FORAM PRATICAMENTE EXPULSOS DO ESCRITÓRIO DE ICHI. Naomy respirou fundo e encarou Obito. Nada naquele dia tinha saído como planejou exceto o chá, não precisava de mais drama e complicações em sua vida.

Se fosse parar para pensar, ela só voltou para cumprir com as responsabilidades do clã depois que a mãe “adoeceu”. Se soubesse que tudo não passava de uma armação e da constante insistência e cobranças que teria de lidar teria pedido mais missões ao hokage ou ficado na vila do som.

— Você vai ficar para festa ou prefere ir embora? — Obito notou o corte rápido, tudo indicava que a cabeça dela funcionava a mil e ele não a impediria de esquecer seja lá o que precisava, então ponderou: ficar naquele chá seria reviver as memórias com Rin ou despertar os sentimentos que ele ainda não havia superado. Ir embora era afirmar para Naomy que ele ainda amava a amiga. Não que ela não soubesse, estava mais do que claro que para a castanha que Obito ainda era completamente apaixonado por Rin Nohara. Porém, ela tinha esperanças de que ele fosse honrar o acordo de casamento e principalmente a imagem dela.

O Uchiha respirou fundo ao perceber que a castanha estava aguardando uma resposta de maneira um tanto quanto ansiosa, mesmo que tentasse disfarçar.

— Bom — ele passou a mão pelos cabelos. — Você mesma disse que os homens só vão chegar quando o noivo vier, então não acho certo que eu fique aqui só porque sou seu marido.

Ela emudeceu de vez. Marido. Tá aí uma palavra que ela não iria se acostumar nem tão cedo. Talvez a Naomy de quatorze, quinze, até os dezoito anos estaria mais do que feliz de ouvir isso da boca dele. Mas a atual... Simplesmente ficava nervosa e desconcertada, pois mesmo que Obito tenha sido um idiota com ela, mesmo que tenham ocorrido tantas coisas no passado. No fundo, ainda sentia que gostava dele. Respirou fundo, não o encarou.

— Tudo bem, então venha ao anoitecer. Aproveite pra dar uma conferida na sua correspondência e acertar o horário direito. E ver se você tem todos os requisitos que estão naquele pergaminho que eu enviei. — Ela se preparou pra voltar ao jardim, porém Obito interceptou, segurando a base do seu quimono.

— Bom, o certo é você me levar até a porta, não é? Seu pai mesmo disse que ele tem olhos e ouvidos em todos os lugares. E eu não desconfiaria que houvesse mais alguém, não só do seu clã, como do meu e do conselho também. O que acha, querida? Me leva até a porta. — Ironizou. Por dentro queria matá-lo. Por fora, ela se manteve intacta e imparcial. Respirou fundo, puxou a manga do quimono que ele tinha segurado, ajeitou as roupas, ergueu minimamente o vestido e na sua postura reta passou ao lado dele.

— Vamos?

Obito caminhou ao lado dela com passos controlados demais. Ele estava se segurando para não falar algo que atraísse ainda mais atenção para eles ou ter a famigerada conversar que ela estava evitando, uma vez que ele não falou apenas ela.

O jardim explodia em cores e risadas, mas o corredor parecia um túnel estreito e opressivo onde só existiam os dois.

Naomy não olhava para ele. Não podia. Se olhasse, talvez demonstrasse demais e para completar ele a observava, Obito escaneava o perfil dela notando como Naomy parecia se esforçar para parecer perfeita. A postura estava ereta, o queixo firme e o como sempre silenciosa desde que ele pisou ali pela primeira vez, tão diferente da garota alegre e falante com quem ele costumava dividir doces e fazer missões e isso de certa forma o incomodava, bem mais do que planejou.

— Você vai mesmo fingir que isso não mudou nada? — ele perguntou baixo, só para ela ouvir. Naomy continuou andando.

— Mudou juridicamente — respondeu friamente — Socialmente, ainda não. E emocionalmente… isso depende de você.

Aquilo o acertou e, ele engoliu seco. Pelo olhar de Naomy, ela não se referia a um possível sentimento romântico e sim o modo como aquele contrato poderia ser encarado. Era um impasse que ele precisava ajustar e de preferência rapidamente antes que caísse no erro de perdê-la novamente.

Chegaram na área externa da grande casa onde as pavimentações se estendiam pelo distrito Sarutobi e o vento levantou levemente o tecido do vestido dela e, por um segundo, ele percebeu o quanto estava vulnerável ali. Não fisicamente — ela nunca era fraca fisicamente. Mas exposta. Tinha acabado de assinar um contrato ancestral. Tinha colocado o nome dela ao lado do dele numa linhagem que atravessava gerações.

E ele? Ele estava ali pensando em Rin horas antes. A culpa bateu de novo, dessa vez com mais insistência e ele travou a própria respiração por ter se sentindo um bronco.

— Eu vou honrar o que assinei — disse ele, mais sério agora. Sem ironia e ela parou.

Finalmente o encarou. Os olhos dela não estavam magoados e sim avaliando aquela afirmação, como se ponderasse o que responderia a ele.

— Honrar não é o mínimo, Obito. É o básico. Eu não assinei esse pergaminho para ser sua segunda escolha. — Foi tão direta que ele se sentiu nu diante as palavras e com isso deu um passo mais perto. Não a tocou, mas estava perto o suficiente para que o perfume leve ao redor se misturasse com o cheiro dela.

— Você nunca foi segunda escolha. — aquilo só podia ser ironia. Logo ele dizer uma coisa dessas? Por acaso estava a confundindo com alguma idiota apaixonada que ele quer levar para a cama?

O que Naomy esquecia era que Obito e ela eram apenas amigos e que quando ambos ficaram cientes do noivado eram adolescentes e ele já era caidinho de amores por Rin e que ela nunca chegou a se confessar. Isso justificava as ações dele publicamente quando todos já sabiam? Não obviamente não, mas explicava muita coisa.

Logo ficaram em silêncio. O tipo de silêncio que obriga alguém a sustentar a própria mentira ou assumir a própria fraqueza, elefoi o primeiro a desviar o olhar e isso foi resposta suficiente.

Naomy respirou fundo, retomando a caminhada.

— Você não precisa mentir sobre o que sente. Mas precisa decidir como vai agir. E agir como meu noivo… pelo menos na frente dos outros… exige respeito.

Ela andou dois passos a frente e ele permitiu, isso até chegarem próximos à entrada principal. Algumas pessoas já começavam a notar o deslocamento. Olhares curiosos. Cochichos discretos.

Política social é uma guerra elegante, ao qual ela dominava mesmo detestando e Obito podia sentir a tensão de ser constantemente avaliada por pessoas que sequer faziam parte do seu seio social, então fez algo que não estava no script.

Segurou a mão dela.

Os olhares ao redor imediatamente se intensificaram. Naomy sentiu o toque como um choque elétrico curto e traiçoeiro. O corpo reconhecia antes da mente admitir e ela não conseguia impedir aquela sensação, o Uchiha inclinou-se levemente e murmurou:

— Você quer respeito? Então vamos começar agora.

E, para quem estivesse olhando de longe, pareceria apenas um noivo conduzindo a futura esposa até a porta com naturalidade. Mas os dedos dele estavam quentes demais. E o coração dela tão acelerado quanto. Ainda assim Naomy manteve a postura impecável até pararem diante da entrada.

— Ao anoitecer — ela lembrou, firme e ele assentiu. Antes de soltar a mão dela, apertou levemente em um gesto pequeno e íntimo.

— Senhora Uchiha — disse outra vez, agora sem ironia alguma e foi embora. Naomy ficou ali alguns segundos tentando recuperar a pose antes de retornar ao jardim, era inegável a sensação afoita e certeza de que agora eles estavam oficialmente do mesmo lado.