OBITO ESTAVA MORDIDO, era difícil de digerir que Rin Nohara tivesse preferido Kakashi a ele, quando até mesmo um cego veria que o olhar da castanha brilhava de forma diferente quando se tratava do colega de time. Agora ele estava desolado e, para completar, tinha funções inadiáveis com o seu clã.

“Merda, tem horas que eu queria ser um ninguém.” A voz insistente ecoava na mente dele, mas agora estava ali. Sendo obrigado a dar conta de algo que ele mesmo sugeriu, ou seja, um treino coordenado ao lado de Itachi.

— Já decidiu quem você levará àquela comissão? – A voz de Itachi soou tranquila, mesmo que achasse o evento algo totalmente ignorável.

Obito respirou fundo. Ele estava pouco se lixando para aquele evento estúpido, mas sabia que se cometesse um deslize seria o prato cheio que Danzou tanto queria para tirá-lo do caminho. Mesmo tendo o apoio dos Hokages, tanto o atual quanto o anterior, não seria fácil.


— Não tenho escolha, não é mesmo? – A voz saiu meio ácida enquanto arremessava uma kunai e, por um momento, Itachi sentiu um pouco de empatia por ele, afinal de contas, ele também ficaria mal se Izumi escolhesse outro, mesmo que desejasse a felicidade dela, fosse ou não ao seu lado. Porém, o Uchiha sabia que Obito tinha outra pessoa com quem poderia contar, bastava tomar um pouco de coragem e ir atrás dela.


— Você tem uma opção…


— Não. – Cortou o mais novo. – Nem fodendo, ela não quer me ver nem pintado de ouro. – Itachi deu de ombros para aquelas palavras.


— Sua avó também não. Se resolver com ela, você acaba com todos os problemas de uma vez e deixará Danzou muito irritado, ou pode fazer pior e levar a filha dele.


Itachi atirou uma das adagas para cima antes de voltar a segurá-la pela ponta sem se ferir. Obito pensou naquela ideia perversa e sorriu, seria realmente interessante se levasse Miwa Shimura para o evento como acompanhante, mas também seria estranho, já que, um, ela era a namorada de Deidara, dois, era menor de idade. Uma dupla dor de cabeça, para alguém que não estava com muita paciência nem para uma, mesmo que os costumes de Konoha fossem tão velhos quanto o do país do fogo inteiro.


Obito suspirou mais uma vez enquanto ele e Itachi encerravam aquele treino. Chegava a ser engraçado que mais conversaram do que demonstraram técnicas formidáveis, ainda assim ali estavam com todos os aprendizes voltados para a possível prova policial do corpo de elite de Konoha.


— As vagas externas serão abertas na próxima semana. Não se animem muito, com Uchihas devem demonstrar uma excelência para aqueles que ingressarão com o mesmo desejo que vocês. Como Uchihas possuem o dever de serem melhores e demonstrar mais, sempre que forem superados devem treinar até a vontade se esvair e os para superar. – Obito afirmou e Itachi assentiu.


— Dispensados. Pratiquem cem vezes antes do jantar – Itachi afirmou e um a um os integrantes foram saindo enquanto a dupla encarava o dojo vazio.


— Você tem uma semana para decidir, agora eu tenho que ir. Te vejo em dois dias e não esquece que você aceitou ser o padrinho. – Itachi afirmou e Obito engoliu a saliva com dificuldade, a vida parecia lhe agredir por todos os lados.

Um dos lados do corpo continha as marcas do passado, a mente sempre produzia os piores cenários e, para completar, ainda tinha um sharigan conectado ao do melhor amigo e rival.



“Que merda de vida…” Respirou pesado, para ele tudo estava fadado a dar errado, fosse Konoha e suas políticas cada vez mais restritivas aos Uchihas, ou sua vida pessoal inexistente.


Obito puxou a carteira do bolso na intenção de pegar algumas notas, já que decidiu que passaria no Ichiraku para comer algo. Foi aí que um papel meio envelhecido caiu no chão. Pela textura daquilo, era de se esperar que estivesse se desfazendo, mas, ao invés disso, estava apenas com as pontas poídas e parte da renda bagunçada. Quando ele abriu, viu a letra dela e a assinatura, a correntinha fina e o pingente feito para ele.



Feliz aniversário futuro Hokage,

não esqueça da minha aliança de chocolate quando assumir.



A carta encerrava com um coração e um beijo, ele respirou pesado, enfiando tudo de volta na bolsa, nem se recordava do motivo de ter guardado aquele presente. Talvez por ser dado por uma possível amiga ou talvez pela sensação de calor humano e cuidado sincero que ela transmitia toda vez que estava com ele.

Mas uma coisa Obito tinha certeza, um presente guardado por quatorze anos devia significar alguma coisa, do contrário ele já teria jogado fora. Após respirar profundamente, ele encarou o teto do dojô.


Talvez Itachi e sua avó tivessem razão. Estava na hora de procurá-la e, se ela aceitasse, se desculparia da forma correta.


"Se você não entende, não vê

Se não me vê, não entende

Não procure saber onde estou

Se o meu jeito te surpreende"