NAOMY ENCARAVA O ESPELHO DESCONTENTE. Ela vestia um traje um pouco mais tradicional do clã, ainda assim a peça foi ajustada para dar destaque às suas curvas, o colo dos seios tinha uma visão generosa e quadril ficava delimitado pelas tiras do Kimono que trançavam sua cintura, a peça era verde e branca, mas como estava supostamente noiva de Obito usaria a clássica capa preta com o símbolo do clã Uchiha nas costas, por cima de seu kimono tradicional. Os cabelos castanhos estavam soltos e com belas ondas, nos pés usava saltos que em nada se assemelhavam as sandálias ninjas que estava acostumada.

— Isso é um exagero. — Reclamou enquanto uma serva a preparava. Como era uma encenação, Ichi pediu para que se arrumasse em casa e ali estava ela no antigo quarto arrumado como se a mãe nunca a tivesse expulsado de casa.

— Com todo o respeito, mas a senhorita está tão bonita que atrairá inúmeros olhares. — A serva comentou e isso era tudo o que Naomy não desejava.

Na verdade, se fosse honesta consigo mesma... Havia apenas um olhar que realmente importava.

Um único.

E isso tornava tudo ainda mais irritante. Porque Naomy tinha quase certeza de que Obito Uchiha jamais a veria daquela forma.

NUNCA daquela forma.


[...]


Obito estava puto.

Muito puto, de considerar seriamente a possibilidade de lançar um Amaterasu em qualquer um que cruzasse seu caminho naquela noite. Não apenas em desconhecidos. Em Uchihas também. Talvez principalmente neles!

Itachi e Shisui já tinham rido o suficiente da situação para alimentar seu mau humor por semanas. Nenhum dos dois parecia particularmente preocupado com a dignidade dele enquanto comentavam, com aquela calma irritante típica de gênios do clã, que aquilo tudo era apenas "uma consequência natural de um casamento inesperado".

Obito quase bufou só de lembrar.

— Que todos se fodam... — murmurou entre os dentes enquanto caminhava. — Vão se foder, Uchihas!

A culpa, na verdade, tinha nome. E idade avançada.

Sua avó.

A velha Kyoko havia conseguido algo que poucos conseguiam: arrastá-lo para uma conversa absurdamente constrangedora com Fugaku Uchiha. Uma conversa que, na cabeça de Obito, só poderia ser descrita como uma investigação minuciosa sobre a vida conjugal de um casal que mal tinha dormido sob o mesmo teto por duas noites.

Parecia que o tratavam como um adolescente em plena puberdade incapaz de manter as mãos longe da própria esposa e isso o irritou.

Ele discutira com a avó e depois pedira desculpas. Depois voltara a discutir mentalmente com ela enquanto vestia o traje formal do clã. Agora caminhava pelo distrito com o uniforme tradicional impecavelmente alinhado. O símbolo Uchiha no tecido escuro parecia ainda mais destacado sob a luz das lanternas da vila. Os cabelos estavam um pouco bagunçados, mas apenas porque ele mesmo os havia despenteado minutos antes, numa tentativa inútil de parecer menos... formal.

Menos ridículo.

Obito odiava parecer formal, ainda mais quando sabia exatamente para onde estava indo.

O distrito Sarutobi e a comissão daquela noite e... Naomy.

A ideia de encontrá-la vestida para aquele evento não ajudava em nada sua estabilidade emocional. Foi com os pensamentos fixos na esposa que esbarrou em alguém no meio da rua, ambos pararam ao mesmo tempo e se olharam, havia tanto a se dizer mesmo naquele silêncio.

Kakashi foi o primeiro a falar.

— Olha só você. — Ele estava como sempre: mãos nos bolsos, postura relaxada, olhar tranquilo acima da máscara. Mas quem conhecia Kakashi Hatake sabia reconhecer quando aquele olhar carregava algo a mais.

A famigerada saudade.

Obito esfregou a nuca, sem jeito.

— É... — respondeu. — Aqui estou eu.

Por alguns segundos ficaram apenas se encarando, como dois homens que sabiam exatamente quantos anos tinham passado desde a última conversa realmente honesta entre eles. Kakashi sorriu por baixo da máscara e Obito percebeu.

Ele sempre percebia.

— Fico feliz que tenha conseguido entrar no conselho — disse o Hatake. — As mudanças que você vai trazer vão ser bem-vindas.

Obito inclinou levemente a cabeça. Um sorriso pequeno apareceu no canto da boca. Tão discreto que, para qualquer outro, passaria despercebido, mas Kakashi o conhecia bem demais.

— Você continua exagerando nas expectativas — respondeu Obito.

— Não. — Kakashi deu de ombros. — Só estou sendo realista.

O silêncio entre eles era tão antigo e familiar que fazia parte daquela irmandade. Até que Kakashi inclinou um pouco a cabeça, analisando o traje de Obito com atenção.

— Você está... muito arrumado.

Obito fechou os olhos por um segundo, sabia que aquilo viria.

— Não começa.

Kakashi ergueu as mãos em rendição.

— Eu não disse nada.

— Pensou.

— Talvez. — Obito soltou um suspiro longo.

— É uma comissão — resmungou. — Tenho que parecer um adulto funcional.

— E a Naomy? — A pergunta veio casual e de forma despretensiosa, mas não era. Obito abriu os olhos devagar e encarou o amigo.

— O que tem ela?

Kakashi inclinou um pouco a cabeça.

— Só estou curioso.

Uma pausa.

— Sobre o quê exatamente? — O sorriso de Kakashi apareceu novamente sob a máscara.

— Sobre desde quando você olha para ela daquele jeito.

O silêncio que seguiu foi... interessante, Obito ficou parado alguns segundos ponderando. Depois soltou uma risada curta e sem um pingo humor.

— Eu vou fingir que não ouvi isso.

— Tarde demais. — O Hatake provocou levando o Uchiha a passar as mãos pelos cabelos.

— Kakashi...

— Hm?

— Se você continuar falando...

— Sim?

— Eu realmente vou tacar um Amaterasu em alguém hoje.

Kakashi riu, seus olhos brilharam e ele tratou de não deixar o amigo perceber. Pela primeira vez naquela noite, o mau humor de Obito diminuiu um pouco. Mesmo que, no fundo, a pergunta ainda estivesse ecoando na cabeça dele. Desde quando? Ainda assim empurrou a incerteza para dentro e focou no melhor e único amigo.

Aquilo já era um avanço.

Depois de tantos anos orbitando um ao redor do outro como dois planetas que evitavam se alinhar, ele e Obito finalmente estavam ali, conversando como duas pessoas adultas. Sem gritos ou competição. Sem aquela tensão antiga que sempre existia quando ambos estavam na mesma sala.

Para Kakashi, aquilo era mais do que suficiente. Era exatamente o que ele queria há muito tempo.

O Hatake mantinha a postura relaxada, as mãos ainda nos bolsos, mas por dentro havia um certo alívio se espalhando pelo peito. Ele não diria em voz alta, claro. Não era do seu estilo. Ainda assim, a sensação era inegável: era bom ter Obito de volta daquele jeito.

Obito, por sua vez, ficou em silêncio por alguns segundos depois da última provocação.

Pensou. E, de forma curiosa, algo dentro dele se reorganizou. Uma mistura estranha de orgulho, arrogância e uma satisfação quase infantil começou a ocupar espaço dentro do peito. Não era exatamente um pensamento nobre, mas também não era algo que ele tentasse negar.

Querendo ou não... ele tinha vencido algumas batalhas importantes. Casou-se primeiro e não com qualquer pessoa.

Naomy Sarutobi.

Uma mulher que, em algum momento da vida, havia sido apaixonada por ele. Talvez ainda fosse. Talvez não. A verdade é que ele nunca tinha parado para pensar nisso com seriedade até muito recentemente.

Além disso, havia conseguido o cargo que sempre quis.

Capitão da polícia, o cargo no conselho e todas as responsabilidades que os acompanhavam. Ele não era mais aquele garoto que corria atrás de uma garota implorando atenção enquanto disputava cada olhar com o melhor amigo que também era seu maior rival.

Não precisava mais disso.

A constatação gritante caiu dentro dele como água fria numa cabeça quente e seus ombros relaxaram. Um sorriso apareceu em seu rosto. Pequeno, mas sincero então, virou-se novamente para Kakashi.

— Depois que eu voltar da missão... — começou, esfregando a nuca outra vez, num gesto antigo demais para desaparecer — qualquer dia desses.

Fez uma pausa.

— Ou melhor... antes do seu casamento.

Kakashi levantou uma sobrancelha.

— Hm?

Obito olhou diretamente para ele.

— Vamos sair para beber.

Por um segundo, Kakashi não respondeu.

O Hatake inclinou novamente a cabeça para trás e olhou para o céu noturno de Konoha. As lanternas iluminavam parte das ruas, mas acima delas o firmamento estava limpo, pontilhado de estrelas. Parecia um daqueles raros momentos em que tudo simplesmente... se encaixava.

Como se os planetas tivessem decidido parar de se bater uns nos outros por um instante. Ou como se o chakra do mundo tivesse voltado ao seu fluxo natural.

Kakashi sorriu sob a máscara, desta vez não era ironia.

— Vai ser bom ter você de volta — respondeu. Depois olhou novamente para Obito. — De verdade.

O Uchiha não respondeu imediatamente, mas o sorriso dele permaneceu ali.


[...]


Ichi Sarutobi nunca foi um homem de muitas palavras. Conversas longas não eram do seu feitio, mas naquela noite ele claramente se esforçava. Obito percebia isso. Reconhecia que o sogro era um homem íntegro, sério e, dentro de suas próprias limitações, tentava tornar aquela situação menos estranha para ambos.

Falavam sobre assuntos neutros: política do conselho, movimentações da polícia de Konoha, detalhes logísticos da missão que se aproximava. Nada pessoal demais. Nada que invadisse territórios delicados.

Obito respondia com respeito. Não havia arrogância na postura, apenas a tentativa de manter uma conversa civilizada com o pai de sua esposa.

Isso é, até que Naomy apareceu.

Ela desceu as escadas em direção à sala de recepção com a elegância natural de quem nasce no topo do clã e aprende desde berço a como deve se comportar e o que deve reprimir. O kimono verde e branco se movia suavemente a cada passo, e a capa negra do clã Uchiha caía sobre seus ombros com uma imponência que só aumentava a presença dela.

Ichi foi o primeiro a reagir. O sorriso que surgiu em seu rosto era tranquilo e orgulhoso. Apesar dos pesares, sua filha era uma mulher linda e extremamente capaz, essa capacidade que era tão cobiçada pelos clãs que pediam sua mão e a própria negava.

— Você está pronta, filha. Está linda.

Ela agradeceu as palavras do pai. Obito, por outro lado... Parou de respirar. A mente dele simplesmente entrou em colapso por um segundo inteiro.

"Puta que pariu... isso devia ser crime." O pensamento veio sem filtro algum.

"Como caralhos eu vou manter a minha seriedade agora?" Ele tentou. De verdade.

Tentou lembrar que estava diante do sogro, que aquela era uma comissão formal, que havia pessoas importantes naquela noite, mas nada disso ajudou.

Porque os olhos dele já estavam nela. Fixos, escuros, intensos e perigosamente sinceros.

Obito a devorava com o olhar de uma forma quase indecente de tão séria. Com um olhar profundo que percorria cada detalhe como se estivesse tentando gravar a imagem na memória e na pele dela. O efeito foi imediato e Naomy sentiu.

Sentiu antes mesmo de levantar completamente os olhos para ele.

Quando finalmente encontrou aquele olhar, o arrepio percorreu a espinha inteira.

Nunca.

Em toda a vida.

Ninguém a havia olhado daquela forma.

Havia desejo ali, mas também havia algo mais profundo, algo que fazia o peito apertar e o estômago se contrair de um jeito estranho.

Obito era humano.

E naquele instante sentia-se como um homem que passara tempo demais no deserto e, de repente, encontrava água o suficiente para se afogar.

Não era apenas surpresa e sim um tipo bruto de fascínio. Porque, por todos os deuses que conhecia, como aquela mulher podia ser... assim?

A mente dele tentou organizar algum pensamento coerente, mas falhou miseravelmente. Tudo o que conseguia fazer era olhar.

Olhar.

E continuar olhando.

O vestido — ou melhor, o kimono ajustado — delineava o corpo dela de uma forma que parecia quase injusta que outras pessoas a visse daquele jeito. Cada curva parecia ter sido desenhada com intenção, como se alguém tivesse decidido testar a resistência emocional de qualquer homem que estivesse por perto.

O olhar dela ainda carregava aquela suavidade que ele conhecia desde a juventude. Singelo e, até mesmo um pouco inocente. Um contraste cruel com o efeito devastador que causava. E os cabelos...

Os cabelos castanhos caíam livres pelas costas e pelos ombros em ondas longas demais, brilhando sob a luz da sala. Tudo nela parecia perfeitamente colocado como uma pintura.

Não.

Uma pintura viva.

Obito não percebeu quando o sogro terminou de falar. Não ouviu quando Ichi comentou que tudo estava pronto para que saíssem ou quando alguém na sala abriu uma das portas ou quando passos ecoaram pelo corredor.

Nada disso chegou até ele.

Naomy, percebendo o silêncio estranho, aproximou-se um pouco mais e falou em voz baixa:

— Obito...? — Ele não respondeu, ela inclinou levemente a cabeça, confusa. — Você está estranho. — Ainda assim, nenhuma resposta, porque Obito continuava ali. Parado como se qualquer movimento pudesse quebrar aquela imagem diante dele.

A única coisa que existia naquele momento...

Era ela.


O Uchiha precisou de alguns minutos para se recompor e voltar ao próprio corpo. O suficiente para lembrar onde estava, diante de quem estava, o quanto aquela noite exigia compostura e o quanto ele, naquele momento, possuía muito pouca. Quando finalmente piscou e a realidade voltou a se organizar, respirou fundo uma única vez, desviou o olhar só o bastante para não parecer um completo insano e recompôs a própria expressão com a habilidade de quem passara a vida inteira aprendendo a esconder o que sentia.

Ou tentando.

— Está... adequada para a ocasião. — A voz saiu baixa, com uma neutralidade tão obviamente forçada que chegava a ser quase ofensiva e o sogro arqueou uma sobrancelha. Naomy, por sua vez, sentiu vontade de rir e de matá-lo ao mesmo tempo. Adequada. Depois de tê-la olhado como se fosse capaz de arrancar o ar do ambiente o a própria roupa dela, aquela era a palavra que ele escolhia?

Obito ajeitou o manto sobre os ombros, como se o problema estivesse na roupa, e voltou-se para o sogro com a seriedade de um homem que tentava desesperadamente parecer dono de si.

— Podemos ir.

Por dentro Ichi caçou do jovem. Na cabeça do idoso, o Uchiha já comia na mão da filha dele e só não percebido ainda. Mas por fora ele apenas assentiu, ainda com aquele olhar experiente de pai que percebia mais do que comentava. Naomy se aproximou e, por alguns segundos, os três caminharam juntos pelo corredor de entrada, sob o peso da formalidade e do silêncio.

Dentro do distrito Sarutobi, Obito se manteve correto. Excessivamente correto. Distante o suficiente para não levantar suspeitas indevidas, atento o suficiente para parecer um noivo zeloso. Respondia com educação aos cumprimentos, assentia para os conhecidos do clã, não tocava Naomy além do estritamente necessário. O que era irritante e talvez por isso ela tenha quebrado o silêncio assim que passaram pelo portão principal e a companhia do sogro ficou para trás.

Quantos mais passos davam e se afastavam do distrito, mais livre ela se sentia.

— "Adequada"? — repetiu, sem sequer olhar para ele primeiro. — Foi isso mesmo que você conseguiu dizer?

Obito soltou o ar pelo nariz, mantendo os passos firmes.

— O seu pai estava ali.

— E daí?

— E daí que eu ainda não perdi completamente o juízo.

Ela virou o rosto, finalmente encarando-o, a boa moça dando o ar a uma mulher irritada. Muito irritada.

— Engraçado. Porque a sua cara dizia exatamente o contrário. — A resposta o atingiu no ponto certo. Obito lançou um olhar de lado, estreito.

— Você prefere que eu tenha dito o quê? Que eu preferia arrancar aquela roupa de você? — Naomy sentiu o coro inteiro esquentar pelas palavras dele, ainda assim não demonstrou, pelo sorrisinho cínico nos lábios do Uchiha ela sabia que ele estava brincando com ela ou perdendo de vez do controle.

— Não teria sido pior do que me chamar de adequada. — Como ela explicaria que gostaria de ter ouvido dos lábios dele que estava bonita? E que adequada parecia que o traje era indigno o suficiente para estar ao lado dele naquele evento importante? É simples, não diria.

— Foi o melhor que consegui sem arrumar um problema dentro da casa do seu pai.

Aquilo a enraiveceu, ela detestava a postura defensiva inquietante dele.

— Você já é um problema fora dela. — Tal frase o fez rir, mas não com humor leve. Havia calor ali. Calor demais, algo que deixava claro que talvez o controle que ele tanto tenha mantido, fosse pelos ares em questão de segundos.

Seguiram por uma rua mais estreita, numa parte menos movimentada do caminho, onde o som da vila parecia amortecido pela distância. A noite pairava morna, e por um breve instante não havia ninguém por perto. Nenhum olhar curioso, nenhum conhecido, nenhum civil passando entre eles.

Foi quando Obito parou.

Naomy deu mais um passo antes de perceber que ele já não andava ao seu lado. Virou-se com o cenho franzido, pronta para perguntar o que havia acontecido, mas não teve tempo. Ele a segurou pela cintura num movimento rápido, firme, e a puxou para perto de si até que não restasse quase espaço algum entre os dois.

O ar lhe fugiu dos pulmões.

— Obito, o que...

— Fica quieta um segundo. — A voz dele saiu rouca, baixa e, perto demais. Naomy sentiu o corpo inteiro reagir ao contato antes mesmo de entender o gesto. As mãos dele a prendiam com uma força controlada, como se tivesse passado os últimos minutos inteiros lutando contra o impulso de tocá-la e finalmente tivesse decidido perder. O peito dele estava contra o dela, e Obito a apertou mais uma vez.

O rosto dele afundou por um momento no espaço entre o cabelo e o pescoço, bem do lado direito.

Inspirou profundamente, como se o cheiro dela o desorganizasse e o acalmasse ao mesmo tempo. Como se aquilo fosse fome e vício, abstinência e alívio. A pele de Naomy queimou de imediato, e ela teve de fechar os olhos para suportar a intensidade daquela proximidade.

Ele demorou um pouco mais do que devia.

Muito mais.

Quando enfim falou, a boca quase roçava a pele dela, e a voz veio em sussurro, íntima o bastante para parecer um segredo dito direto no sangue.

— Em tão pouco tempo você está tirando minha sanidade. Quero ver o que fará a longo prazo.

Naomy sentiu o coração disparar com tamanha força que por um segundo teve medo de que ele ouvisse. O corpo inteiro parecia em chamas, a mente tentando alcançar o sentido daquelas palavras e falhando justamente porque o sentido era claro demais e talvez por isso a deixasse tão confusa.

Obito afastou-se apenas o suficiente para olhá-la. O rosto dela estava quente, os olhos brilhando numa mistura perigosa de vergonha e afronta, e ele quase sorriu de novo ao perceber que a respiração dela ainda não tinha voltado ao normal.

Então, como se não tivesse acabado de desmontá-la por dentro, acrescentou com uma calma que praticamente escorria crueldade:

— A propósito... você está bonita.

Naomy continuou sem conseguir responder.

Ele inclinou a cabeça levemente, olhando-a de esguelha com a mesma lascívia de antes, como se apenas olhar já fosse uma forma de tocar e o bastante para arrefecer suas próprias vontades.

— Muito bonita.

Dessa vez não havia neutralidade alguma na voz. Apenas a mais pura verdade.