TUDO ESTAVA EM CAOS. Depois que saiu da sala de Minato, ele continuou não tendo paz. Ainda teria que lidar com os compromissos e a incerteza de que Naomy provavelmente não o aceitaria de volta. Respirou fundo, seguiu até a casa da avó. Ultimamente, ela estava cada vez mais severa, tanto que não queria vê-lo com constância depois de ter rompido o noivado com a Sarutobi. Se viam por serem família, mas não da forma como ele gostaria e se enfrentaria aquilo, começaria pelo lugar mais difícil.



…



A casa da avó permanecia imponente como sempre, tradicional, com o símbolo do clã esculpido na madeira da entrada. Nada ali mudava. Diferente das pessoas.

Ele parou diante da porta por alguns segundos e pensou na ironia a sua frente. O Uchiha que enfrentava conselhos, missões de elite e ameaças hesitou diante de uma maçaneta.

Bateu duas vezes e a porta deslizou calmamente, o cheiro gostoso de lar e conforto invadiram suas vias nasais quando a idosa Uchiha o encarou como se analisasse uma falha estrutural.

Uchiha Kyoko havia criado Obito praticamente sozinha, uma vez que a mãe dele morreu junto ao segundo filho e o pai de Obito já não estava vivo há muito tempo.

— Veio terminar o que começou? — a voz dela era firme, e cheia de desaprovação. Afinal de contas se Obito tinha falhado, significava que ela, como avó e mãe também tinha falhado e Uchihas nunca falham.

Ele entrou sem pedir permissão, fingindo que tais palavras não o atingiam.

— Não vim discutir o passado.

— Curioso. Porque ele insiste em andar atrás de você.

Obito manteve a postura. Ombros alinhados e o queixo erguido.

— Eu já sei que decepcionei a senhora.

— Decepcionou o clã.

O golpe veio direto, sua avó sempre atribuiria aquela escolha a uma desonra geral e de fato não estava totalmente errada. Ela se aproximou um passo.

— Romper o noivado com Naomy Sarutobi não foi apenas uma escolha pessoal. Foi uma declaração pública de instabilidade. Você entende o que isso fez?

Naquela época ele poderia dizer que agiu como o coração mas já entendia. Claro que entendia.

Unir Uchiha e Sarutobi seria a diplomacia histórica que os Uchihas tantro precisavam para ter mais visibilidade. Por mais que fosse um dos clãs mais poderosos de konoha, viviam a margem, como se fossem uma praga.

Nada se falava sobre, eram muito bem tratados, ainda assim estavam distantes dos compromissos mais severos da vila que supostamente seus antepassados ajudaram a fundar. Era uma situação ruim e, que não foi apartada com a criação da força policial sendo dada de bandeja aos Uchihas, pois tudo parecia uma fachada. Ainda assim Obito fechou os olhos e se deixou levar, era da vida dele que estavam falando e não de uma reunião qualquer.

— Eu não ia me casar por conveniência.

A avó o fitou longamente, Kyoko entendia aquela situação, por mais severa que fosse com o neto, ela entendia que ele tinha o direito de viver, só que nascendo no seio do clã Uchiha e tendo deveres maiores do que ele, sabia desde que começou a compreender as responsabilidades que certas escolhas não era mais suas.

Suavizando a expressão ela colocou ambas as mãos entrelaçadas por dentro do quimono preto com faixas rubras e o símbolo do clã orgulhoso estampado nas costas

— E agora? — O silêncio se estendeu momentaneamente. — Agora você aceita conveniência?

Obito sentiu as palavras atingirem seu o orgulho.

— Não é isso.

— Então o que é? — Ele desviou o olhar por um segundo. Apenas um.

— Vou procurar Naomy.

O nome pairou no ar e a expressão dela não mudou. Mas os olhos, sim.

— Depois de tantos anos. – Afirmou e ele sentiu as bochechas aquecerem, naquela hora, o homem parecia mais um menino desamparado pelas próprias escolhas, alguém que sentia que o mundo não passaria a mão por sua cabeça só porque resolver agir tardiamente.

— Eu sei.

— Depois de romper um noivado que já era uma segunda chance política. — Ele cerrou os punhos.

— Eu sei.

Dessa vez ela sentiu um pouco de orgulho, o mesmo que brilhou em seus olhos quando assistia o neto brincar com a Sarutobi na varanda de sua casa, agora ela o observava não como neto, mas como um verdadeiro herdeiro do legado que havia interrompido.

— Você acha que ela o aceitará?

Essa era a pergunta que ele não queria ouvir em voz alta.

— Não sei.

A sinceridade saiu baixa e rara. No fundo Obito precisava que Naomy o aceitasse de volta.

A avó respirou lentamente.

— Então não vá como líder e sim como um homem. — Aquilo o atingiu mais do que qualquer reprimenda, porque era exatamente o que ele não sabia ser naquele momento.

— E se ela disser não?

A idosa Uchiha virou-se, caminhando até a janela.

— Então você aprenderá a conviver com mais um erro. — Ela respirou fundo como se estivesse se recordando de algo. — Mas se ela disser sim… — continuou — não ouse tratá-la como peça de tabuleiro.

Obito sustentou o olhar dela.

— Eu não faria isso.

— Espero que não.

A tensão diminuiu alguns graus, mas não desapareceu. Nunca desaparecia entre Uchihas orgulhosos.

Antes de sair, ele ouviu a última sentença:

— Se vai corrigir algo, faça direito desta vez.

Ele apenas assentiu antes de se despedir recebendo não só a benção que tanto queria como a oportunidade de deixar um selar nos cabelos enegrecidos da avó.

Kyoko Uchiha era um marco temporal naquele distrito uma mulher sábia que ao lado de Mikoto conseguia organizar todo o sistema dos Uchihas sem precisar impor nada, afinal possuíam uma presença tão forte e silenciosa que eram admiradas e seguidas, com a mesma facilidade que expunham a liderança interna toda vez que era necessária.


Agora o moreno andava pelas ruas em direção a própria casa com a cabeça a mil. Todos achavam que fazia 14 anos que ele não via Naomy e, sempre assentia quando jogavam essa dúvida.

Na verdade, ele e a castanha, do clã Sarutobi, fizeram inúmeras missões juntos. Tiveram muito tempo. Estavam no máximo há quatro anos sem se ver. E realmente, muita coisa muda nesse tempo. Mas não o suficiente para apagar as marcas de um passado com tantas questões.

Então, quando chegou na própria casa, pegou o telefone e ligou para Ichi Sarutobi, o pai de Naomy e irmão de Hiruzen, ou seja, a única pessoa que poderia permitir que ele a visitasse. Afinal de contas, clãs como Hyüga, Sarutobi, Akasuna, Senju e até o próprio Uchiha tinham suas próprias questões políticas implícitas dentro do clã. Obito fora noivo de Naomy por muitos anos, até alcançar a maioridade e ele mesmo cancelar o noivado na véspera da oficialização.


Ele lembrava do salão decorado, das famílias reunidas, da formalidade irritante e da própria voz cancelando tudo. Não havia sido impulsivo, fora tão racional e frio que achava que estava fazendo o certo.

Talvez estivesse apenas fugindo.

Foi humilhante. E talvez seja por isso que ele estivesse com tanto receio. Sentia que Naomy ainda não tenha o perdoado.

Após dois toques o telefone foi atendido por alguém que pegou as informações e pediu para que aguardasse até ser transferido e finalmente ouviu a respiração tensa do outro lado da linha:

— Uchiha.

— Preciso falar com o senhor.

Houve uma breve pausa e então mais um suspiro do outro lado da linha.

— Imagino o assunto.

Obito não gostava quando subestimavam o óbvio.

— Quero permissão para visitar Naomy.

— E qual é sua intenção? — Ichi perguntou, direto. Obito poderia mentir. Poderia dizer que era apenas política, mas aquela ligação não era para o conselho e precisava ouvir os conselhos de sua avó.

— Quero resolver o que ficou pendente.

Do outro lado da linha, houve um leve ruído de respiração e ele tinha certeza de que ouviu alguns praguejos e xingamentos.

— Você entende que, ao romper aquele noivado, não feriu apenas minha filha.

Ele entendia.

— Entendo.

— E entende que ela não lhe deve audiência alguma.

Isso doeu mais do que ele esperava.

— Entendo.

Mais um silêncio.

Obito fechou os olhos por um instante. Se tivesse feito as coisas da maneira correta não estaria na famigerada berlinda, agora qualquer passo que desse em falso o colocaria para fora do conselho e ele precisava entrar naquele maldito quinteto e mudar muitas coisas. Novamente alguns olhares de desgosto e reprovação passaram por sua mente o teletransportando para o dia em que cancelou o noivado e somente algo ecoou dentro de si.

“Humilhação. Talvez esse fosse o preço.” Pensou já se perdendo em pensamentos.

— Eu não venho exigir nada. — A honestidade saiu mais crua do que ele pretendia e dessa vez, do outro lado, Ichi pareceu ponderar.

— Venha amanhã. No final da tarde.

O coração de Obito desacelerou… e acelerou ao mesmo tempo.

— Ela sabe?

— Não.

Aquilo apertou o estômago.

— Não farei anúncio algum. Se ela decidir não recebê-lo, você irá embora. Sem insistência.

— Certo.

— Uchiha.

— Sim.

— Não ouse transformar isso em teatro político.

Obito apertou o aparelho com mais força.

— Não tem a ver com a porra da política. — A resposta saiu firme demais e Ichi percebeu. Se o Uchiha tivesse cara a cara com ele veria a satisfação no olhar do mais velho

— Espero que não seja.

A ligação foi encerrada. Ele apoiou o telefone devagar e relaxou os ombros.

Quatro anos sem vê-la. Uma vida inteira desde a última vez que ele a chamou de noiva sem peso institucional de ambas as famílias.

Talvez Naomy tivesse seguido em frente;

Talvez estivesse indiferente;

Talvez estivesse esperando esse momento para recusá-lo com elegância justamente quando ele precisasse dela e aí sim adeus cadeira no conselho.

Obito engoliu em seco. Pela primeira vez naquele dia, o medo não era do conselho e sim ouvir um “não” que ele teria que aceitar.

Naquele momento a cabeça dele passou a maquinar diversas formas de obter o sim dela, pois mesmo que não quisesse admitir precisava desesperadamente de Naomy.