A MENTE DE OBITO PARECIA UMA OFICINA BARULHENTA.

Engrenagens girando, peças batendo umas nas outras, hipóteses surgindo e sendo descartadas no mesmo segundo. Ele tentava entender aquele afastamento estranho de Naomy desde que haviam saído de Konoha.

Mas nada encaixava.

Não completamente.

Cada pensamento que ele formulava terminava no mesmo ponto irritante: Orochimaru.

Naomy continuava seguindo pela floresta com o foco de uma kunoichi em caça. O olhar atento, os sentidos abertos, analisando trilhas, rastros, qualquer sinal que pudesse indicar a passagem de um dos homens da Vila do Som.

Para Obito, porém... Ela parecia distante. Como se parte da mente dela estivesse em algum outro lugar, talvez lembrando das aulas com o sannin traidor, das conversas antigas, dos ensinamentos que ele lhe dera.

Aquilo o irritava mais do que ele gostaria de admitir.

Porque enquanto ela parecia mergulhada nesses pensamentos, ele estava ali... tentando descobrir como consertar algo que nem sabia exatamente onde havia quebrado.

Quando finalmente atravessaram a última faixa da floresta, o cenário mudou. As árvores se abriram e a pequena cidade de Muishi, no País do Arroz, surgiu diante deles.

Era um lugar curioso.

Lanternas de papel começavam a ser acesas nas ruas estreitas. Pequenos restaurantes liberavam no ar o cheiro quente de caldo, peixe grelhado e arroz recém-cozido. Havia mercados fechando as portas do dia, comerciantes recolhendo cestos, crianças correndo antes que os pais as chamassem para dentro de casa.

O céu já estava mergulhando naquele azul profundo que antecede a noite. Quando chegaram ao centro da cidade de Muishi, no país do arroz, decidiram se hospedar por lá. Seria mais fácil se passarem por um casal de recém-casados turistando e descobrindo tudo o que havia para ser descoberto na manhã seguinte. Afinal de contas, já estava começando a escurecer. Precisavam descansar, de uma boa refeição e de um bom quarto de hotel.

Óbvio que a ideia de se passarem por um casal de recém-casados era dele. Afinal, era muito mais fácil comprarem aquela mentira do que fingirem ser uma dupla de amigos. Fora que Obito não queria ficar em um quarto separado do dela. Primeiro, porque queria se resolver com ela; segundo, porque temia que ela o deixasse ali e fosse procurar pelo mestre sozinha.

— Vamos ficar aqui. — Ele quebrou o silêncio sem se importar com a incerteza dela. Naomy virou o rosto em sua direção um pouco confusa.

— Muishi?

— Uhum.

Ele colocou as mãos atrás da cabeça com aquele ar preguiçoso que costumava usar quando estava pensando rápido demais.

— Se Orochimaru tiver qualquer interesse nessa região, alguém aqui deve saber alguma coisa. — explicou. — Informações sempre começam nas cidades pequenas.

Ela analisou a vila por um instante.

A lógica fazia sentido.

E, além disso, a noite já estava chegando. Eles passaram tanto tempo se segurando apenas na base do chakra que uma hora o corpo iria ceder.

— Certo.

Eles caminharam pelo centro da cidade, misturando-se facilmente aos poucos viajantes e comerciantes que ainda transitavam pelas ruas. Foi então que Obito resolveu aumentar aquela proximidade precisava acabar com aquele problema de uma vez.

— Vamos dizer que somos recém-casados.

Naomy parou, virou o rosto lentamente para ele.

— ...o quê? — Um pequeno sorriso torto surgiu no rosto do Uchiha. Eles já eram recém-casados, mas fingir fora de Konoha seria ainda mais intenso.

— Turistas recém-casados. — repetiu, dando de ombros. — Funciona melhor.

Ela cruzou os braços entrando numa defensiva descabida. No fundo só não queria ter de brigar com ele mais um vez e reviver qualquer sentimento que nem deveria ter começado.

— Por quê exatamente?

Obito levantou um dedo, começando a enumerar.

— Primeiro: ninguém faz muitas perguntas para um casal em lua de mel.

Segundo dedo.

— Segundo: pessoas adoram ajudar recém-casados perdidos.

Terceiro dedo.

— Terceiro: hospedagem mais fácil. — Ele fez uma pausa. Depois completou casualmente. — E um quarto só.

Naomy estreitou os olhos para ele.

— Você pensou nisso rápido demais.

Obito deu um meio sorriso descarado.

— Sou um homem eficiente. — Naomy sentia de longe que algo naquela afirmação era mentira, ainda assim concordou com ele. Pararam diante de uma pequena hospedaria de madeira, iluminada por lanternas amarelas.

Um letreiro simples balançava com o vento.

Naomy suspirou baixo, aturar aquela situação não passou pela sua cabeça. Não daquela forma, pois sentia que Obito estava tramando algo.

— Recém-casados... — murmurou. Obito inclinou um pouco o corpo na direção dela, aproximando o rosto do ouvido dela com aquela naturalidade irritante de sempre. A voz dele saiu baixa e divertida.

— Relaxe, esposa. — A respiração quente dele roçou de leve na pele do pescoço dela. — Vamos só vender bem o papel.

Então ele se afastou e abriu a porta da hospedaria como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Boa noite! — disse para a atendente. — Um quarto para mim e minha esposa, por favor.

E lançou para Naomy aquele olhar de canto. O tipo de olhar que parecia dizer: Agora aguenta o teatro.


[...]


Para Naomy, não era nenhum problema fingir serem recém-casados — afinal de contas, realmente eram. Fazia pouco mais de uma semana que estavam nesse casamento, e isso já era muito.

O verdadeiro problema era que Obito queria dividir o quarto com ela, a cama e, principalmente, Naomy tinha certeza de que a ideia dele de fingirem ser algo que já eram era justamente para impedi-la de procurar Orochimaru sozinha. Ela tinha certeza disso. Claro que isso não a impediria de sair de fininho.

Ela caminhava ao lado dele pelas ruas de Muishi, as lanternas de papel iluminando a estrada com aquela luz dourada suave. O aroma de arroz recém-cozido, caldo quente e peixe grelhado se espalhava pelo ar frio da noite.

Mas enquanto os olhos dela analisavam a cidade, a mente já trabalhava em outra direção. Não sairia agora, seria estupidez.

Obito estava atento demais e Naomy sabia muito bem que ele era cabeça-dura o suficiente para segui-la até o inferno se percebesse qualquer movimento suspeito.

Não.

Se fosse agir, faria do jeito certo.

Com inteligência.

Ela conhecia perfeitamente o Kage Bunshin no Jutsu. Não apenas o básico. O domínio dela sobre clones era refinado graças ao treinamento rígido que recebera de seu tio, Hiruzen Sarutobi.

Manter um clone ativo consumindo chakra? Óbvio que sim, porém, não era problema. Um clone poderia permanecer ao lado de Obito, conversando, caminhando, até mesmo dormindo... enquanto a verdadeira Naomy desapareceria pela cidade atrás do rastro de Orochimaru.

Mas o momento precisava ser perfeito.

Não agora. Talvez amanhã à tarde. Talvez quando Obito estivesse distraído o suficiente para não perceber pequenas diferenças.

Ela suspirou mentalmente.

Porque conhecendo aquele homem... distraí-lo não seria tarefa simples. Eles continuaram caminhando pelas ruas de Muishi, misturando-se aos moradores e viajantes. E foi então que Obito fez algo simples.

Algo pequeno mas absurdamente irritante.

Ele pegou o pulso dela delicadamente. Os dedos dele envolveram o pulso dela de maneira natural, como se aquilo fosse um hábito, a coisa mais comum do mundo ao guiá-la daquele jeito pela rua.

— Por aqui. — murmurou ele. O polegar roçando levemente a pele dela e o coração de Naomy disparou ridiculamente.

Ela odiou isso.

Porque não fazia nem uma semana que haviam dividido a mesma cama pela primeira. Não fazia nem uma semana desde aquela madrugada em que ela acordara nos braços dele e agora ele estava ali novamente, calmo, próximo e carinhoso. Logo depois de brigarem.

A mente dela imediatamente levantou a guarda.

"Ele só está tentando me amansar."

A conclusão parecia lógica. Obito era inteligente. Talvez estivesse tentando baixar a tensão entre eles, manter tudo estável até o fim da missão.

Talvez fosse apenas estratégia ou um tipo de controle. Mas outra parte dela... uma parte mais silenciosa, mais inconveniente... ousou levantar outra hipótese.

E se não fosse só isso? E se ele realmente estivesse tentando fazer aquilo funcionar? Naomy apertou um pouco os dedos da mão livre, irritada consigo mesma por sequer considerar essa possibilidade.

Enquanto isso, Obito continuava andando normalmente, conduzindo-a de leve pela rua até pararem diante de um restaurante pequeno, mas movimentado.

Ele soltou o pulso dela apenas para abrir a porta, depois colocou a mão nas costas, guiando-a para dentro. Era tão... íntimo, natural e perigosamente confortável que Naomy se sentiu novamente como uma adolescente.

— Vamos comer primeiro. — disse ele, tranquilo. — Depois vemos o quarto.

Então inclinou um pouco a cabeça na direção dela, os olhos escuros carregando aquela expressão arisca e divertida.

— Uma lua de mel descente exige uma boa refeição, não acha, esposa? — A palavra saiu com um peso estranho. E Naomy percebeu, com um certo desgosto interno... que o coração dela tinha acelerado de novo.

Ele riu de leve e ela notou as bochechas dele avermelhando enquanto caminhavam em direção a mesa indicada.

— Sabe... enquanto eu terminava o nosso check-in — disse ele, como quem comenta o clima. — Indicaram até um hotel silencioso. Ao que parece, o melhor. Com paredes a prova de som.

O cérebro de Naomy travou por meio segundo.

Depois entrou em combustão. Dessa vez foi ela que sentiu o rosto aquecer, aquela conversa estava estranhamente constrangedora. E a pior parte era que a mente dela, traidora e extremamente vívida, começou a produzir imagens que ela definitivamente não tinha autorizado.

Naomy se pegou pensando: Que tipo de som Obito faria? Ele seria silencioso? Ou daqueles que...

Fechou os olhos por um segundo.

"Em nome de Rikudou... Que pensamento ridículo."

Ela não era mais uma adolescente para ficar imaginando essas coisas no meio da rua.

Se julgou antes de respirar lentamente tentando recuperar a compostura enquanto o calor ainda queimava sua face.

— Você está começando a se divertir demais com isso não acha? — Ela manteve a seriedade, mas Obito não se constrangeu. Pelo contrário, ele a puxou mais para si e deslizou os dedos pela cintura curvilínea antes de apertar. O gesto fez um arrepio subir pela espinha dela.

— Recém casados transam. — disse ele com a maior calma do mundo. Os olhos escuros dele desceram para ela por um instante, carregados daquela provocação preguiçosa que ele parecia dominar quando estavam juntos.

— Estou apenas entrando no personagem. — Houve uma pausa minimamente perceptível e Naomy tinha certeza que ele definitivamente deu ênfase na palavra entrando, mas preferiu não cair nessa. Ainda assim deixou que ele continuasse tocando-a daquela forma tão íntima e, que ela gostava mesmo sem assumir, assim mantinham o disfarce independente do que aquelas sensações estavam causando a ambos os corações.

Ninguém suspeitaria de dois shinobi de elite de Konoha naquela cena doméstica e banal. O único problema... era que aquelas pequenas interações estavam começando a causar algo nos dois que não fazia parte de missão nenhuma.

E Naomy tinha a sensação incômoda de que Obito sabia disso perfeitamente o que estava aprontando.

"Canalha." Ela pensou. Ele continuou tranquilamente, ainda com a mão na cintura dela, mesmo que já estivessem de frente para a mesa. Obito inclinou a cabeça para ela, o sorriso torto reaparecendo.

— Sente-se, esposa. — E então murmurou, baixo o suficiente para que apenas ela escutasse: — Se você ficar corando assim toda vez que eu falar de lua de mel, vão achar que eu realmente fiz um bom trabalho. — Os olhos dele brilharam com uma malícia divertida. No fundo estava adorando provocá-la.

— E ainda nem chegamos no hotel.