Primeiros erros
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NA MANHÃ SEGUINTE, ao caminhar em direção ao distrito Sarutobi, a vila parecia comum demais para alguém que se dirigia ao próprio julgamento. Crianças corriam, comerciantes organizavam mercadorias, o mundo seguia sem a menor consciência de que, para ele, aquele trajeto era mais difícil do que qualquer missão rank S que já cumprira. Pensou no que diria, ensaiou justificativas que soavam artificiais antes mesmo de serem pronunciadas, tentou convencer-se de que aquilo era uma decisão estratégica, necessária para calar Danzou e consolidar sua posição, mas cada argumento político perdia força quando lembrava do rosto dela no dia do rompimento. Talvez Naomy houvesse aprendido a viver sem o espaço que ele deixara vazio. Talvez o recebesse com a educação que se reserva aos antigos conhecidos, e nada além disso. A possibilidade de indiferença era mais inquietante que a de rejeição.
Quando finalmente avistou o portão do clã Sarutobi, percebeu que, apesar de todo o discurso interno, o que o trouxera até ali não era apenas o desejo de cumprir uma exigência do conselho. Era a dúvida persistente de que, se ela abrisse a porta, ele não saberia mais fingir que não se importava e que estava realmente arrependido.
O coração é uma terra muito complicada, cheia de caminhos arenosos, onde sentimentos mais se assemelham a monstros prestes a te devorar, engolir e massacrar. Era assim com Obito o tempo inteiro. Obito sempre amou a Rin. Passou a adolescência inteira rezando mentalmente para que ela olhasse pra ele da mesma forma que olhava para o seu amigo e rival Kakashi. Se contentava em ser o melhor amigo, em ter migalhas dela, quando na verdade Rin sempre o amou, mas não da forma como ele queria. Não era um amor romântico e não o via como um homem com quem dividiria a vida, mas um amigo, alguém que também tinha seu coração.
E foi isso que o quebrou. Quando Kakashi finalmente compreendeu que poderia ser feliz ao lado dela e teve coragem de dizer o que sentia, e quando Rin chorou não de dor, mas de alívio por ver sua paixão correspondida, Obito não estava presente; soube depois, por vozes alheias, por Kushina, por comentários que tentavam ser cuidadosos e apenas confirmavam o que ele já temia. Foi Minato quem recolheu os pedaços espalhados, quem falou com a serenidade de quem entende que primeiros amores são necessários, mas raramente definitivos; disse-lhe que a vida entrelaça caminhos apenas para ensinar a soltá-los, que talvez Rin não fosse a mulher destinada a ocupar o centro do seu coração, mas apenas a primeira a despertá-lo. Obito ouviu, assentiu, guardou a dor como quem arquiva um documento importante, e decidiu seguir adiante — sempre seguindo, sempre acumulando decisões que pareciam racionais demais para serem inocentes.
Então, agora, ele olhava para aquele portão mais uma vez e respirava fundo.
Naomy e Obito também eram amigos e, ele jamais percebeu que ela olhava para ele da mesma forma que ele olhava para Rin.
Quando terminou o noivado, em nenhum momento ele pensou em como isso a afetaria, em como o clã Sarutobi também era meio cruel nessas questões.
Não é porque Hiruzen vulgo o discípulo de Tobirama e também membro do clã Sarutobi foi ex-Hokage da Vila, que conseguiria mudar todas as políticas internas do clã sozinho. As coisas não funcionam desse jeito. Precisa sempre se eleger um novo conselho, seja para a vila, ou seja, para clãs. Então sim, Naomy comeu o pão que o diabo amassou depois que ele finalizou o noivado.
E o que deixou a Sarutobi em frangalhos não foi a rejeição pública. E sim o fato de que ele, em momento algum se preocupou com ela quando dizia que era sua amiga, ou que parou para conversar antes de tomar aquela decisão para que pudessem pensar em algo que fosse beneficiar a ambos e aí sim, chegar naquele local e encerrar o noivado. Mas não foi isso que ele fez. EEle esperou até o último momento e transformou o que poderia ter sido um acordo maduro em um teatro constrangedor, deixando-a no centro de um palco onde não escolhera estar. Foi isso que Naomy sentiu naquela época.
Ichi o recebeu com frieza. Não via em Obito um motivo para lhe dar um sorriso, desde que humilhou sua filha. Ele mesmo jamais perdoaria isso, assim como a mãe dela. Então poupou a senhora Sarutobi de tal presença.
Quando caminharam até a sala de chá, o ar parecia mais denso. Alguns membros do clã observavam Obito com olhares enviesados o condenando. Não havia crianças por perto, exceto Konohamaru, que atravessou o corredor correndo, rindo alto demais para aquele ambiente, antes de ser contido por uma repreensão seca — já deveria estar na escola. A leveza infantil desapareceu tão rápido quanto surgiu, e o silêncio voltou a ocupar o espaço como um terceiro interlocutor.
Ichi sentou-se diante dele e, finalmente:
— O que você quer com a minha filha? Não venha me dizer que voltou, mudou de ideia e decidiu reaver o noivado como se tivesse algum direito sobre aquele contrato. Você rasgou aquilo. O respeito, a política e tudo o que poderia ter sido no momento em que agiu como um garoto. Então seja claro. E depois vá embora.
Por alguns segundos Obito cogitou a hipótese de que ele estivesse mentindo, já que não era bem assim que a conversa deles tinha sucedido no telefone. Ele respirou fundo, abriu bem aqueles olhos escuros como a noite e olhou para Ichi como se olhasse no fundo de sua alma.
— O que eu fiz com Naomy não foi certo. Fui um covarde, idiota e um estúpido apaixonado por uma mulher que nunca me quis do jeito que eu queria. Está satisfeito? Eu fui tudo isso. — A confissão chegou a soar desconfortável. — Só que o quê eu tenho a falar com Naomy é somente com ela. E sim, eu quero me casar com a sua filha.
Ichi pressionou os lábios, apoiou os cotovelos sobre a madeira polida, entrelaçou os dedos e descansou o queixo sobre as mãos, avaliando se valia a pena o risco. Para ele, aquilo só podia ser cálculo político. Um novo noivado conveniente. Uma aliança reciclada. Mas ele não imaginava que o Uchiha teria culhão de pedir a mão de sua filha novamente, depois de ter terminado um noivado que já estava predestinado a ele desde o momento em que nasceu.
— Você quer noivar com ela porque o seu cargo no conselho depende disso? — afirmo, sem elevar o tom. — E quando garantir a cadeira que deseja, vai “surtar” de novo e terminar com a minha filha? Vai deixá-la com a fama de ter sido descartada pelo conselheiro de Konoha? Não vejo vantagem nisso para o meu clã.
Havia ali não apenas desconfiança, mas memória do dia em que Naomy permaneceu de pé diante de todos, sustentando a própria dignidade enquanto o noivo desfazia o que fora anunciado como destino.
— Se você quer realmente a mão dela, — continuou Ichi, — terá de me dar motivos que não sejam o seu querer. Até agora, só escutei isso: o que você quer. E isso já não basta.
Obito sentiu o peso de suas ações, finalmente compreendeu que a honra tardia não é argumento suficiente quando confiança foi quebrada. Estava diante de um pai que exigia algo mais sólido do que emoção tardia. Ele percebia ali que, mesmo dizendo que se tratava do clã, Ichi estava com o coração ferido pela filha.
Obito suspirou, sabia que seria difícil. Sabia que mesmo cara a cara não conseguiria de primeira. Mas estava confiante de que conseguiria ao menos falar com Naomy ou olhá-la nos olhos e pedir perdão. Era tudo o que ele queria, uma conversa franca com ela. Queria dizer a Naomy aquilo que não tivera coragem de dizer quando ainda era tempo de evitar o desastre. Pensou, por um segundo fugidio, que talvez implorar funcionasse, que talvez se ajoelhar fosse a forma mais honesta de admitir a própria falha; mas algo nele — não orgulho, e sim dignidade — recusava a ideia de transformar arrependimento em espetáculo.
Ergueu o olhar novamente para Ichi determinado a não sair dali sem vê-la.
— A minha palavra pode não valer nada para o senhor — afirmou com a voz firme, ainda que baixa —, mas é tudo o que tenho neste momento. Não quero tratá-la como um acordo conveniente, e não vou tratá-la como um objeto que se devolve à prateleira quando deixa de ter serventia. O que peço é simples: deixe-me falar com a sua filha. Ela é adulta. Tão adulta quanto eu. E nós dois somos capazes de resolver o que ficou mal resolvido.
O Sarutobi mais uma vez pareceu ponderar, não respondeu, o que levou Obito a continuar:
— O que preciso do senhor é da sua aprovação para que essa conversa aconteça sem ser vista como afronta. O noivado… — hesitou por um instante, consciente da delicadeza da palavra — …nunca foi oficialmente desfeito, foi suspenso. Eu sei que o senhor se recusou a declarar o cancelamento definitivo. Se houver consentimento dela, podemos reabrir aquilo que foi interrompido. Mas se Naomy não quiser, se ela me disser que não há mais nada a ser dito, eu mesmo me retiro. E prometo que nunca mais voltarei a incomodar sua família.
Ichi continuou sério, achava Obito petulante, não temia as consequências de uma rechaça por não considerar o pedido dele. Agora com uma veia sobressaltada, bateu a mão na mesa fazendo a porcelana tilintar e Obito se conter para não revirar os olhos, no fundo, já estava cansando daquela conversar que parecia que não daria em lugar nenhum.
— Como ousa tentar me dizer o que fazer? — a indignação paternal falou mais alto. — Já não causou estrago suficiente e…
— Já chega, papai.
A voz veio do corredor tão bela e graciosa como sempre. Obito não sabia porquê, mas sentiu um arrepio intenso na coluna passando por cada vértebra quando a ouviu e tudo piorou quando desviou o olhar e a viu entrando na sala.
Naomy vestia um quimono lilás claro, delicado como o início da primavera, com uma camada translúcida que repousava sobre o tecido rendado; bordados de lavanda serpenteavam pela barra como se flores tivessem decidido fixar morada ali. Os cabelos longos, castanhos, caíam soltos pelas costas, ondulando com um movimento quase imperceptível a cada passo. Os olhos verde-mel — aqueles mesmos olhos que um dia o acompanharam em treinos, risadas e promessas imprudentes — agora o encaravam com uma firmeza nova, adulta, controlada. A pele marrom-clara parecia luminosa, como se ainda trouxesse sobre si o vestígio de uma cerimônia recente, de algo que ele não fazia parte.
Ichi ajustou os óculos e sorriu ao vê-la, e o rubor que lhe tomou as bochechas contrastava com a rigidez anterior.
— Minha princesa…
— Eu sei o que o senhor estava fazendo — ela o interrompeu outra vez, suave na forma, inflexível no conteúdo. — E agradeço. Mas ele está certo. Essa conversa precisa acontecer entre nós dois. Cara a cara. Para encerrar de vez essa etapa.
Obito pode ver o olhar distante e sentiu como se uma faca fosse cravada entre as costelas.
“Puta que pariu, o que foi que eu fiz?” Foi isso que passou na mente dele, enquanto ela olhava mais uma vez sem dizer nada.
O pai respirou pesado, passou a mão no rosto, erguendo óculos e o colocando de volta no lugar. Depois com um menear de mão, balançou.
— Vá, então. Vá de uma vez. — O aviso veio logo em seguida, pesado. — Mas saiba que tenho olhos e ouvidos em todos os lugares. Um passo fora da linha e…
— Papai, por favor r — Naomy interveio, agora com uma ponta de cansaço na voz. — Não piora.
Houve um segundo de silêncio. E então ela se voltou para Obito.
— Vamos conversar no jardim.
Ela não esperou resposta. Apenas saiu. Obito piscou algumas vezes antes de entender e fez o mesmo. Se afastou, pediu licença ao líder da família e seguiu o rastro do perfume dela. Cada vez que respirava, ele fechava os olhos lentamente, sentindo o aroma que o teletransportava para lembranças do passado, onde duas crianças felizes riam como se não houvesse guerras de todos os lados, como se todos não quisessem devastar Konoha. E depois ele abriu os olhos e voltava à atual realidade, onde tudo estava bem, menos as próprias decisões.
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