Meses Depois


Elôrem observava os aspirantes treinarem entre si. Eram crianças, de no máximo onze anos. Estava feliz de poder estar ali, já fazia quase seis meses. Mas frequentemente sentia-se um pouco tonto. As faltas de ar eram constantes. Puxara levemente a gola alta do uniforme, tentando buscar mais oxigênio e frescor.

Mirtop não tinha uma equipe forte e armamentos como os planetas ao redor de Tay, que era onde estava treinando meses atrás. Pedira para observar o treinamento das crianças e ganhara o aval para treiná-los. Na verdade, todos ali que o conheciam, ficaram felizes em saber que ele conseguira a insígnia do resgatista. Ele contara de suas missões e o que vivera por lá. Sua experiência no trabalho, gerara mais confiança e isso era fundamental. Agora ele conseguia dominar a energia primordial em si e seu estado expansivo. Havia tentado se comunicar com Julius, porém não tivera respostas. Ele não tinha nenhum aparato de comunicação, embora eles existissem, nunca sentira real necessidade de um, e quando conhecera Julius descobrira que eles próprios possuíam um aparato só deles. Mas agora considerava conseguir um dos aparelhos, já que sentira seu coração apertar no primeiro mês que estivera longe, tentara obter informações de toda forma, mas ninguém lhe dera resposta alguma. Naquela tarde havia decidido, fora indagar seu guardião no laboratório assim que deixara a academia de treinamento juvenil.

- Pai, sabe alguma coisa de Julius? – Indagara a Shayen pela milésima vez desde que chegara. Era fato, sentia sua falta, mas também sabia que ambos os guardiões intervinham de alguma forma na dinâmica do casal. Ele fitara Shayen enquanto girava por diversão, ou tédio, em uma das cadeiras flutuantes do laboratório. O mais velho parara o que estava fazendo para lhe mirar.

- Elôrem, não contei nada para não lhe preocupar. – Naquele momento ele arregalara os olhos. – Julius passou mal na primeira semana que viemos para cá, ficou em observação. Ele teve febre e mal estar. Teve algumas recaídas. Mas já está melhor.

- Porque não me contaram? Eu sabia que tinha algo errado!

- Não ia resolver nada te contar. O que poderia fazer? Voltar?

- Se fosse preciso...

- Não, Elôrem. Ele precisa aprender a lidar bem com a distância física de vocês. Ele viveu anos sem te conhecer! A dinâmica entre vocês precisa ser saudável. Você entende? – Elôrem sentira uma pontada estranha no peito, que piorara repentinamente, fazendo-o encurvar-se.

- Ai! – Shayen o amparara.

- O que está sentindo?

- Uma dor esquisita... – Elôrem sentara-se de cócoras ao chão, se encolhendo, abraçando as próprias pernas.

- Venha, vamos te examinar. – Shayen o pusera em uma maca, levando-o para uma sala de consultas. Ele puxara um aparelho redondo pequeno, pousando-o acima do abdômen de Elôrem. Era possível realizar exames mesmo com as vestimentas. Rapidamente uma tela com cerca de trinta centímetros flutuara acima do aparelho, mostrando seus órgãos internos em perfeita resolução. Shayen fora movimentando até encontrar algo que o fizera parar. Um som repetitivo e ininterrupto, soara do aparelho. Era forte e belo, como uma canção rítmica. Não era o coração de Elôrem, mas o mesmo reconhecera imediatamente, olhando para Shayen com as sobrancelhas arqueadas. Claramente surpreso.

- É o que estou pensando? – Shayen sorrira abertamente confirmando com um aceno de cabeça. O rapaz sentira seus olhos marejarem imediatamente.

- Não sentiu nada desde que voltamos? Nada que queira me contar?

- Não... – Ele parara pra pensar. – Na verdade sinto falta de ar as vezes, canso mais facilmente que antes. Pensava que talvez fosse pelo clima de Mirtop A7 ser diferente de Tay.

- Não é isso. Na verdade esse único sintoma faz muito sentido. Sua gravidez é na cavidade torácica, fazendo pressão no diafragma, o que explicaria sua falta de ar. Ela é discreta e aparentemente silenciosa. Você está com quase vinte e quatro semanas de gestação. Ainda é só um brotinho, embora já esteja completamente formado, curiosamente está próximo ao seu coração. – Shayen dissera. Elôrem sentira as lágrimas descerem por seu rosto em fim.

- Porque senti dor? – Ele indagara incerto.

- Provavelmente foi emocional e a criança se moveu. Aqui não foi detectado nada errado.

- Eu me esqueci completamente da possibilidade de ter um bebê... As coisas aconteceram tão rápido que não me lembrei de te pedir exames.

- É compreensível. A falta de sintomas contribuiu para que você não lembrasse. – Ele se pôs a pensar, realmente, se tivesse sentido algo, talvez lembraria.

- Shayen, sabe me dizer que alma irá acoplar neste corpo?

- Não tem como saber, mas ela entrará em contato se assim desejar e você estiver pronto. – Ele mirara Elôrem com um sorriso. – Vocês são um milagre. São almas capazes de modificar corpos, possuem uma energia tão forte. Não temos reprodução sexual há séculos. E vocês fizeram o que ninguém por aqui conseguiria explicar.

- Eu sei que vou ser julgado por isso também. – Shayen largara o aparelho, sentando-se ao seu lado.

- Esta raça está em seu limiar de início de quinta dimensão. Há muitos por aqui já com a consciência elevada, porém infelizmente ainda temos almas desajustadas que vem para cá com intuito de aprender. Mas não são a maioria. Em locais com treinamento bélico, a índole é mais dura, provavelmente é o que atrai essas almas para Tay, por exemplo.

- Entendo... Pai, preciso contar a Julius.

- Na hora certa. Tenha paciência. Deixe ele viver seus processos, quando ele estiver pronto, virá até você.


Julius acordara no meio da noite, mergulhado em pesadelos, o suor escorria por sua testa e a respiração agitada o fizera levantar-se. Ele sentia inquietação e ansiedade. Pensara em Elôrem e automaticamente escutara sua voz.

“Você está aí? Pode me ouvir?”

Seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente. Parecia que há anos não o escutava.

“Eu estou, meu amor. Eu estou aqui.”

Dissera mentalmente, sorrindo por finalmente conseguir se comunicar com ele novamente.

“Você virá me visitar? Tenho algo pra te contar, mas precisa ser pessoalmente.”

Julius se preocupara, e como um scanner energético, Elôrem sentira.

“Por favor, Julius, eu estou bem. Mas sei que você não está.”

“Vou melhorar ainda mais quando te ver. Vou pra aí assim que Tay nascer.”

Dissera, se referindo à estrela que iluminava o planeta e tornava dia suas noites.

E lá estava. Todos da equipe foram contra, a não contar com Holp.

- Se ele for, não volta. Tenho certeza disso! – Goel comentara.

- É seu complemento, seria natural. – Outro respondera.

- Mas é nosso general!

- Vai aparecer outro. Se gostamos dele, temos que apoiá-lo! – Goel revirara os olhos nas órbitas. Ele dissera isso, mas no fundo não queria que o amigo se fosse.


Julius se despedira de todos, e após um abraço forte em Holp, ele o mirara profundamente.

- Se cuida. Seja o que for que Elôrem contar a você, considere voltar pra nós, se não for pedir muito. Todos aqui gostam de você.

- Vou pensar... – Dissera por alto, antes de embarcar e acenar para todos.

A viagem era rápida, menos de uma hora e logo estava em solo do planeta A7, regido sob a luz de Mirtop. Julius estivera ali quando criança, depois não voltara mais.

Com alguns contatos, logo descobrira o laboratório em que Shayen trabalhava.

- Ele te chamou, não é? – Shayen dissera, dando-lhe um forte abraço.

- Essa madrugada. Estranhamente minutos antes eu despertei de um sono agitado. Tenho estado ansioso nos últimos dias, como se algo fosse acontecer. Elôrem está bem de saúde? – Ele vira o mais velho respirar profundamente, e isso lhe acendera um alerta mental.

- Ele está sim, mas tem algo que quer lhe contar e não ia sossegar enquanto não te dissesse. – Julius arqueara as sobrancelhas em surpresa. – Vou lhe dar as coordenadas de onde ele está agora. – Shayen lhe passara a direção da base de treinamento juvenil. Julius agradecera e logo se fora. O mais velho mirara-o se afastar, pensando no quanto a ligação dos dois era forte. Elôrem mal conseguira dormir naquela madrugada, e isso refletira em Julius.


Ele chegara em uma base de treino e de cara não imaginara isso, talvez um conjunto de casas? O que estaria fazendo Elôrem em uma base de treino juvenil? Ele se aproximara. Avistara ao campo um lindo rapaz de madeixas brancas brilhantes correr com crianças de no máximo onze anos, todos de uniformes azuis típicos. Ele corria alegre com todos ali, ao mesmo tempo em que eles se divertiam com o mais velho. Julius sorrira, fazia meses que não o via, era claro que dias, meses e anos, transcorriam de forma diferente. Seja como fosse, sentira sua falta, mas não podia procurá-lo enquanto não curasse sua dependência emocional.

Ele se aproximara sorrateiro, escorando na parede, esperando pacientemente até que a atividade terminasse. Elôrem estava diferente, algo nele havia mudado, em seu corpo, em sua energia. Não sabia explicar.

- Certo! Eu sei que vocês se divertiram hoje! Mas quero todos em um círculo agora! – Todos se sentaram na grama em uma roda, observando-o com atenção. – Quero que cada um de vocês tentem sentir sua própria energia. Fechem os olhos e chamem por ela. – Todos eles fecharam os olhinhos, respirando fundo, começando a trazer suas energias para fora. As cores eram variadas e suaves. Elôrem fizera o mesmo e a energia branca azulada emergira, porém Julius notara uma pequena fagulha dourada se projetando entrelaçada a energia de Elôrem. O mais velho observara com atenção e então o rapaz abrira os olhos, mirando diretamente seu complemento. Como se intuitivamente tivesse lhe sentido ali. Um sorriso surgira em seus lábios automaticamente. Elôrem esperara as crianças acordarem de seu transe e os orientara a treinar em casa, encerrando a aula daquela manhã. Ele se aproximara com empolgação genuína de Julius. – Eu não acredito que esteja aqui! – Enroscara os braços ao pescoço do mais alto, beijando seus lábios com carinho.

- Eu estou... Não imagina a saudade que senti de você. – Dissera em resposta, abraçando-o pela cintura, trazendo-o de encontro ao seu corpo. As energias se mesclaram, e ambos conseguiram sentir uma paz que sozinhos não encontravam. – E então? O que quer me contar? – O mais novo sentira o coração disparar.

- Vamos até minha casa.


O conjunto de casas era singelo em meio ao gramado e a natureza. Longos campos à perder de vista circundavam a região. Era a visão da paz e da tranquilidade. Julius aspirara o aroma campestre e sentira seu espírito acalmar em fazê-lo. Ele seguira Elôrem até adentrarem uma bela casa em pedra de tons brancos, acinzentado e cristais azuis claros que serviam para iluminação natural; arquitetura moderna, ecológica e funcional, era o que dominava o planeta, sem agredir a natureza. Não havia tecnologia grandiosa como em Tay. A sala era espaçosa e arredondada, como a maioria das moradias de seu povo. Elôrem sentara-se em meio às almofadas coloridas e o chamara a se sentar consigo.

- Esta é minha casa. Shayen mora ao lado. – Julius não imaginava.

- Aqui você mora sozinho?

- Sim! Shayen merece sua privacidade também... eu já sou adulto. Embora ele se preocupe como se eu ainda fosse uma criança. – Explicara. Quer comer ou beber algo?

- Não, eu estou bem. – Respondera o mais velho. Elôrem lhe sorrira, apanhando uma de suas mãos, que eram bem maiores do que as suas. Ele a direcionara em seu abdômen, subindo em seu tórax, e a energia dourada que Julius vira mais cedo, se acendera uma vez mais. Mirara seu companheiro com surpresa.

- É sério? É o que estou pensando? – O mais novo lhe sorrira, meneando em positivo. Uma lágrima escapara dos olhos verdes, e muitas outras vieram em seguida. Ele se aproximara de Elôrem, puxando o zíper de seu macacão até seu baixo ventre, então o beijara em toda a região, encostando a testa em sua pele alva e quente. A luz dourada se encontrara com a sua, que também era de mesma cor. Um sorriso bobo dançara em seus lábios. Aquela sensação era uma das mais mágicas que já pudera sentir.

- Você é magnífico, Elôrem. – Ele dissera, mirando o mais novo com reverência. Ele acariciara as feições de Julius com admiração e cuidado.

- Você também, meu amor. – Julius alcançara-o, beijando seus lábios com urgência, enquanto enroscava seus dedos nos fios brancos e lisos do outro. Ele sentara-se, posicionando Elôrem em seu colo, enquanto beijava seu pescoço. O mais novo sorrira travesso, puxando o zíper do uniforme de Julius até embaixo, expondo sua extensão. Elôrem se ajeitara em seu colo, sentindo o outro adentrar-lhe profundamente. Julius o beijava onde conseguia alcançar, lambendo seus lábios de forma sedutora e apaixonada, enquanto sentia seu parceiro mover-se sobre si. As energias entrelaçando-se em completa comunhão. Seus corações entrando em compasso conjunto. Ele não só sabia que Elôrem era parte de si, como sentia isso na carne e na alma. Estar com ele dessa maneira tão íntima, o levava à uma dimensão que não saberia descrever, era como parar o tempo, como se estivesse inserido no vácuo da existência. Ele pousara seu rosto no peitoral do mais jovem, sentindo que o ápice o alcançaria, fechara os olhos, enlaçando seus braços pela cintura menor. Elôrem logo soubera, acariciara seu rosto junto a si, tirando os fios de cabelos dourados grudados pelo suor em sua testa. Ambos chegaram lá juntos, assim como na primeira vez, porém mais rapidamente, talvez a saudade e a urgência os dominassem naquele momento. Sentiam em silêncio, a energia eletrizante que perpassava todo o corpo, reverberando em suas almas. Um ato sagrado, que ia muito além que simples prazer.

Permaneceram quietos, tentando controlar suas respirações e acalmar seus corações, sem romper a conexão física. Ele beijara os cabelos dourados, notando os braços fortes ao redor de sua cintura, o abraçando firmemente.

- O que você sente? – Julius lhe indagara.

- Completude, paz... nós dois assim, é a sensação mais familiar e nostálgica que já senti. É como se voltasse a ser o que sempre foi. – O loiro sorrira, notando que sentia-se exatamente da mesma forma. – Queria ficar assim pra sempre.

- Aí voltaríamos à unidade, sem separação. – Elôrem o mirara dentro de seus olhos.

- As vezes é o que realmente sinto falta. – Respondera seriamente e Julius sentira o peso daquela resposta. – Como você acha que serei visto quando souberem que posso gerar uma vida? Aliás, que estou gerando uma? Julius, por mais quinta dimensão que esta raça esteja caminhando, há muitos aqui que julgam e apedrejam. Eu não sou assim. Minha natureza não é essa. – O mais velho respirara fundo, beijando a testa de Elôrem. Ele compreendia toda sua dor e queria protegê-lo como fosse.

- Você não está sozinho. Eu estou aqui. – Ele respirara fundo. – Eu bem notei que você está diferente, logo quando te vi no treinamento com as crianças.

- É mesmo? – O mais jovem quis saber.

- Sim, só não soube dizer o que era. – Elôrem se levantara do outro, deitando-se em meio às almofadas.

- Aqui... – Ele pusera as mãos do outro em seu tórax. – Minha gravidez é diferente. O bebê está se formando mais acima. – Julius ao observar com atenção, notara o inchaço discreto. Ele acariciara a região do peito e sentira uma leve vibração. Elôrem rira.

- Você sentiu, não é?

- Sim. Provavelmente o bebê está reagindo à sua energia. Eu tenho trabalhado normalmente, mas não sinto quase nada.

- Não sente nada?

- Falta de ar às vezes... Embora esteja se tornando mais frequente.

- Talvez devesse descansar mais. Gerar um bebê em seu corpo, não me parece uma tarefa muito simples...

- Eu vou ficar bem. Desde que ele não chute muito minhas costelas! – Julius sorrira, mas não conseguia pensar que aquilo tudo fosse agradável de sentir.



Naquela tarde, Ranael retornara de Tay. Junto com Shayen, dividiam a mesma morada, Elôrem por sua vez, possuía sua própria casa, no mesmo conjunto de moradias que seu tutor.

- Sabe onde Julius iria ficar? Ele não tem morada por aqui. – Indagara Ranael. Shayen o olhara com um sorriso óbvio.

- Aonde você acha? Agora que esses dois se encontraram, não vão se desgrudar mais. – Ranael gargalhara, enquanto adentrava a morada com sua bagagem em mãos. – E nem pense em ir até lá por agora!

- E porque não? Preciso saber se meu protegido chegou bem.

- Ah, ele está bem, disso não tenho dúvidas! – Ranael gargalhara uma vez mais compreendendo as entrelinhas.


A casa estava silenciosa, a noite havia chegado e o céu parecia mais belo visto de Mirtop A7. Julius admirava o rosto belo e tranquilo, enquanto descansava em completa paz. Elôrem era o ser mais belo aos seus olhos. Não existia ninguém como ele em todo o universo. Talvez porque o amasse tanto, ao ponto de parecer não caber no peito? Pode ser... Ele tocara o rosto de seu companheiro com carinho; estava descoberto e ele logo tratou de puxar os lençóis em seu corpo. Mas um detalhe lhe chamara a atenção, uma luz suave e dourada emergira do abdômen de Elôrem, flutuando até a altura do rosto do mais velho, que estava sentado observando-a. Ele sorrira.

- Olá, amiguinho! – Ele cumprimentara num sussurro. A luz se aproximara ainda mais, encostando em sua testa. Julius fechara os olhos e chamara sua própria energia primordial, que acendera, rodeando seu corpo num dourado exuberante.

“Olá, meu irmão!”

Uma voz soara em sua mente, agênero, aveludada e suave.

“Sou parte de vocês, e em breve, estarei pela primeira vez em um corpo físico. Obrigado pela oportunidade de experimentar essa experiência rica e única.”

As palavras vinham rapidamente, e de início não pareciam palavras, mas a mente treinada, conseguia decodificar com sucesso, toda a informação. Julius abrira os olhos rapidamente, mas só vira Elôrem dormindo profundamente. A energia já havia desaparecido.

Notas finais
❤️