Primordiais
12 Dificuldades
- Ele falou com você, mas não falou comigo?! Sendo que sou eu que estou gestando ele! – Julius gargalhara com muita sinceridade. Ele havia contado ao parceiro a experiência que tivera com a pequena energia dourada.
- Não precisa ficar com ciúme, meu bem! – Ele abraçara o corpo menor que o seu por suas costas, descansando o queixo em seu ombro.
- Não estou com ciúmes! É só o óbvio!
- Sei, sei... – Respondera ainda sorrindo.
Naquela semana, Elôrem tivera ajuda de Julius, que ensinara às crianças muita coisa referente à luta e defesa. Todos por ali o adoravam e admiravam a força e capacidade de ensinar.
- Eles amam você! – Elôrem lhe dissera por alto, enquanto observavam as crianças tomarem suco sentados na grama.
- Mas amam mais você. – O mais novo fizera uma careta de desaprovação enquanto lhe sorria divertido.
- Preciso voltar hoje. Tenho alguns compromissos em Tay. – Elôrem sentira uma pontada de tristeza, mas compreendia. – Espero que entenda.
- Tudo bem. É sua vida, afinal. Eu escolhi voltar para minha casa. E naturalmente você também tem a sua. – Julius sentia os sentimentos de Elôrem, e embora sua boca dissesse uma coisa, seu coração dizia outra. Ele se voltara para a frente do mais novo, baixando nos joelhos, encostando a fronte em seu abdômen, beijando-o em seguida.
- Agora minha vida é com vocês. Mas aos poucos iremos nos ajeitar. – Ele dissera. O mais jovem acariciara os cabelos dourados com carinho.
- Não mude sua vida por nós. – Ele respondera com gentileza. Julius entendia, mas não rebatera. Ainda não era hora.
Naquela tarde, ele partira. Havia sido convocado na base para uma missão. Elôrem não se lamentava por isso, tinha seus afazeres, sua vida, assim como seu parceiro, não queria que ele mudasse sua rotina e nem nada assim por sua causa.
- Onde está Julius? – O instrutor viera lhe falar, era fim do dia e Elôrem havia acabado de dispensar seus alunos do período da tarde.
- Ele foi convocado na base em Tay.
- Então te pedirei um favor, Elôrem. Uma de nossas luas está oscilando em vibração. Precisamos de mais homens para ir até lá ver o que há de errado.
- Oscilando?
- Sim, não sabemos o que está acontecendo. – Elôrem ponderara. Havia um tempo que não realizava missões. Sua vida se resumia em ensinar crianças. Então pensara no bebê. Respirara fundo imaginando que poderia não ser nada demais uma pequena missão de averiguação a uma das luas de Mirtop, já enfrentara coisas realmente perigosas e dera conta.
- Tudo bem, eu irei.
- Obrigado! Sairemos logo mais. Tudo bem pra você?
- Sim, sem problemas. – Ele se prontificara em deixar um recado a Shayen através de seus colegas que trabalhavam por lá também. Não demorara muito e logo uma nave saíra da base de treino juvenil, com uma pequena equipe de cinco homens, contando com Elôrem e o instrutor que o apresentara aos demais da equipe. Eram de estatura um pouco menor que Julius, cabelos lisos e loiros amarelados, como a maioria. Os três o miraram com certa dúvida. Elôrem era naturalmente peculiar. Seus cabelos brancos se destacavam, embora seu corpo fosse masculino, ele era notavelmente mais delicado e esguio, com uma beleza etérea, andrógina e distinta. Ele chamava atenção, e sentia-se desconfortável com os olhares.
- Então você é o famoso Elôrem?!
- Famoso? – Ele indagara.
- Ah, sou Samun. Meu filho faz treinamento contigo. Fala o tempo todo em você! Carel, o nome dele. – Elôrem sabia de quem se tratava.
- Ah, Carel é um ótimo aluno!
- Obrigado!
Eles desembarcaram em uma das três luas de Mirtop em poucos minutos. Havia alguns vulcões ativos na superfície, e um estranho tremor na terra que persistia. O tom avermelhado predominava por ali. Elôrem observara tudo ao redor. E sentira falta de Julius.
- Alguém faz mapeamento por aqui?
- Eu faço. – O instrutor fizera como Julius costumava fazer, tendo uma luz esverdeada varrendo a superfície. – Há uma pequena vibração alguns metros daqui.
- Vamos até lá. – Elôrem avançara, mas seu braço fora fortemente segurado por um dos membros da equipe.
- Não sabemos o que vamos encontrar.
- Não viemos aqui para isso? – Ele o soltara, mirando-o seriamente e o mais novo devolvera o olhar. Elôrem liderou o grupo. Atravessaram um pequeno monte, passando por um desfiladeiro. Mas o que o rapaz vira lá embaixo gelara sua espinha. Havia Qikruns ali, um grupo grande de uns cinquenta membros. Eles drenavam energia de um dos vulcões ativos, por meio de aparatos tecnológicos. Fora instantâneo. Elôrem puxara três flechas apontando para cima, que imediatamente cobrira o grupo de um ataque direto.
- São Qikruns! Eu avisei a você, seu idiota! Olha no que meteu a gente! – O mesmo que o segurara, agora o xingava sem parar.
- Mantenham a calma! – O instrutor dissera.
- Calma? Olha no que esse pirralho enfiou a gente! – Ele dera um forte empurrão em Elôrem, fazendo o mesmo cambalear para trás e cair sentado. Elôrem notara diferenças sutis em seu corpo desde a concepção, seus movimentos eram mais lentos. Ninguém sabia que esperava uma criança, e preferia deixar assim. Porém não poderia apanhar se quisesse mantê-la segura dentro de si. Ele levantara-se rapidamente, e num ímpeto agarrara o colega pela gola alta do uniforme azul.
- Eu exijo respeito! Não te dei o direito de tocar em mim e é a segunda vez que você o faz. Se quiser continuar intacto, sugiro que maneire seu gênio. O único pirralho medroso que estou vendo aqui é você! – Ele o soltara com força, fazendo o mesmo cair de bunda no chão. Todos se mantiveram em silêncio. Do lado de fora, o escudo estava sendo atacado. E uma grande rachadura tilintara perigosamente em sua superfície.
- Elôrem! – O instrutor gritara. O rapaz não vira outra saída, ele fechara os olhos e chamara por sua energia primordial. Seus olhos ficaram brilhantes, emitindo uma forte luz branca azulada. O escudo se partira e ele flutuara para fora dele. Puxara uma flecha colossal que conjurara um enorme escudo mais forte, que protegera toda a equipe. Com o esforço, sentira um solavanco interno nas costelas, logo soubera do que se tratava. Todos os Qikruns reuniram seu ataque, direcionando para Elôrem, que rapidamente se escudara e revidara instantaneamente o ataque com um único gesto de mãos. Uma grande explosão os mandaram aos céus. Ele mirara os aparatos e direcionara um ataque em um ponto vital dos encanamentos, que se partira, estagnando o processo no mesmo instante. O tremor de terra notado de início, cessara imediatamente. Elôrem descera e voltara ao seu estado normal, desfazendo o escudo da equipe. A falta de ar e o cansaço eram evidentes.
- Instrutor, pode repetir o mapeamento, por favor? – Pedira, apoiando os braços aos joelhos. O instrutor fizera o que foi pedido, dando um forte impulso ao chão, mapeando o terreno. Os três membros restantes da equipe, incluindo o que o afrontara, estavam claramente boquiabertos com Elôrem, ninguém ali se quer sabia quem ele era realmente, e ver seu poder os deixaram ainda mais abismados.
- Ainda sinto uma sutil vibração. – Fora tudo muito rápido. Elôrem jamais conseguiria agir por si mesmo naquele momento. Um enorme ataque de energia viera em suas direções, tudo escurecera e ele perdera os sentidos, notando uma energia dourada que não era sua, tomar o controle.
Um segundo escudo cor de ouro os rodeara, protegendo mais uma vez os membros da equipe. Uma gigantesca energia dourada irradiava de Elôrem, incluindo seus olhos, que brilhavam fortemente. Ele vira a silhueta de uma phisiana ao seu lado, ou fora o que pensara ter visto, ao mesmo tempo que ela parecia estar acoplada em si mesmo. Lançando ataques usando seu próprio corpo. Havia mais uma centena de Qikruns, que foram eliminados sem dó diante de todos ali. O poder era avassalador e inimaginável para a equipe, e terminara tão rapidamente como começara. Elôrem pousara mais uma vez, desequilibrando-se, caindo ajoelhado ao chão. Ele fora amparado por Samun. O instrutor mapeara uma vez mais e nada mais fora sentido desta vez.
- Instrutor, veja. – Samun o chamara. Elôrem estava desacordado, mas seu abdômen brilhava fortemente a luz dourada que o dominara mais cedo. Girava como uma centelha de luz ao redor. – Ele está gestando uma vida? Aparentemente essa energia não é dele. – Todos miraram Samun ao dizer isso.
- O quê? Ele não é um phisiano masculino?
- Elôrem é uma quimera, de uma energia primordial extremamente antiga. – O instrutor explicara. – Por isso seu poder avassalador. Ele carrega em si o núcleo, é de polaridade feminina, mas escolheu um corpo masculino para experenciar a vida física. É observado e estudado por nós desde que acoplara neste corpo. Eu fazia parte da equipe que o cuidava no laboratório, junto com seu tutor, Shayen.
- Então ele é uma aberração?
- Cale a boca, Ror! – Samun gritara. – O que você tem contra Elôrem? Uma queda? Atração? – Ror corara instantaneamente. – Pensa que não vi como olha pra ele?
- Cale a boca!
- Ei! Parem! Os dois! – O instrutor puxara seu aparelho de comunicação e alertara Shayen. Samun apanhara Elôrem em seu colo e todos retornaram para a nave, rumo a Mirtop.
**
Elôrem escutara vozes discutindo em algum lugar. Abrira seus olhos lentamente, puxando o ar com dificuldade. Estava em uma das salas de recuperação, deitado em uma maca.
- Ele não podia fazer esforço! Se alguma coisa acontecer a Elôrem ou ao meu filho, eu vou destruir esse lugar! Estão me entendendo? – Elôrem sentara-se rapidamente, Julius discutia com os quatro membros da equipe, sendo impedido de avançar contra eles por Ranael. Todos ouviram tudo e permaneceram calados.
- Ele perdeu um pouco do juízo quando soube. – Elôrem tomara um susto ao escutar a voz de Shayen ao seu lado.
- Mas ninguém sabia que eu estou com um bebê aqui... – Ele levara as mãos ao abdômen, e de olhos assustados mirara Shayen.
- Não se preocupe, seu bebê está bem. – Ele relaxara, encostando-se de volta ao espaldar da maca, na sala branca do laboratório em que passara maior parte de sua pouca infância.
- Você acordou! – Julius adentrara a sala, estava ofegante.
- Porque todo esse escândalo?
- Eu é que te pergunto, porque aceitou a missão? Não entende a condição em que está?
- Eu não estou doente, até onde sei!
- Mas não pode fazer esforço!
- Não tinha mais ninguém forte o bastante pra realizar a missão! – Julius se calara. Realmente, em termos de força, energias primordiais eram barris infinitos de poder e energia. – E nem sabíamos que havia Qikruns por lá! Estavam destruindo uma das luas de Mirtop, queria que eu só ficasse olhando? Eu não sou assim! – Julius sentara-se à maca ao seu lado, respirando fundo, ele puxara Elôrem para si o abraçando fortemente.
- Se eu perdesse você ou ao bebê, ficaria louco. Você entende que sua vida não é mais só sua? É sobre mim e sobre nosso filho também! – Shayen resolvera deixar os dois conversarem, e saiu discretamente. Mas notara Ror observando o casal atentamente através do vidro. Não sabia explicar, mas não gostara daquele olhar.
- Porque Ror não para de olhar para nós? – Elôrem também notara e comentara por alto. Julius o mirara.
- Ah... Se ele fizer qualquer gracinha, me avise.
- Eu sei me defender sozinho. – Neste instante ele se lembrara de algo. – Por falar nisso, foi ela que me ajudou.
- Ela? Ela quem?
- A bebê.
- É uma menina?
- Aparentemente. Havia uma phisiana ao meu lado, quando sofri o segundo ataque. Não foi minha energia primordial que me defendeu. Era uma energia dourada, como a sua. – Julius arqueara as sobrancelhas.
- Ela te salvou?
- Sim... – Elôrem acariciara o abdômen com muito carinho e Julius beijara-o bem ali.
- Seu pai vai te defender até que não me restem mais forças. Está ouvindo? – Elôrem lhe dera um beliscão de leve.
- Pare de falar essas coisas! Como se ela precisasse ser defendida também, não é? – Julius gargalhara. Estava se sentindo mais aliviado agora.
Ao anoitecer Elôrem recebera alta. Julius, Shayen e Ranael o acompanhara. O mesmo entrara em sua casa acompanhado por Julius; Ranael e Shayen foram para suas respectivas moradias que ficava no mesmo pavilhão.
A noite calma e tranquila, no céu as três luas brilhavam.
- Como um bando de Qikruns estava em uma das luas e não conseguiram identificar? Mandei um alerta na central, mais combatentes vão averiguar as outras duas luas, e ver o estrago na terceira. Energia produzida por vulcões são sustentáveis, mas os Qikruns precisam destruir onde tocam! – Julius dizia em revolta, enquanto ambos permaneciam deitados entre as almofadas, observando as luas pela grande janela. – Você foi muito forte hoje, mesmo carregando um bebê! Tem um espírito guerreiro. Além do mais, liderou muito bem a equipe. Aliás, levou nas costas pois todos ali são uns inúteis!
- Julius!
- Inúteis mesmo! Só você lutou! Acha isso justo?
- Não acho, mas se não fossem ajudar, melhor do que atrapalharem!
- Você podia ter perdido o bebê! Essas vidas são frágeis, não é igual um corpo em criogenia.
- Eu sei, mas está tudo bem. – Ele dissera, acariciando o belo rosto de seu companheiro. Os olhos verdes pareciam mais brilhantes sob a luz do luar.
- Eu amo você. É a minha vida. O meu tudo. Não faça mais essas loucuras. Promete? – Ele beijara os lábios de Julius, lambendo sua boca com desejo e paixão enquanto ele falava.
- Eu não vou prometer algo que não posso cumprir.
- Como é??? – Ele girara o corpo, se posicionando sobre Elôrem, segurando suas mãos no alto de sua cabeça. – Prometa.
- Não..! – Elôrem dizia, com um leve sorriso. Julius beijara seu pescoço, mordendo sua orelha de leve.
- Prometa.
- Não? – O mais velho sorrira, abrindo os botões de sua camisa leve, usada para dormir. Ele podia notar uma leve saliência em seu tórax. Observara em silêncio, e Elôrem notara seu olhar atento e cuidadoso. Abaixara-se beijando a região, enquanto abria seu próprio pijama com uma das mãos e com a outra ainda o segurava sem aplicar força.
- Prometa. – Elôrem gargalhara de seu tom incisivo e sua mescla risonha.
- Eu não vou prometer nada, Julius! Faça o que for, não vou prometer isso!
- Ah, é? Posso fazer o que eu quiser? – O mais jovem se divertia enquanto notava sua própria respiração ofegar e seu corpo inteiro reagir e se preparar para o outro.
- É claro que pode... – Julius terminara de despi-lo, ajeitara suas pernas, se posicionando entre elas. Elôrem o sentira adentrar em si vagarosamente. Ele fechara os olhos no processo, movendo seus próprios quadris involuntariamente. O mais velho sorrira de canto. Ele continuava a segurá-lo, até notá-lo enroscar as próprias pernas em sua cintura, intensificando o processo. Ele o soltara os pulsos finalmente, e pode sentir as mãos menores se enroscando em seus fios ondulados. As mãos maiores seguraram com firmeza a cintura fina do menor. Observara Elôrem e podia se apaixonar novamente, e mais uma vez, e uma vez mais. Os olhos fechados, os cílios claros refletindo a luz do luar, os cabelos branquíssimos e a pele alva de bochechas rosadas. O nariz bem desenhado, o queixo delicado, os lábios vermelhos e entre abertos ofegantes; o cheiro de frutas. Ele estava apaixonado e continuaria assim por quantas vezes cruzasse seu caminho.
***
Elôrem acordara cedo, sentindo mãos grandes acariciarem seus cabelos por trás. Eles haviam adormecido quase que instantaneamente noite passada.
- Você não tem que ir à base? – Indagara, virando-se de frente ao mais velho.
- Hoje não... Quero cuidar de você... – Respondera com a voz sonolenta. Elôrem sorrira, beijando seus cabelos com carinho.
- Começou a cuidar de mim desde ontem a noite... – Julius gargalhara.
- Cuidei bem?
- Tão bem que estou pronto pra outra rodada... – O mais velho se surpreendera com a resposta.
- É sério?
- Você não? – Julius gargalhara uma vez mais.
- Acho que estou ficando velho! Você é muito mais novo fisicamente do que eu!
- Isso não é desculpa! – Ele dissera, montando em Julius, acariciando seu peitoral, espalmando seu corpo. O loiro sorrira.
- Você não acha que pode prejudicar seu corpo?
- Não... – Julius se levantara, apanhando Elôrem em seu colo. – Ei!
- Vamos tomar banho, rapazinho! Outra hora fazemos de novo, ok?
- Você não tem resistência, Julius! – O mesmo rira alto com isso. Só ele pra conseguir fazê-lo repensar sua autonomia física.
***
Elôrem comparecera a base de treino juvenil no dia seguinte. O treinador estava lá e a equipe que o acompanhara naquele dia.
- Ele te empurrou, e você está esperando um bebê. Isso é bem sério. – Samun comentara por alto sobre Ror, quando Elôrem havia parado um pouco para comer e as crianças recrearem.
- Tudo bem, já foi. Eu estou bem e o bebê também.
- Porque escondeu de nós? – Indagara o colega. Elôrem dera de ombros.
- Não foi de propósito. Eu não sabia que estava gerando uma criança. Eu me mudei de Tay após o treinamento, e tudo mudou rapidamente. Não tive tempo pra pensar nisso.
- Entendo... está de quantos meses?
- Seis.
- E porque não consigo ver nada? – Elôrem rira do tom incrédulo. Havia terminado seu suco.
- Minha anatomia é diferente. É uma gravidez silenciosa e torácica. – Dissera, pousando as mãos em seu tórax.
- Deve ser cansativo...
- Só um pouquinho... Eu perco o ar às vezes. Mas nada demais...
- Mas isso é bem estranho, não acha? – Ror dissera, cortando o diálogo dos dois, se aproximando, após ter ouvido parte da conversa. – Um phisiano não engravida. Você tem o quê? Um pênis e uma vagina? Vocês fazem sexo então!
- Cala a boca, Ror! – Samun o repreendera.
- E? No que isto diz respeito a você? – Elôrem respondera em tom pretensioso. Sabia ser altivo quando queria.
- A mim, nada! Mas o pessoal daqui devia rever se um ser nojento como você deve mesmo continuar lecionando crianças! Você sabe bem o porquê de terem podado a reprodução sexual desta raça? – Elôrem não soubera o que responder. – Pois é, procure saber e depois pense bem. Uma abominação como você, deveria procurar outro lugar para viver.
- Engraçado, sou nojento e abominável, mas fui eu quem salvou sua vida. E o que recebo em troca? Xingamentos, agressão física e ataques.
- Eu não pedi para você me salvar. – Elôrem meneara em positivo.
- Tem razão. Vou me lembrar disso. – Dissera, virando-se para ir embora.
- Não dê as costas pra mim! – Irritara-se Ror, puxando-o pelo ombro violentamente.
- Não encoste nele! – Ror não esperava, mas fora surpreendido por Julius, que agarrara seu braço para trás, forçando-o a fim de quebrá-lo. Ror gritara de dor. Julius era bem maior e mais forte que ele. – Agora você grita, não é? – Indagara o maior ao pé de seu ouvido.
- Me solta, seu louco! – Ror ordenara, tendo o instrutor e os demais membros tentando conter Julius.
- Eu sou louco e você um covarde! Como se atreve a tocar em Elôrem? – Elôrem chamara sua energia primordial, fora até seu parceiro, puxando-o para trás, fazendo-o soltar Ror com muita facilidade. – Me solta, Elôrem!
- Não! – A voz soara duplicada e autoritária. Julius em estado normal, não tinha forças contra o estado expansivo, e também não reagiria mesmo se tivesse, então simplesmente acalmara-se. Ror os olhara feio e se afastara dos dois imediatamente.
- Quem ele pensa que é? – Julius indagara. – E porque vocês não ajudaram?
- Não sabíamos o que fazer! – Samun justificara.
- Conter alguém prestes a atacar um outro? – Samun baixara a cabeça.
- Sentimos muito, general.
- Vocês não tem que pedir desculpas, está tudo bem. – Elôrem voltara ao seu estado normal, puxando Julius dali. – Você precisa se acalmar!
- Esse cara está testando sua paciência e a minha também! Porque permitem uma alma dessa por aqui?
- Eu também me pergunto isso, mas o que podemos fazer? Nada! Vou enfrentar até onde der! E ponto! – Julius respirara fundo. Novamente presenciava Elôrem sofrendo algum tipo de preconceito. Jamais iria entender o que as pessoas sentiam em sua presença que os deixavam tão desconfortáveis. Elôrem era maravilhoso ao seu ver, porque os outros não viam e sentiam o mesmo?
A noite estava calma. Elôrem mirava as estrelas sentado na grama em frente a sua moradia. Julius lhe trouxera suco de frutas, sentando-se ao seu lado.
- Sempre tem um pra me desaprovar... eu estou cansado disso. – Julius sentira uma pontada em seu coração ao ouvi-lo.
- Em todo lugar há alguém assim. O fato é que não vou permitir ninguém te ferindo ou agredindo de nenhuma forma. – Elôrem lhe sorrira.
- Obrigado. Mas você precisa voltar. Tem sua vida.
- Eu estou ajeitando isso. Logo vou poder ficar em definitivo. Eu prometo.
- Não quero que mude sua vida por mim. Quero que seja livre.
- Eu sou livre. – Ele lhe dera um selinho. – Quando for a aula amanhã irei com você.
- Tudo bem...
- Não fique pra baixo assim, você tem seus alunos, eles são o mais importante. Não dê ouvidos a um idiota qualquer. Vai se deparar com eles aonde for, o segredo é não dar o poder de controlar seu estado de espírito. – Elôrem respirara fundo, terminando o suco rapidamente, deitando a cabeça no colo de Julius. Ao mira-lo de baixo, esticara as mãos acariciando o belo rosto de seu parceiro.
- Eu amo você. – Julius sorrira.
- Eu também te amo, meu amor.
- Fico pensando como vai ser quando tivermos um bebê entre nós! Já imaginou? – Julius sorrira. Elôrem ficava visivelmente mais leve quando falava da criança que esperavam.
- Eu penso nisso todos os dias.
- É mesmo?
- É claro que sim! – Respondera, apertando seu nariz.
- Ai!
- Quero vê-la correndo por aí... Se divertindo... Quero ouvir sua risada e ela me chamando de “pai”. Deve ser incrível! – Ele dissera, mirando os campos no horizonte. Elôrem se encantara com isso. Era confortável estar ao lado de Julius, sua energia era lar, aconchego, naturalidade.
- Também quero! Quer dizer, ela pode me chamar de “mãe” se quiser... – Julius gargalhara, sempre uma pérola. – Sabe... as pessoas me acham um pouco infantil, me chamam de pirralho. Será mesmo que estou pronto pra ter uma criança? – O mais velho o mirara com carinho.
- Você tem o principal, amor, cuidado e alegria. Não precisa de mais nada além disso. Não há o que temer. Além do mais, eu estou aqui com você. E sempre vou estar. – Elôrem lhe sorrira, sentando-se ao gramado, beijando os lábios de seu companheiro com doçura e carinho.
- Obrigado.
***
Elôrem chegara cedo e começara a preparar as coisas para sua aula. As aulas eram ministradas em um grande galpão prateado, ou quando eram mais práticas, no gramado ao lado de fora. Julius chegaria mais tarde. Logo seus alunos começaram a adentrar o galpão, mas estranhamente quietos.
- Professor... – Um dos garotos viera até si.
- Olá, o que aconteceu que estão tão desanimados hoje?
- É verdade que você leva um bebê na sua barriga? – Elôrem gelara. Não pretendia deixar que seus alunos descobrissem. Mas pelo visto, Ror e os outros espalharam a notícia.
- Porque está me perguntando isso?
- Meu pai disse que não pode. – Um aluno falou.
- O meu também! Disse que é contra as regras.
- Que regras? – Elôrem indagara.
- As regras da nossa raça. – Um deles respondera.
- Gerar uma vida é algo sagrado e bonito. É feito quando duas pessoas se amam de verdade. – Ele explicara.
- Mas não pode! E você não é um phisiano masculino? Phisianos não engravidam! – O mesmo que questionara, afirmara novamente. Elôrem respirara fundo, reconhecendo o aproximar da tempestade.
- Eu não sou bem masculino, completamente...
- Ele é uma quimera, possui os dois órgãos! – Uma garota explicou ao colega.
- Que órgãos? – Um terceiro perguntou, e a garota suspirou, olhando para Elôrem.
- Chega pessoal. Isso não vem ao caso, ok? É um assunto meu e estou aqui somente para ensinar vocês a serem combatentes.
- Mas nossos pais não querem mais isso.
- Não querem o quê?
- Que tenhamos aulas com você.
- Você é uma aberração! – Outros alunos começaram a concordar entre si, e Elôrem sentira as lágrimas ameaçarem se formar. Ele respirara fundo pela terceira vez, fechando os olhos, tentando se acalmar. Ele sentira mãos quentes apertarem as suas, quando abrira os olhos, a mesma menina que explicara ao colega, lhe olhava com olhos de pesar.
- Está tudo bem. Se explicar aos pais, vão compreender. – Elôrem sorrira a ela, esparramando seus cabelos com carinho.
- Obrigado, minha querida.
Naquele dia Elôrem não pudera dar suas aulas, os tutores de cada criança, vieram ao local, pedir para que Elôrem se retirasse da função. O instrutor da academia não soubera bem o que fazer.
- Vocês são hipócritas! – Julius discutia na reunião com os pais por ali. – O que há de errado se Elôrem é diferente? Estão com inveja porque ele pode gerar vida e vocês não? Porque não reivindicam isso com os geneticistas que projetaram seus corpos atuais? Nós não temos culpa se somos diferentes!
- Vocês são uma aberração! A sexualidade foi proibida em nossa raça pelo prazer desestruturar a mente de todos! Vocês sabem bem disso! O prazer do sexo tira todos de seus devidos juízos! Entorpecem os sentidos e os deixam fora da razão! – Uma mulher, tutora de uma das crianças, dizia.
- Também não temos culpa se vocês são fracos ao ponto de se deixar levar pelo prazer e perderem a cabeça! – Rebatera Julius.
- Seu brutamontes! – Ela ameaçara estapear seu rosto, mas fora parada por Elôrem, que segurara seu pulso.
- Não encoste nele. – Ele dissera seriamente.
- Me solte!
- A senhora desrespeita as pessoas e ainda se acha no direito de agredi-las? – Elôrem indagara.
- Você não merece meu respeito! – O rapaz não esperara, a mulher tinha sua altura e lhe dera uma forte joelhada certeira em seu ventre. Todos na sala perderam o ar. Julius chamara sua energia primordial, avançando nela imediatamente, seus colegas tentaram contê-lo junto com os demais pais presentes na sala. Elôrem caíra de costas até sentir um líquido quente descer por entre suas pernas.
- Julius! Pare! – Ele gritara, e seu parceiro que quase perdera a consciência, parou ao escutá-lo. Mirando-o ao chão, fora até ele. Elôrem sangrava.
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