NAOMY ESTAVA IRRITADA, NÃO PELAS PROVOCAÇÕES DE OBITO, MAS SIM PELO PRÓPRIO CORPO GOSTAR DE CADA UMA DELAS.

O jantar foi regado de conversas, apesar de poderem aproveitar para criar um enredo sólido daquela mentira, eles aproveitaram para esclarecer cada erro do passado e constrangimento que passaram.

— Sinto muito. — Foi o que Obito tinha lhe dito quando bebeu um pouco do saque. — Eu jamais deveria ter desmanchado o nosso noivado daquela maneira. Eu não..

— Devia ter me deixado passar pela humilhação da rejeição sozinha? — Naomy completou, dessa vez virando o saque de uma vez só. O Uchiha se calou no processo e ela respirou fundo, se era para ser sincera e desabafar, então faria de verdade, colocaria para fora o nó que tanto estava preso envolta de seu coração e a impedia de prosseguir solenemente.

— Sabe... Eu jamais liguei para isso. Humilhação pública e os pensamentos gritantes dos outros a seu respeito. Isso era com o meu clã, Sarutobis são tão antigos quanto os Uchihas. Depois que a aldeia da folha foi fundada Hyuuga e Sarutobi foram os primeiros clãs a se estabelecerem terem suas leis e individualidades respeitadas, mesmo que estivessem dentro do território governado pelos Senjus então, o que repercutiu em mim não foi a sua humilhação e sim a responsabilidade negada como o meu clã.

Ela respirou fundo e então encarou o pires vazio de saque, derramou um pouco de mais bebida na cerâmica fria e rodeou a peça entre os dedos com cuidado.

— Ter de ouvir a severidade de escolhas com a qual eu não quis e não era minha obrigação foi só a ponta, eu passei anos convivendo com as regras ainda mais elevada e tendo tantos pretendentes ao seu lugar por mês que a lista de dispensa chegou a ser fixada na parede do escritório do meu pai. As pessoas não são civilizadas quando uma "mimadinha arrogante só porque é filha do líder do clã, escapa de suas pendências." Eu fui rechaçada dentro do meu próprio ambiente familiar e social, fui tratada como a desgraça dos Sarutobi e os poucos momentos de paz que eu tinha eram com meu tio que não tinha muito tempo para me ceder, tudo isso enquanto Konoha enviava crianças para guerra, quando tínhamos problemas maiores para lidar e claro, muito mais atos e sistemas políticos do que um coração humano sendo visto com importância.

Obito desviou o olhar constrangido, se sentia até mesmo estúpido pela singela desculpa. Naomy olhou no fundo dos olhos dele antes de prosseguir:

— Se você tivesse me incluído no seu plano de recusa, ele teria sido bem aceito. Sabe... não tem como uma relação unilateral dar certo. Amar você foi um erro de uma adolescente estúpida que por um breve momento acreditou que poderia dar certo, mas pelo visto até mesmo a consideração pela nossa amizade você rejeitou, então não se sinta desconfortável quando eu recuso a sua desculpa. Eu acredito nela, mas é só isso sabe?

O silêncio que caiu fez o ar adquirir peso próprio e se acomodar entre eles, impedindo qualquer movimento brusco. Obito não respondeu de imediato, a mente dele girava tanto sobre as questões que ela levantou que, pela primeira vez naquela noite, ele não tinha uma provocação pronta, nem um comentário atravessado, nem um sorrisinho torto para se esconder atrás.

Ele só... ficou Ali.

Absorvendo.

Cada palavra dela parecia ter encontrado seus pontos fracos com precisão cirúrgica, como kunais bem lançadas — não para matar, mas para deixar claro que poderiam e faria com que doesse e sangrasse tanto quanto estava sofrendo.

Os dedos dele ainda seguravam o pequeno copo de saquê, mas o líquido já não importava. O gosto tinha sumido e a leveza também do momento também.

Naomy, por outro lado, parecia estranhamente mais... estável. Como se, ao finalmente abrir aquela ferida antiga, tivesse retirado o veneno junto.

Ela não tremia ou chorava e, isso fez com que Obito se questionasse o quanto ela havia tremido e até mesmo se debulhado em lágrimas ao longo dos anos. Não por sua causa e, sim pela situação. Ela também não levantava a voz e para o Uchiha, era pior. Muito pior. Porque significava que aquilo era algo que ela carregava há tempo demais.

Ele passou a língua pelo interior da bochecha, desviando o olhar por um instante, como se estivesse organizando pensamentos que nunca precisou organizar antes. Obito Uchiha sempre foi ação. Instinto. Reação.

Mas aquilo exigia outra coisa. Precisou olhar para dentro de si verdadeiramente, vagar pelos vales do tempo que silenciou e estavam entre aquela situação humilhante, a tensão por ser rejeitado por Rin e o agora, onde ele não conseguia deixar de sentir ou pensar na Uchiha.

— Eu fui covarde. — a voz saiu mais baixa do que o habitual, sem força performática, sem orgulho. Crua.

Ele apoiou o cotovelo na mesa, passando a mão pelo rosto, exalando lentamente.

— Não tem outro nome bonito pra isso. Eu podia inventar mil justificativas... falar da guerra, da pressão, do que eu sentia naquela época... mas no final... — ele soltou um riso curto, sem humor — eu só não quis lidar.

Os olhos dele voltaram para ela, dessa vez sem arrogância ou a costumeira provocação.

— E você pagou por isso.

Ele não tentou se aproximar. Como se entendesse, instintivamente, que qualquer tentativa de suavizar com contato físico agora seria ofensiva e o ultimo prego para fracassar de vez com aquela relação.

— Você está certa em recusar — continuou, firme, mesmo que cada palavra parecesse rasgar um pouco do próprio ego. — Eu não tenho direito de esperar que um mero "sinto muito" resolva anos do que você passou. — A mão dele apertou levemente o copo. — Mas não foi falta de consideração por você.

Uma pausa.

— Foi falta de coragem minha. — O olhar dele suavizou minimamente, mas havia algo mais ali agora... algo mais perigoso do que a provocação de antes. Era a consciência das escolhas que ele evitou ver. — E eu não vou fazer isso de novo.

Não foi uma promessa grandiosa. Ele só queria afirmar como quem estabelece uma regra interna, que não faria com que ela passasse por outra situação como aquela nunca mais. Aquela sim era uma linha que ele mesmo não pretende cruzar outra vez.

Obito então recostou-se na cadeira, finalmente soltando o ar preso nos pulmões, como se aquele pequeno ato de admitir tivesse custado mais do que qualquer luta que ele enfrentou até ali.

Os olhos dele passaram por ela mais uma vez, com menos fome... mas não menos intensidade.

— Você pode continuar achando que isso é só um contrato. — disse, agora mais calmo, quase controlado demais. — Eu entendo o porquê.

O canto da boca dele se ergueu minimamente, mas não era o sorriso provocador de antes.

Era algo mais contido e teimoso.

— Mas eu não vou agir como se fosse. Essa é a minha decisão Naomy e sei que serei capaz de fazer com que perceba a transparência das minha intenções.

A cabeça de Naomy martelou uma, duas, três vezes... A versão dela de quinze anos teria adorado ouvir aquilo, mas a versão atual era velha de guerra e, por mais que quisesse acreditar nele e ficar satisfeita com aquelas palavras ou até mesmo feliz por ele finalmente vê-la como uma opção. Havia outra parte que deixava algo amargo e cruel transbordar dentro de si.

Aquela que gritava que ela era a segunda opção, o resto ou ainda a opção mais fácil. Ele precisou acabar com os problemas para entrar na comissão e ela com a pressão familiar então pronto. Como num passe de mágicas todos os problemas relacionados a "vida privada" sumiram, a questão é que nada mudava o fato de que ele sempre quisera a Rin, que estava com ela ali por cauda do que ambos precisavam, claro que isso já era um passado resolvido entre eles, mais o coração de Naomy fazia questão de trazer tudo à tona novamente.

Não fora o suficiente da primeira vez, por que seria diferente agora? só por que estavam juntos?

Se fosse sincera consigo mesmo teria ficado com o Hyuuga e jamais aceitado ajudar o Uchiha que agora era seu marido. Querendo ou não, mesmo conhecendo a situação que ela passou no passado com o moreno do time sete, isso não mudou em nada o seu querer e sua vontade de tê-la por perto ou de querer ela como sua esposa. O clã Hyuuga com toda certeza era conhecido por sua severidade, mas Naomy tinha certeza de que se tivesse aceitado ficar com ele teria o convencido de permanecer em seu clã, afinal de contas Kaya era pequena e, por linhagem ela seria a sucessora do clã. Algo que faria com muito gosto para poder calar a boca dos outros e mudar as regras de dentro para fora, algo parecido com o que Obito queria fazer por dentro do conselho de Konoha.

Munida por esses pensamentos foi que seus pensamentos e repostas agridoces escaparam sem filtro:

— Engraçado... — a voz saiu baixa, mas firme, como uma lâmina bem posicionada. — Você fala como se estivesse descobrindo isso agora. — Ela inclinou levemente a cabeça, observando-o com uma calma que não combinava com o turbilhão interno.

— Como se eu tivesse sido uma... consequência.

Uma pausa.

— E não uma escolha. — Os dedos dela cessaram o movimento no copo, deixando-o imóvel sobre a mesa. — Eu sei o que nós somos, Obito. — continuou, sem elevar o tom, mas cada palavra carregava um peso difícil de ignorar. — Um acordo conveniente. Um encaixe perfeito pra resolver problemas que nenhum dos dois quis enfrentar sozinho.

Os olhos dela não vacilaram.

— Você precisava estabilizar sua posição. Eu precisava parar de ser um problema dentro do meu próprio clã. — Ela soltou um pequeno suspiro pelo nariz, quase irônico. — E olha só... funcionou. Funcionou bem demais.

O silêncio que se estabeleceu expunha todos os sentimentos, os colocava na mesa sem adornos.

— Só que isso não muda uma coisa — os olhos dela suavizaram minimamente, mas havia algo duro ali, algo que não cedia fácil. Todo aquele receio interno ainda estava presente — Você não me escolheu naquela época.

E ali estava o ponto.

O núcleo.

A ferida que não cicatrizou direito.

— E agora... — ela hesitou por um segundo, quase imperceptível, mas o suficiente para denunciar que aquilo ainda tocava fundo. — Agora eu não sei se você está me escolhendo... ou só ficando com a opção que sobrou ou sem opções.

Aquilo doeu mais nela do que nele e era visível. Não pelo tom, mas pelo leve tencionar da mandíbula, pelo jeito como ela desviou o olhar por um instante, como se odiar aquela própria vulnerabilidade fosse parte do ritual.

— Eu não sou... segunda opção de ninguém. — completou, mais baixo agora, mas ainda firme. — Nunca fui. Só demorei pra perceber isso.

Por um segundo, o ambiente pareceu menor. Aquilo não era apenas sobre o passado e sim o agora. Sobre o que eles estavam construindo... ou fingindo construir.

Naomy voltou a encará-lo, dessa vez, sem máscaras.

— Então, se você quer agir como se isso não fosse só um contrato... — o olhar dela encontrou o dele com uma intensidade que não tinha nenhum receio — começa sendo honesto comigo.

Uma pausa.

— E principalmente com você mesmo.

O restaurante inteiro parecia ter desaparecido, deixando apenas os dois... e tudo aquilo que ainda não tinha sido resolvido entre eles.