OBITO NÃO ESPERAVA POR AQUILO.

A comissão estava cheia, como sempre acontecia em eventos onde política e poder se misturavam em taças de vinho e conversas aparentemente cordiais. Lanternas iluminavam o salão com uma luz quente, criando aquela atmosfera elegante que fazia tudo parecer civilizado demais para um lugar onde decisões perigosas eram tomadas.

Ele observava o ambiente com atenção, como um bom capitão da polícia faria. Reconhecia os rostos, avaliava comportamentos, anotava mentalmente quem estava onde e se tudo aquilo realmente valeria a pena.

A resposta era sim, tudo valeria a pena se conseguisse melhores condições para os Uchiha, esse era seu foco aquela noite, não se enfiar em discussões erráticas com os membros do conselho, pelo menos deveria ser isso até vê-la se afastar e perceber o motivo.

Naomy e com quem ela estava conversando. Obito precisou de um segundo inteiro para processar.

Danzou.

O homem estava ali, como sempre: postura rígida, expressão austera, aquela presença pesada que parecia carregar décadas de decisões obscuras e gananciosas. Não era alguém que inspirava simpatia natural em quase ninguém ou confiança. Exceto, aparentemente, na esposa de Obito pois, para ela Danzou sorria.

Sorria.

Obito teve vontade de esfregar os olhos para ter certeza de que não estava imaginando aquilo. E o pior não era o sorriso e sim a naturalidade da conversa.

Naomy falava com ele sem qualquer tensão aparente, com aquele tom respeitoso que ela reservava para figuras mais velhas ou autoridades que conhecia bem. O diálogo fluía de forma tranquila, como se aquela interação não fosse algo novo e obvio que ele se aproximou. O suficiente para ouvir sem ser totalmente visto.

— Miwa tem talento — Naomy dizia naquele momento, segurando a taça com elegância enquanto falava. — Além de ser uma futura shinobi promissora, acredito que ela também terá bons contratos quando crescer.

Danzou inclinou levemente a cabeça, claramente satisfeito com o comentário e sorriu de forma amável para ela.

— Uchihimura tem dito o mesmo. — O velho parecia genuinamente contente com o reconhecimento. Obito, por outro lado...Estava ficando puto.

Muito puto.

Primeiro porque ele não fazia a menor ideia de que Danzou conhecia Naomy tão bem. Segundo porque, pelo nível de conversa, aquilo não parecia um simples encontro casual. Pareciam... familiarizados. Amigos, talvez. E aquela possibilidade irritou Obito mais do que deveria.

Ele cruzou os braços, observando a cena à distância com os olhos cada vez mais estreitos. Dentro da cabeça dele, os pensamentos se atropelavam com a mesma elegância de um campo de batalha mal organizado.

"Desde quando ela conversa assim com esse velho?"

"E por que ele está sorrindo?"

"E por que ela parece tão confortável?"

Mas o que realmente incomodava... Era outra coisa.

Danzou não era apenas um velho influente da vila. Ele também trabalhava silenciosamente contra a vaga de Obito na comissão. Um homem que jogava xadrez político enquanto outros acreditavam estar apenas conversando — experiente, astuto e vil.

Ver sua esposa ali, rindo com ele como se nada estivesse errado... Não agradava nem um pouco.

Obito soltou um suspiro curto pelo nariz, tentando manter a compostura. Não era o momento para criar uma cena.

Ainda.

Mas quando Danzou inclinou ligeiramente o corpo na direção de Naomy, como quem comenta algo confidencial... Obito decidiu que já tinha visto o suficiente.

O Uchiha atravessou o salão com passos firmes, sua presença chamando atenção antes mesmo de chegar perto. Quando parou ao lado dela, não disse nada de início. Apenas colocou a mão na cintura dela com naturalidade — e uma firmeza que deixava claro, para qualquer observador, qual era sua posição ali.

Sua esposa. Para todos os outros, a noiva.

Então, olhou para Danzou e ofereceu um sorriso educado, mesmo que os olhos contassem outra história.

Conversaram por alguns instantes, até Danzou se afastar com o pretexto de que sua esposa havia retornado. Obito agradeceu mentalmente pela mentira. Assim que conseguiu um momento a sós com ela, não pensou duas vezes, discretamente guiou-a pelos corredores até estarem na sala mais privativa do andar, ou seja, o escritório do quarto Hokage.

Ele entrou primeiro no escritório de Minato, puxou Naomy consigo e fechou a porta atrás dos dois. O clique da fechadura ecoou seco no silêncio da sala. A reunião da comissão ainda acontecia no salão do prédio administrativo de Konoha e, Minato havia apenas levantado uma sobrancelha divertida quando Obito pediu a chave por alguns minutos.

Agora estavam ali, sozinhos.

Obito virou-se imediatamente para ela. A irritação acumulada desde o salão ainda queimava sob a pele, e a boca falou antes de pensar.

— Naomy... que porra é essa? — A frase saiu sem filtro, fazendo-a piscar, genuinamente confusa. — Como é que você tem relações com o Danzou? — continuou ele, passando a mão pelos cabelos num gesto impaciente. — Tá querendo me apunhalar pelas costas depois do casamento?

Ela o encarou por um segundo inteiro.


Depois dois.

A confusão inicial deu lugar a incredulidade. Naomy já sabia que Obito tinha momentos em que o cérebro entrava em curto. Mas aquilo estava num nível particularmente ridículo.

Ela soltou um suspiro longo e não respondeu de imediato. Em vez disso, caminhou com calma até uma das poltronas da sala, sentou-se com elegância e cruzou as pernas — como quem decide esperar a tempestade emocional passar.

— Quando você parar de dar chilique... — disse finalmente, com a voz calma —, a gente conversa.

Obito abriu a boca para retrucar, mas ela continuou antes.

— Eu odeio quando me subestimam.

Havia um peso naquela frase. Naomy detestava quando as pessoas a mediam apenas pelo tom educado, pela postura tranquila ou pelo sobrenome Sarutobi. Ela era muito mais que aquilo.

Sempre foi.

E, até hoje, poucas pessoas haviam enxergado isso. Uma delas era Orochimaru, seu mestre. Talvez por isso o carinho e o apego que sentia por ele fossem tão profundos.

Enquanto Obito tentava reorganizar os pensamentos, Naomy começou a se mover novamente. Ajustou o quimono com calma, desamarrou a capa negra com o símbolo Uchiha e a retirou dos ombros.

O gesto foi simples, mas o efeito em Obito foi devastador. A irritação ainda estava ali, sim... mas agora vinha acompanhada de outra percepção: ele a havia irritado. De verdade. E se ela saísse daquele escritório sem aquela capa... Muitas interpretações poderiam nascer lá fora.

Obito pressionou os lábios. A raiva evaporou um pouco. Caminhou até a poltrona ao lado dela e se sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos antes de falar.

— Me desculpa — disse, baixo. — Eu não devia ter falado tanta merda.

Naomy não olhou para ele de imediato. Continuou ajustando o tecido do quimono com cuidado e só depois respondeu.

— É.

Uma pausa curta.

— Você não deveria.

Obito passou a mão pelos cabelos mais uma vez, respirando fundo como se tentasse organizar a própria cabeça antes de falar. O tom da voz já não tinha o mesmo peso de antes, mas ainda carregava resquícios de irritação.

— Danzou está tentando vetar essa candidatura desde o início... — murmurou, olhando para o chão por um instante antes de encará-la de novo. — Então imaginar você conversando com ele... e pior... perceber que você provavelmente já o conhece... me tirou do sério.

Naomy apenas suspirou. Não havia surpresa no gesto impulsivo do marido.

— Nenhuma desculpa que você me der vai justificar a sua falta de compostura. — A voz dela saiu firme e fria, de um jeito que Obito nunca tinha escutado. — Agora vai ser sempre assim? Quando você ficar com raiva, vai descontar em mim pelas suas suposições? Ou vai perguntar primeiro e agir como um homem?

Obito abriu a boca, mas nenhuma resposta veio.

Ele sabia que Naomy era dura quando precisava. Sabia que ela não era o tipo de mulher que baixava a cabeça quando alguém passava dos limites.

Ainda assim... não esperava que ela fosse tão direta.

A honestidade dela caiu como um soco no estômago — e muito bem merecido. Ela continuou antes que ele pudesse se recompor.

— Enfim... para acalmar esse seu ego ferido. — Ela se levantou da poltrona devagar, andando pela sala enquanto falava, como alguém que já havia organizado aquela explicação na cabeça muito antes ou até mesmo vivido uma cena parecida. — Danzou e Hiruzen foram alunos do Segundo Hokage.

Fez uma pequena pausa.

— Os dois carregam muito da filosofia deturpada de Tobirama.

Obito ergueu os olhos para ela novamente.

— Para eles... Uchiha não valem nada. O clã é visto como a escória de Konoha. — A frase saiu sem dramatização. Apenas como um fato que ela aprendera cedo demais. — Principalmente Danzou.

Ela cruzou os braços.

— Hiruzen ao menos convive com alguns de vocês. Com Itachi, por exemplo, e outros Uchiha. Isso mudou muito o conceito dele, mas não foi o suficiente.

Outra pausa.

— Danzou... em contrapartida... parece respeitar apenas Shisui e não se sabe quanto tempo esse status se manterá.

Obito permaneceu em silêncio. Naomy inclinou a cabeça ligeiramente.

— Mas existe algo que shinobis inteligentes fazem muito bem. — Os olhos dela se voltaram diretamente para ele. — Conhecer profundamente os próprios inimigos.

O silêncio na sala ficou ainda mais pesado. Ele poderia jurar que naquele momento, ele era esse inimigo.

— Você não parou pra pensar... — continuou ela — que ter a mim como aliada pode facilitar muito a sua vida?

Ela apontou levemente para si mesma.

— Agora eu sou sua esposa. — Os olhos verde-mel estavam firmes. — Os meus conhecimentos... as conexões da minha família... tudo isso pode trabalhar a seu favor. — Naomy respirou fundo. — Talvez seja exatamente por isso que tanta gente quis esse casamento — e evitou-o também.

Ela deu de ombros.

— Não pela comissão em si. Ninguém imaginava que você fosse querer esse cargo quando isso foi arranjado, ainda no passado. — O olhar dela suavizou apenas um pouco. — Mas pelas conexões que a minha família possui.

Outra pausa curta.

— E pelas que a sua pode oferecer.

Ela caminhou até a cadeira onde havia deixado a capa negra do clã Uchiha, pegando o tecido com calma.

— Use o seu cérebro, Obito. — A frase veio seca. — Isso não me chateia mais.

Naomy colocou a capa novamente sobre os ombros, ajustando o símbolo vermelho nas costas. Então, caminhou até a porta.

Abriu e saiu.

O clique da porta ecoou no escritório. Obito permaneceu sentado, completamente aturdido. A mente dele tentava acompanhar cada palavra que ela havia dito, como se revisitasse uma batalha já perdida.

Ele percebeu duas coisas ao mesmo tempo.

Primeiro: Naomy não era apenas inteligente. Ela era perigosamente inteligente.

Segundo: ele tinha acabado de ser um completo idiota com a própria esposa.

E agora... Não fazia a menor ideia de como consertar aquilo.