Primordiais
1 Início
Notas iniciais
A energia primordial do universo. A matéria escura que reveste e toca tudo que pode, englobando o todo, sem escapar nada. É difícil entender que tudo sempre esteve aqui, que tudo sempre existiu. É difícil assimilar essa ideia. Porém de tempos em tempos, algo se manifesta. A energia pioneira da vontade, pode querer entender, criar. E mesmo ela, vendo outras manifestações nascerem depois de si, criando, experienciando; aguardou. Pacientemente observando. A criação de vidas, o desenvolvimento de universos, o nascimento de astros, planetas, seres. E ela continuava ali. Até que num ímpeto de curiosidade, ela escolhera se fragmentar. Desejava ir além do que apenas observar e criar. Foi então que múltiplas centelhas de si mesma se espalharam pelo cosmos. Alguns como ela, somente observando, sem coragem para escolher habitar. Mas um fragmento viajara mais longe, muito longe. Atravessando universos, até chegar num aglomerado azul que lhe chamara atenção, conhecido como Phision pela civilização local. As duas polaridades ainda em união, se viram obrigadas a se dividir. Mesmo já sendo um fragmento, precisava ainda se fragmentar uma vez mais.
***
Ranael recebera um alerta. Ele notara o interesse de uma centelha em experienciar a vida no sistema do qual habitava.
- É mais uma energia primordial. Não seria arriscado?
- Como negaríamos um pedido desses? – Dissera ao seu companheiro e amigo, Shayen, que o olhava aturdido. Sabiam que quando uma energia deste porte manifestava interesse em experimentar a fisicalidade, haviam riscos no acoplamento pioneiro em um corpo.
- O primeiro que recebemos, alguns anos atrás, não obedeceu a nossa dinâmica de acoplamento. – Shayen dissera.
- Provavelmente é seu par. – No segundo seguinte, o alarme da sessão de clones biológicos soara ininterruptamente sem que ninguém esperasse. Shayen e Ranael se entreolharam, correndo até lá. E num piscar de olhos, uma forte presença fora sentida no ambiente, mudando a atmosfera drasticamente. Sem que qualquer autorização fosse necessária, um dos pequenos corpos em criogenia no grande saguão, abrira os olhos. Haviam centenas ali mas somente um manifestara-se. Movendo-se rapidamente dentro do cilindro do qual repousava.
- Abra! – Gritara Ranael a Shayen, que correra até a comporta, abrindo o cilindro, tendo o jovem corpo gritando em desespero enquanto se debatia no chão molhado da grande sala. Era um grito de dor, misturado ao pânico. E de repente a ideia de experimentar a vida física não pareceu mais tão atraente para uma energia primordial.
- Calma, vai ficar tudo bem... – Shayen abraçara o corpo infantil desnudo contra si. Cobrindo-o com uma toalha macia. A aparente criança se debatia contra ele com força, mas não o suficiente para feri-lo.
- É a separação. Uma energia quando se manifesta num corpo físico pela primeira vez, sente a dor da separação de sua outra polaridade e a densidade da matéria.
- Eu já vivi isso em algum momento. – Respondera Shayen. – Mas não me lembro. Deve ser ainda pior para uma energia primordial. Uma centelha cósmica de incontáveis anos. – Ele dizia, enquanto balançava suavemente o menino em seus braços. – Será o gêmeo da primeira criança? – Ranael respirara fundo.
- Provavelmente sim.
- Mas não devem se encontrar por enquanto. Precisam se desenvolver um pouco mais antes disso.
- Sim. Eu concordo.
***
Shayen notara o silêncio que se seguiu. Caminhou até o gramado externo da base. Os longos cabelos lisos e brancos, dançavam com a brisa que tocava o todo ali fora. Aquele corpo infantil, carregava a aparência de oito anos de idade. Todos os corpos eram feitos à partir desta faixa. Um menino de pele alba, olhos azuis e curiosamente, cabelos brancos. O que era estranho no entanto, era que os cabelos como todos ali, eram amarelados, o que fora modificado instantaneamente após o acompanhamento daquele garoto no corpo escolhido em criogenia.
Shayen o observou atentamente. Naquele pequeno corpo, a centelha da energia mais antiga que se tinha conhecimento, estava ali. Ele olhava o céu e sentia o vento com profunda reverência e tristeza. Shayen se perguntava, porque aquela energia tão antiga, resolveu se fragmentar e encarnar? Ele não tinha as respostas. Mas sentia a dor daquele ser, tão igual a si e ao mesmo tempo, tão diferente. Shayen sentou-se ao seu lado. O menino o olhou com atenção, e ao cruzar com seus olhos, numa fração de segundo, milhares de informações se misturaram em sua mente, e ele sabia, era a forma do menino se comunicar consigo. Não era por palavras, era telepático. Downloads de conhecimentos ainda inexplorados. Shayen se vira num transe, observando aqueles olhos azuis enigmáticos, que começaram a desenvolver um brilho anormal, luminoso e espectral. Ele podia notar a chama branca azulada que se formava ao redor daquele ser tão pequeno, mas também, gigante. Ele estava diante de uma biblioteca viva, de um lendário fragmento que tinha todas as respostas. E o que faria com todo aquele conhecimento obtido em curtíssimo período de tempo? Talvez tentasse catalogar antes que se esvaisse da mente.
- Eu entendo você. – Shayen tentaria uma comunicação diferente. Sabia que, ele lhe transmitir tudo aquilo, era sua forma de lhe dar um “olá”. Ou ao menos era o que presumia. – E lhe agradeço. Você pode tentar usar palavras, falar, usando seu corpo. É também uma segunda forma de nos comunicarmos. – O menino o observava atento. Shayen sabia que de alguma forma, ele lhe entendia. A pequena criança aproximou sua testa a de Shayen, fechando os olhos ao fazê-lo. Uma luz branca se formou entre suas testas, e Shayen sabia, era uma leitura, uma forma dele aprender. O garoto afastara-se, respirando profundamente, puxando o ar. Então abrira os olhos para ele.
- Olá, Shayen. – Ele dissera. A voz infantil, mas que ironicamente carregava um tom forte e profundo, como se realmente fosse muito mais do que aparentava. – Você pode me dar um nome. – Shayen erguera as sobrancelhas em surpresa. Um nome? Ele pensou em um que soara belamente para o menino.
- Vou chamá-lo de Elôrem. – O menino tentara manifestar um sorriso, que saíra estranhamente torto. Ele precisava mesmo de um intensivo treinamento para aprender a usar seu próprio corpo.
Elôrem entrou no laboratório ao lado de Shayen. Ele observava tudo com olhos atentos. Era uma nova sala, com muitos objetos estranhos que ele não conhecia. Usava um manto branco até seus pés. Haviam posto nele sapatos igualmente brancos e a sala, da qual haviam entrado também era branca.
- Porque tudo é tão branco? – Ele perguntou. Shayen sorrira. O primeiro menino de energia primordial que receberam, demorara meses para falar.
- Porque transmite paz.
- De acordo com a leitura de seu cérebro, suas memórias de cores, indicam tons variados, que são frequentemente associados à alegria e exaltação. Branco é, digamos, neutro demais. – Shayen estava se segurando para não rir.
- Sim, você tem razão. Seria melhor que tudo fosse mais colorido, não é?
- Exatamente! – Exclamou sorrindo.
- Vamos considerar sua ideia. Agora, venha aqui. Precisamos fazer alguns exames em você. – Disse, apontando para a maca. Elôrem fora até ele, que o ajudou a subir.
- Vou passar esse pequeno aparelho sobre você. Ele fará uma leitura do seu corpo. – O menino concordara. Shayen fizera um escâner, usando o aparelho mencionado, em que uma pequena tela era projetada logo acima, permitindo mostrar tecidos, órgãos e muito mais. Ele estranhara logo de cara. A criança que acoplara em um corpo masculino, possuía aparato feminino completo e de quebra, órgãos sexuais, o que já havia se tornado obsoleto e nulo nas novas configurações físicas dos corpos phisianos.
**
- Ele é diferente. – Shayen entregara os relatórios a Ranael.
- Diferente? O que quer dizer?
- Veja por você mesmo. – Ranael apanhou a prancheta luminosa do qual servia como um computador de mãos. Lera todo o relatório rapidamente, e então mirou seu amigo e colega de trabalho.
- Ele é como o primeiro que recebemos. Julius também modificou seu corpo. Mas seu aparato completo é o masculino.
- Mas Elôrem é uma quimera. Ele mantém os órgãos masculinos externos e femininos externos e internos. – Ranael analisara novamente.
- O que ele é então? Um garoto ou uma garota? – Shayen dera de ombros.
Elôrem fora instruído a permanecer na sala até a chegada de Shayen, mas sua curiosidade em saber o que havia nos corredores atrás da porta, era maior. Ele pulara da maca alcançando a porta de vidro, com um gesto de mãos ela se abrira, revelando um longo corredor branco. Haviam phisianos andando pra lá e pra cá, vestidos de branco e com pranchetas luminosas nas mãos. Ele se enjoara. Tudo era branco, roupas, paredes, até mesmo seu cabelo a vestimenta que puseram nele. Sentira suas entranhas revirarem, pousando as mãos no abdômen e baixando ao chão de cócoras.
- Você está bem? – Ele escutou alguém lhe perguntar, juntamente com uma energia que o fizera mirar o dono da voz imediatamente. Ali estava um rapaz, abaixado nos joelhos para se manter ao seu nível, usava um uniforme azul escuro. Seus olhos se encheram de uma alegria genuína quando fitara o jovem homem. Cabelos dourados vivos e olhos verdes. Ele tinha a aparência mais distinta que qualquer pessoa dali.
- Você não está de branco! – Elôrem dissera levantando-se, mirando-o atentamente. O rapaz o fitara sem querer, dentro de seus olhos e algo ali mexera com ele. Uma descarga elétrica, um revirar de estômago, ele não saberia explicar com palavras o que sentia, mas aquela criança não era qualquer outra. Era especial.
- Eu sou um aspirante à combatente. Por isso uso azul, é um uniforme. – O menino o analisara e ele sabia que estava sendo lido. Aquela criança era peculiar. – Está se sentindo melhor? Quem é seu tutor?
- Estou melhor. Obrigado. – Dissera. O rapaz se levantara, pousando uma das mãos ao topo de sua cabeça, e neste instante a energia primordial dentro dele soubera. Sua expressão se aliviara, mas a luz branca azulada se acendera em seus olhos e o rapaz notara isso. Sem aviso prévio ele sentira uma energia invadir seu corpo. Aquele garoto despertara nele sua própria energia primordial e seus olhos se iluminaram instantaneamente como os dele, mas o dourado era sua cor. Ambos com olhos brilhantes como dois pares de faróis. Eles se entreolharam por milésimos de segundos, mas que pareceram horas. Era uma comunicação silenciosa e energética. Que carregava o sentimento de fusão e sabedoria inimagináveis.
- Julius! Venha, a sala está pronta! – Ranael adentrara ao corredor e o transe entre os dois fora interrompido. O rapaz se voltara a ele e então olhara novamente para o garotinho que, ele não saberia explicar, já não estava mais ali.
A sala era como todas as outras. Julius havia se deitado em uma das macas, mirando seu tutor.
- Você viu o garotinho no corredor?
- Que garotinho?
- Aquele de cabelos brancos. Eu nunca o vi por aqui... Mas ele não me pareceu alguém estranho... Sinto que o conheço, mas não me lembro de ter visto alguém com cabelos daquela cor no laboratório. – Ranael sorrira de canto.
- Você conheceu Elôrem. Ele acoplou hoje. E você não está errado, realmente se conhecem, mas não em corpo físico. Elôrem é seu complemento. Sua contraparte de polaridade oposta. – Julius arqueara as sobrancelhas em surpresa.
- O quê?! Então eu...
- Calma aí, rapaz...! Vocês não devem manter contato por enquanto. Ambos precisam se desenvolver primeiro, separadamente. Na hora certa iremos apresentá-los. Por enquanto...
- Tudo bem... – Julius parecera pensativo. – Ele é diferente. Sabia que não era qualquer garoto.
- Realmente. Ele é peculiar e bem diferente de você. – Ranael notara um olhar ansioso e entristecido no jovem rapaz. – Vai ser mais fácil manter distância quando você voltar para Tay. Ao menos você sabe agora que ele está aqui, bem ao alcance de seus olhos. – Julius sorrira levemente, concordando. Sempre sentira saudades de algo que não sabia nomear. Agora ele tinha um nome e um rosto. Esperaria por ele, esperaria pelo momento certo.
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