Primeiros erros
19 18
OBITO FICOU ALI, SENTADO, AMARGANDO CADA SEGUNDO DO SILÊNCIO PESADO QUE RESTOU DEPOIS QUE NAOMY SAIU PELA PORTA.
Ele sabia que não podia demorar. Sabia que deveria estar na sala da comissão, sendo observado por homens que o avaliavam como se fosse um produto num balcão de mercado. Pesavam sua postura, sua utilidade política, sua capacidade de liderança.
Era odioso, mas era a realidade; mesmo assim, ele não conseguia se levantar. Porque a cabeça dele não parava de voltar à mesma cena: à mesma conversa e à mesma estupidez que tinha dito. Obito esfregou o rosto com as duas mãos, apoiando os cotovelos nos joelhos e pressionando o queixo contra os dedos enquanto pensava, pensava e pensava, sem chegar a lugar nenhum.
"Como é que eu conserto isso?"
Foi assim que Minato o encontrou.
O Hokage abriu a porta com a tranquilidade de sempre e, ao ver o estado do Uchiha, apenas respirou fundo antes de deixar um pequeno sorriso escapar.
— Você aprontou, não foi?
Obito deixou os braços cair de imediato e se recostou na cadeira como alguém completamente desarmado.
— É... — soltou, sem energia alguma. — Eu fiz merda. — Passou a mão pelo rosto mais uma vez. — Eu falei merda.
Suspirou.
— E agora parece que a minha esposa não vai querer olhar na minha cara. — Ele virou o rosto na direção de Minato parecia desesperadamente pedir por uma ajuda. — Temos uma missão amanhã, como o senhor bem sabe, sensei.
A voz saiu amarga.
— O pior é que eu sou um bosta.
Minato caminhou até a mesa e puxou a cadeira do Hokage, sentando-se com calma. Naquele momento não havia formalidade entre eles. Não havia Hokage e capitão da polícia.
Havia apenas um homem mais velho olhando para um rapaz que, para ele, ainda era um filho. Minato apoiou os cotovelos da mesma forma que Obito estava antes e entrelaçou os dedos diante do rosto.
— Sabe... — começou com tranquilidade — vocês dois são jovens.
Obito bufou levemente.
— E os sentimentos de vocês ainda são muito intensos. — O olhar azul observava o Uchiha com atenção. — E você não sabe controlar os seus.
Obito não respondeu.
— Parece que você despertou de um frenesi. — Minato inclinou a cabeça. — Você não vê mais a Rin como a única pessoa que já ocupou o seu coração.
O silêncio ficou denso.
— E você não está sabendo lidar com isso. — Obito permaneceu olhando para o chão. — — Então qualquer coisa relacionada à Naomy dispara esse gatilho em você.
Minato sorriu de leve.
— E você reage antes de pensar. — O Hokage se recostou na cadeira. — Já pensou que talvez o que esteja faltando entre vocês dois seja simplesmente... conversar?
Obito ergueu os olhos devagar e Minato deu de ombros.
— Francamente, Obito... vocês vão ter muito tempo para isso. — Um pequeno sorriso surgiu. — Vocês vão estar sozinhos na missão.
Fez uma pausa.
— Fique um tempo a sós com ela. De verdade. — A voz ficou mais firme. — Conheça a sua esposa.
Obito ficou em silêncio.
— E quem sabe... — continuou Minato — ela te desculpa. — O Hokage apoiou o queixo na mão. — Confie nela. — O olhar dele suavizou. — Naomy é uma pessoa extremamente capacitada. E tem um controle de ferro.
Minato riu baixo.
— Porque se fosse a Kushina no lugar dela... — Ele levantou uma sobrancelha. — Ela já teria explodido.
Obito quase sorriu.
— Teria dado uma surra em metade do clã, invadido essa comissão e resolvido tudo no braço.
Minato suspirou.
— Minha esposa não teria metade da paciência que aquela garota demonstrou hoje. — Então o sorriso dele desapareceu. — O problema é quando ela estourar.
O tom ficou sério.
— Porque quando isso acontecer... ninguém vai conseguir segurar. — Ele olhou diretamente para Obito. — Nem você.
O silêncio voltou. Minato então cruzou os braços.
— Então eu aconselho... como seu mestre e como alguém que se importa com você... — A voz ficou calma novamente. — Faça alguma coisa.
Uma pausa.
— E dessa vez... tente se aproximar dela da forma certa.
Obito ponderou sobre aquilo, respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
E teve de admitir, mesmo que contra o próprio orgulho, que Minato estava certo.
Quando o Hokage saiu da sala, deixando-o ali sozinho, o silêncio pareceu mais pesado do que antes. Mas dessa vez não era um silêncio de irritação. Era o tipo de silêncio que força um homem a olhar para si mesmo.
E Obito não gostou muito do que viu.
Passou alguns minutos ali, organizando a cabeça, reconstruindo a própria postura antes de voltar para o salão da comissão. Quando finalmente retornou ao evento, já tinha o rosto novamente alinhado na máscara social que aprendera a usar.
Capitão da polícia.
Membro em avaliação.
Homem adulto.
Mas a tranquilidade durou pouco.
Assim que atravessou o salão com os olhos atentos, encontrou Naomy outra vez.
Ela estava conversando e rindo com a esposa de Danzou. Obito piscou lentamente.
A mulher falava animadamente, gesticulando enquanto Naomy respondia com aquela elegância natural que parecia abrir portas onde quer que fosse. Em determinado momento, a esposa de Danzou segurou o braço dela com carinho, e Obito percebeu o gesto clássico de alguém que convidava outra pessoa para algo mais privado.
Provavelmente um chá na casa deles. A cabeça de Obito reagiu antes mesmo que ele pudesse pensar direito.
"Se ela for... eu invento qualquer desculpa para não ir."
Nem morto pisaria na casa de Danzou, mas aquilo não era o pior. Depois que Naomy se afastou daquela conversa, ela continuou circulando pelo salão com naturalidade, conversando com representantes de outros clãs. Alguns daqueles homens eram conhecidos por não aprovarem a presença de um Uchiha naquela comissão. Mesmo assim, lá estava ela, falando com todos.
O sorriso tranquilo, o olhar atento, a postura impecável. Como se estivesse jogando um jogo político com uma habilidade que poucos ali possuíam.
Obito observava e entendia cada vez mais o que Minato quis dizer.
Até que o viu.
Shiji. O Hyūga aproximou-se dela com aquela elegância irritantemente impecável de quem sabe exatamente como se portar em eventos sociais. O sorriso cordial, o olhar interessado, a postura de quem claramente ainda acreditava que tinha algum direito de rondar Naomy.
Obito sentiu o estômago endurecer quando observou o Hyūga pegar a mão dela e beijá-la cordialmente.
Um gesto educado e Obito não estava com humor para etiqueta. Por um segundo inteiro, um pensamento atravessou a mente dele com clareza brutal.
"Eu vou pegar esse Hyūga pelo pescoço e apertar até ele parar de respirar ou morrer, o que vier primeiro será lucro!"
O impulso foi tão imediato que ele precisou travar a mandíbula para não se mover. Porém, dessa vez... se controlou. Em vez de atravessar o salão, Obito fez exatamente o oposto. Deu meia-volta e começou a circular entre os convidados. Conversou com alguns membros da comissão, ouviu elogios, recebeu cumprimentos formais pela sua candidatura, ouvindo os conselhos de Naomy e Minato em sua mente começou a por sua inteligência afiada para uso e identificou possíveis aliados, anotou mentalmente quem parecia disposto a apoiar pequenas mudanças dentro da estrutura da vila resolveu pensar como um mero político e jogou o jogo.
Mas, por dentro... A vigilância nunca saiu de Naomy. Quando finalmente percebeu que ela e Shiji haviam se afastado um pouco mais do centro do salão, Obito deixou a conversa que mantinha pela metade com uma desculpa branda.
E, discretamente, sem chamar atenção a presença dele aos poucos se tornou intangível entre os convidados enquanto se movia pelas bordas do salão, aproveitando o fluxo de pessoas para desaparecer da vista direta.
E seguiu os dois, ele precisava saber o que diabos Naomy tinha tanto para conversar com aquele Hyūga... que não podia ser dito na frente dele.
[...]
Shiji estava, no mínimo, impressionado.
A expressão em seu rosto denunciava aquilo com clareza. Os olhos percorriam Naomy com um misto de admiração e espanto, como se estivesse diante de algo que sempre soube que existia, mas que ainda assim conseguia surpreendê-lo quando aparecia.
Ela estava deslumbrante.
O Hyūga ousava pensar, em silêncio, que havia algo quase injusto naquela beleza tranquila. O kimono realçava sua figura com elegância natural, os cabelos longos caindo em ondas pelas costas como uma pintura viva sob a luz das lanternas do salão.
Se havia algo que, na opinião dele, quebrava aquela imagem perfeita... Era aquela capa.
A capa negra com o símbolo Uchiha bordado nas costas e nem mesmo aquilo conseguia diminuir o efeito que ela causava.
Shiji respirou fundo e abriu um sorriso cordial, pegando duas taças de bebida de uma bandeja que passava. Ofereceu uma a ela com um gesto educado e Naomy aceitou.
— Obrigada.
— Você está linda hoje, Naomy-sama — disse ele, com sinceridade evidente.
Ela riu suavemente.
— Obrigada, Shiji. Mas sem honoríficos, por favor. Você nunca me tratou assim antes.
Tentava soar casual já que era importante. Ali, naquela comissão, ninguém sabia quem ela realmente era em certos aspectos de sua vida. Aquilo precisava permanecer assim. Shiji inclinou a cabeça em concordância, dando um pequeno gole na própria taça.
— Justo.
Observou o salão por um momento antes de voltar o olhar para ela.
— Nunca te tratei com honoríficos... mas é estranho estar aqui e ver todos te parabenizando. — O olhar dele desceu brevemente para a capa negra. — E ver essa capa com o símbolo do clã Uchiha deixa claro que algo mudou.
Uma pausa.
— Talvez você tenha aceitado o noivado com Uchiha Obito. — Ele ergueu uma sobrancelha com leve curiosidade. — Isso também explicaria por que ele agiu daquela forma... e tem agido de tão estranhamente quando se trata de você.
Shiji soltou uma pequena risada.
— Afinal de contas... a vila inteira comenta.
Naomy não respondeu imediatamente.
Não precisava. A vida pessoal dela não era algo que devesse explicações a ninguém ali. Poréma também conhecia Shiji bem o suficiente para saber que ele era perceptivo. Inteligente demais para aceitar silêncio como resposta definitiva. Então apenas sorriu de forma brando apenas para aplacar a situação.
— As coisas são como são. — Ela girou levemente a taça entre os dedos. — Eu sempre fui noiva dele. Ergueu os olhos novamente. — E agora o contrato voltou a valer. — Deu de ombros como se não se importasse. — Apenas isso.
Alguns metros dali, parcialmente oculto pela movimentação do salão, Obito ouviu cada palavra e sentiu algo apertar dentro do peito.
Contrato.
Então era isso que ele era para ela? A palavra ficou ecoando na cabeça dele como uma pedra jogada em água parada. Mas logo outra parte da mente reagiu.
Não. Não podia ser só isso. Se fosse apenas um contrato... ela não teria ficado nervosa daquela forma antes. Não teria corado e definitivamente não teria perdido o fôlego quando ele a prensou contra a parede.
Obito ainda lembrava do olhar dela percorrendo o corpo dele pela manhã, do calor que subiu pela pele quando ele deslizou os dedos por seus braços e do arrepio que atravessou o corpo dela quando ele tocou sua cintura. Aquilo não era a reação de alguém preso a um contrato frio.
Não.
Naomy podia dizer o que quisesse em voz alta. Mas Obito estava convencido de uma coisa: Ela estava falando da boca para fora.
— Era isso que você queria quando me pediu para conversar? — Naomy perguntou com calma, embora os olhos carregassem uma firmeza que deixava claro que aquela pergunta não era inocente. — Questionar as minhas roupas... o meu noivado?
Shiji desviou o olhar imediatamente.
A pele clara, quase translúcida sob a luz do salão, corou de forma violenta. O rubor subiu rápido pelas maçãs do rosto, como tinta derramada sobre mármore branco. Ele parecia genuinamente constrangido. Por isso, por alguns segundos, ficou em silêncio.
Então balançou a cabeça.
— Não... — murmurou, quase sem voz. Passou a mão pela nuca num gesto nervoso e inclinou levemente o corpo numa reverência discreta. — Me perdoe.
Naomy o observava sem hostilidade, mas também sem suavizar a expressão e Shiji respirou fundo antes de continuar.
— Eu não quis ultrapassar os limites. Só... — hesitou, procurando as palavras certas. — Só fiquei surpreso.
Os olhos dele voltaram para ela por um instante, ainda carregados daquele respeito antigo que sempre demonstrara.
— Você sabe que sempre tive muita consideração por você. — Ele olhou rapidamente para a capa negra com o símbolo Uchiha. — E ver isso... me pegou desprevenido.
Naomy manteve a postura tranquila, segurando a taça entre os dedos, por um lado o entendia bem, por outro, não sentia nada a respeito. Shiji abaixou o olhar outra vez.
— Mas você está certa. — Um pequeno sorriso constrangido apareceu no rosto dele. — Eu não tenho direito de questionar suas escolhas.
Ele respirou fundo.
— Na verdade... o que eu queria dizer era outra coisa. — Os olhos dele voltaram para ela, desta vez mais sérios. — Eu só queria ter certeza de que você estava bem.
Uma pausa.
— E... respeitar a decisão que você tomou.
Naomy permaneceu em silêncio por um momento, observando o Hyūga com atenção. Há alguns metros, escondido entre as sombras e as conversas da comissão, Obito continuava atento. Shiji desviou o olhar por um momento, como se organizasse as próprias palavras antes de continuar. A postura dele, sempre elegante, agora carregava algo mais pesado, algo que parecia ter sido guardado por muito tempo e que agora queria se arrebentar em seu coração e se expor de vez em palavras.
— Bom... o que quer que vocês tenham ouvido ou comentado sobre mim já deve ter se espalhado por aí... — murmurou, sem muita convicção. — Mas o que eu queria dizer a você... talvez eu não consiga explicar bem aqui. — Ele respirou fundo. — Não neste lugar. Não dessa forma.
Então levou a mão até o interior do kimono e retirou um pequeno envelope lacrado. O papel era simples, mas bem cuidado. Estendeu-o para ela. Naomy fez menção de pegar.
Antes que seus dedos alcançassem o envelope, Shiji segurou a mão dela com delicadeza e ao assistir aquilo, Obito quase perdeu completamente a compostura. Os dedos dele fecharam-se com tanta força que os nós ficaram brancos enquanto Shiji olhava para Naomy com tanta intensidade e carinho que talvez forçasse o Uchiha a sair das sombras. Não havia arrogância naquele olhar, apenas uma sinceridade crua que parecia nascer de meses — talvez anos — de sentimentos guardados.
— Me diga uma coisa, Naomy... — A voz dele era baixa. — Mesmo com esse acordo... esse noivado...
Ele hesitou.
— Você aceitaria meu pedido? — Os olhos dele procuravam os dela. — Durante todo o nosso cortejo você nunca me rejeitou. Nunca.
O silêncio entre os dois ficou pesado e ela comprimiu os lábios lentamente antes de relaxar a postura facial.
— Só... seja sincera comigo.
Naomy respirou fundo, a pergunta não era injusta. Ela nunca o afastara de verdade. Nunca o tratara com frieza. Shiji sempre fora gentil, respeitoso, agradável. Ela se sentia confortável ao lado dele e talvez... em outra vida... em outro caminho... Talvez fosse diferente.
Ela finalmente ergueu os olhos para ele.
— Se não houvesse respeito envolvido... — disse com calma — se não existissem contratos, obrigações...
Uma pausa.
— E se Obito não tivesse entrado na minha vida dessa forma... — Os dedos dela tocaram o envelope. — Se você tivesse continuado a me cortejar... como meu pai sugeriu naquela época...
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Sim. — A resposta veio clara. — Eu teria aceitado.
Shiji fechou os olhos por um segundo, absorvendo aquelas palavras. Naomy então retirou a mão da dele com delicadeza.
— Mas você não foi o único que me envolveu.
O Hyūga respirou fundo, abaixou a cabeça e soltando a mão dela.
— Me perdoe... — disse, em tom baixo. — Por ter tocado você. — Ele deu um passo atrás. — E obrigado por ser honesta.
Shiji virou-se para partir, mas antes de se afastar completamente, voltou-se mais uma vez. Os olhos dele estavam firmes agora.
— Pode ter certeza de uma coisa, Naomy.
Uma pausa curta.
— Mesmo que você esteja noiva dele... eu não vou desistir de você.
E então partiu.
Naomy ficou ali por um momento, olhando o envelope nas mãos. Obito permanecia imóvel nas sombras, observando tudo sem que ela percebesse. A mente dele fervia em um mistura perfeita de raiva, ciúme e algo mais perigoso ainda. Ele queria sair dali naquele instante, puxá-la pela mão, levá-la para qualquer lugar onde ninguém pudesse ouvir ou interromper.
Queria explicações.
Queria ouvir da boca dela o que aquelas palavras realmente significavam. E, mais do que isso... Naquele momento, ele desejava algo que ainda não tinha feito.
Beijar aqueles lábios.
Uma vontade quase absurda, intensa o suficiente para fazê-lo cerrar os punhos enquanto continuava ali, escondido entre as sombras da comissão e contendo os próprios sentimentos antes que fizesse mais uma besteira.
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