Obito estava distraído, Itachi tinha dado a primeira parte das instruções no dojo enquanto o moreno replicava mentalmente o ocorrido da madrugada. Ele não se lembrava como, mas Naomy adormecera em seu ombro e ele também apagou. Quando acordaram estavam enlaçados na varanda com vista para o quintal e ele se agradeceu por isso, pois seria terrível acordar com a vista da rua tendo dormido na varanda onde qualquer um poderia ver.

Ele foi o primeiro a levantar, vislumbrou o semblante adormecido da esposa e sorriu, antes de erguê-la nos braços e sutilmente levá-la até a cama, enquanto Naomy dormia ele se preparou para o trabalho. Tomou um banho calmo, pensando nela e em como queria que as coisas fossem sempre assim.

Depois de se secar saiu do banheiro com a toalha no quadril, só não imaginou que a encontraria acordada e sentada na cama, o olhar de Naomy percorriam o corpo dele sem pudor algum, estava travada indo do rosto bonito, para o peitoral descoberto e marcado. Um lado do corpo dele era todo marcado e por um momento ele se questionou se ela estava se arrependendo de ter casado com um "defeito" mas bastou afastar essa sensação de insuficiência e olhar diretamente nos olhos dela para ver o desejo que parecia escorrer por todos os cantos.

Naquele momento ficou claro para ele que Naomy o desejava como homem, mesmo que ela tivesse despertado do seu transe e se trancado no banheiro.

Obito sorriu satisfeito com a reação e seria mentira de dissesse que não tiraria proveito disso.

O café da manhã transcorreu em silêncio para duas pessoas que haviam acordado plenamente cientes do que haviam visto no olhar uma da outra. Mesmo mantendo a postura impecável, os cabelos presos, as roupas no lugar e a expressão controlada, Naomy não conseguia disfarçar completamente o turbilhão interno. Obito percebia cada nuance que ela tentava esconder — e reconhecia bem aquela tensão disfarçada.

Fingindo revisar anotações sobre a mesa da cozinha enquanto planejava as aulas do clã, ele a observava de soslaio, sentindo cada gesto dela como uma provocação velada. No fundo, não queria que Naomy escapasse. Por alguma razão difícil de nomear, imaginava que poderia ter com ela uma relação serena, ainda que fosse de aparência.

Sempre que tentava encará-la para decifrar as emoções que escapavam do controle, Naomy desviava o olhar. Para Obito, isso bastava. Então, decidiu testar — e não com palavras. Palavras seriam um refúgio fácil demais para ela. Queria ver até onde o corpo dela denunciaria o que a boca insistia em negar.

A aproximação foi espontânea. Passou atrás dela enquanto ela lavava a própria xícara, o espaço estreito demais para dois adultos dividirem sem que o ar entre eles se comprimisse. Em vez de se afastar, ele reduziu o passo. Não tocou de imediato. Deixou que o calor do próprio corpo falasse primeiro.

Naomy notou, tentou manter-se serena, mas os ombros se retesaram antes mesmo de ele a alcançar. Para piorar, Obito apoiou a mão ao lado da pia, prendendo-a entre o braço e a bancada — ainda sem contato direto. A respiração dela mudou, sutil, quase imperceptível. E era exatamente o que ele queria.

— Você está tensa demais — murmurou próximo ao ouvido dela.

O arrepio foi involuntário, e Obito não só viu, como percebeu a reação. Rápida, mas suficiente.

— Não estou — respondeu firme demais.

Mentira.

Os dedos dele deslizaram devagar pela lateral do braço, e a pele reagiu antes da mente. Inclinou-se um pouco mais, o peito quase tocando as costas dela, enquanto a mão descia até o quadril — apenas para "ajustar" um tecido que não precisava de ajuste algum.

— Você também sempre foi péssima em mentir — disse baixo.

Naomy virou o rosto na direção dele, quase tocando seu queixo. O olhar dela era desafio puro, mas a pupila dilatada traía tudo.

— E você sempre foi arrogante.

Ele sorriu com tanta malícia que a mente dela passou a ecoar "Perigo", "perigo", "perigo." Principalmente quando ele atiçou.

— Então prova que não está sentindo nada. — A provocação ficou suspensa no ar, Naomy engoliu seco, e isso foi resposta suficiente.

Obito virou-a de frente num movimento controlado, as mãos firmes na cintura dela. Os corpos ficaram alinhados e extremamente próximos. A respiração dela tocava o pescoço dele que aproveitou para descer o olhar lentamente. A intenção era clara demais para ser interpretada de outra forma.

— Me olha — pediu.

Ela resistiu por um instante — só um. Quando ergueu o rosto, o mundo pareceu encolher em volta dos dois. Obito levantou o queixo dela com um toque leve, e o polegar traçou o contorno de seu lábio inferior, lento demais. Naomy fechou os olhos por um segundo.

Aquilo foi um erro. Ele percebeu.

Aproximou o rosto, parando a um sopro de distância. O suficiente para que ela sentisse o calor da respiração dele.

— Você me desejou — afirmou cheio de satisfação e o silêncio dela foi a confissão mais honesta da manhã.

Ele deixou os lábios roçarem o canto da boca dela — quase um beijo, mas não o bastante. Retirou-se antes que ela o puxasse, mantendo o controle.

Ela abriu os olhos, surpresa com o recuo. Frustração percorreu o rosto dela. E algo mais, que fez Obito dar um passo atrás.

— Não vou tocar em você só porque alguém quer que eu toque — disse sério. — Mas também não vou fingir que não vi o que você sentiu.

Pegou o casaco na cadeira e o vestiu com uma calma praticamente irritante de tão lenta.

— Quando quiser de verdade, Naomy... — o olhar escuro percorreu-a uma última vez — não vai precisar mentir.

E assim saiu da cozinha deixando-a para trás em uma tensão viva. Naomy permaneceu parada, os dedos tocando os próprios lábios, o corpo ainda reagindo ao que quase aconteceu.

Ele havia testado — e ela, falhado miseravelmente em esconder o desejo que a corroía por dentro assim como qualquer outro sentimento que tinha por ele...

Itachi ainda fitava o colega de profissão, incrédulo. Obito parecia ter mergulhado numa espiral de lembranças agradáveis e, quando voltou ao presente, deixou escapar um sorriso.

— Talvez devêssemos mostrar como se faz — disse, levantando-se com leveza. — Eles já estão exaustos e ainda juram estar prontos para os exames finais.

Itachi negou com um meio sorriso.

— Você não presta. — Ironizou. — Com ou sem Sharingan?

Obito riu alto diante da provocação.

— Sem, é claro. A maioria aqui não tem esse dom, e o que quero é provar que força bruta bem aplicada e técnica de combate rendem mais do que qualquer dōjutsu.

Itachi prendeu o cabelo com firmeza, ajustou as luvas e lançou lhe um olhar confiante enquanto os alunos interrompiam os treinos para assistir. Ergueu uma das mãos em desafio, o sorriso travesso no canto dos lábios.

— Nesse caso, venha.


...


No outro lado do distrito, Naomy estava uma bagunça; ainda sentia o pescoço e os lábios queimarem enquanto dava as aulas de defesa para as mulheres de seu clã. Algumas delas já falavam em se juntar à força policial de Konoha, e ela sabia que o treinamento de elite seria extremamente brutal, ainda mais sendo o curso ministrado por Obito e supervisionado pelo prodígio do clã Uchiha Itachi.

Era a primeira vez que a polícia abria vagas para fora do distrito Uchiha, então Naomy entendia que qualquer candidato de outro clã teria que se esforçar em dobro. Muito mais do que isso. Por esse motivo, ela não estava pegando leve: desde que chegara, colocara as garotas para lutarem entre si, depois as dividira em grupos de cinco, mandando umas atacarem e outras contra-atacarem em investidas coordenadas; como se não bastasse, jogara cinco contra uma, mostrara tudo na prática enfrentando dez sozinha e percebeu, com certa frustração, que muitas ali não davam conta do recado, caindo com um único golpe.

Era a primeira vez que a polícia abria vagas para fora do distrito Uchiha, então Naomy entendia que qualquer candidato de outro clã teria que se esforçar em dobro. Muito mais do que isso. Por esse motivo, ela não estava pegando leve: desde que chegara, colocara as garotas para lutarem entre si, depois as dividira em grupos de cinco, mandando umas atacarem e outras contra-atacarem em investidas coordenadas; como se não bastasse, jogara cinco contra uma, mostrara tudo na prática enfrentando dez sozinha e percebeu, com certa frustração, que muitas ali não davam conta do recado, caindo com um único golpe.

Já se aproximava a hora do almoço quando Jinchuki, uma das acompanhantes de sua mãe, entrou no dojô pedindo desculpas, um pouco ofegante, o que denunciava a correria.

— Naomy-sama, o senhor Sarutobi a aguarda na sala de chá. — Ela franziu o cenho; praticamente todos ali carregavam o sobrenome Sarutobi e, se fosse para adivinhar, Naomy não tinha paciência.

— Seja mais específica, Jinchuki. — pediu, num tom firme, e a garota corou pela gafe, se curvando em desculpa.

— O senhor seu tio e o senhor seu pai estão à sua espera. — Naomy soltou o ar lentamente; Hiruzen não a chamaria à toa, muito menos o próprio pai.

— Continuem o treino. Madoka assume. Quero a sequência de combate repetida com precisão cem vezes, e todas as execuções detalhadas nos cadernos quando eu voltar. — E saiu do dojô mais tensa do que gostaria de admitir. Naomy estava nervosa com as possibilidades ruins, mas nada a preparara para receber aquela notícia, pois assim que viu Hiruzen pensou que algo estava errado mas o sorriso do tio mudou.

— Pequeno dente de leão, você parece bem. – Ele deu uma tragada no cachimbo e Naomy sorriu aliviada.

— Estou ótima tio. Obrigada por perguntar. – Sentou-se com elegância, aceitando a xícara de chá que lhe foi oferecida. O vapor subia em espirais suaves e nem parecia que, poucas horas antes, estava assinando um contrato que mudaria sua vida

— Acredito que devo lhe dar parabéns. – comentou, observando-a por cima da borda do cachimbo. — Confesso que, dada a sua proximidade com o meu ex-aluno... achei que fosse se casar com ele.

Naomy sentiu o rosto queimar.

"Por que raios ninguém esquecia aquilo?!" Era impressionante como a vila inteira parecia ter memória seletiva apenas para aquilo que feria, envergonhava ou que precisava ficar quieto.

— Tio... — ela respirou fundo, sustentando o olhar dele com maturidade. — Agora estou casada com o Obito. – Dessa vez não foi tão amargo assim pronunciar a aquela verdade, ao invés disso ela respirou tranquilamente enquanto Hiruzen sorria.

— Fico feliz por vocês.

O pai dela observava em silêncio, atento às entrelinhas. Ele conhecia a filha. Sabia quando a voz carregava peso e quando carregava escolha, mas Hiruzen não tinha ido ali apenas para trocar gentilezas.

Ele apoiou o cachimbo na lateral da mesa.

—Preciso que vá até a vila do som E também que revise os pergaminhos do clã.

O ar mudou.

Naomy não se moveu, mas a mente já estava calculando distâncias, riscos, implicações. A Vila do Som não era um passeio exatamente diplomático e isso a fez questionar o que foi que Orochimaru aprontou.

— Algum problema específico? — perguntou com calma controlada.

— Ainda não — respondeu Hiruzen. — Mas prefiro agir antes que se torne um.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Acredito que o Hokage tenha algo ainda mais intenso reservado para você. Esta será apenas a primeira parte.

O pai dela finalmente falou:

— E isso precisa acontecer agora? – Ichi não precisou concluir, Naomy sabia exatamente o que o pai estava pensando:

Casada há menos de vinte e quatro horas. Transferida de casa. Sob vigilância política. E enviada em missão.

A ironia era gritante.

Naomy levou a xícara aos lábios, bebendo devagar, como se aquela fosse apenas mais uma tarde comum. Por dentro, porém, a mente já organizava cada passo.

Partiria o mais rápido possível, e isso significava que teria de avisar Obito. Ou pior: significava que ele talvez já soubesse. Porque, naquele jogo, ninguém movia uma peça sem que os Uchiha sentissem o tabuleiro vibrar. E, se havia algo que Naomy conhecia bem, era o timing cruel da política: quando a vida pessoal começava a parecer promissora, alguém sempre lembrava que ela era uma peça estratégica antes de ser mulher. Pousou a xícara com delicadeza, respirando como se nada tivesse mudado.

— Quando parto?

Hiruzen a observou com aquele olhar antigo, pesado de experiência, quase orgulhoso.

— Após a comissão, ao amanhecer. — Uma pausa. — E não vá sozinha.

Isso... isso foi diferente.

O pai ergueu levemente o queixo. Naomy entendeu antes mesmo de ouvir o nome. O coração, traiçoeiro, acelerou no peito.

Porque, se havia alguém capaz de tornar aquela missão muito mais complexa do que deveria ser, era o homem com quem ela tinha acabado de se casar.

E, no fundo, o destino parecia estar se divertindo com a situação.