Primeiros erros
20 19
OBITO PERCEBEU, PELO MOVIMENTO NO SALÃO, QUE ALGUNS MEMBROS DA COMISSÃO JÁ COMEÇAVAM A PROCURÁ-LO. AQUILO O TIROU DE SEUS PENSAMENTOS POR UM INSTANTE. Respirou fundo, recompôs o semblante e deixou as sombras onde havia permanecido observando. Fez isso apenas quando estava suficientemente distante para que ninguém suspeitasse que ele havia estado escondido ali, acompanhando a conversa entre Naomy e Shiji.
Voltou ao convívio com naturalidade. Parou para conversar com alguns conselheiros, respondeu a cumprimentos formais, ouviu observações diplomáticas sobre a nova fase da polícia de Konoha. Em determinado momento, Minato aproximou-se novamente, oferecendo-lhe um sorriso discreto que dizia mais do que qualquer palavra.
— Estamos ansiosos para ver que tipo de trabalho você fará pela população de Konoha — comentou um dos comissionários mais velhos, com um aceno respeitoso.
Obito respondeu com a mesma educação que vinha sustentando durante toda a noite. Agradeceu, concordou, prometeu empenho. A política exigia paciência e máscara, e ele sabia jogar esse jogo.
Mas, por dentro, sua atenção continuava voltada para uma única pessoa.
Quando a reunião finalmente chegou ao fim e as conversas começaram a se dispersar pelo salão, Obito não hesitou. Aproximou-se de Naomy e segurou seu braço com cuidado, guiando-a entre os convidados. Pouco a pouco, os dedos dele deslizaram até se entrelaçarem com os dela.
Não disse nada, apenas continuou a conduzi-la. Despediu-se de algumas pessoas pelo caminho e saiu com ela pelas ruas da vila sem se preocupar com quem os observasse. Depois daquela comissão, todos já sabiam: Naomy Sarutobi agora era, oficialmente, a "noiva" de Obito Uchiha.
Se alguém comentasse que ela passaria a noite na casa dele, não seria surpresa para ninguém.
Naomy percebeu aquilo, claro. Uma parte dela se incomodava com a naturalidade com que ele parecia assumir aquela intimidade diante da vila. Não porque o noivado fosse falso — longe disso — mas porque ela sempre se preocupara muito com a própria reputação. Ainda assim, naquela noite, Obito parecia pouco interessado nas possíveis interpretações alheias.
Logo estavam diante da casa que agora pertencia aos dois.
Ao entrar, ele retirou as sandálias e deixou o silêncio tomar conta do ambiente. O peso da noite parecia finalmente cair sobre seus ombros. Caminhou até o espelho da sala, tirou os adornos formais do traje e massageou a própria nuca antes de erguer os olhos para o reflexo.
Naomy aproximou-se do espelho para começar a prender os cabelos.
Foi quando ele se aproximou.
— Deixa solto. — disse com suavidade e ela levantou os olhos pelo reflexo. — Não me encara assim... — ele acrescentou, quase num murmúrio. — Faz muito tempo que eu não vejo seus cabelos assim.
Com cuidado, ele puxou uma mecha longa entre os dedos, revelando todo o comprimento que caía pelas costas dela e iam até os quadris. O gesto foi breve, quase contemplativo. Depois sua mão tocou o ombro dela por um instante antes de se afastar.
Obito já havia avisado desde o primeiro dia: a casa tinha dois banheiros, e ele sempre deixaria o do quarto para ela. Era uma forma silenciosa de fazê-la se sentir mais confortável ali. Então, sem dizer mais nada, ele subiu para o segundo andar, pegou roupas limpas no armário e seguiu para o outro banheiro para tomar banho.
Naomy permaneceu alguns minutos sozinha na sala pensando e pensando.
Na conversa com Shiji, nos olhares de Obito durante a comissão, nos toques inesperados que haviam trocado ao longo do dia. Nas poucas palavras que disseram um ao outro. Na bebida compartilhada.
Ela não queria dividir o quarto com ele naquela noite, ainda estava chateada, mas também sabia que não havia muita alternativa. Eles tinham uma missão pela manhã, e aquela casa agora era o espaço que compartilhavam brigados ou não.
Com passos lentos, subiu as escadas e entrou no quarto.
Abriu a pequena mala e pegou uma roupa cor-de-rosa que trouxera. Foi para o banheiro e deixou a água da banheira correr, tentando lavar também o cansaço da noite. Quando saiu, envolta pelo vapor quente, abriu o armário sem pensar muito e pegou uma das camisas de Obito. Vestiu-a sobre o corpo ainda úmido e deitou-se na cama.
O tecido largo caía pelos quadris, confortável e familiar e ela não pôde evitar um pequeno sorriso. Porque aquilo denunciava algo que ambos fingiam não perceber.
Mesmo brigados, mesmo confusos... os dois ainda estavam tentando. Agora deitada na cama, Naomy tentava organizar os próprios pensamentos.
O dia tinha sido longo demais. Intenso demais. A comissão, as conversas políticas, o confronto com Obito, Shiji... tudo parecia ainda girar dentro da cabeça dela como peças de um jogo que ninguém havia terminado de explicar.
Ela estava ansiosa e para não parecer — nem para si mesma — que estava esperando alguma coisa, levantou-se por um instante e apagou a luz principal do quarto, deixando apenas o abajur aceso. A meia-luz amarelada tornou o ambiente mais silencioso, mais íntimo e confortável.
Não estava com fome. A recepção da comissão havia sido generosa demais; comida não era o problema. Então ela apenas se acomodou nos travesseiros, o livro aberto nas mãos, os olhos correndo pelas páginas sem realmente absorver uma única linha.
O envelope que Shiji lhe entregara permanecia intocado sobre a mesa. Naomy tinha problemas demais para lidar naquela noite.
Quando a porta do quarto abriu, ela percebeu imediatamente e decidiu não olhar. Sabia muito bem que Obito faria alguma coisa para provocá-la. Era praticamente inevitável.
E, como sempre, ela estava certa.
Ao erguer finalmente os olhos por um segundo, lá estava ele: calça baixa no quadril, cabelos ainda úmidos do banho, um pouco bagunçados e absolutamente mais nada. Como se não existisse camisa suficiente naquela casa para ele vestir.
Naomy voltou os olhos para o livro, mas já era tarde. O olhar havia capturado o suficiente para que sua atenção traísse sua tentativa de indiferença. Os olhos dela acabaram seguindo aquela linha que descia pelo abdômen dele — a linha proibida, como ela costumava chamar em silêncio — desaparecendo sob o tecido da calça.
Uma trilha leve de pelos escuros. Ela continuou observando o corpo de Obito sem perceber que o fazia, até que ele se sentou na cama e aquilo quebrou completamente o ritual que ela imaginara que aconteceria. Desde que começara a dividir a casa com ele, Obito sempre puxava o colchão baixo e dormia no chão.
Mas naquela noite... ele apenas se sentou de costas para ela. O que era ainda pior. Naomy fechou o livro sobre o peito e ficou ali, olhando aquelas costas largas, definidas, a musculatura marcada pela luz suave do abajur.
Ela se amaldiçoou internamente porque gostava daquilo.
Gostava demais.
Cada linha do corpo dele parecia feita para provocar algum tipo de fraqueza nela, mesmo com as marcas após o acidente ele continuava perfeito. A situação não estava a seu favor e ela não tinha como sair dela sem deixar implícito seu interesse por isso, apenas respirou fundo, o que foi o suficiente para Obito agir.
— Olha, Naomy... — A voz dele saiu mais baixa do que o normal. — Seja lá o que o Shiji queira com você... eu não acho certo você ficar perto dele agora. — Ele passou a mão pelos cabelos.
— Não depois de hoje.
Fez uma pausa.
— E nem depois do que aquele Hyūga desgraçado deixou claro no meio da comissão.
Naomy sentiu o corpo inteiro aquecer, o linguajar dele era... brutalmente direto quando estava irritado, mas, mesmo assim, um sorriso pequeno apareceu no canto dos lábios dela. Porque aquilo tinha cheiro de uma coisa muito específica.
Ciúme.
— Pode deixar, Uchiha — respondeu com suavidade. — Os Hyūga são amigáveis quando você tem algo a oferecer. — Ela deu de ombros. — Shiji é apenas um bom homem.
Obito virou o rosto imediatamente.
— Um bom homem lá na casa do caralho. — Os olhos dele encontraram os dela. — Que ele vá ser bom em outro lugar. — A mandíbula dele se contraiu. — Não com você.
Uma pausa.
— Não enquanto eu estiver por perto e você for minha esposa.
O silêncio que veio depois pareceu mais quente do que deveria. Por um deslize involuntário, o olhar de Obito desceu. A camisa dele que Naomy vestia era longa, mas não o suficiente para esconder completamente as pernas e as coxas fartas dela estavam livres sob o tecido.
Ele ficou ali olhando por um bom tempo.
Tempo demais na verdade. Como se estivesse observando algo que desejava e não poderia tocar. Por fim ele desviou o olhar e soltou o ar.
— Enfim... era só isso que eu queria dizer. — A voz dele voltou ao tom neutro. — Boa noite.
Naomy ficou confusa. Aquilo parecia... abrupto demais, ainda assim achou melhor não interpor outro diálogo e deixar para quando estivessem mais calmos.
— Boa noite — respondeu virando-se de lado e fechando os olhos.
O silêncio voltou e por alguns segundos ela começou a relaxar, imaginando que seria nessa hora que Obito se levantaria e deitaria na própria "cama", isso é , até sentir o colchão afundar. O coração dela disparou imediatamente porque aquilo significava apenas uma coisa.
Obito não tinha puxado o colchão para o chão ele estava... deitando ali mesmo e que provavelmente tinha desistido de dividir os espaços dentro do quarto.
Seria a segunda noite. A segunda noite como homem e mulher e dessa vez dividindo a cama. Naomy estava nervosa, já Obito ansioso. Ele queria dividir aquele momento, queria marcá-la com aquela sensação duvidosa e que Naomy sentisse suas vontades. Ainda assim estava com raiva e puto por tudo o que aconteceu.
A proximidade entre eles era nova, quase desconcertante ainda assim, ele falou primeiro.
— Pode deixar, esposa... — murmurou, o tom preguiçoso — não planejo te tocar.
Fez uma pequena pausa.
— Só quero dormir em algo macio para que meu corpo esteja bem disposto para a missão de amanhã. — Mentiu em partes.
Naomy não respondeu de imediato. Por um lado estava aliviada, por outro frustrada por Obito não querer tocá-la, mesmo que ele não tenha dito isso.
— Faça como quiser. — Murmurou e ele sorriu. Devagar, deslizou alguns centímetros mais perto, até o corpo estar a centímetros do dela, até que sua respiração quente resvalasse nas costas macias da mulher que ele chama de esposa, até sentir a pele dela se arrepiar. Ele inclinou um pouco mais o rosto, deixando a voz sair baixa, rouca, perigosamente próxima do ouvido dela e então sussurrou lascivamente.
— Durma bem esposa. — O tom grave de sua voz fez com que Naomy apertasse aas pernas involuntariamente, irritada consigo mesma por reagir daquela forma, ele ter tanto domínio sobre suas vontades ocultas.
Obito se sentia um canalha, mas não ao ponto de parar o que estava fazendo. Adormecer com Naomy daquela forma foi a coisa mais gostosa que ele tinha feito em semanas. Acordar grudado no corpo dela, sentindo a maciez dos cabelos em seu peito, a respiração contra a cabeça dela e a mão em sua cintura. Foi maravilhoso.
Ele poderia sim ter dormido na cama de baixo, mentira profundamente quando disse que a cama era desconfortável, nada era mais gostoso do que estar ali, ao lado dela, naquela cama que agora parecia ter adquirido um cheiro próprio. Um cheiro que ele começava a associar apenas a Naomy.
Um cheiro que, ele suspeitava, acabaria levando consigo pelo resto do caminho.
Talvez... pelo resto da vida.
Obito deixou os olhos se fecharem por um instante, respirando fundo sem fazer movimento algum que pudesse acordá-la.
Naomi foi a primeira a acordar, ofegante e envergonhada. Não bastavam os sonhos impróprios que tivera com o Uchiha, agora acordara à presença dele, sentindo o perfume gostoso e natural do corpo dele, e ainda por cima estar alinhada ao seu corpo. Ela estava surtando, por isso escapuliu da cama mais cedo que o normal sem que Obito a visse.
O cérebro levou alguns segundos para acompanhar o que o corpo já havia percebido.
Meu Deus...
O coração disparou e as bochechas aqueceram imediatamente, como se alguém tivesse acendido uma chama sob a pele.
Aquilo era... completamente inadequado. Principalmente depois do tipo de sonho que ela acabara de ter.
Por um momento ficou imóvel, ouvindo a respiração tranquila de Obito ainda mergulhado no sono. Ele parecia profundamente adormecido, o peito subindo e descendo devagar.
Aquilo lhe deu coragem.
Com todo o cuidado do mundo, Naomy começou a se mover. Primeiro soltou devagar a mão que ainda estava apoiada na cintura dele. Depois deslizou para longe alguns centímetros, tentando não fazer o colchão afundar.
Mais um movimento.
Mais um.
Até finalmente escapar da cama.
Assim que os pés tocaram o chão, ela soltou o ar que estava prendendo nos pulmões, passou a mão pelo rosto, ainda quente, e lançou um último olhar para Obito — ainda dormindo, alheio à pequena fuga.
Então saiu do quarto em silêncio antes que ele pudesse vê-la naquele estado. Antes que ela tivesse que explicar por que estava tão... perturbada.
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