NAOMY JAMAIS IMAGINOU QUE ESTARIA NAQUELA SITUAÇÃO. Quando entrou no quarto de Obito ficou receosa, a respiração errática, pensando que simplesmente tinha sido expulsa de casa. Por mais que não tivessem usado palavras, essa era a sensação. Que a mãe tinha a expulsado de casa e a prova viva disso era a pequena bolsa perto do pé da cama de casal. Ela respirou fundo e ao abrir se deparou com peças que não condiziam com ela.

Aquilo ali não fora arrumado para alguém que se dizia expulsar, e sim para seduzir alguém, nesse caso para que ela seduzisse Obito. Isso fez o sangue dela gelar.

Ela se afastou um pouco tentando recuperar o fôlego ao constatar aquela situação e se virou para o ambiente, o observando com um pouco mais de profundidade. O quarto era simples. Um único ambiente, organizado demais para alguém que passava tanto tempo fora em missões. A cama de casal ocupava o centro. Naomy parou à soleira por um instante longo demais, a respiração continuava errática, o peito subindo e descendo como se o ar ali fosse mais pesado, até então ela não tinha parado para pensar no fato de que dividiriam o mesmo quarto.

O estômago se contraiu num reflexo imediato, o sangue de Naomy gelou. A percepção veio inteira, cruel, esperava-se que ela cumprisse um papel tão antiquado que suas emoções quase vazaram. Sentiu a garganta fechar.

A imagem da mãe atravessou-lhe a mente com força suficiente para doer. Não fora apenas mandada embora. Fora entregue. Colocada numa situação que exigia mais do que presença: exigia adaptação, docilidade, talvez até gratidão. Uma vez que levaria alguns dias até consegui uma casa e sabia que na manhã seguinte muita gente já saberia de sua súbita "mudança."

— Isso... — começou, mas a voz falhou.

Obito estava encostado na parede oposta, os braços cruzados, observando-a com atenção demais. Não parecia surpreso ou sequer satisfeito. Parecia... tenso. Como se soubesse exatamente o que ela havia encontrado e, ainda assim, não soubesse como explicar.

— Não fui eu — disse, antes que ela o acusasse. A voz saiu baixa, firme. — Isso não fui eu.

Naomy ergueu o olhar devagar, os olhos estavam escuros e mais frios do que ele já vira.

— Claro que não está claro que tem o dedo da minha mãe nesse inferno.

Ele respirou fundo. Ela colocou a bolsa de volta sob a cama, mas não do mesmo jeito. Empurrou-a para longe, quase para o fundo.

— Não pense — disse, finalmente, encarando-o — que eu vou vestir isso.

Obito não desviou o olhar.

— Eu não pensei.

Naomy sentou-se na beirada da cama, as mãos apoiadas nos joelhos, o corpo rígido.

— Vou ficar — afirmou. — Mas não do jeito que esperam.

Ele assentiu, lento.

— Eu sei. — Obito passou a destra na nuca antes de se afastar um pouco — Vou te deixar sozinha, se precisar de alguma coisa estou lá embaixo.

E assim saiu do quarto e a primeira coisa que ela fez ao ficar sozinha foi respirar fundo e fechar aquela mala com força.

Voltou a sentar-se na ponta da cama e pensou em tudo que a levou até ali, o sorriso enviesado em seus lábios foi tão amargo que parecia escorrer veneno.

A doce ironia do pecado — era nisso que Naomy conseguia pensar.

O olhar dela voltou para a cama, grande demais, carregada de uma história que não lhe pertencia. Imaginou, sem querer, quantas mulheres já haviam passado por ali, quantos corpos haviam ocupado aquele espaço antes dela, quantas vezes Obito se deitara naqueles mesmos lençóis com outras pessoas. Os lençóis que, horas antes, haviam recebido o peso do próprio corpo quando ele a trouxera para aquele quarto pela primeira vez.

O pensamento veio como um golpe baixo. Ela respirou fundo e o afastou violentamente. Ela não imaginou que o veria tão rápido depois dele ter dito que estaria no andar debaixo, mas Obito agora batia na porta do próprio quarto.

— Achei que fosse precisar de uma toalha. — Ela assentiu e ele continuou parado, atento, como se soubesse exatamente o tipo de coisa que atravessava a mente dela — e não ousasse interromper.

— Sabe... — começou, a voz controlada para que as emoções ainda não a dominassem — essa é a diferença entre os meus pais.

Obito não respondeu. Apenas esperou.

— O meu pai não veria problema nenhum em acabar com a sua vida — continuou, sem rodeios. — Matar você, para ele, seria quase um alívio. Eu deixaria de estar casada, me tornaria uma viúva jovem, voltaria para casa... e ele seguiria com os mesmos cortejos irrelevantes de sempre. O clã ficaria em silêncio por um tempo, porque ninguém quer escândalo quando a filha acaba de perder o marido.

Ela deu uma risada curta, seca e sem humor algum, enquanto ele arqueava a sobrancelha prestando atenção naquelas palavras.

— Já a minha mãe... — fez uma pausa breve, como se precisasse escolher bem as palavras — a minha mãe espera que eu engravide de você. Que eu use qualquer uma daquelas peças. Que eu me deite com você. Que faça um bebê, afinal a linhagem é o que importa. Essa é a diferença entre eles — concluiu, por fim, encarando-o. — Um prefere me ver viúva. A outra prefere me ver presa.

Obito sentiu o impacto daquelas palavras com força. Não tentou relativizar ou suavizar. Qualquer tentativa disso soaria vazia demais e naquele momento ele não queria se complicar com ela.

— E você? — perguntou baixo. — O que você quer?

Naomy desviou o olhar por um instante, voltando-o para o chão, para o espaço entre eles, para tudo que ainda não tinha resposta.

— Eu quero paz — disse. — Sem virar moeda de troca ou uma incubadora. Sem virar uma espécie de mártir para o meu clã.

Desviou mais uma vez o olhar para cama e suspirou, pousou a mão no colchão sentindo a estabilidade, pelo menos aquilo poderia controlar.

— Não confunda minha presença aqui com entrega, Obito. Eu estou nesse quarto por uma mera ocasionalidade.

Ele assentiu devagar.

— Eu sei.

— E não espere que eu desempenhe um papel que não me pertence — acrescentou. — Não hoje e nem amanhã.

Obito sustentou o olhar dela.

— Não vou exigir isso de você.

— Ótimo — respondeu, firme. — Porque se tentarem transformar isso em algo que não é... eu vou embora. Mesmo que isso custe tudo.

Novamente voltaram ao silêncio antes do Uchiha deixar o quarto


...


A situação estava claramente ao ponto de sair do controle, mas ambos eram adultos e saberiam lidar com isso. Mesmo que as emoções falassem mais altos dentro de Naomy, e ela as empurrasse para o fundo.

Sem dizer nada, entrou no banheiro.

A água quente caiu sobre os ombros como um alívio momentâneo, lavando o cheiro da festa, das ruas, das expectativas alheias. Ficou ali mais tempo do que o necessário, os olhos fechados, tentando reorganizar o próprio corpo dentro daquela realidade que não pedira. Quando saiu, enrolada apenas na toalha, encarou a mala e ficou ainda mais irritada. Ainda assim, deu graças por aquele não ser o maior dos problemas.

De qualquer forma não vestiria nada daquilo que estava naquela maldita mala. Então, tomada pela pouca coragem que tinha para mexer nos pertences alheios, pegou a primeira coisa que avistou — um casaco dele em cima da cadeira que ficava perto da escrivaninha — e vestiu por cima da toalha. O tecido era grande demais, pesado, trazia o cheiro dele de forma incômoda e familiar. Ainda assim, era melhor do que qualquer outra opção, desceu as escadas devagar e foi então que o viu.

Obito estava de costas, sem camisa, a calça baixa demais nos quadris, parado diante da varanda aberta. A luz suave da noite desenhava as linhas das costas dele, os músculos bem definidos, a postura relaxada demais para alguém que dizia estar lidando com tudo aquilo, mas o que o corpo dele demonstrava era que não estava nem aí e , ela se permitiu ficar ali por um segundo a mais do que devia, observando. Pensamentos que não deveriam existir surgiram, traiçoeiros, e ela os deixou passar bem lentamente.

Respirou fundo e deu mais um passo, mas não precisou dizer nada. Obito sabia que ela estava ali desde que tocou o piso da sala.

— Você precisa de alguma coisa? — Obito perguntou, sem se virar de imediato. Ele sentira a presença dela do mesmo jeito que sempre sentira.

Quando finalmente virou, o olhar dele mudou. Houve um brilho rápido, difícil de definir, como se naquele exato instante ele tivesse sido atingido por algo inesperado. Talvez porque, naquele momento específico, ele realmente achasse que Naomy era a coisa mais bonita que já vira.

— Preciso de roupa — disse, baixa, direta. — Algo confortável pra dormir.

Ele deu de ombros, o canto da boca se erguendo num sorriso breve, contido. Por ele, ela dormiria daquele jeito mesmo — o pensamento passou rápido demais para ser dito, e ele teve o bom senso de engoli-lo.

— Qualquer coisa no meu armário — respondeu. — Usa o que quiser. O que te fizer sentir melhor.

Ela assentiu, aliviada por não haver ironia na voz dele.

— Obrigada.

Sem prolongar o momento — porque sabia que prolongá-lo seria perigoso —, virou-se e subiu as escadas com passos rápidos, o casaco ainda pesado sobre os ombros.

Atrás dela, Obito permaneceu parado por alguns segundos a mais, olhando para o espaço vazio onde ela estivera e como as pernas nuas eram bonitas.

Naquela noite, Obito não dormiu. Ele passou boa parte do tempo na varanda, o copo de saquê sempre preenchido antes mesmo de perceber que estava vazio. O líquido queimava a garganta, mas não era suficiente para aquietar os pensamentos.

Naomy.

Em como ela estava deslumbrante naquele vestido roxo, com as costas de fora, o cuidado do bordado da peça pra ter o símbolo do clã dela. E em como foi bom poder tocá-la da forma como ele tocou nas costas e alisar o pulso para colocar a pulseira.

E do quanto aquilo fora... bom. Esse era o problema, foi bom demais.

A mente parecia estar se partindo com as novas sensações. Sensações essas que traziam memórias de uma época em que ele achava que tudo tinha a ver com amizade, que tudo que ele sentia por ela era amizade. Ele sempre voltava aos momentos em que os dois estavam a sós, as brincadeiras, os sorrisos.

As promessas que nunca foram cumpridas e o beijo...

Obito se engasgou com o saquê antes de piscar diversas vezes.

— Mas que merda foi essa? — Ele massageou a própria têmpora, desde quando ele tinha sido beijado por Naomy? Onde?

A memória veio tão forte e abrupta que ele chegou a sentir a bochecha formigando assim como o canto da boca. O cheiro veio junto — morango. Doce, leve, inconfundível.

— Porra... — Sussurrou, incrédulo. Se isso tinha mesmo acontecido, ele se sentia um completo imbecil por esquecer, pois aquilo significava que deveria ter muito mais. Quantas coisas ele deixara passar? Quantos sinais escolhera não ver porque era mais confortável insistir numa narrativa que o mantinha seguro?

Ele inclinou a cabeça para trás, encarando o céu escuro.

— Eu sou mesmo um desgraçado...

No andar de cima Naomy passava pela mesma situação se revirando nos lençóis e sentindo o cheiro dele por todo lugar. Ela não conseguiria dormir ali nem que alguém a apagasse. Era do fechar os olhos para ver ele.

Obito

Obito

Obito

— Maldição! — Reclamou baixo, não era nenhuma garotinha apaixonada, era uma shinobi experiente e extremamente precisa para estar naquela cama sentindo falta de algo que nunca teve. Naomy se levantou, arrumou as peças de roupa que vestia e desceu. A ideia era beber alguma coisa e dormir na cozinha mesmo se fosse necessário. Ela só não imaginava encontrar Obito na varanda ainda descamisado e com uma garrafa de saquê nas mãos, o cabelo estava meio bagunçado e ela não parava de pensar o quanto ele estava bonito assim.

— Também não consegue dormir. — Afirmou já adentrando o espaço dele, Obito desviou o olhar para cima, apenas para ter uma visão que jamais esqueceria. Naomy usando sua camisa e sua calça, os cabelos ondulados completamente soltos batendo abaixo do quadril e o olhar tão bonito que ele desejou ser para ele.

— Está uma noite agradável. — Mentiu, dando espaço para ela se sentar ao lado dele, Obito sentia o cheiro do próprio sabonete nela fora o perfume meio lavanda que nem sabia que sentia tanta falta.

Naomy apenas relaxou os ombros pegando a garrafa das mãos dele e dando um gole generoso, ao qual o Uchiha observou, os lábios dela eram bonitos, bem desenhados e claramente estava com inveja daquela garrafa.

— Seu mentiroso sussurrou devolvendo a bebida e ele riu de uma maneira tão casual que ela sentiu o coração acelerar principalmente quando o olhar escuro como a noite foi direcionado a ela.

Como se deixasse claro que ELA era o problema e também a solução. Obito sorveu a bebida olhando nos olhos dela e depois descendo para a boca deixando claro o que estava pensando.

— Sou mesmo um mentiroso. Um péssimo mentiroso.

Ela sorriu discretamente, aquele momento era o que precisavam.

— Sim, você é. — O silêncio se instaurou e eles se encararam mais uma vez antes de desviarem o olhar para o céu.