Primordiais
2 O Arqueiro Fantasma
Treze Anos Depois
Ele havia sido selecionado. Dentre vários rapazes com poder de ataque, ele fora o único com potencial de produzir escudos. Seus longos cabelos brancos dançavam ao vento naquela noite estrelada. Todos ali o olhavam incertos. Muitos se perguntando quem ele era. Um mistério à parte. Uma vez que fora trazido de longe, criado por seu pai até ali, com seus vinte e um anos completos. O ritual de admissão ao treinamento era feito nesta idade, para todos aqueles que desejassem fazer parte da equipe de proteção, genética, combate, dentre outros.
- Qual seu nome? Uma garota de sua idade lhe perguntara. Elôrem a mirara, cabelos longos, ondulados e loiros. No instante que seus olhos se cruzaram, a menina pode sentir um mesclar estranho na boca do estômago. Era medo, liberdade, ascensão. Um misto inusitado e inegavelmente curioso.
- Sou Elôrem! – Ele dissera, sorridente e alegre. Ela pode ver nele uma beleza que jamais havia visto dentre os seres de sua espécie. Ele tinha uma energia pra cima, expansiva e atraente.
- Sou Larén. De onde você veio?
- Vim de Mirtop, planeta A7. Com meu pai. – Elôrem respondera. Todos ali viviam na constelação de Phision, que possuía sete estrelas com planetas habitáveis ao redor. Mirtop era a estrela que regia A7, um planeta naturalista e pouco tecnológico.
- Uau! Por isso você é tão diferente?
- Diferente? – Ele quis saber. Sim, ele era diferente e sabia bem disso.
- Sim, seus cabelos, sua energia.
- Ah..! Em Mirtop A7 todos são iguais a vocês por aqui. Eu sou diferente porque... sou. – Respondera dando de ombros. Fazendo todos rirem de seu jeito infantil e espontâneo.
Elôrem havia crescido, mas sua mente se desenvolvera de uma forma inesperada. Ele havia sido criado praticamente nos laboratórios de Mirtop A7, juntamente com uma grande equipe que o estudara. Shayen era seu guardião e guia, a quem ele chamava de “pai” quando questionado. Sua essência primordial, antiga e sábia, havia se posto em segundo plano, para que a mente do menino Elôrem, pudesse se desenvolver como uma personalidade própria, de um garoto phisiano comum. E isso ajudou a equipe a entender como o espírito e a consciência se separavam ou se organizavam no processo encarnatório e físico. Tudo era uma novidade a ser catalogada e estudada quando se tratava de Elôrem e seu gêmeo. Os que sabiam da energia primordial que os habitavam, os reverenciavam por permitir o estudo e a obtenção de respostas sobre o desenvolvimento e criação da vida, do cosmos e do todo.
Todos os jovens se puseram em fila. Estavam em um belo cenário noturno. Onde montanhas verdes cortavam vales, e a luz das duas luas se projetavam do céu.
- Bom, vou chamar seus nomes, quero que mostrem o que sabem fazer. – Uma mulher dissera, segurava uma prancheta luminosa em suas mãos. Ela chamara os nomes, todos com a mesma idade, entre moças e rapazes, foram vindo à frente. Em peso, todos eles conseguiam produzir uma forte luz incandescente de cores que variavam em tons de branco, esverdeado, amarelo, lilás e rosa. Eram usadas para o ataque e cura. O último a ser chamado porém, fora Elôrem. Ele dera um passo à frente, e todos o olhavam com curiosidade. Ele sentia o peso de cada olhar. Elôrem tirara da bolsa que carregava, um arco de madeira, e algumas flechas. Ele respirara fundo, posicionando a flecha no arco e curiosamente uma luz azulada se formara de seu peito, se estendendo até a ponta de sua flecha. Ele a lançara e um grande escudo fora produzido no céu, desaparecendo em seguida. A mulher que avaliava, erguera uma sobrancelha. Ela nada sabia sobre Elôrem, seu passado ou a real alma que habitava aquele corpo andrógino.
- Você é um Arqueiro Espiritual. Interessante... – Ela dissera anotando na prancheta luminosa. – Mas vai precisar treinar para produzir suas próprias flechas e seu arco. Carregar um arco físico é um verdadeiro atraso nas equipes de combate.
- Eu não quero ser combatente.
- Ah, não? E quer ser o que?
- Resgatista. Quero resgatar seres de lugares devastados. – A mulher pareceu intrigada com aquele garoto.
- Qual sua polaridade dominante?
- Feminina, senhora. – Ela pareceu ainda mais intrigada, e todos os presentes por ali também.
- Porque está em um corpo masculino?
- Porque é prático. – Ele respondera, mesmo sem saber se fora esse o motivo. E mais uma vez ela pareceu surpresa.
- Você sabe que nós, de polaridade feminina, temos a função de servir de canal para que almas possam habitar corpos biológicos nesta raça?
- Sim, senhora.
- E você abdicou desta função escolhendo se limitar num corpo masculino?
- Não, senhora. Eu ainda posso gerar vida energética. E talvez até física, tenho órgãos sexuais, algo que vocês já não possuem. – Um burburinho se iniciara entre os alunos. Todos se questionando o que ou quem era aquela figura estranha aos olhos da normalidade.
- Do que está falando? Isso é um absurdo!
- Há grandes descobertas no campo científico. Meu corpo é uma quimera, estou em equilíbrio com minhas polaridades, embora possua a predominância feminina. – Ninguém ali estava entendendo mais nada.
- Devia estar no grupo da genética, não é mesmo? Tem certeza que aqui é seu lugar?
- Eu cresci em laboratórios. Não quero mais estar neste meio. Quero resgatar almas e corpos feridos. Sou um guardião. – A certeza com que ele falava cada palavra, fazia com que todos ao redor se perguntassem o quanto aquele garoto sabia. Shayen chegara a tempo de ouvir um pouco da conversa e logo fora até a avaliadora, chamando-a para dialogar num canto. Ele explicara brevemente sobre Elôrem, e Shayen podia ver nela a mesma reação surpresa que via em todas as pessoas que sabiam do rapaz.
- Deixe ele treinar, o instrua e vamos ver como ele irá se desenvolver. – Ela respirara fundo concordando. Seria um desafio. Elôrem querendo ou não, intimidava. Era difícil estar sob o olhar de um ancião com a capa de um garoto ordinário. Mas que carregava a centelha do início, do todo e do tudo. Para ela, aquilo era inimaginável. Shayen evitava contar aos demais justamente por essas reações. Mas em uma discussão, qualquer um perderia para Elôrem, e ainda não se sabia o que ativaria nele quando estivesse sob pressão, o garoto ou a centelha primordial.
Elôrem havia se mudado com Shayen, para uma base de treino naquele planeta em questão, regido pela estrela Tay, no planeta B55, em que as potencialidades dos phisianos podiam ser exploradas e trabalhadas. Lá havia mais recursos, e portanto, mais ideal para eles, uma vez que o garoto, ao saber sobre os combatentes, manifestara o desejo de atuar como tal, porém em uma área à parte. E assim ele o fizera, todas as madrugadas, Shayen notara Elôrem sair de seu quarto sorrateiramente à floresta. Ele ganhara um uniforme azul simples, usado por aspirantes phisianos em seus treinamentos, e ele o usava sempre que saía para treinar. Elôrem evoluíra rapidamente. Logo nas primeiras semanas em seu treino solo, ele já conseguia canalizar a flecha. Fechava os olhos e se concentrava; a luz branca azulada nascia de seu peito, e num movimento de puxar, a flecha simplesmente se manifestava, luminosa e certeira. Com um mês de treino, o arco nascera da intenção, quando ele posicionava sua flecha, e ao atirá-la, grandes escudos de luz se formavam no céu. Shayen tinha orgulho dele, como um filho. Logo, ele já conseguia produzir escudos fortes o bastante para segurar ataques de curto alcance.
- Nesse ritmo vou lhe apresentar um parceiro pra sair em missão! – Shayen dissera, e Elôrem ao ouví-lo viera a seu encontro com empolgação.
- Jura?! – Shayen rira.
- Em breve.
- Shayen, o senhor também era um combatente, certo? – O rapaz indagara.
- Na verdade fui aspirante, mas vi que não era pra mim, e virei geneticista.
- Sério? E você ainda gosta do que faz? – Shayen achava graça na empolgação genuína do garoto.
- Olha, é interessante. Mas você é jovem, tem a liberdade de experimentar o que tiver vontade. Tente o que puder, aprenda. Esse é meu conselho, filho. – Elôrem sorrira a ele. Tinha só vinte e um anos e se notava desta forma quando estava correndo pela floresta. Mas no fundo, bem lá no fundo, não se sentia tão jovem assim. Ele sabia de sua origem e toda a história da alma primordial, mas não possuía lembranças e respostas que todos esperavam dele. Por algum motivo, a medida que crescera e se desenvolvera como um garoto, toda aquela gama de conhecimentos acessíveis bem diante de seus olhos, simplesmente desaparecera. Fora como mergulhar num sono profundo do esquecimento. Talvez, ele pensava, fosse sua parte sábia e anciã, lhe protegendo para lhe permitir ter uma experiência física sem o peso de incontáveis trilhões de anos em suas costas; para que pudesse viver a simplicidade de ser alguém, com defeitos, qualidades, infância, juventude, vida adulta, e tudo que uma vida encarnada pudesse lhe proporcionar.
Na semana seguinte todos os aspirantes haviam sido convocados na plataforma de treino. Era uma manhã tranquila e quieta. A treinadora, que era a mesma mulher do início, estava ali para verificar o desempenho de todos. Cada um havia evoluído o bastante para serem promovidos à formação de duplas. Elôrem como sempre, fora o último da lista. Ele mostrara o que havia conseguido fazer, seus escudos estavam ainda maiores do que a própria instrutora previra que ele alcançaria. Todos olhavam sem nada dizer.
- Você está evoluindo bem. Meus parabéns. – Ele sorrira, orgulhoso de si mesmo. Mas a mulher não parecera tão empolgada, na verdade ele notara que ela mal o olhara. O tratamento que recebia era sempre mais frio do que com os outros alunos, e ele percebia. – Formem duplas! Vamos fazer uma simulação de combate. – Elôrem sentira-se empolgado. Logo ele buscara pessoas com o olhar, do qual pudesse formar uma dupla. Mas para sua surpresa, todos desviavam os olhares de si. Então ele fora até a única que falara com ele, Larén.
- Quer formar uma dupla comigo? – Larén era pouco mais baixa que si, assim como todas as meninas dali.
- Elôrem, me desculpe mas infelizmente você é de polaridade feminina e ainda não tem força de ataque. Eu já tenho meu par. – Ela dissera com pesar. Um rapaz de sua altura se aproximara, mirando-o.
- Você precisa estar mais atento. Tem certeza que esse lugar é pra você? – O rapaz lhe dissera. Era loiro como os outros, mas seus cabelos eram curtos.
- Meu lugar é onde eu quiser estar.
- Mas você não está sendo bem aceito por aqui. As vezes é bom admitir derrota. Isso é humildade.
- Não sou um derrotado. Minha habilidade é diferente, mas não faz de mim menos forte que vocês.
- Será? – O garoto afastara Larén de si, se posicionando diante de Elôrem como quem deseja um confronto.
- O que vocês estão fazendo? – A treinadora dissera, mas antes que qualquer um pudesse intervir, o rapaz gerara uma fonte de luz arroxeada em suas mãos, lançando-a diretamente no peito de Elôrem, fazendo-o voar três metros na horizontal. Ele se aproximara rapidamente, puxando-o pela gola do uniforme, pronto para lançar uma nova onda, até seu nome ser chamado.
- Kodri! PARE! – O rapaz parara. Porém já era tarde. Os olhos de Elôrem adquiriram um brilho anormal, o azul se transformara numa fonte de luz fortíssima, e ele flutuara diante de todos ali. A treinadora suara frio. Já havia sido alertada por Shayen, mas a situação perdera o controle. Elôrem emanara uma forte onda de energia, que surgira de repente, varrendo todos dali, fazendo com que voassem ao menos dois metros e caíssem ao chão, tendo a queda amortecida pela treinadora que lançara uma segunda onda de amortecimento. Ela olhara assustada o garoto de cabelos brancos despencar ao gramado num baque surdo, perdendo a consciência.
- O que aconteceu?! – Alguém perguntara.
- Quem é esse garoto pra ter tanto poder assim? – Um segundo questionara.
- Ele sempre foi estranho! – Elôrem escutara muitas vozes se misturarem enquanto permanecia entre os estados de consciente e inconsciente.
- Se acalmem, todos! – A treinadora gritara. Voltem para o saguão da base, rápido! – Elôrem abrira os olhos, sentindo gosto de sangue em sua boca, notando um filete escapar por seus lábios.
- Você quer matar todos nós? – A treinadora dissera, olhando-o. Ela estava de pé, o encarava caído de costas para o chão.
- Sinto muito. Eu não... sei o que fiz.
- Você deveria saber controlar isso! Poderia ter causado um grande acidente aqui! – O garoto se levantara, sentando-se a grama.
- Me desculpe. Eu não o ataquei, foi ele que...
- Sem desculpas, Elôrem! Você deveria se dar conta do poder devastador que tem! Uma energia antiga como a sua, não deveria habitar a carcaça de um garoto comum assim! – Ele nada dissera. Baixara a face, escutando-a se afastar, lhe dando às costas. Elôrem notara seu peito afundar. Sentia dor física pelo ataque, mas também uma dor diferente, que não sabia nomear. Todos o olhavam da plataforma, a uma certa distância de si. Seus olhares eram um misto de medo e surpresa. Ninguém lhe perguntara se estava bem... Ele sentira algo em seus olhos, algo molhado descer por sua face. Levara as mãos a tocar suas bochechas, um líquido transparente escorria, e não parava, era como uma mini cascata. Shayen já o havia explicado que às vezes, quando algo doía, aqueles corpos manifestavam uma característica física chamada de “lágrimas”. Ele estava chorando. Elôrem se levantara com dificuldades, se apoiando nos joelhos. Ele olhara para o céu claro e esbranquiçado, respirando fundo, se curvando levemente pela dor. Então caminhara para a saída, ainda sentindo os olhares sobre si. -, É, talvez esse lugar não seja mesmo para mim, — pensara ele, sentindo a sensação dos dois tipos de dor, se misturando dentro de si.

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