Shayen não ouvira a habitual alegria ao chegar em casa, que sempre o animava ao avistar Elôrem após um treino. Na verdade o garoto ao chegar, desmaiou imediatamente ao passar pelo arco da entrada. Shayen correu até ele, vendo seu rosto molhado por lágrimas e sangue escorrendo por seus lábios. Ele apanhara o rapaz em seu colo, correndo com ele à base de tratamento, que não ficava longe dali.

- Ranael! Me ajude! – Seu amigo avistara-o com Elôrem desacordado em seus braços, sangrando. Logo o puseram numa maca e o levaram para dentro. Vendo todos ao redor observarem tudo com atenção, oferecendo ajuda também.

- O que aconteceu?

- Eu não sei. Elôrem chegou do treino e simplesmente desmaiou. – Ranael apertara o dispositivo de comunicação acoplado em seus ouvidos e lançara uma convocação à treinadora dos aspirantes. Em menos de dez minutos, ela comparecera.

- Chamou, senhor Ranael? – Tanto Shayen quanto Ranael, eram seus superiores.

- O que aconteceu com Elôrem? – Ela mirara Shayen, baixara a face e lhes contara tudo em detalhes. A medida que relatava o ocorrido, Shayen sentia uma tempestade se aproximar. Elôrem era distinto, sua estadia em Tay não seria fácil.


Mais tarde, Shayen fora visitá-lo. Mirara o rosto adormecido do garoto à maca. Sentia por ele. Havia vivido pela primeira vez, a dor da rejeição. Era uma lástima. Eram um povo pacífico e moralmente mais evoluído que a maioria, porém ainda havia os que desafiavam a moral e o amor. Essas pessoas ainda eram úteis de alguma forma.

Quando ele acordou porém, permanecera em silêncio, ao notar Shayen no quarto em que estavam, de alguma sala de recuperação na base de Tay.

- Não vai me contar o que aconteceu?

- Não preciso, você certamente já sabe.

- Olha, Elôrem, isso que você viveu, é normal.

- Normal? É normal ser tratado como um nada? O que eu fiz de errado? Tento ser bom, mas ninguém me aceita quando me envolvo no meio de mais seres como eu. – Shayen sentara-se ao seu lado.

- Filho, isso acontece. As vezes as pessoas não sabem lidar com você. Se sentem intimidadas por sua energia grandiosa e diferente.

- Eu não devia ter encarnado. Seja lá quando tomei essa maldita decisão. Devia ter permanecido como estava. Aqui não é meu lugar.

- Se não aqui, onde é seu lugar?

- No todo, como deveria ter sido. Ou em outras palavras, em lugar nenhum. – Dissera em revolta. Mas algo mudara a atmosfera sem que o mais velho pudesse prever. Ele olhara Shayen com profundidade, e seus olhos faiscaram um brilho azulado e anormal. E naquele momento ele soubera, não era mais Elôrem quem falava.

– Eu não pertenço a nada e ao mesmo tempo, estou em tudo. Eu não existo, mas também faço parte de cada célula no universo. Eu sou você, tentando pertencer. Eu sou cada um, mas também nenhum. Olhe para mim, e verá a si mesmo, não olhe e verá o todo. Espero que um dia, ele compreenda... eu habito para tentar entender... – Um sorriso fraco fora dado a Shayen, antes de Elôrem, ou a entidade que lhe tomara à voz, se desvanecesse, deixando o garoto em um sono profundo. Nas últimas palavras, Shayen sabia que era a alma primordial falando para ele do próprio Elôrem, de sua dor e o mesclar dos dois em tentar pertencer à algum lugar. Shayen não conseguia compreender. Era complexo e um completo mistério entender, como uma alma tão antiga, que vira mundos se formarem, se acabarem e renascerem, pudesse se sentir estando na pele de um jovem rapaz, tentando fazer parte de um grupo, tentando ser aceito, ao mesmo tempo em que a centelha em seu peito, possuía uma sabedoria e grandiosidade inimagináveis?


***


Ele observava o céu noturno com profunda reverência. Gostava das noites, era nela que podia ver o cosmo, o espaço. Ele usava seu uniforme azul, agora estragado pelo ataque sofrido. Shayen lhe dera um novo, mas ele não o usara. Aquela marca de fogo no tecido especial, servia para lembrá-lo de jamais abaixar a guarda novamente. Novas lágrimas desceram por sua face. Esse vazio doía nos ossos. Era uma dor sem nome. Ele deixara as lágrimas rolarem. Sentara-se ao gramado, abraçando os joelhos. O que era a vida? O que eram as experiências? Será que fizera certo em vir para este mundo? Ele chorara em silêncio, desejando se mesclar novamente ao todo que era tão conhecido e confortável. Em que não precisava ser nada nem ninguém, só ser. Isso bastava. Elôrem sentira seu peito esquentar, e quando dera por si, suas mãos brilhavam com uma luz branca azulada e em seguida, todo seu corpo. Sentira-se flutuar, seus pés literalmente não tocavam mais o chão. E então, no vão de sua mente, ele ouvira, um pensamento, um vislumbre de algo, ou de alguém, que lhe queria dizer algo importante.

“Estamos aqui agora, só vamos viver. Nada mais do que isso.”

Era a primeira vez que ele ouvira de forma consciente e dirigida especificamente para si, a outra parte que coexistia em seu ser, do qual ele sabia da existência, mas que jamais havia se manifestado para si. Elôrem sentira-se honrado e agradecido. Ele enxugara suas lágrimas e correra na imensidão do gramado, rumo à floresta. Iria treinar, era o que mais amava fazer.




Naquela semana, Shayen recebera um convite para a festa da colheita. Era uma noite especial, em que todos se reuniam para comemorar a colheita de frutas com a fartura do planeta, em honra a terra. Ele achava que seria bom para Elôrem, se distrair um pouco. Seria mais uma experiência que ele não havia vivido ainda.

- Ele estará lá. – Ranael comentara com Shayen, quando lhe dissera que levaria Elôrem.

- Quem?

- Julius. O complemento dele. – Shayen erguera uma sobrancelha.

- Você acha que já é hora desse encontro?

- Vai ser bom pra ele. A sensação de pertencer que ele mencionou, pode amenizar ao se encontrar com sua contraparte. Afinal, eles são a mesma alma. – Shayen concordara. Poderia mesmo ser algo bom para o jovem rapaz.


E lá estavam. A festa era simples mas inegavelmente bela. Havia muitos phisianos vestidos com roupas leves em algodão cru, longas e soltas. Muita música, fogo em pilastras, flores e frutas nas longas mesas em cristal. Era de fato, um agradecimento à colheita farta e recursos do planeta. Elôrem olhava tudo com empolgação genuína. Nunca havia ido a uma festa antes. Ao chegarem porém, todos os olhavam, alguns discretos, outros nem tanto. Elôrem estava se acostumando com isso. O que ele queria mesmo era se divertir. Ele observava as mulheres dançarem em roda, todas unidas e alegres.

- Shayen, posso dançar com elas? – Ele indagara.

- É claro! – O garoto sorrira, indo até as moças sem cerimônia alguma. Ele sorria enquanto se mesclava às demais, que o olharam um pouco confusas, algumas sem entender, outras o apanharam pelas mãos, girando com ele.

- Você é muito bonito e diferente! – Uma delas lhe dissera. Elôrem agradecera e continuara a dançar com real empolgação. Era sua primeira vez em uma festa. Amara as músicas, a energia, a alegria de todos a sua volta. Era naturalmente empolgado e espontâneo, o que despertava atenção de quem o via. Porém em um certo momento, uma sensação estranha o atravessara. Era como se alguém ou alguma coisa o chamasse. Ele olhara em volta, e inesperadamente seus olhos cruzaram com os de um homem que o olhava sem piscar. Ele era mais velho que si, os cabelos dourados, longos e encaracolados, lhe davam um brilho anormal. Ele se destacava em meio aos demais por ali. Seu olhar era profundo e ao encará-lo de volta, fora como se uma corrente elétrica atravessasse seu corpo. Elôrem parara a dança e desvencilhara-se das moças repentinamente, indo até o homem que sem intenção, o chamava. O rapaz escutava sua alma ao agir tão espontaneamente. Ele não media certo ou errado. Fazia o que desejasse seu coração.

- Olá! – Ele dissera. O homem em questão estava sentado em um longo banco com demais homens ao seu lado. Quando ele se aproximara, todos ao redor pararam suas conversas para olhá-los. Ele engolira em seco. Primeiro pela coragem daquele rapaz em vir falar consigo assim, tão de repente, e segundo pela surpresa que era, estar diante de alguém tão importante para si, ele sabia, mas Elôrem não.

- Meu nome é Elôrem. Você quer dançar comigo? – Ele convidara. Os homens ao seu lado o olharam.

- Você conhece esse garoto?

- Sim. – Ele dissera, o que deixara Elôrem confuso ao vê-lo se levantar. Era mais alto do que previra. Talvez uns dois palmos maior que si. – É um prazer, Elôrem! Sou Julius. – Ele apanhara a mão do rapaz, beijando-a de forma cordial, mas intimamente carinhosa. Olhando-o com ternura e profundidade, o que deixara o rapaz levemente desconcertado. – Vamos dançar! – Ele puxara Elôrem para o meio da roda basicamente composta por mulheres. Julius segurara firmemente suas mãos, girando-o de forma bela, puxando-o hora ou outra contra seu corpo, lhe sorrindo em cada oportunidade. Elôrem se deixara levar e correspondera ao seu olhar profundo e enigmático. Algo ali parecia tão familiar, como se as palavras não fossem necessárias para haver uma comunicação, pois ela já acontecia. Julius parecia estar conversando com sua alma, a medida que giravam, sorriam ou sentiam os corpos um contra o outro. Cada poro de sua pele parecia reagir. Era algo que jamais havia sentido antes. Dançaram por longos minutos, até ambos estarem ofegantes.

Julius o puxara para longe dos olhares que jamais os deixara, rodeando um edifício em pedra antigo logo ali, subindo com ele uma escadaria, naquele local completamente adornado em pétalas e plantas. Shayen que observava os dois à distância, quisera intervir, sendo parado por Ranael.

- Deixe-os. – Dissera seu amigo. Shayen sentira uma pontada em seu peito. Seu garoto estava crescendo.

Elôrem se vira no alto de uma sacada repleta de cores das mais diversas flores.

- Que lugar incrível!

- A festa da colheita ocorre todos os anos aqui. Nós guardamos frutas e algumas flores para confecção.

- É lindo. – Ele dissera, encantado com o lugar. Era uma estrutura em pedra. Haviam muitas almofadas espalhadas aos montes por ali.

- Este lugar também é usado para descanso e meditação.

- Vocês meditam muito por aqui?

- Sim, é nossa base de contato com nossa essência. Você devia saber disso. – Elôrem dera de ombros.

- Minha essência falou comigo esses dias. – Julius erguera uma sobrancelha em surpresa.

- Você conseguiu ouvi-la?

- Sim... pela primeira vez. – Elôrem o olhara, se aproximando. Estavam de frente um para o outro, em silêncio se observaram. Julius notara o quanto ele havia crescido. Levara uma das mãos a tocar os cabelos do rapaz. Ele observara o quanto eram brancos.

- Sim, dizem que é porque minha alma é primordial. – Julius sorrira. Elôrem podia escutá-lo pensar e ele nem se dera conta disso. Ele entendia o quanto aquele garoto era inocente à sua origem e capacidades. Julius viera primeiro, sabia de mais coisas que seu complemento.

- Sim, eu sei.

- Você sabe?

- É claro que eu sei. Eu sou você, Elôrem. Eu sei tudo sobre você, mesmo sem saber. – Elôrem ficara surpreso com a declaração. Julius aproximara a face, e Elôrem podia sentir sua respiração e o coração em disparada. Ele o puxara para si, o abraçando fortemente. Então uma luz dourada se fizera presente, circundando-o por completo, assim como sua luz branca azulada, que vira outro dia no gramado e que o fizera flutuar. As duas luminosidades se mesclavam numa dança única. Enquanto os corpos biológicos se sentiam, se reconheciam. Elôrem não sabia explicar, mas sentira-se completo, pela primeira vez em sua curta existência física. Era como se a vontade de pertencer e toda sua busca por respostas, tivesse amenizado.

- Desculpe. Eu só queria matar a saudade. – Ele dissera, se afastando minimamente. Elôrem sorrira.

- Tudo bem, eu... me senti bem. – O mais velho o olhara com profundidade. Aqueles olhos era como se o chamasse.

- Porque escolheu um corpo masculino? – Perguntara.

- É mais prático... – Julius gargalhara genuinamente. Mas a verdade era que ele não havia escolhido nada.

- Tem razão... Você sabe quem eu sou agora? – Elôrem sabia da existência da sua outra metade, seu polo oposto masculino. Só não sabia onde ele estaria ou se o encontraria. Não esperava encontrá-lo tão cedo.

- Sim. Obrigado por estar aqui. – Elôrem dissera, apanhando as mãos do outro. Julius sorrira, beijando seus dedos com carinho. Fora um reconhecimento imediato. Elôrem apesar de sua inocência, ouvia sua alma e coração, e isso era um atalho útil para obter as respostas que precisava.

Notas finais
Esses dois são lindos juntos.. 😍 ~ autora é suspeita pra opinar.. 👀