O CORAÇÃO DA SARUTOBI TINHA RETUMBADO DIVERSAS VEZES NA NOITE ANTERIOR. Quando seu pai avisou do pedido de Obito ela ficou sem saber o que fazer ou como proceder, não queria, não deveria querer.

Mas a curiosidade de saber o que ele queria era enorme. Quando adentrou aquela sala e o viu prendeu a respiração, mas manteve o ar indiferente de quem não estava ligando para a presença dele, quando na verdade tinha prestado atenção em cada pequeno detalhe. Os ombros mais largos, as cicatrizes pelo rosto estavam mais finas e os olhos escuros continuavam tão... bonitos.

“Foco Naomy. Foco. Você não veio aqui para isso” gritou mentalmente, mas quando sugeriu que conversassem sozinhos as coisas pareciam que escorreriam de suas mãos, porém não poderia deixar o pai continuar fazendo aquela cena. Ela tinha escutado parte da conversa quando saiu do jardim deixando a festa que estava sediando e esse era mais uma dos motivos para vê-lo. Queria observar a reação do moreno ao vislumbrar sua antiga paixão em um ambiente diferente.

Muitos chamariam tal ação de vingança, mas, para Naomy era apenas uma pequena compensação por tudo que já tinha passado por culpa das escolhas dele.

— Espero que não se importe, mas estava coordenando um pequeno chá para mulheres. — Ela ergueu um pouco a barra do vestido e Obito notou os sapatinhos de seda bordado, com laços do mesmo tom de lilás do traje amarrado no tornozelo e isso o fez rir de escárnio. Nem em seus melhores sonhos imaginou que um dia veria aquela mulher vestida daquele jeito, parecia uma princesa de tão bela e delicada, como se no meio da batalha não invocasse o rei Emma e desse uma surra coordenada em cada inimigo vestindo um traje tão colado que ele por muitas vezes se pergunto quanto tempo ela demorava para se arrumar.

— Pelo visto seu pai tinha certeza de que você não me daria uma chance. — Afirmou e ela parou abruptamente antes de virar de lado o suficiente para observá-lo de esguelha.

— E ele está certo. Eu não dei, só quero encerrar isso do jeito certo, agora vamos.

Continuo caminhando e Obito teve de se conter para não puxar o braço dela e fazê-la para conversarem ali mesmo. Só o Sábio dos Seis Caminhos saberia descrever o turbilhão que lhe atravessava a mente naquele instante em que ele deixava tudo nas mãos dela, pelo menos por enquanto.

Quando a luz finalmente os atingiu, o cheiro de flores silvestre subiu junto as risadas estonteantes de uma manhã limpa. Naomy e Obito continuavam caminhando pelo passeio da varanda onde os arcos de madeira deixavam uma visão panorâmica de todo o jardim e o que acontecia nele e tinha horas que a curiosidade era uma maldição pois Obito não conseguiu ignorar aquelas risadas, como se seu sexto sentido ordenasse que observasse bem.

— Anda Rin você precisa tirar o sapatinho! — A voz que ecoou era de Hanna Inuzuka, uma das amigas de Nohara que estava segurando o que parecia ser um buquê de ranúnculos brancos e os olhos de Obito congelaram na cena: Rin estava linda, em um vestido branco longo om uma fenda na perna direita, havia uma liga na coxa dela, da mesma cor que o traje porém de renda e nos pés um sapatinho de seda branco igual ao que Naomy usava só mudava a cor. Os fios castanhos dela estavam trançados e no topo da cabeça havia uma coroa de flores.

A Sarutobi finalmente se virou para assistir a reação dele, o coração dela era forte, mas vê-lo ai ainda claramente apaixonado pela amiga era difícil. De fato não estava errada e nem certa, o rosto de Obito exprimia mágoa e ele estava de fato magoado consigo mesmo, com os amigos e com o mundo, sua mente não deixou de elaborar que poderia ser ele ali no lugar de Kakashi, mesmo que o platinado não estivesse presente, depois se reprimiu. Como poderia falar de recomeço com Naomy enquanto parte dele ainda reagia assim? Como ousava pedir uma nova chance se a visão de Rin vestida de branco lhe atravessava o peito dessa forma?

E por fim, quando desviou o olhar de sua antiga paixão e encarou os verde-mel dela percebeu que as coisas não poderia ser mais assim. Não poderia continuar vivendo dividido entre fantasmas do que tanto quis e as possibilidades.

— Já chega. — O Uchiha caminhou até ela, segurou seu pulso com vontade puxando-a para si e em questão de segundos haviam sumido dali.


…


Naomy esperava a frieza do kamui ou qualquer outro lugar, ao invés disso aterrizou em algo fofo,

a cama cedeu sob o peso do corpo, os lençóis amassando, os cabelos se espalhando pelos travesseiros pela ideia dele. Obito ficou encostado na porta a mão nos bolsos enquanto a encarava, a Sarutobi levou menos de um minuto para retomar a compostura e o encarar.

Sério e posturado naquela parede como se fosse o dono de tudo e todos.

— Vamos conversar. — Afirmou e ela respirou calmamente ao ficar de pé.

— Claro, depois de me sequestrar…

O sorriso dele veio enviesado e cínico.

— Não se faça de inocente, você queria que eu atravessasse aquele jardim, não pensou no constrangimento que geraria para ela? — se referiu a Rin e Naomy revirou os olhos.

— Ela sabia que você vinha, todos ali sabiam. O único que ficou sem ação foi você, Rin sabia que você viria só não sabia quando, acho que imaginou que fosse vê-lo depois que Kakashi chegasse já que o noivo e os padrinhos só parecem no fim do chá, você saberia se leses suas correspondências.

Ele engoliu em seco. Mais uma vez havia se precipitado e ela deu de ombros.

— Diga de uma vez o que você quer, ao melhor deixa que eu digo. Precisa que o noivado seja reativado para que o conselho não desconfie não é? Uma coisa é você arrumar uma noiva em uma semana, seria contestado o tempo inteiro e logo expulso, Mas um compromisso com a minha família? Vinte e seis anos de noivado. Ninguém ousaria questionar. — Ela ironizou aquele acordo que veio antes dela sequer poder escolher.

Obito ficou em silêncio, estava incomodado com tudo, o olhar dela, a falta de preparo para passar por aquela situação e acima de tudo a certeza de que a Naomy que ele conhecia, aquela que tinha lhe escrito aquela carta tão doce não existia mais.

— Desculpe. — As palavras saíram sem pensar e o silêncio que se sucedeu foi pior que o esperado. Ela respirou fundo e ergueu a barra do vestido.

— Eu aceito a sua proposta, vamos encenar um casal perfeitamente alinhados em compromissos políticos e, que não vê a hora de se casar. — Dava para sentir a aversão na voz dela. — Agora se me der licença eu preciso retornar ao chá. Como anfitriã, é péssimo desaparecer assim.

Obito não saiu da porta. Ela não tinha aceitado suas desculpas, mas concordou com a ideia sem ele sequer ter tocado nela.

— Temos que conversar.

— Não temos.

— Naomy…

— O quê, Obito? O que você poderia me dizer que eu já não sei? Que se arrependeu? Que esse sentimento veio depois do conselho te pressionar ou de aceitar que ela nunca amou você como homem? Não existe nada que você possa dizer que vá fazer sentido ou justificar o que você fez, então por favor, seja solícito pelo menos uma vez na sua vida e pare de pensar apenas em você. Apenas abra a merda dessa porta e me deixe retornar para meu chá em paz!

Ele não sabia o que era pior, ficar sem palavras diante a verdade ou encarar o olhar claramente entristecido dela. Naomy não merecia aquilo, não merecia a humilhação ou ser tratada como uma espécie de segunda opção e o pior era não saber o motivo dela ter aceito aquele acordo.

— O que você ganha com isso? Por que aceitou? — Ele a encarou e ela sorriu daquela maneira que não chegava aos olhos.

— Para você, as pessoas sempre precisam ganhar alguma coisa, não é? Nem tudo é barganha, Obito. Todos os termos daquele contrato sempre foram imutáveis e nunca me interessaram. Mas, se precisa de uma resposta… eu ganho paz. E isso é tudo que importa para mim.

Naomy não esperou mais, aproveitou que Obito tinha se movido para sair daquele quarto, bastou que descesse as escadas para entender que estava na casa dele, ao abrir a porta e encarar as ruas do distrito Uchiha se sentiu uma idiota pois a notícia de onde saiu e com quem estava logo se espalharia, uma vez que Obito estava logo atrás dela.

Precisava chegar em casa rápido e contar ao pai sua decisão antes que ele soubesse pela boca de terceiros pois aí sim teria mais um grande problema a resolver.