quando encontrou o Jim Carrey naquele personagem do qual eu não lembro o nome. Pensei um pouco para responder, mas então disse: “Você já assistiu Azul é a Cor Mais Quente? “ E ela me respondeu “sim”. “Emma, a minha tinta se chama Purple Blizzard”.
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