O DIA PARECIA NÃO TERMINAR NUNCA.

Obito já tinha perdido a conta de quantas vezes repetira os mesmos movimentos no dojō, quantas vezes corrigira postura, respiração, ângulo de ataque. O corpo funcionava com precisão automática, mas a mente estava em outro lugar — irritantemente dividida entre estratégia e lembrança quente de Naomy interessada nele.

Depois do treino com Itachi, vieram as designações formais, as listas de candidatos externos à polícia, as reclamações veladas dos anciãos que ainda torciam o nariz para qualquer não-Uchiha tentando ingressar no distrito. Ele sustentava cada discussão com firmeza, a voz controlada, o olhar afiado o suficiente para encerrar murmúrios antes que virassem desafio e sempre abria questões bem claras.

"Como querem estar no topo de Konoha quando não abrem espaço para outras pessoas?" No fundo Obito só parou para pensar dessa forma depois que resolveu que queria virar hokage e se apaixonou por Rin, não nessa ordem, é claro. Mas a ideia de ter um "mundo perfeito" e, mais aceito para viver com ela foi o que o motivou.

Ainda assim, parecia pouco. Parecia lento e que o dia se alongava de propósito, como se testasse a paciência dele.

E ainda faltava a reunião com o conselho iminente.

Essa seria a última etapa da noite. A mais delicada. A que exigiria menos força física e mais paciência e frieza. Era ali que decisões eram costuradas, onde alianças eram medidas e cada palavra dita tinha peso de decreto.

Ele sabia que o casamento com Naomy já circulava como assunto entre os conselheiros, mesmo que não tivessem dito nada, provavelmente a informação deveria ter vazado da casa Sarutobi. Sabia também que havia olhares atentos demais sobre essa união repentina. Alguns enxergavam estabilidade política. Outros, fraqueza emocional. E sempre existiam aqueles que procuravam fissuras.

Obito caminhava pelo corredor que levava à sala do conselho com o semblante fechado, o manto escuro ajustado sobre os ombros largos. O som dos próprios passos ecoava com firmeza, e cada eco lembrava-lhe de uma coisa incômoda: ele estava cansado.

Não do trabalho. Mas do esforço constante de parecer inabalável.

A reunião se estendeu mais do que deveria. Perguntas indiretas, comentários sobre a movimentação no clã Sarutobi, insinuações sobre o momento escolhido para oficializar o relacionamento com a sobrinha de ouro do hokage e muitas outras questões. Obito respondia com calma quase entediante. Não negava ou justificava demais e também não demonstrava, a ideia era simplesmente acabar o mais rápido possível com as indagações para que pudessem prosseguir com as reuniões.

Konoha era uma vila militarizada que respondia a um poder maior e aparentemente, esse mesmo poder estava um pouco acuado com a força da vila. O que era ridículo, por que sinceramente, Konoha em si tinha poder para criar uma caos e virar o jogo de poder do mundo shinobi, mas nunca foi algo almejado ainda assim era vista como ameaça.

No fim daquela reunião, o conselho decidiu mandar mais alguns shinobis para o líder do país do fogo enquanto Minato deixava claro que tinha assuntos a tratar com seu aluno.

Obito não se surpreendeu por se tratar de uma missão, mas como ambos estavam atolados de reuniões, o hokage explicou rapidamente a parte que importava e passou a ele o pergaminho com todas as instruções da missão, selado e exigiu que o moreno se apresentasse no dia seguinte no primeiro horário da manhã.

Quando finalmente foi dispensado, a noite já estava avançada. O ar da vila estava mais frio, as ruas mais vazias, as lanternas espalhando aquela luz dourada que tornava tudo um pouco mais íntimo e querendo ou não transformavam a simples caminhada até em casa em um momento de reflexão.

Ele parou por um instante antes de seguir para casa.

Casa.

A palavra ainda soava diferente agora que não era apenas dele.

Lembrou-se dela pela manhã, sentada na cama, o olhar percorrendo lhe o corpo como se não soubesse para onde olhar primeiro. Lembrou-se da cozinha, do arrepio que percorreu a pele quando ele sussurrou próximo demais. Da varanda na madrugada, do peso-leve da cabeça dela em seu ombro enquanto dormiam.

E, acima de tudo, lembrou-se da tensão que existia entre eles — viva demais.

Ele queria vê-la.

Queria saber como ela tinha reagido à convocação. Queria observar a expressão dela ao ouvir que partiria em missão. Queria — e isso ele só admitia para si mesmo — sentir novamente aquele momento em que ela esquecia de fingir indiferença e voltava a se sentir um completo idiota por não ter percebido tudo isso antes.

Respirou fundo antes de atravessar o portão.

A casa estava silenciosa, com as luzes baixas e nenhum som vindo do andar de cima.

Obito retirou as sandálias na entrada e caminhou devagar pelo interior, sentindo o ambiente diferente. Havia traços dela ali agora, o rastro do perfume e algo mais. Uma presença que mudava o ar, mesmo quando ela não estava no mesmo cômodo.

Ele subiu as escadas sem fazer barulho, o coração estranhamente atento ao menor sinal.

A porta do quarto estava entreaberta. E a noite, que parecia interminável, finalmente prometia algo que não fosse apenas política e estratégia.

Prometia um pouco de confronto ou talvez algo ainda mais perigoso: a verdade ou talvez fosse apenas a consciência de que agora existia alguém atrás de uma daquelas portas que carregava o sobrenome dele. Alguém que, gostando ou não, estava ligada à sua vida por um contrato que ultrapassava política e tocava algo mais fundo.

Ele não era ingênuo. Sabia que aquele casamento nascera de pressão, de tradição e interesses cruzados. Sabia também que havia sido ele quem, anos atrás, rasgara o primeiro laço sem pensar nas consequências. Ainda assim, agora, a ideia que se instalava na mente era a da mais completa permanência.

Obito tinha decidido algo silenciosamente ao sair do escritório de Minato: mesmo que não dessem certo como casal apaixonado, mesmo que o amor não florescesse como nas histórias que zombavam dele na adolescência, ele manteria aquele acordo. Não por honra ao conselho. Não por medo de escândalo o seu nome e sim por ela.

Não queria prejudicá-la outra vez, ser o motivo de mais um comentário atravessado, de mais uma humilhação velada. Se não pudesse ser o marido ideal, ao menos seria o marido que ficava. Que sustentava e não abandonava.

Era um tipo de lealdade que ele jamais admitiria em voz alta, porque soaria sentimental demais para alguém que sempre fingiu não sentir tanto.

Ao empurrar levemente a porta do quarto, a primeira coisa que viu foi a sombra dela projetada na parede, iluminada pela luz suave da lâmpada lateral. Naomy estava sentada na beirada da cama, ainda vestida, os cabelos soltos caindo como uma cascata escura sobre os ombros. Não parecia estar dormindo e sim pensando.

E pensar nela — ali, naquele espaço que antes era só dele — produziu algo estranho no peito. Uma sensação mais ampla de pertencimento, que para o tipo de homem que ele acreditava ser soava contraditório.

Ela ergueu o olhar ao perceber sua presença.

Houve um segundo de silêncio em que ambos apenas se estudaram. Nenhuma palavra só a constatação muda de que aquela era a primeira noite em que estariam ali frente a frente.

Ele tirou o manto devagar, pendurando-o na cadeira.

— Ainda acordada? — perguntou. Naomy sustentou o olhar por um instante antes de responder.

E, naquele intervalo minúsculo, Obito teve a nítida percepção de que dividir a vida não seria a parte difícil.

A parte difícil seria aprender a dividir o próprio coração sem fugir quando ele começasse a pesar.

— Estou apenas pensando em como todas as minhas roupas caberão aqui. — O olhar dela estava vazio e distante demais para um assunto tão banal e Obito soube que estava mentindo, ainda assim não forçaria nada, apenas tirou a bandana e as luvas, ficando apenas de calça e camisa de mangas longas. Ele vislumbrou-a mais uma vez, Naomy estava tão bonita que chega a doer.

— Não se preocupe com isso, amanhã vou providenciar uma casa maior.

Ela o encarou incrédula. Por um lado era uma questão de alívio, teria o próprio espaço e não precisaria dormir ao lado dele. Por outro não queria isso, queria justamente dividir o ambiente com ele.

"Que idiota que eu sou."

— Mas deve demorar alguns meses — ele completou rápido demais, como se tivesse lido a oscilação mínima no olhar dela. — Ainda terá que me aturar por um bom tempo, esposa.

O moreno caminhou pelo local retirou do bolso um pergaminho selado deixando-o na cômoda, foi até o armário e retirou de lá algumas roupas, Naomy respirou fundo imaginando se teria outra visão embaraçosa com aquela de manhã, porém o foco mudou instantaneamente ao notar aquele selo, ela reconheceria aquele lacre em qualquer lugar.

Aquela missão era de ranking S.

Esperou que Obito fechasse a porta para espionar, levantou-se devagar e caminhou até a cômoda, os dedos passando sobre o símbolo oficial e removendo o selo com uma pequena contravenção. Missões daquele nível não eram simples investigações diplomáticas. Eram intervenções críticas. Risco real e possibilidade concreta de morte.

O banheiro ainda estava fechado. O som da água começava a correr.

Ela abriu o pergaminho com cuidado.

Os olhos correram pelas primeiras linhas se concentrando em palavras específicas em uma leitura pontual e o coração apertou.

Vila do Som.

Movimentações suspeitas.

Possível envolvimento externo.

Equipe reduzida.


Ela engoliu seco. Equipe reduzida significava dois. No máximo três. E, de repente, todas as peças se encaixaram: Hiruzen. O pai. O tom estranho. O "não vá sozinha".

Obito saiu do banheiro naquele exato momento, o cabelo úmido, a camisa já retirada, a toalha passando pelos fios escuros. Parou ao perceber o pergaminho aberto nas mãos dela. Não houve surpresa em sua feição e isso foi o que mais a incomodou.

— Você já sabia — ela afirmou enquanto ele apoiava a toalha sobre a cadeira.

— Fui informado após da reunião do conselho.

— Então é por isso que quer uma casa maior? — ela perguntou, sem conseguir evitar. — Para o caso de um de nós não voltar?

O olhar dele mudou, não se tratava de deixá-los bem "abastados", não apenas isso é claro. Num súbito rompante, atravessou a distância entre eles em poucos passos.

— Não — respondeu sério. — É porque pretendo que você volte.

A proximidade voltou a alterar o ar do quarto. Naomy segurava o pergaminho, mas a atenção já não estava nas letras e os batimentos cardíacos parecia ecoar nos ouvidos. Estava desgostosa com toda a situação mas não imaginava que ele seria tão direto.

— Equipe reduzida — ela murmurou ainda irritada.

— Dois — ele confirmou.

O coração dela bateu mais forte. A tensão entre eles, que até então era feita de olhares e quase-toques, ganhava outra dimensão.

Porque desejo é uma coisa, confiar a própria vida é outra.

— Você não é obrigado a ir comigo — ela disse, sustentando o olhar.

Obito arqueou levemente uma sobrancelha, era capaz de se sentir ofendido com aquela certeza.

— Sou seu marido. Não tem ninguém mais qualificado para essa missão do que eu e não estou dizendo isso pelo nosso casamento e sim pelo que imagino que terei de fazer.

— E sou capitão na polícia — completou. — Se é ranking S, não vou deixar que vá sem mim.

Ela sentiu algo estranho no peito uma espécie de alívio. Não. Era algo mais perigoso, como orgulho. E, talvez, segurança.

— Então é isso.

— É isso.

Ficaram se encarando por alguns segundos, conscientes de que aquela noite tinha mudado de eixo outra vez. Obito deu um passo para trás, como se temesse que, se ficasse perto demais, confundisse urgência com impulso.

— Iremos ao escritório do Hokage pela manhã, depois aprontaremos tudo. Afinal, o evento da comissão será amanhã à noite e, no dia seguinte, partiremos.

Naomy permaneceu quieta e talvez seja por esse motivo que o controle dele vacilou mais uma vez. Ele voltou a se aproximar, se inclinando para ler o pergaminho por sobre o ombro dela. O calor do corpo dele avançou primeiro; depois veio o cheiro — sabonete neutro misturado com algo mais escuro, mais dele.

Naomy assentiu, mantendo os olhos no texto, ainda que já soubesse cada linha de cor. Tentava ignorar a proximidade. Tentava convencer o próprio corpo de que aquilo não a afetava.

Era inútil.

— Você já jantou? — perguntou de repente. Nem ela soube dizer se era cuidado, hábito ou simples necessidade de quebrar o momento, mas Obito sorriu sem que percebesse.

— Não. E você?

— Ainda estou cheia das refeições do meu clã. — Fez uma pausa mínima. — Trouxe um pouco do menu para você.

Ele se inclinou um pouco mais, como se quisesse confirmar a informação no pergaminho, mas o braço roçou de leve na lateral do corpo dela. Um toque quase inexistente — quase.

Naomy fingiu que não sentiu. O problema era que sentiu, a pele reagiu antes da razão. O ar ficou ligeiramente mais curto, e ela odiava que ele provavelmente percebesse.

— Agradeço — respondeu ele, baixo. — Então amanhã almoçaremos juntos. E por minha conta.

Ela abriu a boca para dizer que não era necessário, que não precisava, que ele não tinha que fazer nada além do combinado.

Ele não deixou.

Afastou-se no instante exato em que ela buscava o ar, como se tivesse medido o limite da proximidade e decidido que era suficiente por aquela noite.

Naomy voltou a respirar com mais liberdade e o quarto parecia maior quando ele se afastava. Mais frio.

— Não precisa se preocupar com isso — ela tentou ainda, retomando algum controle. — Temos coisas mais importantes para resolver.

— Temos — ele concordou, caminhando até a janela por um momento. — Mas isso não significa que não possamos comer.

Havia algo diferente na voz dele e isso a desconcertava mais do que qualquer toque.

Obito voltou-se para ela, apoiando-se levemente na parede, os braços cruzados. A luz baixa desenhava sombras sobre o rosto, deixando os olhos mais escuros do que já eram.

— Não quero que isso seja só estratégia, Naomy.

Ela o encarou.

— O quê?

— Nós. Sei que não escolhemos as circunstâncias. — Ele respirou fundo. — Mas estamos aqui. E vamos para uma missão de nível elevado juntos. Prefiro que ao menos saibamos conversar como duas pessoas que dividem o mesmo teto.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos, sentindo o peso daquilo.

— Eu sei conversar — respondeu, mas a própria resposta soou defensiva demais e até mesmo pateta e com isso ele arqueou levemente uma sobrancelha.

— Conversar não é o mesmo que se esconder atrás de formalidades.

Aquilo a atingiu ao ponto de fazê-la desviar o olhar por um segundo, antes de voltar a olhá-lo.

— Não estou me escondendo.

— Está.

Mais uma vez o silêncio precedeu a conversa. Naomy cruzou os braços, tentando recuperar alguma armadura.

— Você não facilita.

Um canto da boca dele se ergueu.

— Eu sei. — Finalmente ele se afastou da parede e caminhou até a cômoda, pegando o pergaminho com naturalidade. — Vamos dormir. Amanhã será longo.

Ela assentiu, mas antes que Obito apagasse a luz, perguntou, mais baixo:

— Por que você quer tanto que isso funcione?

O Uchiha parou com a mão próxima ao interruptor e demorou alguns segundos para responder, parecia procurar por uma resposta que pudesse traduzir tudo o que gostaria de dizer sem ser tão... descarado.

— Porque já estraguei o suficiente.

Aquela era a verdade mais limpa que Obito poderia oferecer e Naomy a aceitou sem mais perguntas. A luz foi reduzida, o quarto mergulhando numa penumbra confortável demais para duas pessoas que fingiam não sentir.

Ele deixou o recinto momentaneamente e a cabeça dela pareceu girar.

"Porque já estraguei o suficiente." essa frase perduraria na mente dela por muito tempo, pois significava muitas coisas inclusive que ele se importava com ela.

Naquela noite Naomy revirou nos lençóis, tentando esperar acordada por ele queria saber onde Obito dormiria e se dividiriam a cama, mas suas ideias morreram quando o moreno adentrou o quarto só de calça com o cós muito baixo e pegou um travesseiro, puxou o que parecia uma segunda cama baixa e deitou ali de barriga para cima, o braço direito dobrado sob a cabeça, o esquerdo repousando sobre o abdômen, os músculos relaxados, mas, ainda assim, definidos sob a respiração calma. Tentou se concentrar em qualquer outra coisa que não fosse a presença dele, ela odiava o fato de estar olhando. Obito, por sua vez, sorriu discretamente para o teto.

Sabia que ela estava acordada. Sentia que ela estava consciente demais da distância exata entre as camas. Sabia que aquela escolha — dormir no chão, a poucos centímetros dela — dizia mais do que qualquer gesto impulsivo poderia dizer.

Ele poderia ter insistido em dividir o colchão, poderia ter provocado e simplesmente não o fez. E talvez fosse exatamente isso que a desestabilizava mais.

— Boa noite, Naomy.

A voz dele quebrou o silêncio. Envergonhada por ser pega no pulo, se virou para o outro lado antes de responder, como se precisasse daquela barreira mínima entre o rosto e a visão perfeita que tinha do corpo dele.

— Durma bem, Obito.

Naomy fechou os olhos, tentou dormir e falhou.

Porque agora, além do cheiro dele impregnado nos travesseiros, havia algo novo preenchendo o espaço entre as camas. Havia a certeza de que ele poderia ter atravessado aquela distância e escolheu não atravessar.

E, paradoxalmente, foi isso que a fez sentir a distância ainda menor.