OBITO ACORDOU ALGUNS MINUTOS DEPOIS, AINDA MEIO PERDIDO ENTRE O CALOR DO SONO E A MEMÓRIA DA NOITE ANTERIOR. A primeira coisa que percebeu foi a ausência. O lado da cama estava vazio e ainda morno.

Ele abriu os olhos devagar, passando a mão pelo espaço onde Naomy havia dormido. O travesseiro ainda carregava o perfume dela. Aquilo fez algo estranho apertar no peito dele e então a memória voltou.

O corpo dela encaixado no dele durante a madrugada, os cabelos espalhados sobre o peito dele e a respiração tranquila contra sua pele.

Obito passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro baixo, a ereção matinal estava presente de uma forma que tinha mais haver com o fato de que não parava de pensar nas curvas da esposa.

Desde então, o pensamento não o deixava em paz. A maciez do corpo dela, a forma como ela se encaixava ali como se sempre tivesse pertencido àquele espaço.

Era irritante.

Porque agora ele sabia exatamente o que estava perdendo ao manter distância. Ele se levantou por fim, vestindo uma camisa simples antes de descer as escadas.

Naomy já estava na cozinha.

O cheiro de café preenchia o ambiente, misturado ao aroma do arroz e do peixe grelhado que ela havia preparado. Ela estava de costas quando ele entrou, os cabelos ainda um pouco úmidos do banho, presos de maneira simples.

Obito encostou no batente da porta por um segundo.

Observando.

Ela parecia tranquila demais para alguém que, poucas horas antes, estava dormindo praticamente abraçada a ele e, tinha certeza que parte daquela calmaria era falsa, uma vez que Naomy disfarçava demais seus próprios sentimentos.

— Você acordou cedo — comentou, a voz ainda rouca do sono. Naomy virou o rosto apenas o suficiente para olhá-lo de canto.

— Alguém precisa garantir que não vamos sair de casa de estômago vazio.

Ele deu um pequeno sorriso e sentou-se à mesa percebendo que ela não queria falar mais. O café da manhã foi simples e silencioso. Um tipo de quietude carregada de pensamentos que ambos evitavam colocar em voz alta, afinal nenhum dos dois sabia se posicionar sobre os sentimentos, pois sentiam que estavam avançando rápido demais.

Depois de comerem, começaram a se preparar. Equipamentos, armas, pergaminhos e tudo mais que poderia ser utilizado.

Naomy vestiu o traje de missão, ou seja, o mesmo macacão preto que o desestabilizou um tempo atrás, amarrando a capa sobre os ombros enquanto Obito ajustava o próprio colete ninja.

Quando finalmente saíram de casa, o sol já iluminava os telhados de Konoha. Atravessaram os portões da vila sem dificuldade, recebendo alguns cumprimentos dos guardas e então vieram as árvores.

A floresta densa que cercava Konoha os engoliu rapidamente enquanto avançavam pelos galhos altos, saltando de tronco em tronco com a familiaridade de dois ninjas experientes.

Durante um bom tempo, apenas o som do vento e das folhas acompanhou o trajeto, até que Obito falou.

— Precisamos alinhar isso agora. — O tom dele estava diferente, mais sério, ao ponto de Naomy reconhecer o ninja de elite ao invés do marido com tendências diplomática, ela desacelerou um pouco o ritmo para ouvi-lo melhor e, observar ao redor. Não parecia haver ninguém, ainda assim ela executou um selo de mão, utilizando apenas a esquerda o que capturou a atenção de Obito pela precisão, quando ele menos esperou, ela mordeu o polegar e das gotas de sangue invocou o que tanto precisava.

— Certifiquem-se de que não haja surpresas. — os bichinhos assentiram antes de se infiltraram no solo e ficarem invisíveis.

"Minhocas comedoras de chakra. Nunca imaginei que ela soubesse invoca." Pensou.

Alguns minutos se passaram desde que os bichinhos sumiram e ambos ficaram em silêncio até que Naomy sussurrou algo que ele não compreendeu.

— Pode falar está tudo liberado, há anbus em pequenos perímetros há seis quilômetros e o resto são os ninjas de elite de Danzou patrulhando as redondezas, mas não serão capazes de nos ouvir daqui e elas avisaram se chegarem perto.

O jutsu não cem por centro preciso, porém Naomy confiaria sua vida a ele pois, apenas um usuário de um doujutsu ocular muito forte e bem treinado e que pudesse ocultar sua presença com perfeição passaria por aquela área que ela continuava rastrando.

— Orochimaru não é um inimigo comum — Obito continuou. — Se encontrarmos qualquer sinal de que ele está metido nisso, a prioridade é coleta de informação. Não confronto direto.

Naomy revirou os olhos. Ela tinha plena certeza de que se o sennin estivesse envolvido, nãos seria com roubos de informações, então apenas assentiu e voltaram a se mover. Ela não respondeu aquela afirmação, continuava irritada com a tentativa do marido de sugerir que Orochimaru fazia parte disso.

no fundo Naomy precisa apartar aquela sensação, tinha contas a acertar e não poderia deixar esse sentimento correr por suas veias e nublar suas convicções. Continuou avançando por alguns metros e então parou sobre um galho largo e virou-se para encará-lo. Os olhos dela estavam firmes e levemente irritados.

— Não. — A resposta veio simples e direta levando Obito a franzir levemente o cenho.

— Não?

Naomy cruzou os braços.

— Se encontrarmos Orochimaru... quem vai lidar com ele sou eu.

O vento passou entre as folhas acima deles e o Uchiha ficou alguns segundos em silêncio.

— Naomy...

— Não é negociável Obito — ela interrompeu, a voz não estava exaltada. Pelo contrário, era calma demais. O que significava que aquela decisão já havia sido tomada há muito tempo.

— Esse assunto é meu.

Obito inclinou um pouco a cabeça, observando-a com atenção.

Ele conhecia aquele olhar.

Era o olhar de alguém que carregava algo pessoal demais para permitir interferência. Mesmo assim, ele cruzou os braços.

— Orochimaru não é um problema só seu.

— Talvez não — respondeu, os olhos endureceram um pouco. — Mas ele é alguém que eu preciso confrontar.

O silêncio voltou a pairar entre eles e Obito respirou fundo, não tinha aceitado aquela decisão e aquilo claramente ainda renderia discussão e talvez... algo muito mais perigoso quando finalmente encontrassem o sennin lendário que estavam procurando.


[...]



A floresta parecia interminável.

Galho após galho, salto após salto, o som do vento nas folhas se tornava um zumbido. O ritmo da missão era constante, mas o silêncio entre os dois começava a ganhar peso.

Naomy estava quieta.

Quieta demais.

Obito percebeu isso logo nos primeiros quilômetros fora de Konoha. Ela respondia quando precisava, assentia quando ele mencionava alguma rota ou mudança de direção, mas fora isso permanecia mergulhada nos próprios pensamentos.

E aqueles pensamentos tinham nome.

Orochimaru.

Ela não conseguia parar de pensar nele. O nome do sannin surgia na mente dela como uma lembrança antiga que se recusava a desaparecer. Orochimaru não era apenas um alvo de missão para Naomy. Não era um criminoso distante.

Ele tinha sido seu mestre. A pessoa que ensinara coisas que poucos em Konoha sequer compreendiam. Isso tornava tudo mais complicado e mais pessoal.

Parte dela queria encontrá-lo, outra parte... queria falar com ele.

Sozinha.

Sem olhos observando, sem julgamentos ou interferências e era exatamente por isso que uma ideia começava a crescer na cabeça dela conforme avançavam pela floresta.

Ela precisava encontrá-lo sem Obito por perto. O problema era simples.

O próprio Obito Uchiha.

Naomy soltou um suspiro silencioso enquanto pousava em outro galho alto. Ela sabia perfeitamente que se pedisse para ele não ir até a Vila do Som, a resposta seria uma só.

Não.

Obito era teimoso o suficiente para atravessar uma montanha apenas para provar um ponto. E, no caso de Orochimaru, aquilo ficava ainda pior. Para Obito, a situação era simples: Orochimaru era um traidor perigoso que não merecia confiança.

Fim da história.

Enquanto isso, atrás dela, Obito observava e pensava o que poderia fazer a respeito porque aquele silêncio estava começando a incomodar.

No início ele acreditou que fosse apenas concentração na missão. Mas conforme os minutos se transformavam em quase uma hora de viagem, algo começou a irritá-lo.

Ela estava distante. Muito distante.

Obito saltou para um galho ao lado dela, mantendo o ritmo. Já não bastava a briga durante o evento, os pequenos focos de discussões até mesmo antes disso. Minato tinha lhe dado um conselho valioso e ele queria por em prática.

Não queria passar a missão inteira em desavenças quando poderia se acertar de vez com a esposa e entender linha por linha daquele sentimento que desabrochava em seu peito.

— Você vai continuar me ignorando o caminho inteiro?

Naomy piscou, como se tivesse sido arrancada abruptamente dos próprios pensamentos.

— O quê?

Obito soltou um pequeno estalo de língua.

— Isso. — Ele fez um gesto vago no ar. — Essa cara de quem está em outro mundo. — O olhar dele estreitou um pouco. — Eu falei alguma coisa que ofendeu o seu querido mestre?

Naomy parou em um galho mais largo, virou-se lentamente para encará-lo e Obito continuou, já meio irritado:

— Porque, sinceramente, se for isso, você sabe que é ridículo. — Ele cruzou os braços. — Orochimaru não é confiável, Naomy. Você sabe disso melhor do que qualquer um.

O vento passou entre as árvores, levantando algumas mechas do cabelo dela. Naomy ficou em silêncio por alguns segundos. Parte dela sabia que Obito estava certo, mas outra parte... não conseguia simplesmente reduzir Orochimaru a um inimigo qualquer.

Ele tinha sido seu mestre e certas ligações não desapareciam tão facilmente, mesmo quando deveriam. Ela respirou fundo afastando esse sentimento e comprimiu o punho.

— Se o problema é a imparcialidade da missão pode deixar, eu jamais trairei Konoha. Fora isso temos opiniões diferentes, mas farei o que deve ser feito e — olhou no fundo dos olhos dele. — Apesar de tudo, eu jamais trairia você também.

Obito se calou. A cabeça a mil ao ponto de latejar, parecia uma sala cheia de vozes falando ao mesmo tempo. Pensamentos batendo uns contra os outros até causar um incômodo quase físico, assim como o coração que pulsava de forma irritante.

"O que ela quis dizer com isso?" Se auto questionou e depois bufou irritado.

"Porra... ela não esqueceu o que aconteceu na comissão. Como eu fui idiota de achar que uma conversa atravessada e uma noite dormindo na mesma cama resolveria tudo." Ele ponderou mais uma vez antes de se afastar minimamente e continuar pulando os galhos das árvores atrás dela...


A primeira parada da viagem aconteceu já fora das fronteiras do País do Fogo depois de praticamente vinte e quatro horas intermináveis na floresta.

Depois de atravessarem horas de floresta, o cenário começou a mudar lentamente. As árvores ficaram mais espaçadas, os caminhos mais largos, e logo o ar carregava um cheiro diferente.

Era o País do Arroz.

Um lugar curioso, porque apesar do nome simples, não era um território miserável como muitos imaginavam em Konoha. Pelo contrário. O país era belo de uma forma tranquila e pastoral.

Campos largos de arroz se estendiam como tapetes verdes e dourados entre bosques antigos. Pequenas aldeias apareciam aqui e ali, cercadas por canais de irrigação e caminhos de terra bem cuidados. Ornamentos de madeira trabalhada marcavam entradas de vilas e pequenos templos locais. Havia uma cultura própria ali, simples, mas longe de ser pobre.

Era um território que sobrevivia da terra e daquilo que produzia.

Naomy observava tudo enquanto caminhavam por um dos caminhos laterais que levavam a uma vila menor. Para olhos treinados, o lugar parecia pacífico demais e aquilo era suspeito.

Orochimaru havia escolhido aquele país para estabelecer suas bases justamente por isso. Era um território organizado o suficiente para sustentar uma população, mas distante o bastante das grandes potências para permitir... experimentos.

Antes de se aproximarem da área mais povoada, Obito fez um gesto curto.

— Vamos trocar.

Naomy assentiu.

Eles se afastaram do caminho principal e entraram em uma área de bosque mais fechado. Ali, trocaram de roupas com rapidez treinada.

As roupas com o símbolo de Konoha desapareceram dentro das mochilas. Obito guardou a bandana da vila no interior da camisa, presa ao corpo, onde ninguém poderia vê-la. A capa Uchiha também foi dobrada com cuidado. Agora ele usava apenas uma camisa simples e roupas comuns de viajante.

Naomy fez o mesmo. Aquele tipo de precaução era básico em território desconhecido. Ninguém precisava saber que dois ninjas de elite de Konoha estavam circulando por ali.

Especialmente não naquele país.

Porque se alguém reconhecesse um membro da elite da vila... Aquilo colocaria toda a missão em risco.

Obito ajustou a manga da camisa, olhando ao redor com atenção.

— A partir daqui — murmurou — a gente assume que qualquer pessoa pode estar observando.

Naomy fez um pequeno gesto afirmativo, mas a mente dela estava em outro lugar. Aquele país... Aquelas estradas... Aquelas florestas... Tudo aquilo estava perigosamente próximo da Vila Oculta do Som.

Cada passo que davam parecia aproximá-la de algo que ela não sabia se queria enfrentar... ou reencontrar.

Obito, por outro lado, estava ocupado analisando o território. Para ele aquela região parecia uma coisa muito específica.

Um labirinto.

Um lugar cheio de rotas escondidas, pequenas vilas, caminhos secundários e pessoas que sabiam quando olhar... e quando fingir que não viram nada. Era exatamente o tipo de lugar perfeito para alguém como Orochimaru desaparecer e também o tipo de lugar onde dois ninjas poderiam facilmente cair em uma emboscada se baixassem a guarda.

Obito lançou um olhar breve para Naomy que ainda estava quieta e extremamente pensativa. Ele suspirou, pelo visto seria difícil recuperar parte da confiança que havia adquirido até ali.