Primeiros erros
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NAOMY TINHA CERTEZA DE QUE HAVIA MUDADO DE COR.
Não era algo comum. A pele marrom raramente denunciava o rubor da mesma forma que acontecia com outras pessoas que tinha a característica de corar ao sentir vergonha, mas ainda assim ela sentia o calor subir pelas bochechas como se fosse impossível esconder. O corpo inteiro parecia quente demais para alguém que vestia um traje de batalha feito justamente para não aquecer.
Ela não ousou olhar diretamente para Obito. Porque tinha plena consciência de que, se o fizesse, lembraria imediatamente da proximidade de segundos antes.
Obito, por outro lado, reagiu com uma tranquilidade ofensiva. Virou-se para a avó com o maior ar de inocência do mundo e sorriu.
— A senhora sempre interrompe alguma coisa, vovó. — A frase saiu tão naturalmente que parecia impossível que ele não estivesse provocando e Naomy beliscou o braço dele discretamente.
— Obito, não fale assim com a sua avó.
Kyoko soltou uma pequena risada.
— Ah, querida... — disse ela, balançando a mão como quem dispensa o assunto. — Já estou acostumada com as grosserias e malcriações desse meu neto.
A velha senhora aproximou-se dele sem cerimônia e apertou as bochechas dele entre os dedos com firmeza.
— Vovó... — Obito reclamou, tentando se soltar. — Eu não sou mais criança.
— Eu não perguntei. — respondeu Kyoko imediatamente, sem a menor intenção de parar e Naomy teve que esconder um sorriso.
Kyoko finalmente soltou o neto e voltou-se para os dois com aquele olhar curioso que parecia sempre saber mais do que devia.
— Agora me digam... — Ela cruzou os braços. — Vocês vão ficar aqui e passar a tarde comigo?
Obito respondeu sem pensar muito.
— Vamos almoçar. — Foi simples e direto o suficiente para que os olhos de Kyoko brilhassem de uma forma que nenhum dos dois percebessem.
Para ela, aquilo significava algo muito específico.
Que o neto finalmente estava deixando de fugir daquilo que sempre estivera bem diante dele. Porque, aos olhos da velha senhora, não havia mais dúvida alguma. Obito estava começando — finalmente — a aceitar os sentimentos que sempre nutrira por Naomy... mesmo sem ter percebido durante anos.
[...]
Despediu-se da avó foi fácil.
Kyoko estava tão ocupada organizando flores, comentando sobre templos, parentes e possíveis cerimônias que praticamente empurrou os dois para fora da casa com um sorriso satisfeito no rosto. Naomy tinha a clara impressão de que, se dependesse da idosa, eles já estariam trancados no quarto esperando fabricando o primeiro bisneto.
Aquilo, por si só, já seria constrangedor o suficiente, mas o verdadeiro desafio começou quando pisaram na rua.
O distrito parecia ter acordado naquele dia com uma informação nova para comentar.
Pessoas que passavam pelo caminho os cumprimentavam. Alguns inclinavam a cabeça respeitosamente para Obito como capitão da polícia. Outros lançavam olhares curiosos para Naomy. Alguns mais ousados até ofereciam parabéns.
— Felicidades aos dois.
— Que o casamento traga prosperidade ao clã.
— Parabéns, Uchiha-san.
Naomy manteve o sorriso educado que aprendera desde criança, mas por dentro estava cada vez mais tensa.
Quando finalmente se afastaram um pouco do fluxo maior de pessoas, ela se inclinou ligeiramente para ele e falou em voz baixa:
— Era para ser discreto.
Obito virou a cabeça na direção dela imediatamente, atento.
— Como essa informação vazou? — perguntou um pouco pensativo.
Ele caminhava no mesmo ritmo que ela, tão próximo que o tecido da capa dele roçava no dela a cada passo. Era um contato mínimo, quase imperceptível para quem olhasse de fora — mas impossível de ignorar para ela.
Obito pensou por um instante antes de responder a própria pergunta.
— Provavelmente alguém do clã.
Naomy piscou algumas vezes. Depois soltou um pequeno suspiro irritado.
— Se foi alguém do clã... — murmurou, esfregando as têmporas — eu tenho certeza de que foi do meu.
Ela fez uma pausa curta.
— E que começa com K e termina com traição.
Obito ergueu uma sobrancelha.
— Sua irmã?
— Kaya não faria isso — respondeu Naomy imediatamente, ainda massageando a testa. — Kaoru também não.
Então suspirou novamente.
— Mas minha mãe... — Ela não terminou a frase e Obito inclinou um pouco a cabeça, curioso.
— E por que sua mãe faria isso? — A pergunta veio em tom baixo. O Uchiha sabia que a sogra não queria essa união, pelo contrário, para ela era motivo de vergonha ver a filha primogênita casada com aquele que a rejeitou no passado. Naomy desviou o olhar por um momento.
— Isso... ainda tenho que descobrir. — Havia algo na forma como ela disse aquilo que fez Obito perceber que aquela história provavelmente era muito mais complicada do que parecia.
Por um instante ele teve vontade de tocar nela. Afagar as costas, dar algum tipo de apoio silencioso, mas hesitou. Já havia tocado nela duas vezes naquele dia. E cada uma dessas vezes parecia bagunçar um pouco mais a cabeça dele.
Então manteve as mãos onde estavam.
— Vamos almoçar, esposa. — A palavra saiu com naturalidade surpreendente, como se o paladar estivesse gostando demais de pronunciar aquela mera palavra, esposa. Ele lançou um olhar rápido para ela. — Acho que a comida deve ser nossa principal preocupação agora.
Ela assentiu, pois tinha percebido a clara tentativa de aliviar a tensão — que fez Naomy perceber uma coisa importante. Obito podia não saber exatamente o que fazer com os próprios sentimentos ainda.
Mas, de alguma forma... Ele estava tentando cuidar dela.
O almoço foi bem menos desastroso do que o esperado, Naomy já estava nervosa com a possibilidade da notícia sobre seu casamento ter vazado sem que ela pudesse contar aos poucos amigos que tinha, mas aparentemente só a família de Obito sabia.
— Acho que não foi a sua mãe, Naomy e sim a vovó. — Obito afirmou observando-a terminar aquela tigela grande de lámen.
— Mas ela tinha acabado de saber. — Naomy afirmou após terminar de comer e ele negou cruzando os braços.
— Aquela velinha sempre foi uma raposa ardilosa. Do jeito que estava desesperada para me ver casado com você, não duvido nada que tenha dado com a língua nos dentes enquanto conversava pelo distrito.
Naomy soltou um pequeno suspiro enquanto terminava o último gole do caldo.
— Ainda assim... — Ela não terminou, porque naquele momento um par de braços surgiu de repente ao redor de seus ombros.
— E aí casal, como estão?
— Hanna! — Naomy virou-se imediatamente e retribuiu o abraço, o sorriso surgindo com facilidade no rosto. — Veio almoçar com o Yamada também?
Hanna soltou uma pequena risada.
— Não. Tenzō está em missão. — respondeu ela, ajustando o cabelo atrás da orelha. — E eu vou para a minha agora. Passei só para pegar uns bolinhos para Haimaru.
Naomy assentiu.
— Bom ser cuida. — Beijou a bochecha da Uchiha e então voltou o olhar para Obito. Não foi um olhar hostil, mas também não foi exatamente amigável. Foi um daqueles olhares de amiga protetora que analisam um homem inteiro em dois segundos e deixam claro, sem dizer uma palavra, que estão observando com atenção.
Como se dissesse silenciosamente: agora ela não está sozinha. Obito sustentou o olhar sem se incomodar muito.
— Ah! — disse Hanna de repente, como se tivesse lembrado de algo. — Antes que eu me esqueça... — Ela voltou-se para Naomy. — Shizune quer te ver.
Naomy piscou.
— Shizune?
— Uhum. — Hanna piscou de volta, com um sorriso travesso. — Ela disse que tem notícias de um certo colega seu.
O tom sugeria algo que Naomy claramente não queria discutir ali. Antes que qualquer explicação fosse pedida, a Inuzuka já estava se afastando.
— Boa sorte na missão, casal! — disse por cima do ombro e desapareceu pela rua.
Obito observou a cena em silêncio por alguns segundos. Quando voltaram a ficar sozinhos, ele apoiou os cotovelos na mesa e perguntou a primeira coisa que veio à mente:
— Suas amizades são sempre assim?
Naomy ergueu uma sobrancelha.
— Assim como?
Obito inclinou levemente a cabeça.
— Descaradas.
— Obito!
Ela protestou, já antecipando o que vinha a seguir e ele apenas sorriu.
— O quê foi querida? — De repente a mão dele já estava em sua cintura, contornando-a e, Naomy ficou extremamente envergonhada, sentiu o calor subir imediatamente pelo rosto.
— Obito... — murmurou, claramente constrangida. Ele, porém, parecia completamente confortável, como se aquele tipo de gesto fosse a coisa mais natural do mundo.
— O quê? — perguntou inocentemente. — Achei que precisávamos convencer as pessoas de que estamos apaixonados.
O olhar dele tinha um brilho provocador, já que estava mais do que claro que aquilo era desnecessário e uma mera desculpa para tocá-la mais uma vez.
— Estou apenas fazendo minha parte. — E, para piorar a situação dela, a mão dele permaneceu exatamente onde estava.
Obito pagou a conta, deixou algumas moedas a mais sobre a mesa, agradeceu brevemente ao dono do pequeno restaurante e então voltou o olhar para Naomy.
O sorriso dele era pequeno e perigoso. Ela percebeu e preferiu não comentar. Saíram para a rua juntos, e por um momento caminharam em silêncio. O sol da tarde já iluminava as ruas de Konoha, dentro de poucas horas, estariam em mais um evento e no dia seguinte uma missão perigosa começaria a se desenhar.
Naomy cruzou os braços enquanto caminhava, tentando ignorar o fato de que Obito parecia de bom humor demais.
— Você está suspeitamente tranquilo — comentou.
Obito deu de ombros.
— Talvez eu esteja apenas aproveitando o último dia normal antes de uma missão S.
Ela lançou um olhar de lado.
— "Normal" não é exatamente a palavra que eu usaria para hoje.
Ele soltou uma pequena risada pelo nariz. Não era mentira.
A manhã havia começado com uma reunião tensa com o Hokage, seguido por um confronto silencioso com um Hyūga ciumento, uma revelação pública de casamento que nenhum dos dois havia planejado e um interrogatório emocional da avó dele.
Normal definitivamente não era.
Mas havia algo que Obito sabia e não disse em voz alta. Faltava apenas a comissão daquela noite.
E depois disso... Na manhã seguinte eles partiriam e ficariam a sós por um bom tempo.
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